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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe navegante

rabiscado pela Gaffe, em 20.01.17

Cuca a Pirata

Convém ler com cuidada atenção.

lugares que ficam na memória e quando os encontramos percebemos que talvez seja porque chegamos a casa.   

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Gavetas:

A Gaffe de transição

rabiscado pela Gaffe, em 20.01.17

 Ladies and gentlemen, the last President of

the United States of America

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A Gaffe receia que o derradeiro presidente dos Estados Unidos aceite que é banal existir um país governado por um psicopata.

 

Foto - Mark Seliger

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A Gaffe d'O

rabiscado pela Gaffe, em 19.01.17
 

michele Obama.jpg

A polémica foi medíocre, mas acabou por despertar a nossa atenção.


Michelle Obama.


Independentemente da sua tão invocada elegância, discutível como é normal, porque a noção de elegância é de tal forma subjectiva que a atribuição do estatuto é contestável, a senhora Obama assustava um pouco.
Dizem as más-línguas, que como sabemos são demasiado interessantes e interesseiras para nos podermos dar ao luxo de as ignorar, que esta mulher foi uma primeira-dama reservada, seca no trato, prepotente e dominadora.


Seja.


O facto de parte do mundo cor-de-rosa a ter começado a tratar por Michelle O, por analogia com outra O, não há motivo ou razão lógica para a aproximar da famigerada e elegantíssima Jackie.
Michelle foi e é incontestavelmente diferente.
Não teve como é evidente o allure francês que foi mantido durante toda a vida pela Kennedy-Onassis mas em contrapartida manteve um gabinete seu - muito capaz e de importância capital -, na Casa Branca.


Entre uma elegância compulsivamente consumista, uma fotogénica oscilação entre a depressão e a discreta euforia própria dos neuróticos bem controlados, e uma elegância que advém da notória inteligência de quem acompanha, impulsiona, fortalece e até mesmo substitui o seu Presidente, nós, raparigas espertas, por muito que nos custe, escolhemos a segunda, mesmo que isso assuste os cor-de-rosa pouco habituados a ver o topo do mundo ocupado por uma mulher de cores diferentes.

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A Gaffe no fio das palavras

rabiscado pela Gaffe, em 19.01.17

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As palavras deviam ser como instrumentos cirúrgicos prontos a dissecar a alma.

 

As minhas não passam de rombos grosseiros na pele da penumbra. O que dizem, escolhidas à toa, não chega sequer para sonhar entender os mecanismos mais simples dos universos interiores de quem por mim passa. Às vezes, a frustração de não poder dizer a alma dos outros, atinge-me e reduz-me à mais ínfima partícula de nada. Nesses instantes, a percepção da minha impotência diminui-me e transforma a minha mais ténue luminosidade num minúsculo e insignificante ponto de luz, tímido fósforo fraco, a ameaçar o bosque inacabado e inacabável dos sentidos, a tentar aflorar brevemente as tábuas das almas.

 

Misturado com as resplandecentes clareiras e desenhos do sol no solo, é desprezível o fio que vou tecendo, como se de um fio de aranha se tratasse, sem qualquer capacidade de formar a teia e sem aranha e sem insecto e sem lugar onde prender o início e sem qualquer gota de sol que nele se rebata.

 

Nestes momentos de mísera incapaz, as palavras ficam sem abrigo. Nesses instantes eu odeio os livros.

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A Gaffe sem interesse

rabiscado pela Gaffe, em 18.01.17

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A Gaffe irrita-se.
Claro que se irrita!
Não consegue ouvir a desgarrada frase:

- Não estás interessada, pois não?... É que se estiveres... - e para agravar - desisto até se for talvez... é que eu não sei... talvez...

 

Choraminguices.  


Se uma ruiva estiver interessada, seja no que for, não informa ninguém. Decide agir e não há quem a detenha.
Não consegue perceber como pode haver gente que se a Gaffe não estiver interessada, avança de lança em riste para o campo de batalha e, ensanguentada, luta pelo alvo do seu desejo insano, mas que se a Gaffe mostrar um interesse mesmo hesitante, cala e sufoca a dor de se ver obrigada à renúncia.


