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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe e o caninho de medo

rabiscado pela Gaffe, em 28.09.16

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Há no Douro uma mulher madura e opulenta, com os dedos gretados a cheirar a alho esmagado e nádegas roliças que senta no banco comprido, à mesa, depois dos homens terem devorado o que ela cozinha e abalado.

Tem na frente uma malga de azeite com alho triturado, sal, cebola em rodelas finas e salsa esmagada. Vai molhando dentro pedaços de pão de milho. Atenta e sossegada.

 

- A menina quer um caninho de pão?  

Um caninho!

 

Um caninho de pão e eu com medo. Medo de não gostar do caninho de pão. Medo que ela descubra que fui eu a pecadora que no ano anterior atirou para dentro da cisterna a fatia de pão embebido em leite e polvilhadas com açúcar e canela.

 

- Mais outra, menina? Tire mais outra! Se comeu uma tão depressa é porque gostou. Tire outra e não se acanhe.

 

Eu acanhada a retirar outra, com o primeiro pedaço da primeira a empapar-me o palato, a nausear-me. Medo de não saber olhar para a mulher. Medo de a ver apenas como quero, de lhe entregar o que não é dela. Um lenço escarlate com rosas escuras e franjas sedosas ou um avental a cheirar a frutos com bolsos folhados. Ela que tem cabelo preto e encardido, preso na nuca por dois ganchos velhos e uma bata ruça aos quadrados azuis e verdes, a apertar à frente. Cheira a estrugido. É feia. Tem braços gordos e dedos papudos com gretas castanhas e a cheirar a alho, os gestos a cebola, e eu tenho medo de não gostar do caninho do pão molhado em azeite e de não saber porque tenho medo, aqui.

 

Não sei porque roubo e escondo pedaços deste espaço e me espanto porque o que fica me parece tão roído sabendo que recortei esquinas e refiz imperfeições de modo a que nada altere a medida do certo ou conspurque a elegância do brando, para que nada incomode o lugar onde fico, de maneira a que tudo seja compreendido, compreensível, sem o inquietamento, sem o desconforto, sem o inssossego do que não se entende. O modo como fico, o modo como o faço, é dócil, é aquietado. Não existe a arquitectura inquieta do desconforto. Fico como se entra numa casa que não deixa memória e onde nada vem connosco quando saímos e deixamos que a porta bata atrás de nós.

 

Tudo é tão leve assim como uma frase feita ou um cliché. O que fica é tão plano e liso como o tampo da mesa onde a mulher pousa a tigela.

 

- A menina quer um caninho de pão?

Não. Não quero.

Tenho um caninho de medo do que roubo.

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A Gaffe oriental

rabiscado pela Gaffe, em 28.09.16
 

Não é aconselhável avançar, pelos corredores dos gabinetes, envoltos em mistérios com sabores orientais e embora seja tentadora a hipótese de transportar à cinta o estilete capaz de apunhalar o chefe de serviço cujo único serviço é pôr-nos a servir, não convém tornar tão óbvios os anseios.

 

A única batalha que realmente vale a pena travar até à exaustão é aquela que acontece quando estamos nus.

 

Foto - Morgan Dubois   

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A Gaffe com prendinhas de Natal

rabiscado pela Gaffe, em 27.09.16

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Perguntam com pertinência porque é que a Gaffe se atreve a focar este assunto tão absurdamente cedo.

A Gaffe refere que nunca é fora de tempo prevenir a tempo as amiguinhas de meia-idade que preparam com uma antecedência digna de dó as suas prendinhas de Natal, manufacturando os seus miminhos com um carinho tão adequado à época que se adivinha muitíssimo ao longe, quase uma miragem.

Minhas queridas, este ano evitem o mais do mesmo. Há coisinhas que elaboram com ternura infinda que deviam ser exterminadas à nascença, reduzidas a pó e depois enterradas em cocó de rena.

