Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe e a prostituta

rabiscado pela Gaffe, em 26.08.16

prost..jpg

Lembro-me como descobri o miserável preconceito que carrego.

 

Era Inverno e o homem olhava sem perceber que o via. Habituei-me àquele olhar e sei de todos os lugares onde ele chega ou nos quer levar, porque se vê de longe.

 Levantou a gola grossa do casaco azul de marinheiro, apertou os botões velhos com âncoras gravadas e uniu com força os dedos enluvados de modo a que o couro das luvas se ajustasse melhor aos movimentos das mãos. Sorriu com vento e gaivotas empurradas aos gritos e aos guinchos no meio de rajadas com uivos de frio.

Ouvia o barulho das abas do mar batido e encolhia os ombros, curvava ligeiramente a coluna a tentar esconder a face exposta ao frio, afiando a cabeça na direcção do vento, a seu favor - do vento, que tem apenas um casaco marinheiro abotoado.

Adivinhava-lhe as mãos geladas. Escondia-as cruzando os braços, enfiando-as nas axilas e batia com força cada passo que dava no granito do passeio de modo a que o vibrar da pedra assim batida lhe quebrasse a certeza de que o gelo lhe ferrava as solas dos sapatos.

 

A mulher aproximou-se.

- Tens lume? - uma minimalista.

Não. Não tinha lume.

 

Brincou, reproduzindo o estafado apalpar dos bolsos e disse de súbito aquilo que eu sabia:

- Mas tenho um corpo lindo! - fez aparecer na cara duas covas ao sorrir.

Apesar do queixo voluntarioso, o nariz aquilino e a forma como as madeixas de cabelo se comportavam como asas de pássaro apanhado em desespero de armadilha, mantinha um ar tímido que o frio acentuava entregando a sensação de que havia pressa nos olhos ansiosos daquele homem. Uma aceleração das emoções ou dos desejos, uma urgência de dizer o que não quer, provocadas pelo medo de gelar, de ser picado pelas gaivotas que gritavam lancetadas pelo vento como farrapos de cabelo desnorteados.

 

A mulher tinha feições que esqueceria logo que o vento amainasse e o meu casaco se fechasse sobre o entardecer friorento de outra praça, de outra Avenida e de outros rostos. Era loira, oxigenada e frisada e afagava os cantos da boca inflamada de batom. Apenas isso.

- Não beijo na boca - minimalista e rotineira.

Diz-lhe depois dos preços com a serenidade de quem atira um orçamento que se sabe pobre e sustentável.

 

- Não tenho dinheiro e beijo bocas.

- Só faço isto por causa das propinas.

- Tenho a certeza que sim, mas não tenho dinheiro e beijo bocas. Desculpa.

 

Ofereceu um serviço mais barato e não abrandou o passo quando o recusaram. Seguiu-o e falou-lhe de praças desertas nas horas mais pardas e nas avenidas paradas como esconderijos. Deixou-se de saber se é negócio ou ócio o sexo daquelas prestações.

Desceu as escadas. Depois o declive que a levava a areia. Encostou-se ao muro à espera com a mão na virilha e os olhos levantados de promessas por orçamentar.

- Tens de procurar outro. Eu estou só à espera de uma amiga.

 

A gola do meu casaco grosso levantada e o vento a zunir à minha volta.

- Vê o que as tempestades nos podem fazer.
Estava mais velho o homem e ainda mais perfeito por estar só. Todas as solidões são maiores que a vida.

Afastou-se a mulher oxigenada e de unhas pintadas de vermelho do muro das promessas e das propinas por pagar.

 

- Eu sei que tu tens lume – murmurei-lhe.

Com o braço marinheiro cobriu-me o ombro e num sussurro que o vento apanhou e fez desfeito:

- Um pouco mais de sol, eu era brasa.

 

Foi este exacto momento que me fez perceber que jamais conseguirei compreender as prostitutas. Nunca entenderei esta espécie de violação consentida a troco de dinheiro. Não concebo qualquer razão que a justifique e sinto que a redenção, o aclamado heróico redimir, o engrandecido já fui, mas já não sou, não é mais do que uma espera até que a vida encontre novas pedras que fazem tropeçar.