Se a Gaffe estiver interessada, nota-se e nada contraria o seu desígnio.


Não consegue encaixar a benévola, solidária e abnegada disposição daquelas que recuam perante o seu eventual interesse e responde inevitavelmente que SIM, que está interessada e que trucida quem se colocar à frente, mesmo que o alvo desse imaginário interesse seja um demente, um serial killer, um loiro espampanante, inútil e imbecil ou um deslavado e minúsculo exemplar de orangotango.

 

- Não estás interessada, pois não?... É que se não estiveres...


Se não estiver, passa a ficar. Escancara-se frente ao objecto do desejo alheio e, sem delongas e de ferrão apontado, crava no coiro da cortês e obsequiosa abnegada a maldade gratuita que é roubar aquilo que nem sequer lhe agrada e que descarta logo que possível.


Quando o desejo é nosso e faz doer cá dentro, é de todo lícito atear todas as fogueiras do egoísmo e nelas queimar potenciais interesses que nos são alheios com a madeira hesitante das rivais possíveis.

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A Gaffe com Cristas

rabiscado pela Gaffe, em 18.01.17

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A Gaffe está zangadíssima com António Costa.

 

Embora com relativa alegria o tenha visto de turbante e pachemina e confirmado o seu sentido de humor, não pode deixar de o repreender quando vê este maroto a apontar sorrisos a Assunção Cristas.

 

Toda a gente reconhece que esta rapariga é de boas famílias e as boas famílias não precisam de se preparar para debates com homens aborrecidos, lidos, experientes, manhosos, entediantes e velhos, alguns provenientes de perdidas - por sabe Deus que gente - colónias e que se atrevem a tocar no Chanel de uma menina de raiz exclusivamente portuguesa com imensos rebentos fofos, que tão bem iniciou a tutela do Ministério do Mar abolindo por Despacho as gravatonas cinzentas dos seus funcionários. Lufadas de ar fresco, marítimo, na penugem peitoral dos subordinados.

A Gaffe aplaudiu naquela altura e continua de mãos abertas à espera que Cristas denuncie a postura de segurança de discoteca das irmãs Mortágua que ainda não entenderam que o cenário é mais o de casa de alterne e que a descontracção - mesmo controlada por um senhor estranho, mas muito bem-parecido -, nos conduz sempre às posições repletas de piada de Passos Coelho que decidiu entretanto iniciar uma carreira na difícil área da stand-up comedy.

 

Uma rapariga não pode - quando pipila na sua maviosa pedalada de bicicleta com cestinho à frente preenchido por miosótis -, ser abalroada por um catrapillar em contramão, mesmo quando se esqueceu de ler o livrinho que ensina que o guiador normalmente está à frente do aparelho.

 

A pobre menina não consegue mostrar os desenhos que lhe fizeram em papel couché; não pode abanar as pulseiras de berloques e de guizos Cartier que exigem que o governo se lembre das Berlengas da dívida soberana e súbdita e tudo ao mesmo tempo; não lhe é permitido ficar com beicinho irritado e peitinho a tremer quando reivindica os irrisórios triunfos de uma geringonça que a retirou do seu Austin mini; não arranja modo de poisar uma boina na visita à feira - não toldando a leveza do abanar madeixa -, sem que um cigano lhe tolha a passada de tacão na média; não encontra uma forma de passar o brilho das suas intervenções de acutilante teor e arrasador efeito, sem ser esbardalhada por um brutamontes que lhe sorri como o gato de Alice.

 

A Gaffe não se espanta com a animosidade Jerónimo de Sousa, porque do senhor já se espera o destempero e a aversão a jóias Pandora, mas  está zangadíssima com António Costa, um cavalheiro que devia saber que custam caro se não forem uma versão em bico, e daqui lhe recorda que uma rapariga tem todo o direito de dar uns saltinhos na bancada, sem ver destruído por uma bruta bola de demolição o banquinho onde pousa o rabo.

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A Gaffe à portuguesa

rabiscado pela Gaffe, em 17.01.17

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Nos primeiros Domingos de Inverno, amontoa sobre a mesa as carnes e os enchidos.

As batatas, as couves e as cenouras num cesto de verga pousado no balcão.