A Gaffe vai mencionar cuidadosamente as três mais medonhas que fazem das peúgas tradicionais uma oferta Cartier.

I

Caixinhas de madeira com decalques

 

As tabuinhas compram-se nos chineses. Por dois ou três euros ficam com o armazém repleto. As tampinhas podem não fechar em condições, mas tal é um detalhe a disfarçar com um laço. Os decalques são vendidos pelas senhoras dos workshops vocacionados e especificamente dirigidos a palonças, a matronas e às minhas queridas que adoram trabalhos manuais e que não são uma coisa nem outra. São só parvas.

Aprende-se a esbardalhar por toda a caixinha macaquinhos, florinhas, princesinhas, bonequinhas, ursinhos e casinhas e, para rematar com chave de ouro, o nome dos destinatários.

Envernizam-se e deixam-se secar. Dão guarda-jóias, biscoiteiras, pequenos baús de recordações, guarda-chaves e tudo o que nos vier à lembrança. Versáteis e mimosos e fáceis de fazer desaparecer.

A única desvantagem que apresentam são as esquinas, os vértices, os cantinhos, que nos rasgam sempre os sacos do lixo e nos deixam constrangidas quando se solta dali o passe-partout que as acompanhava e que com elas fazia pendant.

II

Imagens de gesso pintado

 

Abastecemos nas mesmas superfícies.

Há imenso por onde escolher, mas os presépios são de enorme procura.

Os workshops pululam e facilmente as senhoras ficam aptas a esbardalhar a tinta nos macacos.

Normalmente S. José fica com um ar de toxicodependente, Maria com cara de quem teve um parto brutalmente difícil e o Menino com aspecto de quem é portador de doença rara. O conjunto em tons terra parece que foi achado na sarjeta, mas as minhas queridas acham que é sempre amoroso oferecer o trio sagrado de coloridas vestes, mesmo que tenham hesitado antes em marfinar todas as peças - operação que as faz parecer moldadas em manteiga rançosa solidificada depois de exposta ao sol da Palestina.  

 III

Arranjos florais

  

As bases encontram-se nas lojas do costume.

Os elementos a alocar variam com o gosto. Há workshops que ensinam a cravar na esponja uma miríade de elementos que abarcam flores secas, raminhos e tronquinhos de madeira apodrecida, bolotas, folhinhas de azevinho, bolinhas de Natal, lacinhos de tafetá, conchinhas, pedrinhas, bichinhos, um bocadinho de hera e as inevitáveis velas perfumadas. Podem ser pequeninos e fofinhos ou do tamanho da roda de um tractor. O efeito é o mesmo.

Estão destinados a esbardalhar a mesa da Consoada. Largam estearina na toalha, deixam o ar saturado, a cheirar a morango ou a baunilha queimada, e correm o risco de desaticulação quando os retiramos muito à pressa e os largamos na varanda para arejar.

 

São três pequenos mimos que as senhoras de meia-idade devem evitar oferecer neste Natal. Para além de já não haver espaço para os armazenar nos blogs da especialidade, ficamos com sempre com uma certa nostalgia das peúgas tradicionais tricotadas à mão de modo tão empírico, antes de aparecerem os workshops.   

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A Gaffe "Quási"

rabiscado pela Gaffe, em 26.09.16

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Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.

(...)

Mário de Sá-Carneiro - Dispersão 

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A Gaffe a ouvir

rabiscado pela Gaffe, em 26.09.16

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(Para a MJ)

 

Os meus dias mais perfeitos são aqueles em que ouço devagar contar histórias velhas e perdidas de pedaços dispersos de lugares onde a hera cobre a doçura longa das janelas.

Ouço e no meu ouvir há o pasmo descoberto enquanto as palavras se enrolam na placidez do que é contado, como a hera na doçura longilínea da janela.

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A Gaffe silenciadora

rabiscado pela Gaffe, em 24.09.16

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Não me apetece falar sobre nada. Seria bom que te calasses também.