Não consigo - não quero - aliar-me aos benévolos e benevolentes que conquistam a força de carpir a infelicidade que empurra estas mulheres para estas esquinas, nem sei sequer admirar e ampliar as que se dizem delas descoladas.  

 

Até o vento a ganir não apaga, não empurra com um golpe de asa, uma mulher que se sente a desfazer.

 

Ilustração - Beesse para A Gaffe e as Avenidas

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe reencontrada

rabiscado pela Gaffe, em 23.08.16

BoyIsMine.jpgAmar Paris não tem que se lhe diga. Basta encontrar numa outra língua, de repente, declarações de amor numa rua que tem o nome do velho Cardeal.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe regressa às Avenidas

rabiscado pela Gaffe, em 19.08.16

Gaffe o regresso.jpg

Ilustração - Beesse para A Gaffe e as Avenidas

 

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe presente

rabiscado pela Gaffe, em 08.08.16

now.jpg

 

Provavelmente já não vos sentirei a passear por estas Avenidas.

Esta tontice, que pela primeira vez agendei, não será revista como é meu costume sempre que vos ouço.

A esta hora o voo teve já início e esperam-me palácios e templos cravados na mais extraordinária das miragens, no mais improvável dos imaginários.

Não levo nada nos olhos, não tenho nada nas mãos, a não ser a minha quase sempre tonta capacidade de me deslumbrar, de ficar muda, queda, emocionada com tudo o que ultrapassa o meu parco entendimento.

 

Tenho exactamente dez dias para me render, partindo já rendida, aos enigmáticos rochedos que em conchas surreais escondem os rendilhados com que se esculpem os milagres. Dez dias e depois mais outros cinco para retornar à larga lassidão e à melancólica melodia dos passeios de Paris por onde vaguei, deixando trepidar as ruas num esvoaçar de flâneur.


Já tenho saudades vossas!

Esperem um bocadinho por mim.

Eu volto já.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe esperada

rabiscado pela Gaffe, em 06.08.16

1.17.jpg

Começou a contagem decrescente.

A Gaffe entra em férias dentro de muitíssimo pouco tempo e confessa que as merece.

Nunca um ano foi tão trabalhoso e lhe entregou tantos dissabores - as alegrias não deixam rasto, embora reconheça ter tido inúmeras.

A irmã decidiu ser magnânima e demonstrar que ainda há uma ténue possibilidade de ser considerada humana, agendando e marcando tudo aquilo que havia para agendar e reservar - um escândalo a GALP não se ter prontificado a apoiar a viagem. 

 

Esta rapariga acaba de ultimar as tarefas que atrasou e ouve o barulhinho do telemóvel do Segurança. Salta-lhe de súbito a imagem do rapaz. É vaga e ténue, mas a Gaffe sabe que pode ganhar corpo mais sólido.

 

Desce as escadas.

 

É quase infantil a atenção com que o mancebo vai reproduzindo e escolhendo os toques do aparelho. Carrega numa tecla e ouve-se uma buzina, toca numa outra e solta-se um pio fino, empurra a mais vermelha e sai um apito.

Assusta-se quando a vê.

 

- Ainda por aqui?! Então ainda não escapou deste manicómio? - simpático o moçoilo.

Que está à espera do carro. Sai em breve.

- Este ano vai fazer férias lá para cima?

- Não. Desta vez não. Creio que vou para os lados - sorri enquanto tenta barrar-lhe a única saída.

 

Largou o telemóvel. Está nervoso. Não sabe o que dizer e fica atento a todos os seus gestos. É este despertar de uma atenção, inútil em princípio, esta vigilância súbita dos gestos, este esquadrinhar quase assustado do que a rapariga faz, que lhe provoca e garante que aquele recear que cresce nele não é apenas o arrepio daqueles que se cruzam por acaso.

Aproxima-se e pousa-lhe a mão no ombro. Está quente, debaixo da camisa. Tamborila depois nos músculos das costas que se adivinham tatuadas e sente-os retesados, tensos e agressivos.

Debruça-se de manso sobre o balcão onde o rapaz pousou o aparelho. Há que lisonjear a compra que ele fez! A cara está a centímetros da boca dele e ela sabe que o rapagão embutiu o olhar na sua pele.

 

O ângulo é propício. A inclinação exacta.

