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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe psicopata

rabiscado pela Gaffe, em 22.09.17

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Sempre senti uma enorme atracção por sangue.

Folhas manchadas que cortaram dedos; lâminas sujas, maculadas, que rasgaram o rosto ao barbear; lenços brancos que serviram de tapume a pequenos golpes sofridos à toa.

 

Não chegava a tocar nas manchas vermelhas, mas despertavam-me a atenção de modo quase obsessivo. Ficava varada a observar o esbater da nódoa, as zonas onde a cor se atenuava, a esmaecida fronteira que iniciava o corromper do límpido. Deslumbrava-me com a magnitude do encarnado e assombrava-me se adivinhava a origem, o golpe, o lanho, a carne onde o fio frio da agressão se liquefazia externo.

 

Ultimamente esta atracção tem raiado o vampirismo. 

 

Se me corto, levo à boca o sangue e atento no sabor que dele chega. Não o defino, não o aproximo de nenhum outro que tenha experimentado. Roço a língua pelo golpe e sorvo e chupo e deixo que aquele sentir vagamente metálico me arrepie e é então que descubro a violência bruta das arenas e o apelo incontrolável do assassino, como se da memória mais profunda, mais secreta e obscura, me assaltasse o instinto do que sou.

 

Depois faço de conta que são rosas. 

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A Gaffe de repente

rabiscado pela Gaffe, em 21.09.17

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De repente passa por mim espampanante a sinuosa mulher de corpo denso e rotundas curvas, roliças esquinas de carne potente perfumada por perfume quente e passo compassado para apoiar a amiga que quebradiça a segue cega e calada pela fúria da carteira cara que bamboleia nos braços robustos da indignação ruborizada que desarvorou ao lado.

 

- Tu bem que me avisastes aqui á uns tempos atrás.

 

Aposto que aquele não tinha h.

E prontus.  

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A Gaffe de Laurent

rabiscado pela Gaffe, em 20.09.17

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Vi pela primeira vez Laurent Filipe num programa de talentos. Era um dos elementos do júri. Não me despertou interesse. Percebi que era músico, mas aquela espécie de pedantismo mesquinho e paternalismo cretino extinguiu qualquer vontade de conhecer as suas melodias.

Suponho o programazinho lhe deu visibilidade. Acontece por vezes neste tipo de concursos.

Esqueci-o. Esqueço depressa os falsos snobs.

Vi-o ontem.

A breve entrevista na RTP2 servia para publicitar o seu concerto.

Continua a não me provocar qualquer entusiasmo ou interesse. Permanece nele aquele tipo de afectação melada e enjoativa que adivinhei no primeiro encontro.

Apesar de tudo, a entrevista corria bem. Laurent Filipe convidada os espectadores a ouvi-lo. Nada que não se esperasse. De repente, como se metido à sovela, mimando uma ironia que soou demasiado falsete, Laurent Filipe esbardalha-se:

 

- Já me perguntaram se convidei a Madonna. Sim, convidei. Vamos ver se ela aceita – e, sem ter a veleidade de o transcrever com rigor, acaba – às tantas o público que vier ao meu concerto, vê a Madonna.

 

Laurent Filipe prefere ter um concerto seu, repleto, a babar a hipotética aparição de Madonna do que apenas seis cadeiras ocupadas com a música que faz. Acena - vestido com um allure de falso parisiense e mascarando a intenção com uma ironia que não convence -, com uma cenoura vedeta internacional que eventualmente poderá estar ao alcance dos olhos do maralhal parolo que lhe comprou os lugares que restavam, depois do músico ter convencido os amigos a marcar presença.

 

Esta macacada pacóvia atinge demasiados espaços do apelidado universo cultural português reduzindo-os - incluindo o público e os obreiros culturais que deles fazem parte - a uma amorfa cambada de cretinos parolos, sem critérios que não sejam os dominados pelo livrinho de autógrafos e pelo poster ranhoso colado a força de saliva na parede da mediocridade.

 

Prefiro Salvador Sobral e os seus gases.   

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A Gaffe muito incapaz

rabiscado pela Gaffe, em 18.09.17

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Dizem-me os entendidos cor-de-rosa que existem dez factores masculinos que tornam irresistíveis os seus donos aos olhos das moçoilas. Enumeram-nos. Verifico a existência de barba, pilosidade maravilhosamente distribuída, queixo quadrado, abdominais proeminentes, olhos de lince, lábios de mosto, quem faz um filho fá-lo por gosto, entre outras condições exigidas para que nos verguemos, dominadas e seduzidas.

