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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe duriense

rabiscado pela Gaffe, em 06.12.16

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No Douro há dias em que atravessamos os corredores com a lentidão dos vermes.

Dias em que se vê por dentro. Não da alma,- que desaparece afugentada e temerosa como bicho pequeno e ameaçado que procura esganiçado a mais funda lura para se imobilizar, para deixar passar o perigo, - mas por dentro do corpo.

Há dias em que se sente por dentro do corpo e o corpo em que se sente por dentro é como uma casa sem janelas. Muros, telhado e uma porta por onde apenas se entra. Sair não é possível até findar o sentir-se ou acabar o dia.

Nesses dias em que acontece este sentir, sabemo-nos alterados. Envelhecidos. Descobrimos dentro a maior desilusão, o maior dos abandonos, a maior das misérias.

Percebemo-nos idiotas. Entendemos a ausência, a solidão e toda a procissão de sentires magoados, como se abandono, desilusão, miséria e despovoado fossem órgãos iguais ao coração, cérebro, fígado.

Há dias em que atravessamos os corredores com a propositada lentidão dos cortejos fúnebres, para que os vermes tenham tempo de comer o nosso sentir lá dentro.

 

No Douro há também os dias em que a superfície dos lugares nos toca a pele.

As árvores desprendem os perfumes dos ramos. Descem os aromas pelos troncos como bichos cansados, roçam-nos a pele, farejam, e mergulham nas águas arrastando os líquenes e o musgo húmido para o fundo negro sem vista.

São como segredos.

Quebram devagar a película que nos envolve, como folha de cristal, como fina folha de cristal por sobre a pele.

Entendemos então a mais distante segurança que é entregue aos que escolheram o refúgio do rio onde o tempo esquálido flutua. Entendemos então os passos do silêncio. Esta espécie de felicidade em nada ter, porque se tem à tona da pele o imenso engano da quietude fria. Nada se move. Nada. Os dias são os dias já passados e nas madrugadas as árvores escondem o sussurrar do vento, o tilintar da chuva ou a luz que interrompe as frestas da penumbra, os rasgos de ruído pelas pedras.

 

Entendemos os dias do Douro porque os temos pousados na alma.

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A Gaffe quase porno

rabiscado pela Gaffe, em 06.12.16

 

Quem conhece a Gaffe, sabe que esta rapariga esperta não é de todo fã de pornografia. No entanto, ontem andou a clicar por aí fora e acabou num sítio que, para além de chat com o alto patrocínio de um preservativo, lhe dava a possibilidade de espreitar as webcams duma data de rapazes. Esta possibilidade despertou a voyeur que há dentro da Gaffe, mesmo ao lado da criança e da parola.

 

Seleccionou duas câmaras do leque de ofertas. Clicou, esperou um bocado e teve a maior das surpresas. Uma delas mostrava um rapagão de cerca de trinta anos com a webcam enfiada no meio das pernas de modo a oferecer uma visão montanhosa das suas cuecas brancas e uma cabeça minúscula. Na outra, um rapazinho de não mais de vinte, numa pose de diva ranhosa, enfiado numas cuecas de rede que pareciam uma daquelas sacas que há nos hipermercados com amêijoas dentro.

A Gaffe passou rapidamente da atitude de voyeur tarada para a mais científica das observações.

 

Isto porquê?

 

Porque os homens mal se moviam.

Durante o tempo que dedicou as estas performances o rapaz das cuecas brancas nunca deixou de olhar para a câmara, moveu a cabeça uma ou duas vezes - a Gaffe pensa que a procurar um ângulo que lhe ocultasse as borbulhas, - enquanto que o rapazinho das cuecas amêijoa sorria, abanava a perninha muito devagar e parecia muito ocupado com o diálogo que mantinha através do monitor.

 

Um fascínio.  


O que leva um homem, razoavelmente inteligente, a marcar passo ali, aparentemente sem objectivo concreto? Pode-se também perguntar, é claro, o que leva uma rapariga esperta a ficar ali a ver. No caso da Gaffe a resposta é evidente: é uma perversa com o cérebro em decomposição e não se importa nadinha.

 

Resolveu minimizar as webcams e continuar a marchar por outros lados.  
Passados largos minutos que incluíram uma ida ao wc, duas bolachas de água e sal e o atender do telefone, voltou à carga. Pois aquilo estava exactamente como a Gaffe tinha deixado. O homem de cuecas brancas parecia já morto e o cuecas amêijoa tinha levantado a perna, mas continuava a apertar um mamilo enquanto sorria.  
Intrigante.