 

A cabeça do rapaz baixou e sente-o a respirar o seu cabelo. Roda e quando percebe que tem de se escapar ouve o pavoroso estrondo da buzina.

- O carro! Agora sim, vou embora.

- Pois é. Boas férias para si e para a família  - sorri e volta a pegar no telemóvel - um dia havemos de terminar esta conversa. Fico à espera.

 

Não.

Não há modo nenhum de se acabar em linha, mas a Gaffe gosta de inocentes e ingénuos brutamontes com a fragilidade disfarçada a força de tatuagens.

Sobretudo dos que esperam.

 

Existe algures nos corpanzis dos guerreiros um minúsculo botão, despercebido, uma nuance da secreta consoante, um círculo pequeno, uma luzinha pisca, a mínima rodinha saliente, um ponto, um til, que se bem tocado os faz despejar o peito e os transforma em frágeis passarinhos distraídos.

 

... E a Gaffe gosta tanto do piu-piu!

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe italiana

rabiscado pela Gaffe, em 05.08.16

1.10.jpg

Chissà perché oggigiorno le ragazze
Van tutte pazze pei marinai ...
Non sanno che bisogna diffidare,
tra il dire e il fare
c'è in mezzo il mar ...

Signorine non guardate i marinai
perché, perché
vi potranno combinare certi guai
perché, perché ...
Coniugando il verbo amar
Lor v'insegnano a nuotar
Poi vi lasciano affogar.

Signorine non guardate i marinai
perché, perché ...

Francesca Nerozzi & Le Sorelle Marinetti


A canção é de 1943 e previne apenas as signorine mais propensas a naufrágios. A Gaffe não acredita, portanto, que o aviso se dirija também a si.
Para além disso, o Capitão Gancho é muitíssimo inglês e o Cabo de Mar italiano que passa férias em Paris, não é cantado em 2016.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe shakespeariana

rabiscado pela Gaffe, em 05.08.16

Carmelo Blazquez Jimenez.jpg

Acabei de reler Hamlet.

 

Confesso que Shakespeare sempre me assusta um bocadinho e este macabro príncipe dinamarquês é uma das suas figuras mais ínvias, mais esconsas e mais complexas, sem nunca deixar de ser uma das mais perfeitas criações literárias de toda a Literatura universal.

 

Ninguém como Hamlet, em página conhecida, atravessa a loucura, real e imaginária, tocando aquilo que é opressivo, sofrido ou em fúria. Ninguém é tão angustiantemente vingativo, amoral e imoral, retendo nas mãos em simultâneo uma espécie de ética individualizada arrasadora e muitas vezes mórbida.

 

Sempre me incomodou imaginar este príncipe que acaba por entregar, de acordo com a crítica, a coroa da perfeição literária à peça mais longa de Shakespeare. Sempre tive algum receio de o visualizar. Esperava sempre que me entregassem as visões que encenadores e realizadores dele tinham, até que de repente me esbardalho contra o único Hamlet que acolheria sem sombras e sem peias no meu principado. Não é propriamente muito soturno, mas tem a caveira para balançar.

 

Depois disto, nenhuma rapariga esperta é capaz de dizer que ler não é sexy.  

 

Foto - Carmelo Blazquez Jimenez

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe rapariguita

rabiscado pela Gaffe, em 04.08.16

 

Cresço tão devagar que há uma pequena rapariguinha sempre à minha porta, como se me viesse pedir qualquer coisa.

 

Já não me lembro como era. Já não me sei miúda e no entanto basta olhar para a rapariguita que à minha porta olha para dentro das coisas. Dentro dos olhos da menina eu apanho-me a crescer tão devagar que me sinto a pedir que me levem ao colo ou que me tragam doces de amora ou de cereja.

 

Às vezes não cresço nada. Fico igual à pequena rapariguita que vejo. Apetece-me jogar à cabra-cega pela vida fora. Deixar que me atem os olhos com um lenço branco - tem de ser branco - e continuar cega a tactear o escuro que vem dentro das caixas dos presentes de Natal até se desatarem os laços. Até que eu e a criança que me vem pedir coisas os desembrulhemos para soltar a luz cá dentro.

 

Às vezes cresço mais que a menina que me olha. Não gosto de crescer mais do que ela. Fico minúscula e assim minúscula não jogo à cabra-cega, porque o lenço branco que me tapa os olhos escorrega e deixa-me ver o chão onde pousaram os presentes de Natal ainda nus, sem laços, sem escuros dentro.

