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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe fisgada

rabiscado pela Gaffe, em 22.02.17

 

Se resta alguém que pense que somos feitas de rendas, folhos, organza e tule, de esvoaçante poesia imaculada e virgem, de asas diáfanas envoltas em alvas madrugadas, que tire o cavalinho da chuva.

 

Podemos ser tudo o que se pensa e mais do que isso, mas jamais nos esquecemos de trazer, junto à alvura da inocência e do cristalino esbracejar das nossas asas, a arma que fez tombar Golias.      

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A Gaffe numa fotografia

rabiscado pela Gaffe, em 21.02.17

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Tenho lido com particular atenção as opiniões que vão surgindo relativas à foto vencedora do World Press Photo onde o assassínio do embaixador russo é captado alguns momentos após ter sido cometido.

Humildemente reconheço que os discursos que a foto vai provocando acorrentam a minha pobre opinião às tábuas da tolice, mas socorro-me de Geneviève Serreau para entregar alguma racionalidade àquilo que penso acerca do assunto.

 

A autora, algures num estudo sobre Bertolt Brecht e a propósito de uma fotografia onde é nos é mostrado um massacre de comunistas gualtemaltecos, refere que o horror não está no que vemos, mas porque o vemos a partir da nossa própria liberdade.

 

Admito que é complexo este postulado. No entanto, com a ajuda preciosa do pensamento de quem me está próximo e é anos-luz mais racional do que eu, acabo a entender que não basta ao fotógrafo mostrar-nos a abominação para que a sintamos.    

 

A linguagem internacional do horror é documentada de modo a que saibamos interpretar os signos. É elaborada de forma hábil - usando contrastes, aproximações ou reconstruções subliminares -, facilitando-nos uma leitura já preparada, que não nos toca grandemente, porque pensou por nós, sentiu por nós, sofreu por nós e de certa modo indignou-se por nós.

Intelectualmente aquiescemos, mas não nos sentimos realmente ligados a estas imagens. Estão isentas de histórias, impedem que as inventemos porque já estão narradas pelo autor.

 

A foto premiada não obedece a estes pressupostos. Segundo o autor foi um acaso. Acreditou mesmo ser apenas uma performance a decorrer no espaço visitado - o que só por si daria um tratado relacionado com a banalização do terror e com a distorção, o esmagamento e amálgama de signos distintos. Esta alteração acaba por impedir o aparecimento de elementos propositadamente contrastantes e contrastados e, sendo em directo, sem reconstruções ou interpretações prováveis, dar-nos-ia, em consequência, a possibilidade de sentirmos.  No entanto, a captação do instante surge ainda contaminada pelo construído, torna-se demasiado intencional, porque está imbuída da vontade de se usar uma linguagem incómoda e acaba por nos merecer apenas o tempo de uma leitura instantânea. A foto não nos desorganiza, porque se reduz a uma linguagem específica, isentando-nos do verdadeiro confronto com o escândalo.

 

Nas imagens do terror que nos mostram existem signos claros e nítidos, mas sem a ambiguidade, a textura a espessura que deve caracterizar um signo.

 

A foto do assassinato do embaixador russo espanta porque parece estranha, paradoxalmente calma, porque está privada da nossa explicação privada, usa a linguagem - que já falamos, que já entendemos - internacional do horror, e, custe o que custar, por causa disso ainda tem a presença do fotógrafo.  

 

É literal.

Introduz-nos ao escândalo do horror, mas não ao próprio horror - diria Barthes.    

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A Gaffe não chora em português

rabiscado pela Gaffe, em 20.02.17

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Por amor chora-se demais.

 

Pertence à mulher a maior parte das lágrimas. O homem transcende o mito, manifestando, ao contrário do dito, a sua virilidade quando se afasta da censura que o mantém longe das lágrimas e causa o espanto cantado por Piaf - ... Mais vous pleurez, Milord?! ça je l'aurais jamais cru!

