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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe sorridente

rabiscado pela Gaffe, em 20.11.17

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Às vezes, um sorriso é um terminal de frases que não se dizem porque começam e acabam dentro dele.

 

A minha irmã sorri, dissolvendo o incómodo de não se ouvir um som no cumprimento. Depois tudo se torna mais fácil. Como parece atenta, ninguém consegue perceber de imediato que ela não está a ouvir. Confunde-se então mudez com silenciosa disponibilidade, com compreensiva cumplicidade, com atenção fraterna, e desdobram-se mapas de conversas, extensas pradarias de palavras, desérticas confidências e chuvosas lamúrias, até que o sorriso se torne suspeito ou até que o enfado chegue num sussurro e a minha irmã desvende o segredo de tamanha atenção. A indiferença.

A surpresa é evidente e tem a função de a libertar no momento certo dos que a incomodam. Diverte-a este jogo.

 

O meu modo de sorrir é diferente. Alastra pela casa fora até tocar o espaço das suspensas beladonas encerradas que continuam a verter o aroma sobre mim. Nada é tão frágil, tão mortal. O desaparecer do meu sorrir, a sua morte, é para os outros um leve pousar de névoa, um ténue entardecer de tule, como se o retirassem em braços, ou em penas, de dentro de casa e o levassem para longe dos jardins suspensos. Volta para olhar para as beladonas.

 

No intervalo de tempo sem sorrisos nunca há um texto.

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Gavetas:

A Gaffe detalhada

rabiscado pela Gaffe, em 20.11.17

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É evidente que existe um lado obscuro e escuro no Carlos que podia servir de ponto de partida, mas a referencia ao detalhe pesou mais na escolha do grafismo que alteraria o blog.

 

É curioso o conceito que cada um ergue desta palavra e, no entanto, o detalhe é sempre um elemento de fragilidade intensa, porque a desatenção torna-o invisível, ou capaz de se diluir na água do conjunto. É talvez a mais delicada das evidências, capaz de esvoaçar sem disso darmos conta, ou pousar no chão como caído do corpo de um pássaro que no voo deixou tombar a importância de todo o pormenor que o ergue no espaço.

 

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A Gaffe por um fio

rabiscado pela Gaffe, em 17.11.17

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Nas manhãs sem chuva, tenho medo.

Vou de pés atados pelo caminho estreito das mimosas de outrora.

A bruma regressa no retrocesso do tempo e na inversão dos pássaros que se debatem ainda nos fios da rede destes dias frios.

A sombra dos teixos a crescer nas pedras e nas tranças de água dos olhos dos peixes. Uma sombra a estilhaçar os vidros da memória.

Levo uma pedra cega de sono sobre a boca, uma clara mordida antiga de poeira branca ou luz de porcelana.

As manhãs frias parecem nomeáveis, presas pelo fio de água que tomba na cisterna, povoado de maçãs vermelhas e orvalhadas colhidas noutras manhãs cheias de frio.

 

As manhãs frias ficam só manhãs, até perder a conta, sem pele nem poros. Só com nome. Manhãs em que se veste a tristeza que na véspera havíamos dobrado e pousado nas costas da cadeira, arranjado o vinco, sacudido o pó e desfeito a prega, trocando as voltas à dor, à cor que fica bem, para que não se note muito que estamos a usar a mesma roupa de ontem.

 

Nas manhãs sem chuva, tenho medo e vou pelo peito da alvorada olhar o fio de água fria que tomba na cisterna. É dentro do frio fio da água da cisterna que há luz de linho branco, o vislumbre afogado do corpo de penas do estilhaçar das nuvens.   

Nas manhãs frias sem chuva, volto ao cerco dos braços da cisterna e o fio de água é pulseira no meu punho, arco em meu redor, enxames de abelhas no regaço do tempo, amor pousado na cintura da cama dos sossegos mútuos, medalha de marfim no pescoço de um cego, fenda do rochedo onde apascento o rebanho dos meus dedos.

 

Cedro ou madeira de cipreste ou um ramo de açucenas pousado no meu peito.

 

Frente aos meus olhos escorre a placidez da seiva descerrada, o entrançar das arrecadas da manhã nos pingentes de prata da luz de mandrágora e no frio das folhas que tombam nas deslumbradas manhãs das conchas de água dos fios das casas que eu habito.