 

Por muitas voltas que a Gaffe dê, confessa que não percebe estes rapazes.

Pode tratar-se apenas de narcisismo incontrolado e já com um carácter patológico, mas a quase imobilidade dos actores destas cenas leva-a a afastar esta hipótese. A esmagadora maioria dos narcisistas, com comportamentos semelhantes a estes,  mexe-se muito e raramente se expõe desta forma tão básica e minimalista. Quando o faz há objectivos claros que passam, muitas vezes, pela grande comédia do chamado sexo virtual ou cibersexo. Nestes dois casos, e aparentemente, estava-se ali, apenas ali, de cuecas, durante um tempo infinito, quase imóvel, pronto a NADA.  


Esta rapariga suspeita que a necessidade de sermos vistos provoca comportamentos de difícil explicação. A invisibilidade quotidiana faz com que usemos muitas vezes cuecas parecidas com um saco de amêijoas.

 

A Gaffe fica assustada a pensar que talvez seja por isso que tem um blog!

 

Imagem - Joseph Wright of Derby (detalhe), 1765-68

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A Gaffe livresca

rabiscado pela Gaffe, em 05.12.16
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Sinto sempre uma certa tristeza quando olho para aquilo que outrora foi acarinhado por mim como relíquia a conservar pela vida fora e que agora, embalado e atado, é apenas importante porque o foi no passado.
 
Vou levar comigo livros velhos de histórias menores, com capa de couro, lombadas com letras douradas e rebuscadas, folhas carcomidas e cheiro a mofo.

Pertenciam à minha gente. Gente que nunca poderia conhecer. Pessoas que morreram antes do meu avô ter nascido.

Há uma imensidão deles, colocados nos pesados armários do sótão, exactamente como os tinha guardado quando os descobri, já lá vão dez anos. Na altura, pensei que tinha encontrado, não um acervo valioso, mas belíssimos pedaços de memórias que se inscreviam nas margens das folhas pelos donos destes livros. Lembro-me das anotações a tinta, numa letra tombada e toda floreada, num livro de receitas de alguém que me parece ter dominado a cozinha em tempos idos.

Esse não vai.

Vão os que trazem pequenas anotações acerca de Voltaire, de Diderot, de Balzac e um ou outro de autores menores, mas que mereceram apontamentos extraordinários, mais outro que sublinha e comenta os soneto de Camões - tão mal amado e tão mal interpretado por Voltaire.

 

Isto de ter de escolher pedaços de memória é doloroso.

 

Sei que os livros que ficarem se vão deteriorar irreversivelmente. Custa-me deixar para trás os volumes que foram importantes e acarinhados por alguém, um dia, no passado. Parece-me que os desrespeito, aos livros e aos antigos donos, mas há memórias que devemos embalar e levar connosco e outras que, por muito que lamentemos, devemos deixar ficar ao abandono.

 

Até nestas decisões derradeiras as bibliotecas são parecidas com a vida.

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A Gaffe navegante

rabiscado pela Gaffe, em 05.12.16

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Os homens chegam de vidro do fundo da tarde dos insectos, com sangue de frutos na camisa. Descem os caminhos com a mão na terra. Lavam o silêncio para ser entregue à turva obscuridade dos rapazes feridos. Pousam na madeira a cor dos peixes ou dos olhos rasos no ninho das águas ou na ardência do mordido. Há uma nuvem a escorrer da boca dos homens. O sabor da sombra na boca ou apenas sombra sem boca nenhuma. Os homens chegam ao falar das pedras que rezam a longevidade das raízes. Depois ouvem o rumorejar da maré-alta e do sargaço. Trazem lenços escarlates no vento do parapeito das bússolas. Entregam-se à água e contam as contas que o mar tem nos colares da lua. Trazem ondas nos cabelos e sorrisos vermelhos cobertos pelo vento com saudade do mar.

Na barca dos homens há um peixe com sabor a fruta e rapazes feridos a morder as águas como um remo.
Amanhã o mar será colhido verde por rapazes feridos por escamas.  

 

Foto - Nigel Cabourn por Yves Borgwardt

 

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A Gaffe nos dias planos

rabiscado pela Gaffe, em 03.12.16

 

Tenho hoje o dia plano, como um lençol que flutua. Fechado, como um gesto por fazer.