 

É abertamente permitido ao feminino o choro de amor e chora-se sempre pela partida e pela ausência - a traição, o ciúme, a não reciprocidade ou outras razões que quisermos aliar ao choro desta natureza, são sempre metamorfoses do abandono. A mulher, sobretudo a portuguesa, foi sempre a sedentária que ouviu dizer às velhas da praia que ele não voltava. O mar, a guerra e a emigração - que é, em última análise e forçando a metáfora, uma mistura dos dois - sempre forneceu versos ao Fado, que é maioritariamente uma história de abandono de uma mulher que chora a partida ou a ausência do homem que ama - tornando-se por isso o reverso do Tango, em que é sempre o homem a lamentar a perda da mulher amada.

 

Choramos copiosamente, desfazemo-nos em lágrimas, rompemos em lágrimas, chegam-nos a lágrimas aos olhos, choramos todas as lágrimas do corpo, soltamos um fio de lágrimas, ficamos de olhos marejados. Choramos de formas diferentes para públicos diferentes. O choro é também um enviesamento que vai submeter o outro à sua própria sensibilidade, solidariedade ou indiferença. Todas as lágrimas são mais do que palavras, mas acabam por salgar uma exposição quase chantagista impressa no vê o que me fizeram! Vê o que fizeram de mim! Chorar exige destinatário.

 

O choro solitário, o chorar para nós, por amor, torna-nos de forma subtil espectadores do nosso sofrimento. Choramos então porque acreditamos – ou para acreditar - que as dores que sentimos não são ilusórias. Oferecemo-nos um interlocutor de excelência e provamos através do corpo que ultrapassamos a palavra que traduz a possível fantasia. Cumprimos as ordens do corpo apaixonado e permitimo-nos chorar. Em nenhuma língua somos capazes de exprimir o que uma lágrima traduz. Se não somos capazes de o dizer, entregamos a voz ao que está para além da linguagem.      

 

Se uma imagem vale mais que mil palavras, a lágrima é a imagem de todas as palavras que quisermos.  

É só fazer as contas.

 

Foto - Henri Cartier-Bresson

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A Gaffe grisalha

rabiscado pela Gaffe, em 17.02.17

 

Ao deparar com meninas telegénicas e as suas constantes preocupações em publicitar a cor do cabelo patrocinado por uma marca de tinta, trepam-me à memória, espalhando-se e contaminando o meu dia, as cabeças de Fernando Ruas e de Victor Constâncio e permito-me concluir que se às mulheres é reconhecido o direito de mudar a cor da juba, já aos homens o caso adquire tons mais complicados.

 

As cabeças de Fernando Ruas e de Victor Constâncio, por exemplo, parecem ter sido dominadas por uma aranha negra, velha e outrora peluda ou, em alternativa, terem um rato morto a servir de cabeleira.

 

Admitamos que aquilo é deprimente.

 

Desenhar o penteado com um marcador preto produziria o mesmo efeito. A tinta tinge o couro cabeludo e, no caso do primeiro, apeçonhenta o bigode. Ficamos perante dois casos de toucas de banho incorporados, negras, funestas e retintas e nitidamente falsificadas, como se os chineses tivessem plagiado a estrutura capilar e a pilosidade de um jovem latino e tivessem colocado o produto à venda nos mercados e nos átrios dos municípios.

 

É um erro crasso confiar num homem que pinta o cabelo daquela forma e acredita, patético, que consegue convencer os pares e os parceiros com o negro daquilo que outrora foi cabeça. É tão idiota como acreditar nos que arrastam de forma confrangedoramente dolorosa - uma dor de alma - os fios da nuca para a frente da testa, criando uma estranha e assustadora arquitectura pilosa que lembra um ovo de extraterrestre num filme qualquer de ficção científica de terceira categoria ou pornográfico, onde não há categoria nenhuma.

 

As meninas podem tingir-se com a cor cereja, porque há sempre a possibilidade de nos distrairmos com os decotes e com os vestidos dois números abaixo do que seria necessário para não ficarem comprimidas, mas um homem não podem usar a porcaria que as raparigas publicitam sem correr o risco de passar por idiota, desonesto, inseguro e incompetente.