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Gavetas:

A Gaffe patroa

rabiscado pela Gaffe, em 16.11.17

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Felizmente que neste planeta a estorricar de gente parola e pobre, ainda sopra a brisa do irrepreensível bom gosto e da mais refinada sofisticação.

A Gaffe exulta ao saber que por entre a imundície criada pela falta dos candelabros da educação e de berço das pessoas pobres, cintila o mais refinado dos diamantes brancos, capaz de encolher de humilhação o agora vendido por Isabel dos Santos.
A Gaffe congratula-se ao reconhecer que ao lado de Gustavo Santos - o guru das pessoas sem posses -, a figura que adquire uma dimensão de superior importância é Paula Bobone - a Anna Piaggi que o país merece.

A Gaffe admite que sempre viu Bonone como uma espécie de tola.

Enganou-se.

A Gaffe lê o que consta do anúncio da sua obra de regresso:

 

Com o passar do tempo, e até aos dias de hoje, tudo mudou e sobrevieram outras realidades. O pessoal doméstico passou a apresentar contornos totalmente diferentes e a sua ligação às casas passou a ser uma profissão.

Hoje, cabe à dona de casa imprimir o toque do seu estilo, cuja elegância deve ser marcante.

"Domesticália" é a arte de receber, de sentar e de servir. Uma narrativa interessante sobre o funcionamento da profissão dos empregados domésticos, que certamente irá valorizar e contribuir para o respeito destes profissionais.

 

Não é fabuloso?

Há gente que devia ser canonizada.

A Gaffe só espera que as imbecis que posaram para a fotografia da capa, não se atrevam a dar um empurrãozito no balde para onde a Bobone trepa mesmo quando não tem uma corda ao pescoço. Há gente pobre - pessoal doméstico, na sua maioria -, que não sabe ler e, como é evidente, vai ignorar as páginas da bíblia.

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A Gaffe dos Sapos

rabiscado pela Gaffe, em 16.11.17

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A maravilhosa Magda resolveu encetar um processo que apesar de muito divertido pode encarniçar os nervos a uma quantidade significativa de gente do costume, ou seja, ao grupo de criaturas que perante uma qualquer iniciativa - sobretudo quando repleta de boa disposição - se esbardalha no sofá a roer os ossos dos cadáveres que conseguem desencantar em todas as esquinas do seu cérebro embebido em lama.

É portanto, e antes de tudo, uma iniciativa corajosa.

Depois, é possível que se torne um encontro de humor, de alegria, de festa e sobretudo de insensata e divertida tontice - o que é, como toda a gente sabe, uma das coisas mais saborosas que conseguimos descobrir na vida.

 

Não vou nomear os meus blogs favoritos nas categorias apontadas, mas vou com certeza participar, votando nos que forem seleccionados.

Basta seguir as instruções!

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Gavetas:

A Gaffe no Livro Pensamento

rabiscado pela Gaffe, em 15.11.17

O Livro PensamentoQuando a Edite me sugeriu que nos poderíamos unir para construir um novo habitat para as suas palavras, surgiram algumas dificuldades em estabilizar um layout que fosse agradável. Quando começamos - e este é um prazer sempre partilhado -, não fui capaz de responder cabalmente ao idealizado e tive dificuldade em decidir o rumo das imagens e do ambiente que acompanhariam o que se escreve.

A primeira proposta estava errada.

No entanto, bastava apenas um pequeniníssimo impulso. A Edite voava - também nas asas dos livros -, nunca perdendo de vista o lugar onde crescem os sonhos límpidos e claros de liberdade contidos nas páginas a que se vai dedicando.

Fico muito feliz por saber que a Edite gostou.

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A Gaffe pede desculpa

rabiscado pela Gaffe, em 14.11.17

 

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Pedir desculpa é, há muitíssimo tempo, considerado um acto nobre.

A ponte cai matando uma quantidade de gente absurda, o ministro demite-se pedindo desculpa. Um acto de grande nobreza. O país incendeia-se e queima gente, a ministra não se demite e o governo não pede desculpa. Uma falta de nobreza. O Presidente da República apresenta condolências e pede desculpa. Tão nobre. Uma bactéria mata nos hospitais, o ministro pede desculpa. Nobremente.