Gosto quando é cedo para tudo e tudo o que ficou por fazer nos outros dias planos sustenta e equilibra o flutuar das horas.

Gosto de pairar onde não há nada e o que houver virá depois, adiado e entardecido, como um envelope que nos esquecemos de enviar, mas que por estar vazio chegará ao destino mal nos aprouver.

O vazio encontra sempre as mãos do dono.

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A Gaffe no evento

rabiscado pela Gaffe, em 02.12.16

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Realizou-se, perto do meu apartamento, uma espécie de dinamização cultural toda moderna.

 

Não a podemos confundir com uma acção de produção cultural. É louvável e acredito que evoluirá de forma considerável, expandindo o seu alcance, libertando-se, se caso for esse o seu objectivo, da habitual feirinha de artesanato urbano, banal em qualquer estação e apeadeiro de Verão.

Há, no entanto, uma condição comum a um dinamizador cultural e a um produtor de cultura. Ambas as situações terão de obedecer a um parâmetro implícito na própria definição, noção ou em qualquer conceito de Cultura que seleccionemos. Se o que se realizou reivindica um destes estatutos e se pretende afirmar-se como elemento activo na projecção e enriquecimento de uma determinada comunidade, por muito restrita que seja, terá sempre de orientar as suas acções sob a alçada de um denominador comum: o respeito pelo outro.

 

A capacidade daquilo que foi dinamizado por um grupo de jovens de alterar, tornando mais dinâmica e evolutiva a pacatez possivelmente exagerada de determinada rua, provocando ou apenas possibilitando uma faceta lúdica até aqui inactiva, obrigando-a, dentro das limitações compreensíveis, a ouvir, ver e sentir o que até ao momento ignorava ou esquecia, quebra-se e torna-se medíocre e estreita, quando este objectivo se confunde com uma demonstração de irresponsabilidade cultural, consequência dos actos de desrespeito pelo outro, consubstanciados no abandono desleixado e porco de final de festa adolescente que ignora por completo que um indivíduo pode ser até completamente indiferente ao que se passa no local onde habita  - isto sou eu, dizem eles, - não perdendo por isso o direito a ser respeitado, a emitir opinião ou a reivindicar sossego, civismo, silêncio e a não ser insultado com uma data imensa de lixo que não foi recolhido pelos catraios que o produziram.

 

dinamização cultural, esta e qualquer outra, tem obrigação de se preocupar com a porcaria que larga no fim da sua actividade, incorrendo, se não o fizer, naquela espécie de iniciativas que visam apenas fazer sorrir a sobranceria muito pouco cultural dos miúdos que se divertem numa ilusão de cultura e que acreditam, de forma enganadoramente ousada e bastante adolescente, que trazem ao povo o Santo Graal, entregando as consequências menos dignas ou nocivas desta iluminação a outras entidades.

 

Não há, em nenhuma circunstância, qualquer justificação para o desrespeito. Dinamizar determinado espaço não iliba o actor da acção de cuidar da pegada que fica posteriormente ao acto.

 

O lixo abandonado no final desta treta com sabor a hippie é, sem sombra de dúvida, o menosprezo por aqueles que, em princípio, são os destinatários deste mesmo evento e torna uma atitude cultural numa medíocre demonstração de uma espécie de estreita consciência cívica, de eufórico caos adolescente que, em nome de uma pretensa dinamização cultural, escondem um deleite egoísta e exibicionista que incorre no erro de se considerar ilibado das responsabilidades geradas pelas suas manifestações.

O lixo, desconsideração, desatenção, desdém e desprezo que ficam depois do palco encerrar, apodrece mesmo em cima deste tipo de iniciativa.

 

Resumindo:

Este é um post lixado que me faz apetecer desatar à estalada a qualquer coisa que dinamize desta forma seja o que for.

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A Gaffe a envelhecer

rabiscado pela Gaffe, em 02.12.16

A Gaffe estabeleceu que o seu envelhecimento seria de cinco em cinco anos, ou seja, fez 20, 25, 30, fará 35, 40 e por aí fora, se chegar a idade tão provecta.

As idades intermédias não contam. São períodos de aprendizagem que apenas se solidifica se entre eles deixarmos intervalos de tempo razoáveis.

 

Posto isto, fica claro que a Gaffe não tem a idade certa para se tornar uma eremita - coisa em que se transformará aos 85, - mas também já não consigue andar por aí a abanar pevides por entre a multidão.