- Devias falar sobre todas as coisas. Se falares sobre uma tulipa ou sobre um cão, eles tomam o lugar que desocupas na tua boca e consegues sentir o cálice da flor e ouvir os latidos do teu cão. Se te calares, se não falares de tulipas e de cães, ficas sem o tecido das pétalas e amorteces o som dos cães que chamam por ti, dentro da boca.

- Quem te disse todas essas coisas? São patéticas e estou cansada de te ouvir. Cansei-me de metáforas

- Ninguém me disse nada.

- Então não fales.

- Se tu quiseres, não falo.

- Quero.

- Fico aqui sentado. Não digo mais nada.

- Não é verdade quando dizes que se me calar amorteço todos os sentidos. Ninguém amordaça o sentir com o silêncio.

- Eu consigo.

- Então ficas com os latidos dos cães dentro da boca.

- E sem tulipas ou com tulipas a latir na vez dos cães.

 

Às vezes as metáforas são como náufragos. Entra-lhes dentro o mar inteiro. 

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A Gaffe e o envelhecimento

rabiscado pela Gaffe, em 23.09.16

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Há algumas, parcas e insatisfatórias, formas de nos sentirmos menos deprimidas com o envelhecimento e que não passam pela passadeira do ginásio.

Enumeremos à toa as que nos chegam à nossa já pouca memória.

 

I

Lembrarmo-nos que a velhice de uma mulher bonita é a vingança das mulheres feias e como tal, exactamente como o ballet, é preciso começar cedo.

II

Perceber que quando uma mulher renuncia ao desejo de agradar, ainda lhe resta uma última coqueteria: a de não desagradar.

III

Sempre que nos sentimos velhas para fazer qualquer coisa, não há que hesitar - temos de a fazer.

IV

Mentir na idade.

 

Minhas queridas, seja qual for o método aplicado, devemos resignar-nos a aceitar com bonomia a crueladade dos anos que passam. É até hoje a única forma de se viver muito tempo.

 

 

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A Gaffe vedeta

rabiscado pela Gaffe, em 23.09.16

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Frente a esta rapariga esperta, ao entardecer do dia de ontem, esteve um dos mais jovens e mais recentes talentos de uma telenovela com sucesso garantido.

 

(Morrei de inveja adolescentes histéricas e inconcientes!...)

 

No centro do seu café, a Gaffe é obrigada a pestanejar em silêncio para que o taralhoco se decida perguntar embaraçado - depois de morder o lábio inferior durante alguns segundos, - qual a sua agenda para logo à noite?

 

- Entre dançar com a Ginger Rogers e com o Fred Astaire, confesso que deslizo sempre com o charuto.

 

Olha esgazeado e sorri perante a obtusa resposta cinematográfica.

Não entendeu.

 

Mas quem quer perder tempo a explicar com as letras todas a frase idiota, quando o joelho do rapagão toca a o joelho perfeito da esfinge - desculpa, sou tão desajeitado! - e na boquinha surge tímido convite para jantar e conhecer depois a Foz à noite?!

 

É irónico. Um dia disseram, de forma mesquinha, que a vida desta rapariga ruiva podia ser extraída de uma série, mas nunca lhe disseram que isso incluía uma proposta para contracenar de forma tão... nua... com um dos seus actores.

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A Gaffe por vacinar

rabiscado pela Gaffe, em 22.09.16

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Voltei a vê-la.

Outra vez grávida, que tudo é natural e nada de látex a conspurcar a ara onde se oferece a nudez primária a paganismos múltiplos.

Se veio vacinar o rapazinho?

NÃO! Que não submete os filhos a essas manobras e manipulações.

 

 Estas miudezas são capazes de me esfacelar o dia e inflamar os nervos.