 

O acto de se pedir desculpa chega com gola de arminho e manto de veludo escarlate. Traz o ceptro da grandeza de carácter numa das mãos e os brasões da elevação de alma na outra. Exige-se o desfilar compassado e grandiloquente do corpo da desculpa pelos corredores das nossas vidinhas. Deslumbrados pela nobreza exibida, aclamamos e reverenciamos o brasonado como capaz deste acto que parece exclusivo do gentil-homem e que lhe revela o cume de um carácter de Evereste e uma alma fidalga.

 

Pedir desculpa é sempre a revelação de uma falha. O reconhecimento de um erro e a assunção da vergonha de ter sido cometido e de sermos responsáveis pelo facto. Nada há de aristocrata - nem de plebeu -, numa atitude que deve ser comum a todas as gentes - a todas as classes, mesmo as definidas pela Idade Média e que, digam o que disserem, perduram ainda.

A atribuição de um carácter nobre a um pedido de desculpa é tão imbecil como o apaziguar da indignação popular quando os grandes infractores assomam à varanda do palácio e confrangidos acenam com os lenços choramingas das desculpas. Se os grandes vigaristas deste mundo abanarem na frente dos olhos dos lesados a alegada nobreza de um pedido de perdão, serão por norma julgados com uma condescendência bem maior do que aquela que é concedida aos inocentes apanhados pelo ladrilhar da trafulhice.

 

Pedir desculpa não engrandece, nem diminui. É um acto inseparável da condição humana. Existe, porque existimos e porque existimos, pensamos - e porque pensamos logo somos, diria o velho sábio se pudesse.

 

Após a admissão do erro, logo se verá.

 

Posto isto, a Gaffe apresenta-vos o maravilhoso atleta checo Jan Kudlička e avisa-vos, meninas, que apesar de não ter grande talento para as línguas, a primeira desavergonhada que se meter à sua frente, apanha com um dicionário na nuca.

A Gaffe pede depois desculpa.

É uma aristocrata.

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A minha cantina

rabiscado pela Gaffe, em 13.11.17

A minha cantina

 

A minha professora mandou-nos fazer uma redacção sobre a cantina da escola. É uma coisa muito difícil porque na minha escola não há cantina mas a minha professora diz que assim também não há bichas na comida e a sopa não está viva e que temos de defender a honra do convento. Uma pessoa até fica atrapalhada porque assim de repente nem sabe se há-de falar da cantina se do Pantelhão que é uma igreja com os franciscanos lá dentro todos mortos e onde se janta quando há gente importante com fome. Depois as sobras vão para as cantinas das escolas. Não admira que osa restos venham com bichos lá dentro porque o bichedo ataca as pessoas que faleceram. É o bichedo e a terra porque a minha tia diz que a terra há-de comer-lhe os olhos o que até me faz muita impressão. O último jantar no Pantelhão foi de uns senhores muito modernos que criam ápes e andam de tishartes nas setárapes que são umas coisas que crescem como mato que é preciso cortar por causa da época dos incêndios. O jantar foi muito bom e não valia a pena a gente andar aos saltos no feiceboque a dizer que aquilo é como um cemitério e que não se pode andar a tirar selfes e a enfardar lá dentro. Aquilo foi muito simples e a bem dizer a D. Amália que está no Pantelhão até nem cantou nem nada. Não admira muito porque a D. Amália já não cantava nada mesmo antes de se finar. Só abria os braços com a cabeça toda atirada para trás e dizia Obrigada Obrigada Obrigada agora o povo agora o povo. A D. Sofia e o D. Camões não se armaram aos cágados e não se puseram a dizer versos e por isso o jantar nem foi uma seca que a gente sabe que quando há pessoas a dizer versos não se pode beber nem conversar que parece mal e passamos por burros. Eu gostava de ter ido ao Pantelhão mas a minha prima Idalina disse que mais valia ir à uébesumite que tem mais vida. Não fui com ela porque ela disse que lá não entram cachopos mal vestidos. Só os que usam jines de marca. É assim como aquela coisa do Urbane. Os cachopos que trazem jines com o cu nos joelhos levam tanta paulada que nem sequer se sabe de que cor essas pessoas eram porque ficam todas pretas e depois levam ainda mais porque ficaram pretas. É assim um circo vicioso como há nos hospitais que a gente vai para lá toda doente e sai de lá ainda pior com umas bichas ligianélias agarradas a nós e que depois vão para a comida. A minha prima Idalina diz que é preciso ir em condições. É por isso que a minha prima vai sempre ao Portugal Faxon. Vê aquilo tudo e depois tira ideias. É assim como aquele estrangeiro famoso que fez um saco para as senhoras caro como o caraças que até dava para comprar um apartamento em Moimenta e que a minha prima encontrou depois a sessenta cêntimos no sítio onde foi comprar umas estantes para meter as batatas para as batatas não grelarem. Não foi muito boa ideia porque o meu primo Zeca disse aquela merda nunca se sabe montar e que mais valia uns caixotes uns em cima dos outros que não se desfaziam todos com o peso dos sacos. A minha prima Idalina roubou o saco nessa altura para ir ao Portugal Faxon toda muito enfeitada e a parecer de marca mas tinha uma marcação com o senhor Inácio às onze da noite que é quando o senhor Inácio acaba o turno de guarda ao Pantelhão da minha terra que é mesmo ao lado do cemitério e tem dentro o antigo presidente da Câmara e a esposa a D. Maria José Portugal Duas Vezes. A minha prima como é muito boa nestas coisas pegou no saco e fez um fato para o meu primo Adalberto ir em vez dela. Ficou muito bonito. Vou colar aqui na redacção para verem como passa bem por uma coisa feita pelo senhor do saco muito caro.