Dizem-nos também que a nossa atracção pelo macho é directamente proporcional à sua aparente capacidade de procriar, de proteger, de dominar, de ser gregário, mesmo tribal, e de produzir rebentos do mesmo calibre dos deuses. Referem, à laia de exemplo e por exemplo muito street style, que uma mulher acompanhada por um barbudo tem menos hipóteses de ser assaltada pela calada daquela noite em que escolheu um imberbe. É-nos sugerido que um Cro-Magnon é sempre o bicho que escolheríamos, ignorando descaradamente um hipster vestido por Valentino, para connosco partilhar a observação das estrelas que explodem quando a cama é comum.

 

Pese embora o rasgar de vestes, o arranhar das paredes até se escacarem nails, o sangrar do Facebook lancetado por pretensos feminismos capazes de desentranhar a revolta enojada a muitas Marias, estou tentada a concordar.

 

Gostamos de Cro-Magnons. C’est mignon.

 

Não é de todo desagradável termos Daniel Craig, todo nu, carnal, bruto, besta insensível, insaciável, macho alpha malcriado, de pistola em riste, machista e misógino, a empurrar-nos contra uma parede, ou a desabar sobre o nosso corpinho de ninfa dos bosques frágeis, todas dominadas, à mercê dos seus desejos concupiscentes e prontas a ser tratadas como objectos. Desde que Daniel Craig tenha consciência do valor do objecto - capaz de humilhar a parva da Mona Lisa, único e incomparável, obra-de-arte indizível e suprema criação de Deus Nosso Senhor - não nos conspurca decidir ser tratadas, de quando em vez, como objectos.

 

Apesar de parecer contraditório, esta escolha consubstancia uma atitude deveras feminista.

 

É um fastio, um tédio, um enfado, uma frustração, um desespero e uma dieta forçada, uma rapariga ter de negar o prazer imenso que é ser controlada, manobrada, usada e transformada em objecto nu, deitado na cama, só com uma gota de Chanel a proteger-lhe a feminilidade, quando o frasco do seu desejo assim se desenrosca.

Não tem mal nenhum e o sexo é sempre tão primitivo que dir-se-á datar do Paraíso.

 

Depois, minhas caras, nos sabemos que se gostamos de ter, de vez em quando, Daniel Craig a disparar canhões de testosterona bruta e grosseira - e para lá das escolhas que dizem que fazemos -, existe sempre o deslumbrante Tom Hiddleston, o meu preferido e preterido 007, capaz de se transformar em Halibut.

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A Gaffe campeã

rabiscado pela Gaffe, em 15.09.17

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Porque faz tanta falta um lugar onde nos possamos sentar e ficar pela tarde dentro, morna e lenta, a ouvir falar das coisas que nos falham, porque a tarde lenta e morna nos faz acreditar que há tempo para tudo.

 

Foto - André Kertész

 

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A Gaffe de cinzento

rabiscado pela Gaffe, em 15.09.17

Alexandre Trauner     Fleurs, Paris     c.1940.png

Tinha um vestido cinzento. Princesa. Partiam quatro pregas fundas do corte no peito. Um laço rígido e pequeno apertava a gola arredondada. Mangas ¾, dizia a minha avó.

Era demasiado criança para tanta severidade, mas aquele vestido de Inverno tinha-se tornado um dos meus favoritos. Usava-o com meias grossas e sapatos fechados, muito masculinos.

Quando o vestia deixava de ter corpo. Só havia aquele cinzento que apagava as cores das pessoas que deixavam também de existir dentro da roupa que traziam.

A minha mãe prendia-me o cabelo com uma fita larga, num tom pouco afastado da cor do vestido e ajudava-me a colocar os minúsculos brincos de pérolas que tinha guardados numa caixinha preta que fechava com um clique que ainda ouço, nítido, sempre que me chega à memória o almofadado dos gestos que me tocavam e afastavam o cabelo e me roçagavam o rosto.

 

Gostava do vestido cinzento e daquele gesto que me enfeitava as orelhas.

Tinham silêncio.