 

No Reino Unido, muito recentemente, o abrandamento da vacinação infantil contra a tosse convulsa provocou no ano que se seguiu um surto perigoso da doença; em França ter sido considerada desnecessária a insistência com que se vacinavam crianças contra o sarampo, fez eclodir a moléstia, muitíssimo pouco tempo depois, elevando escandalosamente a taxa de mortalidade infantil. Ambos os países reconheceram que o retorno ao plano de vacinação desprezado se tornava essencial.

 

Não vacinar uma criança em nome da folhagem e dos golfinhos, invocando a pureza natural das coisas, esbardalhando opções de vida santificadas pelo Sol e pela Mãe Poderosa de todo o planeta, é, para além de perigoso, uma tremenda insensatez reveladora de imbecilidade galopante.

 

A criança de cabeleira farta, negra madeixa ao vento, loira nuance ao lado, que escapa à invasão de piolhos que parecem pokémons perseguidos pelos pais, não é por ser imune ou por ter no couro cabeludo a Mantra certa. É apenas porque o resto da turma já rapou a cabeça.   

 

O filho não vacinado desta ecologista de pacotilha, fundamentalista do pateta, não sofre as consequências do acto irresponsável dos progenitores apenas porque vive rodeado de crianças vacinadas que, em consequência, apresentam um baixíssimo risco de contaminação digna de registo. Caso contrário, este petiz virginal, ao lado de parceiros igualmente puros, apresentaria grandes probabilidades de se tornar o paciente-zero de uma epidemia e responsável, em última análise, por um colapso na saúde pública.

 

Não existe qualquer problema em se usar trapos artesanais cosidos à mão e rematados com os dentes, desde que o cérebro não fique despido. Não existe qualquer nota contra em se escolher viver num circo de folhas, redes de lianas, madeiras e trapézios de infusões azedas a saber a Mãe Terra, desde que nas acrobacias e malabarismos não sejam usadas as vidas dos outros.

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A Gaffe com um Caso Sério

rabiscado pela Gaffe, em 22.09.16

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Devo dizer, antes de tudo, que tal como as senhoras de meia-idade vão decorando caixinhas em pauzinho com decalques de ursinhos e florinhas que oferecem no Natal, eu, pobre de mim, vou brincando com o Photoshop até entrar em pânico quando percebo que das três horas que tinha reservado para preparar o dia seguinte, já esgotei duas delas - abençoadas, - em tontices que me vão distraindo e relaxando.

É portanto com um prazer enorme que acabo com imagens que procuram insipidamente representar mulheres que leio com afinco. São uma forma de me aproximar do modo como agarram a vida e a torcem até que obedeça, do modo como enfrentam os dias que vão manuseando com garra e da coragem com que assumem a fragilidade que trazem tantas vezes como uma arma na cinta das horas que desesperam.

 

O Pequeno Caso Sério pertence a este grupo.

 

Procurei, como não podia deixar de ser, criar um imagem com cores vibrantes, mas atenuadas por um certo efeito oxidado que nos remete para um imaginário vintage de rótulo do quotidiano ou cartaz, tantas vezes com glamour, que tantas vezes olhamos com ternura. Um pitada de garotice, uma gota de humor, uma réstia de insinuação marota, uma breve alusão àquilo que se usa muitas vezes e que por isso mesmo acaba despercebido.

O Pequeno Caso Sério é exactamente isso. A recolha de pedaços curtos da vida que passa, pequenos trechos do banal, daquilo que vivemos sem atribuir grande importância, recuperados e tratado com humor, chamados à pedra, vistos como Casos Sérios. O maravilhoso post da visita à IKEA é disso exemplo.

Podemos em cada momento encontrar uma linha de recorte. Um picotado. Uma forma de o destacar, de o recortar e colar na nossa vida. Acaba, cada um dos escritos do Pequeno Caso Sério, por ser uma ilustração do que somos - e do quão ridículo conseguimos ser, - e exactamente por isso, basta que recortemos pelo picotado os nossos retratos e os coloquemos em local bem visível.