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Bem bonito. Parece mesmo do bom. O meu primo Adalberto foi um sucesso. Pena ter ido ao Urbano depois de acabar o Portugal Faxon. Apareceu em casa a altas horas da noite com este lindo fato todo roto e sem se poder mexer e muito menos sentar. Diz que o sediaram tal e qual em holiúde. Só não faz queixa porque o segurança que o sediou lhe mandou uma SMS a gabar-lhe a minhoquinha que encontrou na refeição. Nem tudo é mau. O meu primo Adalberto anda muito feliz e a Idalina já disse que na próxima festa de  uébesumite vai pedir o carro funerário ao meu tio que é cangalheiro para estacionar ao lado do Pantelhão. Assim como assim janta com os setárapes e no fim ainda fica um niquinho de tempo para uma sessão de harderóque de chicote preto no Urbane. Eu gosto muito de comer em casa.

Gui

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A Gaffe guisada

rabiscado pela Gaffe, em 10.11.17

Gui

Tendo em considerção que o Gui foi adoptado por esta rapariga tresloucada, não faz sentido que viva numa casota à parte. A Gaffe não quer que a acusem de segregação, de preconceito relacionado com os pobrezinhos, ou mesmo de elitismo.

Assim, a Gaffe decidiu trazer o Gui para estas Avenidas, dando-lhe o espaço que requer e livrando-a da canseira que é ter dois blogs distintos.

A partir de hoje, o pequeno Gui faz parte deste cantinho, com direito a tag própria.

Há sempre lugar para mais um, porque o sol é de todos - diz o povo à procura da sombra.

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Gavetas:

A Gaffe aos papéis

rabiscado pela Gaffe, em 09.11.17

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 - Estavam à espera de quê?! Que eu o tivesse enfiado no BES?

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A Gaffe lunar

rabiscado pela Gaffe, em 08.11.17

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Não falo dela. O que disser vai roçagar a banalidade.

No entanto, há outras noites entrou nua no meu quarto, como de pés descalços. Não me afagou o cabelo, não me contou histórias de ninar, não me sussurrou cantilenas, não me embalou em murmúrios. Sentou-se à minha cabeceira a ignorar-me.

 

A única luz que se deixa olhar sem confidências, a não ser a da geometria dos objectos. A luz maior do que as feridas das janelas. A luz que permite os gritos do estilhaçar de um vidro, se ousarmos a ilusão de lhe poder tocar a pele opalina com os dedos. A luz límpida que jorra e escorre nos dedos do anjo do lago e que torna nítidos os círculos na água quando a boca da carpa tenta morder a superfície onde a prata se dilui, se liquefaz. A luz que amansa a copa das árvores como o vento sul nas velas que se fecham, que adelgaça e guarda o corpo dos teixos como bainha de espadas. A luz que vem medonha da lua grande, cheia, à minha frente, e que no encantatório soar do seu silêncio me entrega a lucidez, tornando o encanto a minha mais lúcida consciência da paisagem.