 

Há incomparavelmente mais probabilidades do cabelo grisalho, ou mesmo totalmente branco, poder ser o mais deslumbrante e fascinante convite à aventura e ao embarque naquilo que é o transatlântico mais poderoso do universo: a maturidade consciente e assumida do homem por quem perdemos bússolas e astrolábios - não convém contudo generalizar, porque nos lembramos de repente do engenheiro Sócrates.

 

Os exemplos que ficam ilustram de forma inequívoca a tese defendida. Embora, diga-se, o primeiro faça parte do elenco de uma série ligeiramente maçadora, situada no passado e o segundo tenha um passado conturbado e controverso, são os dois espantosas criaturas susceptíveis de povoar os sonhos menos brancos de uma rapariga com a cabeleira cor de cenoura.

 

Nas fotos - John SlatteryAiden Shaw

 

 

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A Gaffe tem visitas

rabiscado pela Gaffe, em 17.02.17

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Chegou ontem ao fim do dia a melhor amiga da minha irmã.

 

Deparo-me a observar com minúcia as duas mulheres e percebo que o abrandamento dos gestos da anfitriã é propositado. Mistura-os com o silêncio cúmplice que se imiscuiu entre as duas e fá-los pesar sobre os outros.

São dois animais atentos. Vigiam-nos através desta espécie de mutismo claramente controlado pela minha irmã que domina a relação. Basta a lentidão do movimento com que enrola nos dedos as fiadas de pérolas que contrastam como um insulto com o azul-cobalto do vestido, ou o modo como aceita que a visita lhe abrase o cigarro como se aceitasse uma oferta pagã, para que se perceba o jugo.  

 

Há uma decadência subtil imersa em luxo que me fascina e me neutraliza, como se na minha frente um inviolável mistério me confrontasse com a nudez quase agressiva mas impossível de decifrar das duas mulheres.

 

Uma nudez coberta de gestos lentos e de cigarros iluminados. Uma nudez esguia e loira que se move nas torções de um colar de pérolas com que estrangula a mutabilidade das cumplicidades.        

 

Uma outra nudez que traz toda a Renascença nos cabelos. Andamos de gôndola branca sob colchas escarlate das varandas sempre que nos olha agudizando a densidade da beleza com a eterna suspeita de incesto a pairar sobre ela.

 

Chegou ontem ao fim do dia a melhor amiga da minha irmã.

 

Exilada em Florença, branca, gelo branco, recolhe as mais dolorosas rosas das mãos dos homens morenos que despreza enquanto na cama antiga de lençóis com rendas o esguio e pálido irmão, nu, longe adormece.

 

Há segredos pousados no pescoço dos deuses que fazem da vida um perfeito romance.

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Gavetas:

A Gaffe e as futilidades

rabiscado pela Gaffe, em 16.02.17

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Apetece-me ser fútil.

Há alturas em que me apetece ser absolutamente vazia. Uma pin-up de cartaz e somente isso.

 

Confesso a minha admiração pelas raparigas geniais que formigam nos blogs que tenho lido. Fazem ligações inteligentíssimas, links para artigos de opinião muito eruditos e arranjam modo de os comentar fornecendo aos néscios as suas brilhantes conclusões. Conseguem criar uma espécie de mesa redonda, à boa maneira medieva, e permitem apenas aos intelectos superiores o uso das cadeiras.

 

São fantásticas e conseguem transformar os seus apontamentos em tratados de erudição. É sobretudo esta última característica que me provoca espanto.

 

Como não sou miúda de links inteligentes para blogs eruditos e por não preencher os parâmetros exigidos para ser introduzida nos círculos mais famosos, fica aberta a possibilidade de me transformar em pin-up idiota, recortada em papel e em poses divertidas e marotas.

 

Apetece-me ser fútil e palrar acerca de tralha inútil.