 

Foto - Alexandre Trauner - 1940

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A Gaffe tolerante

rabiscado pela Gaffe, em 06.09.17

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Foi-me ensinado que a melhor forma de ficarmos cientes dos movimentos que alteram o mundo - sobretudo aqueles que resultam na desumanizam -, é usar o bisturi esterilizado do raciocínio e nunca empapar as mãos abrindo à toa os órgãos que tornam material determinado acontecimento.

 

Nem sempre consigo.

 

Tento demasiadas vezes encontrar o lugar-comum, o ponto de contacto, a marca subtil, despercebida, que lateja em todas as ocorrências originárias de sismos sociais, de atrocidades, de inimagináveis barbáries ou de ilimitados terrores, de parafernálias societais ou de desvios globais e tenebrosos ao que sabemos ser humano.

 

Ouço cuspir discursos com uma facilidade que me assusta. Ouço palavras que jorram ininterruptas sobre fundamentalismo, integralismo, nazismo, fascismo, totalitarismo, homofobia, xenofobia, racismo e tantas outras sobre outras tantas que não dou conta, porque de tão estranhas a mim, distam abismos, embora em todas elas eu encontre o elo que as une, a marca que as irmana ou ata ou aproxima.

 

Acredito que a Intolerância é a chave-mestra. Aquela intolerância que é quase biológica, a que impele o bicho a demarcar território, a primordial, a pulsão, o instinto que nos faz negar ou repelir o que nos ameaça a tribo, o espaço de sobrevivência, a ancestralidade, a velhice eterna, os teoremas que regem determinada grupo, herdados de modo quase físico.

 

Nenhuma doutrina que sustenta o terrível sobrevive sem ser apoiada por esta pulsão.

 

Mein Kampf é derrubado facilmente por todos os argumentos lúcidos e racionais que desejarmos, e no entanto o anti-semitismo pseudo-científico nazi torna-se prática industrial do genocídio, porque existe antes, vindo de tempos imemoriais, um ódio, uma desconfiança, uma aversão, populares e entranhados, ao judaísmo.

 

A intolerância selvagem tem matriz e raiz obscuras e velhas como o tempo. Não é produto imediato - ou secundário - da doutrinação operada por nichos específicos, localizados ou definidos que se apropriam dos imemoriais sedimentos para cavar as trincheiras do terror. Talvez seja por este facto que a teorização da intolerância seja sempre operada pelas elites, sendo posta em prática pelos miseráveis, pelos menos favorecidos, pelos pobres que são, em breve análise, simultaneamente as suas vítimas. Os poderosos limitam-se a produzir as doutrinas da diferença. São os mais fracos que as põem em prática.

 

A intolerância selvagem, a Grande Intolerância, matriz de todos os holocaustos que ainda ardem, é a da iniciação, chega como característica do Homem. Deverá ser controlada desde o início, como se aprende a controlar os esfíncteres, a dar os primeiros passos, a balbuciar as primeiras palavras.

 

É tarde demais quando a debatemos ou quando a escrevemos. Nessas alturas já se tornou demasiado espessa, dura e impenetrável.

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A Gaffe na cabine

rabiscado pela Gaffe, em 05.09.17

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Não vale a pena!

É ingénua ilusão pensar possível um amor feito num minúsculo cubículo do avião onde o odor a desinfectante poderoso, próximo do perfume da assistente de bordo gorducha e loira, nos entope a libido. Não é viável pensar sequer cumprir uma das fantasias sexuais mais comuns ao mais comum dos mortais, passageiros espevitados e marotos de um voo que faz escala no centro da mais destravada e esconsa manobra da nossa excitação já confessada. Não é possível encaixar um matulão num espaço exíguo, habitado por apetrechos destinados apenas a destruir resíduos pouco motivadores, que, imaginamos, outros como nós, mas com intenções organicamente menos controláveis e mais solitárias, deixaram fluir com o alívio de evadidos condenados. Não é agradável fechar um gigantesco animal num cubículo e esperar que consiga travar uma luta que de grego tem apenas a nudez olímpica e de romano a lança gladiadora. Não é relaxante tentar a despercebida entrada na gaiola e a esperada saída desse espaço sem apanhar com o espavorido e esbugalhado olhar dos que nunca esperam ver dali sair suado o pecado ainda a arfar de transgressão.