 

A encantatória lucidez da lua no meu quarto, como dois pés descalços.

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Gavetas:

A Gaffe apoquentada

rabiscado pela Gaffe, em 07.11.17

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 A Gaffe acordou preocupada. Não costuma. Tenta sempre evitar as duas coisas.

 

Beberrica o seu chá matinal e mordisca uma pepita de croissant num spleen estudado que condiz com o seu roupão azul petróleo com laivos melancólicos de opalinas flores campestres, discretos e elegantes, pois que escolheu a peça em nipónicas paragens onde a elegância e a discrição são regra de viver e de morrer.

Sacode a cabeleira ruiva e aflora à janela em pose de diva aborrecida. Faz pairar o perfume sobre a terra e regressa a poltrona de veludo carmim onde o Proust da véspera folheada à toa, adormecera.

 

A Gaffe preocupa-se.

 

Tem tido recentes indisposições, pequenos achaques, brevíssimos incómodos e até mesmo opiniões!

Na manhã do dia anterior encontrou suspenso na página setenta e quatro, pousado na almofada que outrora fora destino do colar de pérolas despido com pressa, O Conceito de Ironia constantemente Referido a Sócrates, de Kierkegaard. À tarde, vislumbrou Sobre o Assunto Pensamento, de Heidegger, a espreitar-lhe os movimentos e após frugal jantar, onde debicou uma sopa fria de tomate sous vide com óleo de manjericão, deu conta do padre António Vieira a boiar na refeição.

 

A Gaffe preocupa-se, como será de prever.

 

Pensa para espairecer, participar numa caminhada, numa corrida, numa semi-maratona, numa coisa assim suada, onde as pessoas colam umas fitas na testa e uns lacinhos nas lapelas todas solidárias e calçam uns objectos inenarráveis de coloridos, mas assumiu que não corria nem atrás de um autocarro, mesmo se soubesse o que é e para que serve exactamente um autocarro.

Pensou manter-se inabalável e hirta na recusa, que sempre foi seu apanágio, do capitalismo selvagem, mas não lhe apetece muito parecer a Joana Amaral Dias que já só consegue mexer os coágulos de rímel durante as suas intervenções na TVI.

Equacionou a prática de um desporto. Salto à vara, salto em comprimento, corrida de barreiras, estafetas, ou até mesmo boxe ou ping-pong, mas irrita-se sempre nestes eventos porque ao seu lado está invariavelmente sentado um hooligan e a Gaffe não está disponível para suportar a mancha que é ter de trocar agora assobios com Manuel Maria Carrilho. Depois, e para além disso, não entende porque se permite a Nélson Évora usar, quando salta para a areia, um varão no meio das pernas, quando a modalidade que o rapaz pratica não o exige.

Pensou apoiar um dos candidatos à liderança do PSD, porque sempre a fascinaram os fenómenos de ressurreição dos mortos, muito em voga no tempo de Lázaro - que como se sabe, nunca mais se livrou do cheiro -, e pese embora apoiar a criogenia como procedimento estético para evitar as rugas, entende que neste caso se trata infelizmente de taxidermia e a Gaffe passou a ter imenso medo de animais empalhados desde que se cruzou com Betty Grafstein.

 

Esgotadas as hipóteses mais óbvias, a Gaffe começa a ficar extenuada de tanto exercício mental.

 

Não quer de modo algum passear pelas suas Avenidas sem o allure de menina parva, fútil, ligeiramente depravada e perversa - embora nestes casos considere haver lugar para imensa flexibilidade -, tonta, superficial, oca, pateta, egoísta, estúpida, irresponsável e sem uma gota de solidário compromisso cívico e social.

 

A Gaffe sempre soube que os diamantes parecem brilhar mais pousados sobre um pobre pano preto, do que encastrados num aro de platina, assim como é bem mais fácil a uma mulher roubar o que deseja se for vestida por um luminoso Dior durante o assalto, fazendo acreditar que é uma imbecil que traz o cérebro tapado por um frágil pano preto.