 

Já não sei se nós, eu e a pequena rapariga que fica sempre à minha porta, gostamos de crescer. Olhamos uma para a outra muitas vezes. Ela pergunta-me por mim, como se me viesse pedir qualquer coisa. Nunca lhe respondo. Não sei se cresci para lhe dizer que nunca me encontro, que não sei de mim, que talvez ela me traga no bolso, junto das nódoas de cereja e de fitas de cetim com que juntas atávamos as prendas de Natal.

 

Às vezes fica à minha porta, como se viesse pedir para não crescer.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe e as sete condenações

rabiscado pela Gaffe, em 04.08.16

 

Uma ruiva no meio de um grupo de veraneantes bronzeados produz o mesmo efeito que as marcas dos fatos de banho no corpo dos ditos. Torna-se facilmente o alvo de todos os olhares. Bastante maçador.

 

É mais do que sabido que as ruivas não se bronzeiam, mas este minúsculo senão tem as suas vantagens. Uma ruiva não precisa de se esbardalhar ao sol, braços estendidos, pernas abertas e boca escancarada até que a melanina cumpra o seu dever ou se entre em coma, aproximando o cérebro da vítima do sargaço apanhado por ancinhos nas praias do Norte, para que se cumpra a promessa dúbia de um corpo tisnado.

 

Uma ruiva é capaz de se manter alerta do cimo das suas esplanadas, de óculos de sol muito Jackie O., de capelina de palha finíssima ou lenços Vuitton e de esvoaçante vestido de seda estampada de fazer inveja a Delaunay.

Se está aborrecida com as páginas que vira ao sabor da brisa e do voo das gaivotas, pode observar o povo de cuecas e de lingerie fabricadas propositadamente para a saison.

 

Nestas suas panorâmicas incursões pelo areal, a ruiva é capaz de reconhecer aquilo a que chamará os sete pecados banais que os rapazes cometem sem se aperceberem que cada um deles pode ser letal ou arruinar o Verão inteiro deixando-os com a sombra da debilidade mental agarrada à imagem.

 I

Não biquineis a mulher do próximo nem a rapariga que vem ali ao longe -  Um biquíni que vos entra para o olho, rapazes, é milhares de vezes mais perigoso que um grão de areia. Normalmente infecta e muitas vezes só se consegue retirar enterrando na córnea a pá do baldinho do petiz que nos queima o sossego mesmo ali ao lado, antes, claro, de vos ser enfiado o balde nas trombas.

 II

Abanar a toalha a favor do vento e contra o nosso corpinho tocado pela brisa é tão perigoso como tentar sacudir as velas do Sagres no meio da borrasca.

Acreditem rapazes, não apreciamos um marinheiro de fraldas areadas que receia sentir picada a mimosa pele ou que com a mania das limpezas nos trata como candidatas a panados. Princesas-ervilhas só as ruivas de boas famílias.

 III

São letais os salpicos de água com que tentais provocar-nos um choque térmico, quando procuramos entrar devagarinho no frio do mar com o corpo saído debaixo dos raios que abrasam.

Não é engraçado, rapazes. Só nos apetece bater-vos com uma piranha até que o animal fique com os dentes do Paulo Portas.

 IV

Similar ao anterior, mas ainda mais grave. Consiste em suspender o corpo encharcado, saído do banho ainda a tremelicar, sobre o nosso, quase adormecido à sombra das palmeiras.

Meus queridos, se quiséssemos ter alguém a pingar o que quer que seja nos nossos corpos calientes escolhíamos o George Clooney.

 V

Ficar de boca aberta, babada, de barriga para o ar, de pernas escancaradas e bermudas a dar-a-dar ao vento, não é de todo charmoso. Se a posição for acompanhada por um ressono beatífico que confundimos com o ronco do farol, é caso para vos espetar com o primeiro casco de navio naufragado que der à costa ou  cravar na vossa testa o primeiro mastro valente que passar - e na praia sempre vão passando alguns.