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Estava convicta desta frustração movida a jacto, até que, em voos menos reservados, mas de longo alcance, a Gaffe deu consigo a salivar as selfies do piloto que decidiu provar que um trem de aterragem é bem mais adaptável aos espaços exíguos do que aquilo que prevíamos, e que se arranja sempre lugar para a mecânica.

 

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A Gaffe num rebelo

rabiscado pela Gaffe, em 04.09.17

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É pelos caminhos estreitos e pasmados como frestas que doem como cortes de papel, que eles chegam a acarretar os seus corpos de videiras. Cheiram a suor e a velho, a cestos e a pão de trigo e trazem bagos de uvas nos olhares e mostram nus outros corpos que não vejo nos corpos sujos de terra e sumo de uva. Outros corpos nus enlameados que arrancados dos braços do chão e dos vinhedos, chegam com eles de camisas rasgadas porque suam.

 

É da torção da terra, do retorcer da vinha, do leito que o vinho cava como o rio, que os homens que chegam das frestas pasmadas dos caminhos me estendem os acenos desses corpos sujos, coloridos pela noite dos lagares, esfarrapados como rosas lapidadas, e deixam do fundo da ternura que o meu Douro bêbado de mosto marque devagar a rota dos rebelos nos meus seios.

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A Gaffe de Anabela

rabiscado pela Gaffe, em 04.09.17

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Anabela Mota Ribeiro informa, com o seu habitual fastio de Greta Garbo dos chineses, que nesta edição da Feira do Livro do Porto, haverá pela primeira vez as Spoken Words.

A primeira Spoken Words dedicar-se-á à demanda de Saramago para uma melhor compreensão da sua obra.

 

Convém que os bichinhos ouçam com muita atenção, agradeçam e admirem, porque Anabela Mota Ribeiro teve a maçada de descer da estratosfera onde convive com o pensamento abstracto, com os mais complexos conceitos e com as mais eruditas vozes de peso cultural inominável, num tu-cá-tu-lá de capelinha, para comunicar aos gentios, aos terráqueos, aos pobrezinhos e aos mais desfavorecidos, que se realizarão as Spoken Words, pela primeira vez, na Feira do Livro do Porto, e que, pese embora o aborrecimento que lhe causa ter de avisar o populacho, a divulgadora generosamente permite que a ouçamos a fechar vogais num timbre onde o spleen espreita muito chique e com sotaque capaz de humilhar Sua Majestade inglesa.

 

Não sei o que são Spoken Words. Não são debates, pois que existe a palavra para os nomear; não são mesas-redondas, pois que a expressão está viva quando existe o círculo; não são conferências, visto assim se chamarem quando surgem e não são defesas de teses cultíssimas que tudo parece já mui doutorado.

 

Spoken Words provavelmente é apenas uma expressão pacóvia ouvida quando não se consegue disfarçar a parolice e se usa um estrangeirismo giro para substituir o que em português se entende como muito visto, já muito normal e sem nada de novo a esbardalhar.  

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A Gaffe para o fim-de-semana

rabiscado pela Gaffe, em 01.09.17

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Cruzamo-nos nos corredores, partilhamos horários, intervalos, pausas entre tarefas, pequenas banalidades e outras minudências distraídas, sem exigir mais do que uma amizade plana, simples e muito pouco exigente. Uma espécie de ligação de fim-de-semana, em dias úteis.

É uma mulher muito bonita. À elegância quase minimalista aliou o carisma proveniente de uma inteligência activa, muito prática e capaz - sem Mariazinhas -, responsável por uma carreira distinta e mesmo temerosamente respeitada.

Tem cinquenta e quatro anos e no cabelo uma madeixa alvíssima que teima em conservar e apurar, sem rodeios nem subterfúgios, como se fosse marca distintiva, como se fosse um aperto de mão, como se fosse um troféu de guerra, pois que surgiu aquando do fim do seu conturbado divórcio, já lá vão anos.

Recusou, de modo racional, quase obcecadamente científico, qualquer outra aproximação do amor. Um deslize mais comprometedor que indiciasse uma emoção mais envolvente, tinha sempre como resposta um afastamento definitivo, um corte imediato ou um arrefecimento global do planeta onde até o sol era contido.

Os amantes foram escolhidos com parcimónia e nunca lhes foi dada a importância dos grandes gestos amorosos, ou primazia, ou a decência que subjaz ao reconhecimento da partilha, ou ainda a possibilidade de algum, de entre os poucos, se aventurar a mais do que uma dulcíssima, pacífica e superficial ronda por aquela alma que nunca se deitou ao lado dele.