Torna-se soberana no confuso domínio. Critica o modo como foram curados os nacos de porco e leva ao nariz as chouriças de sangue e de colorau à procura da origem do fumeiro. Desaba com cutelos sobre o frango caseiro, que o matou ela sozinha e sabe que o criou para este fim e trucida as postas de vitela, a carne entremeada, com faca de assassino, cabo de madeira e lâmina que primeiro afiou, e arrepiou, contra uma outra. Quebra costelas, chamusca a orelheira, golpeia com a força de titã, focinho e chispe e de mãos sangrentas e ar de psicopata dá destino cru à carnificina misturando tudo na panela enorme com água a ferver medonha de bruxedos.


Depois suspira.

 

Enquanto espera descasca as batatas gordas e as cenouras.

- Só começa a cheirar bem, menina, quando lhe enfiar os enchidos.

 

Pica com um tridente as carnes a ferver. Toma-lhes o gosto. Nada de sal. Perturba a natureza do cozido e os enchidos bastam para disfarçar a vaga.

Na outra panela cozem-se batatas. As cenouras adocicam a luxúria e as couves moribundam verde-escuro.

Num arremesso, empurra com os dedos mergulhados no caldo que borbulha todos os enchidos que critica.

- Olhe que bem que cheira!

Eu olho e pasmo. A cozinha parece engravidar de odores. Barriga de luxúria que a dona acaricia com mãos de pedra e olhos de matrona benevolente e farta.   

 

- Agora é só vazar para as travessas. A menina vá chamar as suas gentes, que está pronto.

 

Rega com a água em que ferveram carnes, as batatas, as couves e as cenouras que dispostas em redor fumegam estafadas e ergue em triunfo a travessa enorme, pesada de aromas.

 

Eu como sem alma, sem dó nem piedade, sem pudor ou termo, sem pejo ou clemência. Como até morrer ou pensar que morro de tanto comer.

- Guarde um lugarzinho para o leite-creme. Está como gosta, torrado com açúcar, mas do mascavado. É um gosto vê-la! Só de a ver comer, ficamos sastisfeitos. Bem se vê, menina, que é mais portuguesa que o resto dos outros. Só comem cenoura e debicam umas niquices de passarinho-pombo. Um desperdício, Deus lhes valha!

 

De braços cruzados sobre o avental, de sorriso aberto e olhos com luzes que piscam e tremem e tremem e piscam, sabe que cozinhou para mim e apenas para mim, que os outros que restam debicam pieguices e são passarinhos.

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Gavetas:

A Gaffe desiludida

rabiscado pela Gaffe, em 17.01.17

 

Seria mais razoável cingir o âmbito deste cantinho esquecido a comentários relacionados com os farrapos.

Comentar trapos deveria ser o meu destino, nada complicado tendo em conta a panóplia de blogs dedicados a este assunto que me serviriam de exemplo.

Enfrento-os corajosa, à procura de linha orientadora que seja capaz de me tornar numa especialista com ânsias de Chanel e tomba-me arrasada e cadavérica esta ambição tão elevada.

 

Sou como uma gata em telhado de zinco quente, ou como uma ratazana morta na mesa do jantar, quando comparada com as maravilhosas conselheiras de moda que pululam por aqui. Não me consigo aproximar do look da semana. Não tenho a audácia que me permitira aconselhar o champô que a Catarina Furtado não usa, embora sorria dizendo que sim, asfixiada num vestido Nuno Baltazar. Não sei ser convicta ao indicar a máscara amaciadora, para cabelos secos, que sabemos ser prima direita da tinta que reluz na cabeleira farta de Fernando Ruas e que o intoxica através do bigode. Não entendo nada de tendências e sempre achei que instigar o uso de ankle boots pode ser considerado assassínio premeditado.

 

Não sou capaz.

 

Para meu desgosto infindo, jamais serei uma fashion adviser ou, no mínimo, uma blogger cintilante de sugestões, opiniões, dicas, inspirações, estímulos e propostas relacionadas com os trapos.