 

Espero, minha amiga, que nunca deixes de falar de nós.

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A Gaffe no sítio das pilocas

rabiscado pela Gaffe, em 21.09.16

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Nos meus intervalos mais longos procuro isolar-me. Normalmente aproveito para passear nestas minhas avenidas, rabiscando viagens à toa e palavras ocas como os voos dos pássaros.

 

Ontem, ao contrário do habitual, sentou-se ao meu lado uma recente aquisição deste vetusto estabelecimento, uma extraordinária loira irritantemente inteligente que sacou do seu tablet - que a avisa, a agenda, a marca, a previne, a informa, a diverte, a massacra, a tortura, a despe, a veste, a penteia, a liga à CIA e ao FBI, com passagem pela NASA e, suponho, vive por ela - e planta-me na frente um sítio absolutamente divinal que ao cabo de três minutos fez de nós duas grandes e velhas amigas.

 

O sítio era uma espécie de CARAS, mas de PILAS. Tudo em excelente forma física.

 

Convém explicar.

 

Na superfície lisa - infelizmente lisa em alguns casos - sucediam-se fotografias de estrelas masculinas conhecidíssimas que, ou pela garotice de um realizador mais afoito, ou pela afoita câmara de um paparazzi sortudo, apareciam nuas sem qualquer parra ou paninho de transtorno, para gáudio e gargalhada de duas tresloucadas de intervalo.

 

A colecção parte de Yul Brynner, passa de relance por Nureyev - que nos obrigou a diminuir a imagem para conseguirmos ver também a cara do rapaz - e vai surpreendendo com um desfile, felizmente muito cru, das pilocas de David Duchovny - que pode ser tudo, menos um ficheiro secreto, - Brad Pitt - muito oportuno, - Bruce Willis, Leonardo DiCaprio, Liam Neeson, Will Smith, Nicolas Cage, Jude Law, Matt Boomer, Channing Tatum, Dwayne Johnson, Tom Cruise, Mark Wahlberg, Hugh Jackman, Robert Downey Jr. Colin Farrell, Ryan Gosling, Matthew Mcconaughey, Fassbender, Zac Efron, Bradley Cooper, Eric Dane, Gerard Butler, Josh Holloway e de mais umas dezenas que não nos despertaram grande interesse, transformando estrelas de primeira grandeza em meros actores secundários, quando não pobres figurantes.

 

Esta divertidíssima colecção de pilas que faz a desgraça da CARAS, permitiu-nos concluir, depois de temos conseguido limpar as lágrimas e parar de gargalhar, que há, pelo menos, três regras essências que um rapaz tem de saber de cor para nos mostrar aquilo que Eva teve o privilégio de usar pela primeira vez.

 

A saber:

I

Nunca corram

Nunca se coloquem em situações de desequilíbrio. Agarrem-se aos corrimãos, aos candeeiros ou à mobília - cuidado com a da IKEA, que se esbardalha com facilidade, - mas nunca tenham pressa. Uma pila acrobata não transmite a sensação de ser segura. Não há nada mais deprimente do que uma rapariga perceber que afinal o grande amor da sua vida não vai partir os dentes quando corre nu pela praia do seu Verão mais virginal.

 

 II

Nunca nos exibam uma piloca hippie

É certo que não é necessário, nem conveniente, serem pacientes da depiladora do Ken, mas é desagradabilíssimo ver que usam as cabeleiras de Woodstock no baixo-ventre. A piloca normalmente comporta-se como Tarzan: deixamos de a ver, ouvimos só os gritos.

 

 III

Nunca verifiquem na nossa frente se a vossa pila existe

Uma piloca existe, na esmagadora maioria dos casos masculinos e mesmo em alguns mais femininos. Não é bonito curvarem-se para ver se ela lá está e iluminá-la com luzes de Hospital não a faz mais nítida. Há momentos em que o turvo pode ser a mão que vos ajuda. À luz da vela a vossa piloca é sempre mais romântica.