 

O actual é cerca de duas décadas mais jovem. Conheceu-o algures, não precisou.

 

É um homem muitíssimo bonito, moreno, com olhos grandes, negros, pestanudos, sorriso luminoso e sempre aberto, boca carnuda, de lábios desenhados a cinzel. Um homem meigo, tranquilo, quase pachorrento, com uma bonomia da mesma dimensão do corpanzil cuidado.

Apresentou-mo há já algum tempo. Não é inteligente. Nada existe em comum com a mulher que o fascinou. Nada. Nenhum motivo, nenhum projecto, nenhum livro - partindo do princípio que sabe ler -, nenhum som, cor, ou dimensão, nenhuma gente, nenhuma solidão, nenhum deserto ou urbe carregada, nenhum parágrafo, frase ou travessão, nenhum país dentro ou fora dela e - o que é mais trágico - nenhum amigo. 

 

Apesar de me aperceber da cumplicidade mesclada de ternura, quase amorosa, respeito e reconhecimento, visível entre os dois, não compreendi a escolha. Entendi-a absolutamente inesperada, não se coadunando com critérios e exigências antes definidos e honrados com rigor, mas não me atrevi a mover o que quer que seja, incluindo as inconvenientes sobrancelhas.

A relação, confidenciou-me, era muito discreta, muito reservada, sem grandes narrativas, sem poemas e sem qualquer espécie de vulcânicas ocorrências emocionais. Havia uma imensidão de gestos inefáveis e pouco mais e o mais, pouco valia. Não era um homem de fim-de-semana - como a leitura destes rabiscos -, mas tinha os dias contados.

 

O idílio terminou.

 

O homem mentiu.

Provavelmente não com os belíssimos dentes todos. Provavelmente nem sequer mentiu. A justificação que entregou para a falha cometida foi de tamanha simplicidade, de tão grande despojamento e imbecilidade, que é plausível que seja a verdade.

Encontravam-se sempre que existia disponibilidade. Bastava uma mensagem inócua e o encontro era marcado de modo natural, se houvesse resposta condigna.

A réplica foi dada.

A mulher foi ao encontro do amante no lugar habitual. Informaram-na que o homem se encontrava a trabalhar há alguns dias na filial mais próxima. No novo posto, o atrapalhado e espantado mocetão disse-lhe que se tinha esquecido de completar a mensagem com o novo endereço. Pensava que o tinha feito. Pensava mesmo. Que o desculpe.

A mulher não desculpou.

 

Intrigou-me.

Quis muito compreender aquele mecanismo.

O que fazia uma mulher inteligente, lindíssima, sofisticada e perfeitamente capaz de seduzir os maduros potentados que por aqui deslizam, com um bronco, vinte anos mais novo, que por muito atraente que fosse, jamais a complementaria?

 

- A velhice - disse-me ela.

 

Aquele homem era o seu último fôlego. Comprovava a sua ainda intacta capacidade de conquistar efebos, antes da derrocada das rugas. Assegurava-lhe a permanência do talento que lhe permitia atrair os deuses gregos no antigamente das estrelas.  Precisou dele para acreditar que as rugas que a vão macerando, não causam qualquer dano na sua segurança ou na sua autoestima - denunciando desta forma a sua imprevista obediência estranha ao paupérrimo conceito de beleza feminina que sempre contrariou, que sempre a indignou e contra o qual lutou a vida toda.    

 

É possível - continua - que o homem não lhe tenha mentido, mas a hipótese de o ter feito, transformou-se em agulha cravada no orgulho. Bastou uma leve brisa que passou ténue e que lhe entregou a dúvida, a insidiosa suposição, o possível facto do homem ter mentido por não querer ser visto ao lado dela no seu novo cargo, para que a falência da ilusão viesse em tornado. Não lhe perdoou ter de admitir que se vai transformando numa velha e que esta condição lhe entrega em simultâneo a consciência de ter ultrapassado um prazo de validade.