 

Sei, no entanto, que tenho dentro, pronta a saltar de tacões agulha e a gritar sem abrir muito os lábios, a amplíssima tontice de uma rapariga que dizem ser vã, fútil, vazia, capaz de comentar trapos, rodilhas, farrapos, frangalhos e demais trapalhada que lhes está apensa.

Se não desejo com fervor a carteira Chanel que diz com tudo, não deixo de cobiçar com ardor um garboso atleta -, mesmo usando hastes brancas, mesmo quando tem as bolas Chanel.

 

Podem embrulhar e enviar exactamente como está. Depois completo o laço, retiro os excessos, refiro-lhe os atributos e menciono as vantagens do uso descontrolado do rapaz.

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A Gaffe sem preço

rabiscado pela Gaffe, em 16.01.17

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Não creio que se deva ou se possa impedir alguém de alcançar uma vitória ou atingir determinado objectivo, apenas porque é portador de determinada característica que potencia as hipóteses de sucesso ou que, de ânimo leve e consciência limpa, se possa anular a candidatura à vitória do que possui um dado específico ou eventualidade genética que o coloca de imediato na linha da frente dos pretendentes mais lógicos.  


Não afastamos, por exemplo, ninguém da competição, com desdém e sobranceria, apenas porque o indivíduo em causa mostra que tem um inato e descarado talento, um incontornável e descontraído virtuosismo, perante um outro, menos genial e menos bafejado pela sorte ou pela lotaria dos genes, mesmo que este arraste consigo um sistemático esforço, um constante labor, um suadíssimo e encarniçado trabalho de bastidor.

 

A beleza, feita de carne e de imaginação, é um factor gratuito que chega sem contar para nos colocar nos lugares onde a vitória é mais previsível, mas que cobra esse privilégio sem qualquer tipo de condescendência.
O preço é real e muitas vezes inclui o retorno inflamado daquilo que é dado e, ao contrário do esperado, quem o costuma pagar é o vencedor.
É uma arma que dispara do mesmo modo que o talento, a inteligência ou o mais elaborado dos esforços e, como tal, deverá ser considerado legítimo o seu uso na procura eventual da vitória e abertamente aceite o seu efeito potenciador de sucesso.


Pode não usar o mesmo gatilho usado pelas outras, mas supera-as muitas vezes no resultado obtido.


Não é de todo condenável que se use consciente e deliberadamente na guerrilha da vida as armas que nos foram entregues pelos genes.
O uso do poder de atrair, a pele e o sorriso, podem emudecer as mais argutas análises, podem calar as mais estudadas e sapientes conclusões que contra nós afiam dentes e navalhas.
O uso da capacidade que a beleza tem de se tornar obstáculo aos mais matemáticos estudos, às mais complexas equações, aos mais racionais argumentos, às mais límpidas demonstrações que nos negam e reprimem, não pode ser proscrito.
O uso da evidência do que é belo preso em algodão macio para destruir o que nos impede de morder maçãs proibidas, não é de descurar.
O uso da agilidade de todos os músculos que temos para domar a rigidez das decisões que não interessam, deve ser considerado como viável e certeiro.

A beleza funciona assim e desta forma como uma alavanca, um impulso consciente, um corte de caminho, para que às nossas mãos chegue aquilo que desejam.


Nestes processos é condição essencial - quando as armas que empunhamos são por norma as que maldizem -, que seja divertida a consciência desse uso e aguda a certeza de que o fazemos bem, sem escrúpulo algum, sem nenhuma espécie de demagógica moral, sem ética pindérica, sem benzida noção de decência ou de beato decoro.


Apenas dessa forma a beleza que utilizamos é uma outra espécie de inteligência. A inteligência que se pode espreitar, pecaminosamente, maliciosamente, pela fechadura do desejo. A agulha no palheiro.


O absolutamente exigido é que nunca nos coloquemos à venda e perceber que temos somente a perspicácia de apenas fazer com que alguns encontrem os seus preços.  

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A Gaffe culinária

rabiscado pela Gaffe, em 12.01.17

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A Gaffe não sabe cozinhar.

A Gaffe não sabe fotografar.

 

Torturando e tentado esmagar o dito até o transformar forçado num silogismo constrangido, poder-se-á concluir que a Gaffe não fotografa o que não cozinha.