 

A Gaffe decide por fim usar uma capeline

Foto de Erwin Blumenfield, 1949

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Gavetas:

A Gaffe digitalizada

rabiscado pela Gaffe, em 06.11.17

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Quando dei por finda a minha página no facebook  - uma belíssima página, devo acrescentar, com um maravilhoso tratamento de imagem e inúmeros macaquinhos -, disseram-me de olhos esbugalhados pelo espanto, que se não alimentasse aquele cantinho, assassinando desta forma uma quantidade de likes e de amigos, não existia.

Naquele momento, confesso que atribui a desfaçatez do dito à instabilidade hormonal da autora que à data tentava enfurecida dominar a oleosidade da pele. No entanto, fui posta há dias perante as imagens de uma agressão bárbara às portas de uma coisa nocturna, o Urban Beach, e soltou-se no cérebro o eco borbulhento do que me haviam dito.

Aliei esta experiência de cariz paranormal, à visão de duas crianças de pouco mais de quatro anos que almoçavam com a família no mesmo restaurante que esta rapariga aparentemente inexistente e à de uma adolescente na mesa do canto sorvendo a sopa ao lado dos pais.

As crianças, que revelavam um comportamento irrepreensível, mimoso, fofinho e adorável, foram colocadas na frente de um monitor onde de imediato colaram os olhos e calaram todos os movimentos e sinais vitais, dando oportunidade à mãe de lhes ir enfiando o garfo nas bocas sem perder pitada da alegre, embora discreta, discussão erguida pelo tão saudável convívio familiar. A adolescente levava a colher à boca curvada sobre o telemóvel onde se adivinhavam a cor e o grafismo das páginas facebookianas, enquanto os pais miravam em silêncio a paisagem urbana e as minhas pernas quando entrei. O resto da refeição foi constantemente intervalado com uma consulta exaustiva às novidades dos murais.

 

Esta aliança da visão de uma passividade inumana das testemunhas da agressão numa coisa nocturna e três criaturinhas suspensas num monitor, foi perniciosa.

Percebi que aquilo que ecoava no meu cérebro, vindo dos confins do esquecido, consubstanciava uma verdade incontornável. Sentimos no Facebook, estamos no Instagram, indignamo-nos no Twitter, passeamos no Pinterest e trocamos de insanindades no youtube.

Somos o que para nós olha através de um vidro, somos o objecto inanimado que vai produzindo digitalmente uma individualidade, um indivíduo com um código binário em vez do outro, um algoritmo que absorve todas as nossas emoções, revoltas, indignações, frustrações, empatias, conquistas, alegrias, erros, quedas, vitórias e tudo o que mais há capaz de nos tornar donos daquilo que nos enforma a alma que vai deixando desta forma de mensurar o mundo pelo pulsar do coração, medindo-o pela quantidade de cliques que visualiza.

 

A desumanização do real e o galopante apagar do real fora de um visor, não se confinam a estes factos, mas estes factos originam indubitavelmente a ausência de resposta à barbárie. Não vemos a maior das abjecções e não reagimos aos mais escabrosos atentados à dignidade humana e não impedimos o opróbio e a infâmia, porque vai deixando de existir o tempo real, o tempo da empatia do instante e do instante de empatia, o tempo do acontecimento testemunhado pelo nosso corpo presente e pela nossa capacidade de condenação imediata do erro imundo cometido perante os nossos olhos sem artefactos digitais.

Sentimos depois através do teclado, ou libertamo-nos através do indivíduo que somos digitalmente e é da mesma forma que arriscamos todas as outras emoções de natureza e verdade mais solares, porque permitimos que surjam no monitor vividas pelo indivíduo que ali somos e morremos digitalmente se negarmos a entrega do que resta a um login e a uma password. Morremos duplamente, pois que já não somos sem as redes sociais.

 

As duas crianças continuam sem ver e sem ouvir o barulho da vida fora dos seus bonecos animados e a adolescente fotografou a sobremesa. Possivelmente aplicou um filtro ao doce da casa antes de o comer no facebook. Não existe o que tem à frente.

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A Gaffe assediada

rabiscado pela Gaffe, em 03.11.17

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Sempre considerei que uma mulher que luta pela igualdade entre géneros, é uma mulher sem ambição.