 

Obedece nesta última revelação ao estipulado, ao normalizado, ao normatizado, ao preconceito, ou ao estereotipado - tudo o que se queira, que somos capazes disso tudo. Rende-se ao peso do olhar feminino e jovem - desejado -, que tomba dos cartazes colados pela vida fora e descobre que as rugas não contam histórias, não são frases, nem crónicas, nem riscos, nem narrativas épicas dos trechos que vivemos. As rugas são apenas sulcos na pele. Terríveis sulcos. Feios sulcos indeléveis que apenas asseguram a incapacidade de regeneração celular. As rugas são apenas velhice. Ninguém as lê. São cartas de cartomante. Não dizem nada.

Vai agora entreter-se e divertir-se com as paliativas lengalengas que inventaram para iludir a velhice.  

 

- É mentira o que nos dizem. Envelhecer é medonho, digam tudo o que quiserem. Tomamos consciência das cordas que nos atam à morte. Envelhecer é terrível e precisava de alguém que me mostrasse que estou velha. Desde novinha que sei que tinha de ser eu a encarregar-me disso.

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A Gaffe de patins

rabiscado pela Gaffe, em 30.08.17

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 Aos vinte, uma mulher desliza de patins em linha ao encontro da porta seguinte que se abre para que entre nos trinta depois das piruetas, rotações, círculos, diagonais, serpentes e rectas.

 

Aos trinta, os patins adquirem o domínio técnico do Lutz, do Toe Loop, do Axel e Duplo Axel, do Salchow e sobretudo do Avião Base. A mulher aprendeu que patinar é para ela tão fácil como guiar um Jaguar, de saltos altos.

 

Aos quarenta a mulher percebe que o ringue se vai transformando em pista de ski e de snowboard e troca os vaporosos patins pelo equipamento adequado que a fará chegar à casa dos cinquenta.

 

Aos cinquenta, passeia pelos bastidores da competição depois de exibir a mestria de quem ganhou medalhas, olhando da esquina do seu know-how as debutantes que experimentam olear as rodas.

 

Dos sessenta em diante, decide tirar carta de pesados.A estrada é curta daqui para a frente, mas convém que as rodas sejam resistentes, que a direcção já não é às curvas. A partir dos setenta vai em roda livre sem saber para onde, sem saber porquê, sem saber para quê e sem se lembrar para que serve o travão de mão. Se tem de se esbardalhar, que seja com o volante do Vin Diesel.

 

Todo este percurso atribulado mistura em cada lanço o masculino.

É fácil distingui-los. O homem percorre sempre o dele de triciclo.   

 

Ilustação - Fernando Vicente

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A Gaffe sem trono

rabiscado pela Gaffe, em 29.08.17

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Vejo-a agora de veludos pretos. De brocados pretos. A sobreposições de texturas pousadas na palidez doentia dos que estão sozinhos, que a palidez é mais densa nos que são deixados. A coifa geométrica a resguardar-lhe o pudor dos cabelos presos. A redonda gola de renda de Flandres, amarelecida pelo amido que a entretela. O crucifixo preso por correntes de ouro a baloiçar entre os mamilos esmagados pela tábua do espartilho. A cinta quebradiça, vislumbre de nada. A cinta que a asfixia. O raso triângulo rígido depois. Bordado. Em relevo. O galrear rouco do rasto do vestido sobre as pedras. As mãos sem anéis. Esguias de rezar. O rancor viúvo por três vezes. O suor nas axilas. O suor nos pêlos púbicos que a agoniam pela evidência de trazer no corpo sexo, pecado e morte.  O peso desmedido do que arrasta. Véus como teias. Véus de pedras.

 

Vejo-a de joelhos, trucidada pelo peso do sacrifício do Cristo, a desfiar contas de rezas latinas. A cravar o peito de veludos baços os socos mais contritos. À espera que a matem, à espera da coroa, que o reino tarda e a morte é ruiva.

 

Vejo-a velada pela ténue trama do erotismo preso no martírio do homem pregado. Do homem em cruz que a ajoelha, na cruz, de corpo nu, e sangue, e feridas.  

 

Maria da Escócia.

 

Então percebo. Foi sempre a solidão, que é uma outra morte. A que vem connosco, ajoelhada.

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A Gaffe com dois bichinhos

rabiscado pela Gaffe, em 28.08.17

 

Quando dois dos mais belos animais do planeta se unem, fica demonstrado:

 

- Que uma rapariga esperta reconhece o par de bichinhos que enfiava na sua arca do dilúvio.

 

Obrigada, meu querido, por ter provado que tenho razão.

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A Gaffe na Editora do Porto

rabiscado pela Gaffe, em 25.08.17

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