 

Às vezes a vacuidade é abençoada. Nós, que apenas somos raparigas espertas, acabamos por parecer loiras tontas e patéticas, mas é a futilidade consciente que nos permite falar ao mesmo tempo do baile de Cortez e do corte de uma saia Valentino.

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Gavetas:

A Gaffe cá e lá

rabiscado pela Gaffe, em 16.02.17
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A vida lá fora, ou seja, exterior ao meu teclado e ao monitor do meu PC, não é um espaço restrito e definido, com fronteiras perfeitamente traçadas e limites conhecidos - sobretudo quando falamos de sentimentos ou emoções ou atitudes. Não somos frutos que se possam cortar ao meio separando as partes, classificando-as depois, aplicando os critérios que escolhemos por razões que mais se aproximam daquilo que supomos ser a nossa cara.

Não podemos excluir, desprezando ou subestimando, tratando como inútil ou não-emoção ou não-vida ou não-sentimento a parte, o gomo, que não se adequa aquilo que nós consideramos digno de ser lido ou olhado ou sentido como sério ou real.

A vida e as emoções e os sentimentos e as atitudes são mutáveis, renováveis, reinventáveis.

 

 

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A Gaffe de quatro

rabiscado pela Gaffe, em 15.02.17

1.102.jpgÉ cansativo a Gaffe ter de repetir o quanto gosta de rapagões com barba.

No entanto, já é novo fazer notar que para ostentar uma pilosidade facial que comove de tão atraente e nos deixa de joelhos e a agradecer aos deuses a possibilidade de enlouquecermos sem qualquer réstia de pudor, urge obedecer a determinadas condições que, contrariadas, nos plantam na frente um troglodita macabro ou, na melhor das hipóteses, o Professor Pinto da Costa.

 

A nuca peluda

Nenhuma barba resiste ao nosso escrutínio quando parece dar a volta ao pescoço. A barba tem se impor, solitária e nobre, anulando a adversidade. Não pode parecer que tem um armazém de pêlos logo atrás da montra.

 

Pêlos nas orelhas

Permitidos aos senhores que ficam muito irritados nas noites de lua cheia e interditos aos restantes que nas noites da dita nos levam a ver o mar ou a jantar em Paris com vista para o Sena. A barba não começa nos pavilhões auriculares. Nada começa aí, a não ser a vontade de nos obedecer.

 

Pêlos no nariz

Uma barba que traz apenso um bigode que se introduz nas asas do nariz, apenas nos lembra a brisa dos Verões mais amenos porque nos faz ficar sempre à espera de ver por ali sair os grilos que ali se escondem.

 

Sobrancelhas Álvaro Cunhal.

Não é de todo aconselhável usar umas idênticas às do Cristiano Ronaldo ou a do travesti do quinto esquerdo, mas é simpático que não as consigam pentear até ao infeliz encontro com os pêlos que enfeitam a nuca.

 

São algumas das mais básicas premissas que um qualquer barbeiro que se preze se encarregará de cumprir.

Ignorá-las é facilitar o coreografo dos desfiles de Carnaval de uma mimosa aldeia portuguesa e inundar de luar o tal homenzinho que se irrita.  

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A Gaffe tablóide

rabiscado pela Gaffe, em 14.02.17

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Ela lembrava-se do modo como cicatrizavam os lanhos do amante. Como os lambia até se transformarem em traços ou rastos de gaivotas sobre a areia.

Vinha pedir guarida e ela guardava-o.
Santuário.

Lençóis erguidos, góticos, erectos.

Sangue atrás de sangue, ferida a ferida, lambia unindo os bordos do rasgado até surgir a linha rosa de carne e cicatriz. Lanho a lanho, noite em noite, de solidão em solidão, ela cosia os rasgões que ele trazia.

Muda. Mais muda. Sempre mais muda. Como se o seu silêncio pudesse crescer interminável, como se tombasse no negro e se transformasse nele, como se logo atrás da mudez existisse o vácuo.

Ela tinha o sabor dele na boca, como palavras delas.

 

Hoje matou-o. Foi a única forma de falar que ela encontrou.