 VI

Arrastar-nos pelos pés ou levar-nos ao colo para dentro do mar. É deselegante. No primeiro caso ficamos com areia enfiada em sítios inconvenientes e com vontade de vos arrancar o fígado com a pá do miúdo que já foi útil em ocasiões anteriores - a pá, porque o miúdo só serve como porta-armas. No segundo caso, ficais com as pernas arqueadas, esbaforidos e a arfar, e nunca, mas nunca, conseguireis recriar uma cena do E tudo o Vento Levou sem que a Scarlett que transportais não sinta que vai ao colo do Woody Allen.

 VII

Dizerem-nos que o guarda-sol está bem fixo para, passados instantes, o ver cravado nas maminhas da senhora a cem conservadores e pudicos metros de distância, é irritante. É claro que sabemos como o cravar convenientemente na areia. O salva-vidas deslumbrante passou todo o dia anterior a ensinar-nos o modo mais eficaz de o segurar, mas deixamos para vós as tarefas que exigem um pouco mais de esforço. Se não conseguis seduzir-nos com um sombreado seguro, é certo que nos abrigaremos à sombra dos músculos do professor da véspera.

 

O conhecimento destes sete pecados banais é imprescindível para que não vos torneis, rapazes, um daqueles bonecos insufláveis que o miúdo da pá costuma usar para apoiar o banhinho. 

 

Vá. Decorem. 

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe psicóloga

rabiscado pela Gaffe, em 03.08.16

TV.gif

 A Gaffe está surpreendida com o linchamento público de Quintino Aires.

 

Irrita imenso perceber que quando uma criatura diz o que pensa com a perspicácia desempoeirada, com a argúcia e objectividade construídas com o saber e com a experiência deste emérito psicólogo, é trucidada por uma matilha de esfomeados.

Perante Quintino Aires somos todos como o Velho do Restelo. Tentamos impedir que as naus abram caminho na lauta ignorância do populacho. Por muito que a barcaça abane, seria de esperar que o farol brilhasse apontando o rumo e proclamando sem teias ou véus os nojos de gentalha que nos enche os jardins dos hospitais quando um dos membros é internado e que nos polui com ossos de frango e cascas de bananas as gardénias em flor e a relva aparada na véspera.

 

Meu querido Quintinito - permita que o trate assim, tem mais salero, - o menino tem toda a razão e se mais houvesse sua seria. A ciganada é propensa a tráfego de droga, a mendicidade, a gatunagem e - livre-nos Deus - bate nas pessoas a troco de algumas migalhas. Não se sabe vestir – o look hippie-choc nunca foi tendência digna de gente de bem, - e lê a sina – pormenor que o menino faz muito melhor e de um modo obviamente profissional quando nos deslumbra com as suas análises a concorrentes com cérebros enfiados no rabo da Teresa Guilherme ou analisa de modo profundíssimo e altamente qualificado casos que o Goucha vai desenterrar nos esgotos da miséria humana e que aparecem documentados num slide e num slogan pregado na lapela da falta de ética.

 

Meu querido Quintinito, a Gaffe lamenta apenas que não tenha unido às características tão bem enunciadas destas gentalhas horrendas, o facto de serem POBRES. São gentes pobres e não adianta referir a chuto de bola o Quaresma, porque ser pobre também é vestir uns calções pretos pelo joelho, uma camisa estampada e justíssima, desenhar palermices no cabelo e chegar a um evento nestes preparos e ainda por cima acompanhado por uma senhora muito apertada, que dobra o joelhinho e levanta o pé quando é fotografada e, miséria, com um cabeleireiro de guetho.

Não tema represálias desta gente perigosíssima. Os ciganos também são muito supersticiosos e dizem que não se aproximam de sapos. Pode portanto ser sincero e continuar a deslumbrar-nos com os seus poderosos comentários.

 

A Gaffe deve no entanto anotar que não simpatizou ao ouvi-lo dizer que fazer sexo com animais aumenta a ligação entre o ser humano e a natureza.