 

Nunca foi minha intenção ser igual aos homens. Jamais foi meu plano equiparar-me ao senhor que na minha frente bate com os joelhos na barriga quando cruza as pernas, de rabo alapado na poltrona dos poderes. Não quero a igualdade apregoada pelas caricaturas do feminismo que grassam nas redes sociais, que se cruzam comigo nas ruas e me conspurcam o sossego límpido da minha pacatez segura pelos ferros do que quero e pela certeza de que o machismo - e mesmo a misoginia - é apenas mais uma ferramenta de trabalho que nos é entregue e que pode servir os intentos das mulheres bem melhor que um panfleto feminista de pacotilha.

 

Sou indiscutivelmente uma mulher. Quero ser mimada, apaparicada, protegida da chuva, levada ao colo para atravessar a lama, receber gigantescos ramos de flores no amanhecer de um pequeno-almoço de lençóis de linho, ser considerada frágil demais para mudar um pneu que suja imenso as minhas mãos angelicais, ter asas que despertam a Poesia e - entre o mais que me cansa descrever - ser defendida das bestas por um musculado gigante bem barbudo. Não quero que se descartem estas obrigações masculinas em nome de uma igualdade de pantomima. Não quero sentir as obrigações, os deveres e as regras instituídas que fazem a tradição do macho/cavalheiro, esbatidas ou diluídas, porque sou mulher e logo igual e imediatamente tratada como se tivesse uma pila no cérebro antoniodamasiano.

Não quero.

Quero, isso sim, que os meus direitos solidifiquem. Poderão eventualmente distar daqueles que a mulher do quinto esquerdo decidiu que seriam os dela, mas convém que os dela recebam igual deferência e reverência.

Quero - à laia de exemplo -, ter o direito de usar o véu islâmico no centro dos que sabem em Paris, apenas porque me fica bem ou porque me converti; quero que a senhora do andar de cima use saias terríveis e apertadas sem que lhe digam que sabia para onde ia quando foi atingida pelo escarro das palavras do troglodita da esquina; quero levar para a cama todos os amantes que desejar sem me sentir, através dos outros, maldita, mal dita e culpabilizada; quero ser virgem o tempo que quiser, quando e enquanto assim o decidir; quero mover-me sem peias nas decisões que deslocam montanhas, sem que os ratos paridos o sejam por mim; quero ser livre sem que me aborreçam com a treta da minha liberdade acaba quando começa a dos outros.

Não quero ser igual aos homens. Não quero ter os mesmos direitos. É um tédio. É limitado. É circunscrito. A falta de ambição levada ao extremo.

Quero ter os meus direitos. Se os adquirir e preservar, com certeza que contribuo para a preservação e solidificação dos alheios.

 

É evidente que encontro abrolhos.

 

A beleza de uma mulher e o poder que adquire - sobretudo o simbólico -, são demasiadas vezes engulhos que contradizem e negam de modo ínvio os direitos que reivindica - e estes direitos são sempre subjectivos, metamorfoseando-se e amadurecendo de modo diferente em cada uma de nós -, e é quase circense, de uma mediocridade quase trágica, apercebermo-nos que são demasiadas vezes outras mulheres que negam e boicotam a Mulher e lhe arrimam a primeira pedra, embora seja polido e eivado de moral e bons costumes esconder a mão - e não refiro Donna Karan, porque sinto pena.

 

Os casos que vão surgindo e que nos informam da miríade de atentados, assédios, violações e estupros cometidos por machos hollywoodescos sobre mulheres belíssimas e detentoras de um capital simbólico significativo, são subvalorizados, porque - li eu, escrito por mulheres - uma grande parte das ofendidas sabia para onde ia. As vítimas destes crimes são assim prostitutas - e a prostituição é sempre uma violação consentida -, pois que apenas as prostitutas sabem para onde vão quando permitem uma violação em troca oportunista seja do que for. A beleza, o talento e o poder feminino são desta forma usados para incriminar e produzir sentenças que rastejam disfarçadas de bem senso, lógica e evidência, aos pés do acórdão coadjuvado pela juíza da Relação do Porto.