No entanto, se soubesse preparar o prato mais simples que se possa imaginar sem transmutar a cozinha num cenário de um holocausto nuclear, se percebesse o mecanismo que permite colher uma representação aceitável do que lhe causa espanto, jamais se atreveria a captar uma imagem daquilo que produziu de avental e touca.   

 

Toda a rapariga esperta sabe que para fotografar um morango encimado por uma gota de chantilly - dá um lindo pai natal na mimosa mesa da consoada -, é imprescindível substituir o branco doce por espuma de barbear que não se desfaz com o calor das luzes que foram estudadas com minúcia para que o brilho do verniz com que o morango foi coberto obtenha o toque mágico duma eternidade gastronómica e primorosamente natalícia.     

 

A chamada fotografia culinária é uma arte difícil entregue a equipas de profissionais que cuidam da imagem da feijoada como cuidariam da que pertence à mais recente aquisição das passerelles.

 

Há no entanto meninas que sabem cozinhar, mas que não são grande garfo nas provas de contacto.

A Gaffe viu fotografias do work in progress e do produto culinário já finalizado.

 

A primeira contra a qual se esbardalhou, fê-la pensar que estava a ter uma premonição.

Sentiu-se mediúnica numa dimensão original, pois que vislumbrava o futuro. Perante esta rapariga atónica estava a fotografia que uma blogger de sucesso publicará daqui a duas décadas. Diante desta arrepiada criatura ruiva a imagem do conteúdo das fraldas do petiz de vinte e tal anos com que a mamã continua a brindar a plateia, nunca desistindo de a mimosear com as traquinices do rebento e a abdicar do patrocínio.

Depois da perplexidade, veio a bonança. Era uma mousse de chocolate em forma de cocó de gente que come como se não houvesse amanhã - continuamos assim, neste apontamento temporal, a aludir a premonições.   

 

A segunda consistia num bolo de maçã, com recheio de manga e cobertura de caramelo.

A fotografia mostrava uma fatia de uma massa verdoenga e esfarelada por onde escorria uma substância viscosa e vagamente cor-de-laranja numa alusão nítida ao PSD. No cimo, uma fila indiana de lesmas muito bronzeadas parecia abrir caminho lento e penoso na rugosidade do destino que lhes entregou o sacrifício.

 

A Gaffe, passado o choque e já sob o efeito de uma sessão de psicanálise que a impede de associar cocós e lesmas a fotografias dos cozinhados das fadas do lar, resolve lavar a alma e os olhos por um diferente petisco da mamã, desta vez muitíssimo bem fotografado por quem sabe, acreditando que com ingredientes destes até ela seria capaz de cozinhar o prato e que seria difícil arrancá-la da cozinha. 

 

Na foto - Franco Noriega

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A Gaffe anciã

rabiscado pela Gaffe, em 11.01.17

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Escondia-me no minúsculo compartimento, mandado construir por ordem da minha avó, no vão das escadas. Ouvia as mulheres de lá para cá, à minha procura sem muita vontade, cada vez mais lentas, até desistirem e se sentarem a um canto onde mastigavam o silêncio.

Era ali, apertada e abafada, que sentia poder viver naquele sítio para sempre. Subdividia o chão e destinava espaços para os meus brinquedos mais importantes. A luz que escorria das frinchas da madeira traçava no chão do cubículo compartimentos onde seria possível construir histórias independentes. Quase imóvel, movia-me. Os meus olhos corriam desenfreados procurando não perder nada do que se passava no chão. Durante horas brincava sem me mover, sentada no chão, de cabeça pousada nos joelhos.

 

Por vezes espreito o despovoado que ficou depois do abandono. As tardes da memória voltam outra vez. Aproximam-se voando como minúsculas folhas de papel desenhado que vou colando à toa, sem qualquer critério. Nunca fui uma boa coleccionadora. As estampas da minha infância foram todas amealhadas em parceria com outros que acabavam por ficar com as colecções completas e com a minha anuência. Não sei catalogar tudo o que encontro cá dentro, mas apuro todos os sentidos quando procuro aquela em que o meu avô me encontrou.