 

Está naquilo a que se poderá chamar limbo, que, segundo a Igreja Católica Apostólica Romana, é um lugar fora dos limites do Céu onde se vive a plena felicidade natural, mas privado da visão beatífica de Deus. O Céu estará, de acordo com esta linha de pensamento e com a de Judy Garland, algures no início e no fim do arco-íris. O entremeado é o limbo e não dá direito a ida ao cinema nem à visão de faces beatíficas.

 

Isto de envelhecer aos soluços tem que se lhe diga. O tempo custa a passar e sobe-nos à garganta a sensação do vácuo existencial sempre que nos perguntam a idade. No entanto, aprendemos, nos intervalos da chuva, a perceber que o que é aborrecido não é passar a vida a soluçar, é arranjarmos uma embalagem de lenços de papel em condições, para limpar o muco e as lágrimas - de choro e de riso - que nos encharcam o chão que vamos pisando.

 

A nossa vidinha nunca é tão boa, nem tão má como pensamos. Vivemos nos intervalos.

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A Gaffe independente

rabiscado pela Gaffe, em 01.12.16

Independence Day.jpgA Gaffe não festeja o Dia da Restauração da Independência, porque considera uma maçada comemorar uma ocasião em que Portugal se liberta do jugo espanhol apenas porque um dos seus queridos Filipes não teve mãos a medir, preferindo acudir à Catalunha - que na mesma data se amotinava, - abdicando assim deste cantinho à beira-mar todo ufano.    

 

Comemoraria apenas se Letízia e o seu rapagão tivessem prolongado ligeiramente a sua visitinha oficial a Portugal e se deixassem de mariquices voltando muito rígidos e hirtos outra vez à terra. 

Repetir uma tolice é como bisar um vestido. Nunca resulta como da primeira vez. 

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A Gaffe a arder no Inferno

rabiscado pela Gaffe, em 30.11.16

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Vou arder no Inferno para toda a Eternidade.

 

Provavelmente sentirei desde já as brasas dos comentários anónimos que com certeza receberei, o que me permitirá uma adaptação ao clima e não me fará estranhar a forquilha do demo.

 

É forçoso dizer que não sou adversa a qualquer crença religiosa. Deus me livre! Gosto imenso do lema - de pé diante dos homens, de joelhos diante de Deus - do velho Bispo do Porto, gosto imenso de seminaristas, admiro as cores dos monges budistas, são fabulosos os cânticos hindus de índole religiosa, apesar de não simpatizar com vacas, tenho algumas a trabalhar comigo e mais que não se diz, por ser infindo, mas sou muito terra, muito pedra, muito bruta, muito pouco espiritual, muito má e raramente me lanço nos espaços siderais ou divinais sem o pragmatismo de uma escada.

Sendo assim, e fiel à minha costela científica, percorri com afinco os blogs católicos que por aqui lançam perfume.

 

Fiquei perplexa.

 

Além das orações intermináveis, da transcrição de salmos infindáveis e de versículos bíblicos ameaçadores que nos condenam a penar agruras se desviarmos um olho durante um segundo da face luminosa de Deus para o pousarmos na braguilha do pecador que passa, somos obrigados a assumir que somos todos uma multidão de gente má, infeliz, condenável, horripilante, digna de todas as torturas celestiais e capaz de assassinar a Madre Teresa só porque a velhinha não usa um véu em condições.

A bondade impera por todo o lado - inclusivamente nas barras laterais, - e as boas acções enfiam-se pelos nosso olhos dentro mirrando-nos a nossa já perdida alma com a vergonha de não termos sido tocados pelo dedo divino, dando primazia a outros menos celestes e mais ou menos conspurcados.

 

Felizmente - é o que nos salva -  somos abençoados pela condescendência, pela abertura de braços, pela disponibilidade, pela tolerância, pela capacidade de perdoar e por todas as virtudes que se queira inventar, apanágio destes anjos da blogosfera que não hesitam um segundo - são crentes - em esbardalhar sem qualquer reserva ou pudor as fotos de família, captada nas mais impensáveis e nas mais corriqueiras situações, sempre acompanhada por gatinhos e por criancinhas que são expostas minuciosamente até lhes vislumbramos as auréolas.