 

Se nenhuma destas três regras de oiro vos agrada, meus queridos rapazes, podem sempre optar pelo caminho mais árduo:

 

Dispam-se e surpreendam-nos.

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A Gaffe aristocrática

rabiscado pela Gaffe, em 21.09.16

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A aristocracia é de uma estupidez e incultura total. Mas tem bons perfumes, as suas mulheres são muito bonitas e sabem rir no tom adequado. E isso é muito importante.

 

António Lobo Antunes

 

Na foto- Bridget TichenorJean Patchett por Irving Penn -Vogue, 1949

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A Gaffe loira

rabiscado pela Gaffe, em 21.09.16
 

O estereótipo da loira burra, que terá o seu paradigma nas fantásticas encarnações cinematográficas de Marilyn Monroe, é a origem de imensas anedotas, na esmagadora maioria banais e sem grandes ambições.

 

É lamentável.

 

A loira burra, quando não roça o boçal ou o alarve, encaixada em qualquer casa que se deveria manter definitivamente entaipada e em segredo, é uma das mais encantadoras criaturas de que há memória.

A indiferença abissal com que olha o universo e a sua ingenuidade, terna e desprotegida, aliada à suposta ignorância que faz recair sobre aquilo que os outros, por desígnios divinos, consideram essencial conhecer ou saber, torna-a deliciosa e capaz de enfrentar os olhares engavetados e espartilhados, que a amesquinham e ridicularizam, com a superioridade indiferente e a indiferença superior que são atributos apenas dos sábios e dos loucos.

 

Subestima-se a loira burra.  

 

Não há nada mais delicioso do que a ver, por exemplo, chegar esbaforida e revolta ao hall do hotel, no Nilo, gritando que está a ser perseguida por um Lacoste ou ouvi-la declarar surpreendida que, naquela exótica paragem, viu o guia enfiar-se, durante a tarde escaldante, dentro de um saco cama da mesma marca.

 

Esta perversa inocência é muitas vezes ignorada no comportamento desta adorável figura. Valoriza-se a sua suposta estupidez e a sua abismal ignorância, fazendo-se por esquecer que, nesta inconsciência tão depreciada, existe uma miríade de pequenos mundos onde apenas alguns, dos mais libertos e arejados, conseguem vislumbrar condignamente.

Divertem-se juntos.

 

Para mal dos meus pecados, sou uma ruiva.

 

Ilustração - Redmer Hoekstra

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A Gaffe do Zé Tó Saraiva

rabiscado pela Gaffe, em 20.09.16

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É uma tolice confiar sem reservas em rapazes esquálidos, com um monitor e um teclado enfiado nos dias que deixaram para trás - e em que cuidaram com zelo extremo do agora público, - que decidem revelar conspiração tenebrosas e sinistras transgressões do poder. A palidez que apresentam faz-nos suspeitar que há problemas intestinais ou que não controlam os esfíncteres - o que depois do que se fazem, é altamente justificado, dadas as represálias a que ficam sujeitos.

 

Depois é maçador, divulgadas as manobras escabrosas a que tiveram acesso, sentirmos na cara o conteúdo da Caixa de Pandora que sempre esteve escancarada à nossa frente enquanto assobiávamos para o lado, obrigando-nos a engolir como parca sobremesa as indignações pouco convincentes daqueles que sempre assistiram ao Big Brother na poltrona da conveniência e da cumplicidade silenciosamente proveitosa.   

  

Quer Julian Assange, quer Edward Snowden, são rapazes lívidos. Este facto, sozinho, já não é prometedor.

 

Assange, contrastando com o tom de pele dos que lhe deram asilo, vai acicatando a tonalidade da tez com o brilho da sua conta bancária. Não é a coqueluche do momento.  

 

Resta-nos Snowden.