 

Era franzina. Magricela. Tinha olhos transparentes de espanto e timidez e labaredas corajosas no cabelo. Segurou-me no colo e prometeu que me daria um lugar melhor para eu ficar e que seria meu para todo o sempre.

 

Deu-me a biblioteca.

 

Sem que eu percebesse, o meu avô iniciava naquele instante a minha aprendizagem literária.  

 - Lê primeiro os velhos. Não conseguirás crescer se não souberes por onde começar. Ao contrário do que te dizem, os velhos são sempre o lugar de onde partimos. São sempre o início de qualquer coisa tua.  

 

Depois, já mais crescida, envelhecíamos juntos nas alamedas do jardim.

Encostava a cabeça ao braço dele, depois - primeiro o pé esquerdo, depois o outro, depois os olhos, depois os dedos, depois cada palavra pisada no caminho -, íamos envelhecendo o coração.

 

Mostrou-me Fernão Lopes que mais não disse por ser a verdade, fez-me ouvir os sons das batalhas nos Lusíadas, ouvi o Padre e fui também um peixe, ri-me com Eça dentro do riso que me ia guiando, atravessei países, conheci Cervantes e corri ao lado das irmãs Brontë.  

 

Dante. Shakespeare. Balzac. Proust. Mann. Elliot. Joyce. Auden. Musil. O maldito Celine. Mallarmé. Baudelaire. Shelley. Withman. Keats. Byron. Os Gregos. Os russos.

Os outros velhos todos por onde me perco por não saber dizê-los.   

Assim. Misturados. Como se surgissem à toa e sem critério nos lanhos de luz do esconderijo para que os ouvisse a contar histórias.

 

Era frágil e franzina. Tinha olhos transparentes de espanto e pequenez e labaredas tontas no cabelo. Ele segurou-me no colo e deu-me o melhor lugar para eu ficar.

Agora é meu e sei envelhecer.

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Gavetas:

A Gaffe em recortes

rabiscado pela Gaffe, em 10.01.17

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A Gaffe tem deparado com um crescente uso de publicações onde pequenos mimos esbardalham frases de autores normalmente já falecidos e em consequência incapazes de protestar.

 

São coisinhas floreadas, com fundos idílicos ou rebuscados traços de designers de capoeira onde são usadas em letras tombadas e muito manuais pequenas tiradas, arrancadas dos contextos, que pululam de beleza interior.

 

Resumem tudo aquilo que os responsáveis por estas maldades sabem dos autores que vão ilustrando e ajustam-se - e confinam-se - a recortes do que parece adequado à ocasião pindérica e normalmente banal que tentam traduzir com elevados cogitares. Os grandes pensadores da humanidade dedicaram um tempinho e um cantito do cérebro às quezílias das comadres e percalços dos compadres, substituindo tudo o que estes usurários de triciclos emproados não são capazes de urdir ou pedalar, pelas palavras que foram por eles ditas na avalanche genial de páginas que foram por eles calcorreadas. Há sempre um pedacinho - um lancezito, um pedalzinho, um niquinho de caminho -, que pode ser aproveitado para desancar o parceiro que não fez um like nas fotos do aniversário do petiz, mostrando-se ao mesmo tempo que se é conhecedor e estudioso dos pobres pensadores.

 

Os autores mais citados, segundo um exaustivo estudo desta rapariga incansável, são Dali Lama, Oscar Wilde e Nietzsche.

 

O primeiro, porque é um fofo - embora mal vestido - e faz realçar as nossas vivências nobres, pacíficas, de grande beleza interior, a nossa tendência para a meditação, para o nosso profundo desejo de abdicar de terrenos anseios e pecaminosos desejos, a nossa capacidade profunda de olharmos o profundo capaz de elevação, solidariedade, de purificação e de glorificação da alma que já foi pedra e será, por ventura e encarnação futura, aquilo que usualmente parecem os que usam o senhor tibetano como arma de arremesso: um ratito que rouba a rolha da garrafa do rei da Prússia.   

Acompanhadas por imagens de velinhas ou de incenso, as tiradas são sempre uma bofetada de transcendência no nosso espírito vácuo, embora possuído por Maquiavel.  

 

O segundo, porque é absolutamente dandy  o uso da ironia e do spleen alheios.