A Gaffe desconhecia que o menino vive numa quinta muito inclinada a místicas comunhões com o Todo Natural e compreende as suas elevações e flexibilidades ecológicas, mas confessa que ficou um bocadinho incomodada tendo em conta que o rapagão que a acompanha é engenheiro agrónomo, vive no Minho - província infestada de bicharada - e tem uma plantação de bois e de vacas. Sabe, para seu descanso, que o rapagão é um cavalheiro e que não se envolveria com nenhuma cabra ou nenhuma vaca sem pelo menos as levar a jantar e a um desconserto e a um concerto do Libarece - ao contrário de imensos ciganos, - mas, como referiu, a celebração das nossas origens é sempre um evento a que raros faltam. Todo o cuidado é pouco. Estamos descansadas a ler a Vogue e PUMBA! somos traídas com uma porca, uma vaca ou uma cabra - não faz ideia como isto é recorrente!  A Gaffe tem apenas de se lembrar que deve afastar de si a Chihuahua que lhe ofereceram. A bichinha é ainda muito jovem e pura e a Gaffe receia que o menino aproveite para tratar, como disse e muito bem, a patologia social que é ser-se virgem, afastando dessa forma prejuízos para a saúde pública.

 

A Gaffe congratula-se ainda por o ouvir a proibir ou a desaconselhar as mamãs a ministrar aos rebentos o que foi prescrito pelos médicos. Haja bom senso! Haja contenção! Afinal basta o Quintino Aires para nos provar que a falta de medicação na infância, é perfeitamente capaz de produzir psicólogos.

 

Querido Quintinito, o menino persista. O menino apareça. O menino continue. O menino comente. Vai ver que se transforma a muito breve prazo numa pequenina espécie de Trump da psicologia.    

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe envelhecida

rabiscado pela Gaffe, em 02.08.16

2.jpg

A Gaffe às vezes sente-se velha.

Tem trinta e pouqíssimos anos e, às vezes, sente-se amarga como um daqueles trapos que se depositam nos lares para serem pendurados no esquecimento mais ou menos descansado.

 

Há uma espécie de velhice fora do tempo, como um Verão de S. Martinho ou como um dia de tempestade no que se espera ser o Verão de S. Martinho.

 

A Gaffe acredita que à sua volta sempre teve velhos. Mesmo quando era mais nova, os novos, os da sua idade, também pareciam velhos. A velhice deles, uma espécie de velhice sacana e matreira, estava, não no modo como o reumatismo os curvava ou nas dores dos rins e nas alterações da próstata, mas na capacidade que tinham - mantida sempre jovem - de captar com atenção e de conservar com humildade o que acreditavam ser o conhecimento.

O conhecimento - ou se quisermos a sabedoria, - já se sabe, faz frequentemente apodrecer a vontade de sorrir e extingue-nos a sensação de felicidade que mantemos pertinho do coração para enganar as tripas, mesmo sabendo que pode ser feita de pão que o diabo amassou. A felicidade, ou a ilusão dela, funciona como um creme rejuvenescedor, com a vantagem de o podermos fabricar sozinhos. Às vezes é também botox, mas a Gaffe deixa as máscaras para outra altura.

 

Sendo o espaço do conhecimento possivelmente incompatível com a arquitectura da felicidade e sendo a felicidade um factor essencial para manter a juventude em forma, resulta que os sábios são todos criaturas infelizes com o coração encarquilhado.

 

Não sendo sábia, a Gaffe é portanto uma rapariga feliz. Não devia sentir-se velha, às vezes. Não devia sequer achincalhar a felicidade como coisa que se inventa para se enganar as tripas.

Sempre lhe disseram que a velhice é uma construção mental, que a idade que conta é a do espírito.

Mas o que é isto do espírito? Que construção mental faz a velhice?

A Gaffe às vezes sente-se velha, sem construções mentais ou espíritos que contam.

 

Apetece-lhe ser feliz.

Pensa em ser feliz frequentemente, mas não sabe se há velhice para isso.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe petraficada

rabiscado pela Gaffe, em 01.08.16

borbol..gif

A Gaffe prepara-se para dentro de poucos dias encetar as suas férias, hesitando no destino que lhe deram os que tratam da maçada que é marcar hotéis e dominar papelada.

A verdade é que Petra deixou de ter o atractivo que brilhou aquando da eleição.

A Gaffe receia escavacar e esburacar aquilo tudo com os tacões agulha dos seus Manolo Blahnik e ficou desiludida quando soube que os templos ainda não tinham sido transformados em hotéis de charme. Acresce que teme que logo após a sua visitinha, desabe sobre as pedras a catástrofe. A Gaffe recorda ainda a tragédia que tombou sobre a Madeira poucos dias de a ter abandonado, quando o deputado José Manuel Coelho escaqueirou o hemiciclo com as suas cuecas parlamentares.   