Tenho de admitir que ficar comprovadamente a saber que Washington espiava a União Europeia, nomeadamente Berlim e Paris, com unhas e dentes, lunetas, binóculos, telescópios, periscópios e afins, não é suspeita recente, mas neste caso deixa pairar alguma perplexidade relativa ao facto.

Os Estados Unidos não são propriamente uns meninos patetas. Para quê o incómodo de coscuvilhar a tralha alheia, à boa maneira da Guerra Fria, quando existe e é por eles controlado o FMI que esbardalha todos os cantos da Europa?!

Depois, temos de admitir, um vilão com as características que querem entregar ao Tio Sam, tem necessariamente de usar um fato escuro, estar em contra-luz e a afagar um bicho peludo. Apenas Dame Merckel poderia preencher estes requisitos - pese embora a cor, que no seu caso acompanha os tempos empastelados e difusos que se vivem, - mas madame é Europa, logo não é a CIA, e Jean Claude não é peludo.

Provado este americano crime de espionagem, seria fácil o castigo vingador. Bastava que contratassem Snowden para instalar nos duches de Merkel e de Lagarde um sofisticado sistema de vigilância com ligação directa e imediata à casa onde os estereotipados agentes da CIA ciosamente conspurcam as intimidades do mundo. O hacker agradeceria os honorários e era certo o surto de gastroenterite no seio e nas cuecas dos nossos espiões cibernéticos.

 

Sou uma rapariga simples e campestre. Confesso que não tenho paciência - nem um QI retorcido e avantajado - para este tipo de espionagem de alta-roda ou de alta cilindrada. A única espionagem que consigo apreciar é a das minhas tontas, fúteis, frívolas e deslumbrantes amigas; é uma bisbilhotice caseirinha, quotidiana, raquítica e inofensiva; é a intriguinha idiota e inócua que guardo junto à lista da mercearia; é a deliciosa coscuvilhice das raparigas espertas que me informam que o meu atraentíssimo vizinho da frente não é gay, é solteiro e bom rapaz, que vive sozinho e anda nu – lindo de morrer! - dentro de casa.

 

Simples e campestre como sou, fico estarrecida quando me deparo com a intermédia. Aquela que faz do nada um detrito nauseante atirado à rua da amargura, exposto a um sol que faz inchar as larvas e que, transformado em lodaçal mesquinho e oportunista, torna execrável o espaço onde é cuspido e e do seu dono, a vasculhar o alheio com unhas retorcidas de suspeitas, uma saraivada de inutilidades devassas.

     

O que é de lamentar dentro desta fita previsível, é que Bond, James Bond, tenha terminado com Sean Connery.

 

Ilustração - G. Haderer

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A Gaffe num madrigal

rabiscado pela Gaffe, em 20.09.16

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Noblesse oblige.

A Conferência seria proferida pelo catedrático jubilado com pouso na Sorbonne - Paris IV.

 

Frei Miguel dos Santos e a conjura de D. Sebastião de Madrigal

 

O caso envolvia Ana de Áustria, pequena princesa bastarda, encerrada no convento de Madrigal e o público presente datava da mesma época.

 

Não é que me tenha causado incómodo ouvir um velhinho sábio e teatral despejar sapiência por todos os cantos da sala. Cheguei mesmo a ficar deslumbrado com o facto do senhor ser capaz de referir, sem qualquer hesitação, toda a genealogia da moça ingénua e enganada. O que me aborreceu foi a colecção de velhas que me lambuzaram a cara, com beijos sôfregos e suspeitos e não existir nenhuma saída de emergência.

Quanto ao pretenso D. Sebastião, chegou-se à triste conclusão que o farsante era pasteleiro e, como tal, foi enforcado.

 

O que realmente me espanta e incomoda, isso sim, é saber da quantidade de pasteleiros que há agora, tratados todos por El-Rei que se encontrou.

 

Imagem - Rachel & Benoit

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