É sempre adequada, seja em que circunstância for, a seta que se dispara com o arco do autor e nem sequer precisamos de usar a cartola da discriminação ou sentir ou conhecer a humilhação a que foi sujeita a coragem e a ousadia do maravilhoso amante de Bosie e o seu torpor niilista.

Não lendo Teleny, não é necessário entender o reverso da medalha. A ácida mordacidade e a capacidade destrutiva da ironia de Oscar Wilde, quando emolduradas por um friso de florinhas negras sobre fundo sépia, é perfeitamente capaz de ajudar a fustigar os outros que não agradam à nossa bonita maneira de ser.

 

Finalmente Nietzsche.

É assustadora a quantidade de gente que acredita ser a reencarnação de Lou Andreas-Salomé e que pode transformar um imponente bigode no veículo das suas alfinetadas bacocas e, no entanto, é simultaneamente compreensível - salvaguardando-se a distância que se exige, por demais evidente, e numa aproximação muito infeliz -, tendo em consideração o que os nazis fizeram ao seu pensamento, adequando-o e manipulando-o de modo a que fosse passível de usar como esteio da hecatombe. Nietzsche é muito dado a estas perdições.

O uso de pedacinhos soltos de Nietzsche, em letras brancas garrafais sobre rectângulos negros com a sua esfinge apensa, é apenas o reconhecer da dimensão do desconhecimento da brutalidade imensa da força filosófica do pensador e é um dos motivos para se sentir vergonha alheia.  

 

A Gaffe, depois de se esbardalhar contra tantos recortes de mimoso corte destes três potentados, acaba por humildemente colar num quadradinho com lacinhos e fitinhas cor-de-rosa, sustentadas por ursinhos de peluche, a frase lapidar da Filosofia Primordial, com raízes no Húmus Primário, na Origem e nos ramos transversais a todo o pensamento humano.

 

Ide todos bardamerda.

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A Gaffe no tombar de heróis

rabiscado pela Gaffe, em 09.01.17

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Hoje vi um pássaro cego que na cegueira quebrou a pele da água.

Hoje vi cair branca a pétala e embevecida vi o insecto morder a pérola de leite.

Há manhãs assim, não sei porquê, em que a água dos meus olhos fica parada a ver.

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Gavetas:

A Gaffe repreendida

rabiscado pela Gaffe, em 06.01.17

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A Gaffe recebeu um comentário indignadíssimo assinado por uma senhora que se sente, nessa qualidade, ofendida e lesada, apenas porque esta rapariga descuidada não cuida da postura que o feminino deve assumir perante o mundo e se atreve a exibir fotografias de homens quase nus que só contribuem para a humilhação, a frustração e a baixa autoestima da maioria das mulheres, reconhecidamente incapazes de encontrar e - numa alusão clara a Saint-Exupéry -, cativar exemplares como os que vão aparecendo nestas avenidas.

 

Seguidamente declara a Gaffe instigadora do sexo pelo sexo, quando, como mulher formada e culta, deveria saber que um homem nu em cada esquina é rua aberta para a decadência feminina - isto, claro, se a esquina não for a de um beco sem saída, ou a que faz ângulo com um clube gay, intui a Gaffe.

 

Termina a senhora chamando a atenção para a atitude de ofensa ao feminismo e à luta das mulheres pela igualdade liberta dos grilhões - tendo em conta a condenação do teor das fotos, provavelmente a senhora quereria grafar outro vocábulo – do machismo a que esta rapariga tem vindo a dar cobertura.

Numa linguagem sempre cuidada, mas sempre unida ao grande raspanete, a senhora revoltada refere a lavagem do masculino que é apanágio do que por aqui desanda e acusa esta pobre rapariga indefesa de estar a sabotar a seriedade, o decoro, a nobreza e a integridade moral que nos deve inspirar e merecer o corpo humano, seja ele de que formato for.

 

Uma chapada.

 

A Gaffe chorou imenso arrependida de ter publicado fotografias de homens bons de se cair para o lado que eles quiserem, em vez das do marido da queixosa.