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Gavetas:

A Gaffe numa questão de números

rabiscado pela Gaffe, em 14.02.17
 
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- Nem sequer sabes o número do meu telemóvel - diz muito de mansinho o rapaz. Depois sai e leva a desloação debaixo do braço como se transportasse um pássaro preso. 

Arrasta uma tristeza tão suave e tímida que parece saída de um conto de fadas.

 

A Gaffe não sabe o número do telemóvel do rapagão e esquece-se de lhe dizer que ele tem 126 pestanas na pálpebra esquerda e 145 na pálpebra direita.

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A Gaffe e um berlinde

rabiscado pela Gaffe, em 13.02.17

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A minha liberdade era um berlinde. 
Um dos berlindes que o meu avô guardava num saco de estopa na despensa. De vidro, com cores enclausuradas, que os de plástico vieram só depois. 
O meu avô dizia que havia ratos na despensa. Todos tinham medo dos ratos na despensa, menos eu que gostava dos berlindes. 
Gostava do berlinde azul com caracóis roxos dentro, como os insectos presos nas pérolas de âmbar do colar da minha avó. 
A minha liberdade era, portanto, um berlinde fechado na despensa onde havia ratos.

 

Agora que não há despensa e os ratos já morreram, a minha liberdade continua a ser um berlinde que também eu escondo numa despensa onde digo que vivem os netos dos ratos da despensa do meu avô. 


Há liberdades que são também caricas. 

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A Gaffe incumbida

rabiscado pela Gaffe, em 10.02.17

A Gaffe foi incumbida de questionar os amigos do Gui.

Como menina obediente, a Gaffe deixou as questões que o rapazito queria muito que fossem respondidas e os votantes tiveram o fim-de-semana para o fazer.

 

Surpreendemente consideraram que valia a pena não se esqueceram de colaborar com o Gui, que vos agradece e apresenta o quadro que foi obtido.

 

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Notita - onde se lê, Sei na última questão, deve ler-se Se. Era só para ver se estavam atentos... 

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A Gaffe labial

rabiscado pela Gaffe, em 10.02.17

A Gaffe traz-vos uma novidade!

 

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Reconhecido, pelas instâncias do mais superior que há, o seu irrepreensível gosto, a Gaffe surge na Baton palrando comme d’habitude acerca do amor.

  

Não há nada como trazer na carteira uma boa revista.

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A Gaffe da Frederica

rabiscado pela Gaffe, em 10.02.17

Fredrica

 

A Gaffe, num dos seus momentos menos conseguidos, decidiu parecer imbecil e examinar a mais cintilante polémica em torna de Cristina Ferreira, para se certificar que não a considera sem razão válida o protótipo da parola esperta que enriqueceu de repente.

 

Deu início a tarefa folheando os blogues de referência e que se debruçam sobre o assunto e estancou no primeiro que passou pelo seu monitor.

 

A amorosíssima Vanessa Martins mostra toda a sua mimosa indignação e bate com os pezinhos no chão perante o carrossel que não abranda movido pela perseguição invejosa que fazem à apresentadora que odeia ser vista e sobretudo ouvida.

A Gaffe tem de admitir que concorda com a irritadíssima Vanessa. Diz-nos num lamento revoltado esta rapariga inteligente que na sua vida profissional há pessoas que questionam como ganha dinheiro com um blogue e acrescenta, sábia, que existem pessoas que só querem saber da vida dos outros. A talentosa Vanessa sente também que as pessoas estão mais ocupadas com a vida dos outros do que com a sua própria vida.

 

Queixumes e revelações que arrancaram à Gaffe, revista nestes pungentes lamentos, uma ou duas lágrimas de solidariedade.