 

É estranhíssimo como ao trespassar estes pergaminhos de excelso bendizer, de sobrenatural elevação, espiritualidade, bonomia, penitência, oração, dedicação ao outro, solidariedade, altruísmo, fé incondicional, celestial visão da universo e impoluto viver, me senti ameaçada, assustada e intimidada.

 

Creio que foi por perceber que até nas luzinhas ali a cintiliar, espreita o muito escuro.

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A Gaffe nos armários

rabiscado pela Gaffe, em 30.11.16
É evidente que todos temos esqueletos nos armários. Faz parte da condição humana recolhermos no escuro das prateleiras pedaços de pecados que não gostaríamos que fossem do conhecimento público.

 

Sempre que estes ossos se vão amontoando, a possibilidade de vemos rebentar fechaduras aumenta exponencialmente. Nada é tão ilusório como querer conservar intactas e desconhecidas as maleitas que trancamos. Mais cedo ou mais tarde, somos apanhados pelos nossos escondidos ossos. Sermos capturados pelas nossas próprias vidas é do pior que existe. Pessoa tinha razão quando ansiava que a sua alma fugidia não o apanhasse.

 

Acredito que os meus esqueletos ainda são em número demasiado escasso para chocalharem de forma audível. Não tenho idade para grandes ossadas. Vão espreitando, de vez em quando, mas acabam sossegados, amordaçando o inevitável destino que os fará desandar, desarticulados, pela minha vida fora.

 

Enfrentar esta cambada é ponto assente. Não adianta muito tentar ignorar a capacidade que estes doidos arranjam para nos assombrar o juízo e esperar que adormeçam embalados por contos de fadas e cantigas de sonhar.

Não há nada melhor do que um valente par de estalos para por os ossos no lugar. Sobretudo aqueles que se deslocaram.

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A Gaffe bazófia

rabiscado pela Gaffe, em 29.11.16

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É habitual a Gaffe estampar fotos de rapazes que passam o tempo a humilhar o comum dos mortais, atirando-lhe à cara a esplendorosa forma física em que se encontram e despertando a esplendorosa inveja dos mostrengos mais desfavorecidos.

 

Apesar destes portentos não passarem por nós ao virar da esquina - são criaturas parecidas com os unicórnios, - a Gaffe apanha demasiadas vezes umas cornadas destes bichos, vindas das paredes e dos muros, das páginas das revistas e do armário do vizinho de gabinete que tem posters destes colados ao fundo - do armário.

 

A Gaffe não fica nem excitada, nem incomodada. Isto funciona como o acordo ortográfico. Embora não simpatizemos com ele, vamo-nos habituando à grafia até deixarmos de sentir que estamos perante um erro. Acabamos vacinados e, de certa forma, imunes. Aquilo marcha sem que lhe prestemos uma atenção especial.

Ora, se o que foi escrito agora não passasse exactamente disso, uma banalidade idiota, a coisa até nem pareceria muito mal. Acontece que hoje de manhã a Gaffe cruzou-se com um unicórnio destes e deve dizer, para acalmar, que o bicho que se avistou dentro de um fato  - e de facto - não se inscrevia no conto de fadas tradicional. Era um unicórnio de todo o tamanho!

 

Isto prova, sem lugar para dúvidas, que, por muito que o neguemos, não passamos de umas bazófias com uns trocadilhos todos marotos em relação às excelentes formas físicas chapadas nos cartazes das montras que nos impingem, mas que, perante os factos de fatos justos, perante todos aqueles músculos em carne e osso, até as bainhas das saias se nos eriçam.

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A Gaffe num pombal

rabiscado pela Gaffe, em 29.11.16

Há pombos por todo o lado. Há bandos deles nos centros das cidades que se transformam em manadas quando comem.

 

Não gosto de pombos. De olhos redondos e sinistros, com as cabeças que se inclinam num perfil quase ameaçador quando nos miram e com aquele arrulhar asmático medonho.

 

Vi uma vez um pombo a ser estraçalhado por uma gaivota. Cheguei a pensar que aquele massacre e o debater silencioso com que o animal era apunhalado sucessivamente, me faria solidária com a vítima, mas não. Fiquei a detestar também gaivotas.

 

Hoje vi, a caminho daqui, um homem numa praça rodeado de pombos. Tinha-os nos braços, nas mãos, nos ombros e um a debicar-lhe a cabeça. Não sei que idade tinha. Não sou boa a atribuir velhices. Estava na casa dos sessenta. Dizer-se que se está na casa de qualquer idade, é razoável e minimiza o erro de avaliação das rugas.