 

Há contudo um pormenor que a cativa.

 

Petra é propensa a meditações.

A Gaffe há já algum tempo que decidiu voltar-se para si, para o seu interior, para o seu Eu mais profundo, para a descoberta do sentido da vida e da morte, para o transcendente e para o Altíssimo.

Esta rapariga quer voltar mais intimista, mais altruísta, mais meia-maratona cheia de laços, mas voltada para as causas humanitárias, mais a olhar para os pobrezinhos, mais doce, mais purificada, mais caseira, com mais fotos da sobrinha, com mais fotos de piqueniques e de chás a fumegar de caridade, com mais descrições da felicidade que todos merecemos, repleta de borboletas e com muitos mais apelos à solidariedade humana.

 

A Gaffe coloca mesmo a hipótese de abandonar estas Avenidas e criar um novo, amoroso e delicado blog onde se espalhará esta sua inovadora faceta de mulher-dádiva, de mulher-família abençoada, de mulher-solidariedade, de mulher voltada para exterior dorido, capaz de se tornar lenitivo para as agruras do quotidiano dos mais infelizes com a sua visão positiva e energética, capaz de se esbardalhar a correr por causas justas e cãezinhos abandonados.

 

A sua equipa de apoio forneceu já algumas sugestões para o nome deste seu renovado alojamento. Embora tenha tido de correr à paulada alguns dos seus criativos – a Gaffe ainda não está mergulhada no pacifismo que se requer, - esta rapariga reconhece que a boa vontade começa já a brotar do chão alcatroado destas secas Avenidas. Cáca na Dodot ou O Puto Borrou-se são alvitres a considerar, pese embora o primeiro caso traga dentro uma indirecta publicitária que não é apropriada sem retorno financeiro.

 

Petra será sem dúvida o lugar de renovação e certa epifania. O local de onde a Gaffe ressurgirá avessa a qualquer quezília de somenos importância e capaz de acolher sem sombra de irritação uma Coimbra de capa negra e anónima que num comentário enigmático e minimalista lhe chamou puta.

A Gaffe reconhece que perante a chafurdice inimaginável que acontece no blog Jugular - a Gaffe não faz um link porque receia ter depois de apanhar com os Artigos da Constituição da República e os do Código Penal, a par de um manancial de impropérios do tamanho e força dos crocodilos do Nilo - envolvendo Fernanda Câncio à estalada a outros jornalistas de reconhecido nome e créditos firmados como opinion makers - e o vice-versa nunca foi tão respeitado, - o epíteto com que a brindaram não passa de um miminho de criança fofinha cuja foto se publicará no blog a incubar.

 

Volta Maria José Portugal Portugal! Voltem todas as psicóticas até agora perseguidas por esta rapariga maquiavélica e usurpadora de talentos!

 

Desde que não petrafique, a Gaffe tornar-se-á a dona-de-casa das meias-maratonas solidárias.

 

* Post escrito em parceria com o o Instituto de Entomologia de Glasgow

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe em casa

rabiscado pela Gaffe, em 30.07.16

Henri Cartier Bresson.jpg

 O lugar a que chamamos casa é aquele que nos iliba, que se inclina sobre a memória e que nos amansa as réstias de passado que despertam de súbito quando há distância.

 

Há longe e casa, pedaços de gestos soltos à toa, traços de estradas, riscos de janelas, lanços e declives, minúsculos esboços, linhas ou sulcos, delineados movimentos que mal vemos, mas que sacodem cá dentro as memórias do que foi e, sobretudo, a memória do que nunca aconteceu e que lamentamos não ter sido.

 

Regressar é como sentir o solavanco, o travão medonho, a interrupção daquele salto que trazia preso ao tornozelo a corda que nos salva antes do solo.

Regressar é como retomar o esquecimento. 

 

Foto - Henri Cartier Bresson

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe retroparva

rabiscado pela Gaffe, em 29.07.16

haderer_14110.jpg

Fui assistir, há tempos, a um concerto ao ar livre dado por uma banda muito interessante. Uma homenagem a Tom Jobim. Esvaiu-se o nome da banda e o da vocalista. Só sei que era brasileira e que tinha uma voz muito bonita que não envergonhava o Jobim. 