Implica este silogismo torpe que apenas as mulheres feias, miseráveis, pobrezinhas, órfãs da sorte e marcadas pela fatalidade e fado maldito, são vítimas reais - as que vivem nos antípodas são oportunistas que sabiam para onde iam -  e dignas de se fazer ouvir, mesmo que a queixa seja apresentada séculos depois do crime cometido, como se o tempo, o espaço, a circunstância, o medo, a culpa, a vergonha, a sobrevivência - a multidão de razões dramáticas que induzem o silêncio quase eternizado -, não fossem as mordaças de todas as mulheres sofridas e violentadas.

 

Talvez seja por isto que, não querendo ser igual aos homens, também não queira ser igual a um demasiado vasto grupo de mulheres.

Escolho ser um sedutor ramo de flores nos braços de um homem, garantindo que no meio delas há sempre uma carnívora. 

 

Ilustração - Qistina Khalidah

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A Gaffe das nails

rabiscado pela Gaffe, em 02.11.17

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A Gaffe observa com pasmo dantesco a menina da recepção que toca as teclas do seu PC com a polpa dos dedinhos encimados por uma espécie de floretes esmaltados.


A Gaffe fica fascinada com a perícia com que os dedos erguidos apontando o céu conseguem tocar as vítimas, enquanto as unhas, as nails, o gel, vão riscando o monitor em arrepio de giz.

Ao lado, uma loira ripada e explosiva, atira os dedos e faz deslizar outros punhais de gel no telemóvel, arriscando lancetar a jugular da companheira com um mover das armas mais violento.

A Gaffe fica encantada, enquanto se introduz nas suas envergonhadas e tímidas unhas por prolongar até à curvatura do espaço, a suspeita da maldição que as donas das nails carregam pelas suas vidas íntimas envernizadas em todas as suas extensões e prolongamentos.

 

É evidente que estas duas mulheres não sentem, por exemplo, a fricção que é, postas perante um rapagão perito em física atómica - e demasiado atraente para que o ouçamos narrar as aventuras dos electrões, dos iões, dos protões e dos positrões, despido pela nosso imaginário mais maroto que deseja apenas que lhe acelerem as partículas -, pousar o nosso dedinho indicador nos lábios carnudos do potentado intelectual e fazer com que os nosso olhos deslizem pelo deslize que vamos desenhando, impedindo-o de continuar a perder tempo.

Com certeza que, no caso em que o gesto é protagonizado pelas duas portadoras de nails, o pobre rapaz acaba com um olho vazado, ou pronto a ser embalsamado à boa maneira egípcia que arrancava o cérebro pelas narinas.

Por razões similares, as coleccionadoras de nails arriscam ser excisadas durante os seus devaneios e solilóquios, transformando ocasiões propícias a alegrias várias - relembremos que saber estar só revela saúde mental - em trágicas subtracções de capacidades autonómicas. Torna-se também evidente que quando a alegria é partilhada, o lamentável parceiro de folguedos tem grandes hipóteses de ficar sem as bolinhas, mesmo que sejam de Berlim e fáceis de azedar, reconhecendo-se também que a piloca corre grandes riscos de ser aberta a todo o comprimento como uma sardinha sanjoanina ou como uma salsicha de feira popular - de preferência alemã.

 

A Gaffe não vai por decência - atributo que muito a caracteriza - reportar-se às idas ao WC destas portadoras de armas brancas, sobretudo porque acredita que as criaturas não usam as sanitas. São provavelmente como Beth II, que a Gaffe em criança acreditava piamente não ter intestinos - por razões que excedem o âmbito deste pequeno rabisco. Em consequência, os resíduos alojam-se no cérebro.

 

Posto assim, há que admitir que existem algumas das mais importantes intimidades gravemente abaladas pelo uso de nails cuja única vantagem é apenas a possibilidade de se usarem como chaves de fendas, pese embora o problema referido atrás.

 

Antes de colar nos dedos os parolos punhais da mais rafeira das escolhas estéticas, pensem, minhas queridas, que cravar as unhas naquele físico atómico lindo de se morrer repleta de descargas - sendo bem-vindo tudo o for que se dispare - não implica um entendimento literal da acção enunciada. Basta, meus, amores, um dedinho nosso, de garras recolhidas, a contornar os lábios com silêncios.    

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