 

Não interessa compreender que é exactamente por causa destas malfadas características do povo que a Vanessa ganha dinheiro com o blogue - segundo as suas belas e expressivas palavras. Não interessa descobrir que a doce menina esbardalha por todo o lado, canto e esquina, pormenores ilustrados da sua vida amorosa que permitem escacar na praça pública o que a rapariga faz em privado - sinto isso na minha vida amorosa, ou seja, faz de conta que sente os cacos do olhar do populacho a picar as fitas e fotografias do seu casamento a cavalgar por todas as redes sociais. Sofre, porque é inocente, porque apenas gosta de viver e partilhar, porque sabe montar o touro da vida e mostrar como é capaz de equilíbrios, porque é feliz e ganha uns trocos com os pequenos nadas do seu quotidiano que publica incessantemente apenas para mostrar ao mundo como é uma menina boa, alegre e não para se expor como carne num talho, mesmo correndo o risco de depois ficar zangadita por perceber que as pessoas não davam nada pelo seu namoro - vingou-se destes abutres, porque entretanto se casou quando ninguém acreditava. Não é preciso fazer notar que o marido é nada mais do que um rapaz muito cerebral de músculos inflacionados que participou, espalhando sofisticação, discrição, charme e discernimento, criando inúmeros momentos de raro raciocínio capaz de ser apenas entendido por Eduardo Lourenço, nas várias edições do Big Brother, que é como sabemos um programa de entretenimento onde a privacidade pugna por se fazer notar.

 

Isso agora não interessa nada.

 

Ilustração - Joachim Barrum

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A Gaffe neo-realista

rabiscado pela Gaffe, em 09.02.17

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João Miguel Tavares não me inspira qualquer tipo de simpatia, mas esse facto não me impede que esteja disponível para o ouvir e ler com respeito e atenção.

Foi exactamente com esta disposição que o apanhei - a propósito da polémica suscitada pela obra de valter hugo mãe esfrangalhada pela pudicícia -, a tentar ser engraçado recortando uma frase do livro A Vida Mágica da Sementinha de Alves Redol, comprovando o que já sabemos, ou seja, que uma frase decepada e arrancada de um contexto, permite ser guiada para onde a nossa sardinha vai assando ou esturricando.

O colunista finaliza a intervenção suplicando que a obra de Alves Redol seja retirada por ofensa ao pudor do programa dos alunos do 5º ano. A pretensa ironia é regada com um sorriso galhofeiro e não passaria por mais se não fosse a adenda que João Miguel Tavares decide colar ao já demonstrado. O jornalista acrescenta que há uma razão, bem mais séria, para o seu rogo. A obra é horrível. Repete horrível já na risota.

 

É improvável que João Miguel Tavares, com filhos que a estão a estudar, não tenha lido a obra em causa, mas é mais do que evidente que o colunista desconhece o que é ensinado no grau de instrução que os petizes frequentam.

 

A obra de Redol que o jornalista condena é a escolha perfeita para a faixa etária eleita para a estudar.

 

Existe no pequeno livro uma miríade de possibilidades de intertextualidade e de interdisciplinaridade. A obra permite uma cumplicidade notável, sobretudo com as Ciências e com a História - havendo mesmo trechos que deviam ser lidos pelos professores destas disciplinas, usando-os depois como impulso para a descoberta e conhecimento do que querem transmitir -,  e as personagens que a povoam estão impregnadas de uma poeira poética com um sabor a paisagem alentejana tantas vezes dorida que permite um encontro com uma realidade menos amena e menos acolchoada.

 

Os pássaros que se espalham nas folhas da obra, os seus pequenos conflitos, as suas emoções, os seus amores, permitem que o pequeno leitor se veja ao espelho e contribui para uma mais suave entrada num estádio que antecede a perturbação da adolescência; a clareza com que é revelado o esplendor da diversidade e a importância que esta deve ter; a permeabilidade da obra a outros dados oriundos da história, da ecologia ou da biologia e a poética que se encarrega de acordar a fantasia e povoar o imaginário das nossas infâncias, fazem da escolha do livro um exemplo maior de séria pedagogia e de João Miguel Tavares, que o considera horrível, - assim, à toa, só porque assim é engraçado -, um rapaz muito propenso a comportar-se como os encarregados de educação que censuraram valter hugo mãe.

 

Ilustração - Mirko Hanák         

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