O que me esfacela o entendimento é a cambada de homens que serigaita sempre nestes acontecimentos. São quarentões já rançosos, alguns já entrados nos cinquenta, geralmente barrigudos com pernas fininhas, mas muito cool. Muito Willie Nelson. Muito country.

 

Usam pólos deformados, azuis ou pretos ou então t-shirts lisas, gastas e todas mal amanhadas; sapatos moles, com aspecto de nunca terem visto melhores dias ou sapatilhas mais que ressequidas; Jeans descaídos, sem cinto, bastante sujos e com mau aspecto e um inseparável saco de couro muito usado. Trazem o cabelo mal cortado, com umas madeixas na nuca todas oleosas ou usam um rabo-de-cavalo raquítico, embora sejam quase carecas em cima. Fumam sem parar coisas que fabricam com a perícia de um ourives, não percebendo que o que nos mata deve chegar já feito. Vão buscar as cervejas, com uma rapidez fulminante, e bebem-nas quase sempre pela garrafa ou deixam os copos vazios pousados em todo o lado. Não se sentam, mesmo havendo cadeiras à disposição por todo o lado, para se esbardalharem à nossa frente e serigaitam para trás e para diante como se tivessem grandes planos para o resto da noite. Falam alto e bom som acerca do que ouvem para mostrar que estão por dentro; criticam o tom da voz que canta, com ar muito conhecedor, e referem a data em que a canção foi escrita - fiquei a saber que há canções do Jobim com 50 anos que são ouvidas hoje como se tivessem sido escritas ontem. Nestas andanças, as irritantes criaturas não olham para ninguém. Entram e saem para trazer bejecas com os olhos de quem está a cumprir uma missão em África e desatam às gargalhadas vá lá a gente saber porquê, mesmo no meio do refrão. 


Quem os acompanha são normalmente raparigas iguais. Muito modernas, com calções curtinhos e casaquinho de malha fininha e deformada, por cima da t-shirt com logos gigantes ou citações revolucionárias; cabelo desgrenhado e volumoso, espigado, e chinelos do tipo havaianas, mas decorados com umas florecas murchas, todas retro. Bebem brandy que também trazem cá para fora. Há as que empurram carrinhos com crianças dentro que, suspeito, provam as bebidas dos pais antes de sair de casa, porque estão sempre a dormir e com ranho seco no nariz.

 
Comecei por achar que não passavam de representantes do estereotipado intelectual de esquerda gasta, mas sou nova e não penso. Da esquerda só os que são canhotos. O resto é maneta. 


Há-os por todo o lado e desfazem por completo o prazer que há em se ouvir em sossego uma canção de Jobim. 


São os retroparvos.

 

Ilustração - G. Haderer

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe uniformizada

rabiscado pela Gaffe, em 28.07.16

Pawel Kuczynski.jpg

Pela brevíssima brisa anoitecida, a Gaffe sacode os caracóis, faz esvoaçar o vestido azul petróleo de seda fresca e com o allure que chega dos anos 50, flutua na Avenida, alterando o sossego do mar.

 

O que se lhe depara é um cenário de um filme de ficção científica de miserável categoria.

 

Gente vergada, iluminada pela luz azul de rectângulos que vibram presos à mão, que caminham sem ver, que palram e balbuciam monossílabos, com todos os tubos ligados à Nintendo, que param e disparam com um dedo que sorri depois, que arrancam das mãos esfomeadas dos petizes a ganância e a incontrolável vontade de apanhar as bolas no banco que foi detectado no brilho de espectro do pequeno aparelho.

 

Caçam Pokémons.

 

A Gaffe repensa a uniformização da infantilidade, a globalização do inútil que se desculpa com o movimento que impulsiona, e decide procurar alguém que mereça o cantarolar da última diva de Hollywood, uma das suas mais esplendorosas deusas, a que merece ser encontrada em qualquer ponto do globo. Ruiva, como não podia deixar de ser.

 

Pokémon por pokémon, que, pelo menos, se consiga uma resposta.

 

Ilustração - Pawel Kuczynski

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)





  Pesquisar no Blog







Copyrighted.com Registered & Protected 
JIFR-J5MR-Y1XR-YACD