O homem trazia nos bolsos pedaços de pão que esfarelava e oferecia. Os pombos cobriam-no e esvoaçavam largando um cheiro húmido e morno, nauseabundo.

O que me impressionou foi a seriedade com que tudo aquilo decorria. O homem olhava as pessoas que passavam com uma solenidade deslocada. Havia uma espécie de orgulho naquela exibição patética de poder. Um quase exibicionismo circense de domador de feras. Uma poética miserável colada à atitude demasiado séria e compenetrada do acto de dar migalhas a pombos numa praça repleta de gente indiferente.

 

Lembrei-me da gaivota que tinha visto a matar o pombo e percebi que naquele homem havia uma crueldade parecida. Ambos, homem e gaivota, exerciam o mais ínfimo dos poderes, a mais enviesada das tiranias. Tinham, nas mãos e no bico, a capacidade que os tornava sérios, de reter, controlar ou aniquilar o voo dos outros. Um alimentando-o, outra dele a alimentar-se.

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A Gaffe com cera

rabiscado pela Gaffe, em 28.11.16

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Se há espinhos que me esbardalham os nervos, um deles é mania de sermos sinceros.

 

- Eu sou sincera: o teu cabelo parece que andou na II Guerra e que ainda não sabe que a tragédia acabou.

- Eu sou sincero: o teu gabinete parece um ninho de ratos.

 

Quem vos pede sinceridade se não há nada agradável para dizer?! Não sejam sinceros nessas alturas. Calem-se. Podeis acreditar que não existe nada de transcendente naquilo que pensais acerca do universo e que também não há nada no universo que se interesse grandemente pelo que pensais.

A vossa sinceridade é dispensável, porque ninguém dá um pico por ela.

 

O mesmo se aplica em relação ao devemos tentar ser sempre nós próprios  - há quem diga nós mesmos, mas as expressões são equivalentes se o objectivo for irritar-me. Seria um consolo se Estaline tentasse ser outra coisa que não ele próprio. Seria bem mais sossegado se Jack o Estripador tentasse não ser ele mesmo de vez em quando.

 

Eu sou sincera: fico enervada quando sou eu própria e muitíssimo mais quando sou eu mesma.

 

Nota de rodapé - A palavra sincera pertence ao Renascimento. A estátua de mármore com fissuras levava cera, disfarçando os erros. A perfeita era sin cera.

Achei engraçado referir.

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A Gaffe infantil

rabiscado pela Gaffe, em 28.11.16

 

Há dias ouvi contar um episódio que me comoveu.

Um puto minúsculo passeia pela mão do pai e encontra, a dormir num banco de jardim, um rapazito sem-abrigo. Pergunta ao pai se o podem levar para casa.

O homem explica-lhe a impossibilidade de acolher o rapaz. São justificações que qualquer adulto encontra para validar a negação. Vão desde o facto de se não saber se a criança tem pais, até à possibilidade de o miúdo recusar. Acabam todas por ser embaraçosas e vergonhosas perante os contra-argumentos do filho - se dorme na rua, não tem pais, há uma cama vaga em casa, é melhor dormir num colchão do que em cima de madeira e é fácil ter um pequeno amigo novo dentro de casa que não provocará rombos significativos no orçamento burguês.

 

Não interessa o final desta quase parábola.

 

O que me comoveu foi o facto de ter percebido que é a infância que tem as soluções mais simples, mais eficazes e mais correctas para os conflitos e dilemas que se vão erguendo e aglomerando com o avançar do tempo.

Nada se tornaria mais equilibrado se uma visão infantil partilhasse a procura da resolução dos buracos negros socias e das guerrilhas de consciências adultas.

Confesso que no que diz respeito à petizada, não sou pessoana, mas reconheço que é nestas criaturas que se encontra a maior simplicidade ou a mais eficiente e eficaz das soluções.

 

Crescer, amadurecer, adultecer, tornam-nos labirintos de desculpas.

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A Gaffe com todas as letras

rabiscado pela Gaffe, em 26.11.16

M. Brando.jpgNuma tarde de Outono acabrunhada ou em pleno sol de uma nudez, um livro é sempre a forma mais eficaz de um rapaz provar que pode ser muitíssimo atraente, mesmo quando sabemos que podia perfeitamente ser analfabeto que o efeito sobre nós seria o mesmo. 

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