A Gaffe concorda. Nem tudo são rosas nestas avenidas. Às vezes passam pilas. Cobertas e acauteladas, mas sim, há pilas que se adivinham e de que sabemos que gostamos porque estão apensas a homens lindíssimos que mesmo fora das fotografias o continuam a ser.  

 

Evidentemente que a Gaffe não mantém a postura que uma mulher deve assumir. Esta rapariga, como diz Marco Paulo, é uma lady na mesa, mas só sabe Belzebu do que é capaz de fazer com o restante mobiliário e assume que pertence à maldita minoria de mulheres que não respeitam o sentir das outras, porque é perfeitamente capaz de fisgar  um matulão igual aos que se publicam, sem ponta de solidariedade para com as que ficam sem ele, embora pense que não é assim tão difícil tendo em consideração que não há homens irresistíveis, mas apenas mulheres que não sabem resistir.  

 

A Gaffe não tem uma postura – tem várias, porque já leu o KamaSutra -, e acredita que a autoestima de uma mulher não é influenciada - nem inflacionada -, pelo facto de ter conquistado um matulão divinal, porque suspeita que é exactamente uma bela e enraizada autoestima feminina que o atrai. Elevar os padrões da nossa autoestima através da aquisição e exposição de um potentado masculino, equivale a ler Gustavo Santos e consubstancia uma das mais medíocres atitudes machistas que uma mulher consegue encarnar.

 

Para além da ausência de uma postura, a Gaffe não tem compostura, porque suspeita que é muito desvalorizado o sexo pelo sexo ou, como já foi dito, o sexo mágico, aquele que se faz e se desaparece. Provavelmente a senhora indignada escreve cuesia erótica onde o dicionário de rimas ajuda a encontrar palavras que terminam em ar - e no ar - e textos cuéticos encimados pela fotografia - onde o amor está indubitavelmente presente - de um casal nu, engalfinhado de tal modo que é difícil perceber onde começa um e termina a outra; onde um simulacro de sexo, feito com muitíssimo amor, se deixa iluminar, fotografar, expor e visualizar apenas com o intuito de nos atingir o coração. O sexo pelo sexo é apenas um arredor do amor e muitas vezes são os arredores que interessam. A Gaffe não se importa que a considerem uma ninfa, mas não é maníaca e o crivo, ou o filtro, que usa para seleccionar os homens é tão apertado como a caixa craniana da senhora indisposta - o que, será bom de ver, o torna quase compacto e de dificílimo escoamento.

 

Há no entanto um ponto que gera na Gaffe a mais veemente discordância com a senhora agravada.  

A Gaffe não faz lavagem do masculino e embora não entenda com a profundura exigida o significado da acusação, quer deixar claro que aos homens que por aqui se publicam não lhes é exigido um banho prévio. A prova consta da foto que ilustra este longo rabisco. O rapagão da imagem, como se vê, não está convencido da eficácia do desodorizante que usa.  

 

A Gaffe resolve por fim, num claro sinal de reconhecimento, oferecer à senhora apoquentada uma pequena mostra de homens muitíssimo interessantes retirados de um quotidiano mais cultural que por certo agradará à comentadora. Aconselha a senhora a sentar-se, a cravar as unhas nos braços da cadeira, a amordaçar-se e a evitar uma exposição prolongada a esta pequena amostra que pode, pela repetição, provocar-lhe epilepsia.

 

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São rapagões oriundos do universo do bailado. Muita postura, portanto. Devem ser olhados apenas como profissionais da companhia belga Thierry Smits e não tentar adivinhar-lhes as pilas - que a Gaffe já teve o prazer de ver, porque dançam muitas vezes todos nus.

 

Na foto - Quincy Currie por Tatchatrin Choeychom

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A Gaffe num instantinho

rabiscado pela Gaffe, em 05.01.17

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Um homem, por muito que nos custe admitir, conhece apenas três frases que usa quando é solicitado para tarefas que normalmente lhe são adversas.

 

- Vou já.

- Só um minuto.

- Espera aí.

 

Se não somos geólogas, não vamos perceber que os rochedos na banca da cozinha resultaram da mineralização dos restos de pizza do jantar do rapaz que nos prometeu que vinha enfiar a louça na máquina. Se não somos arqueólogas jamais daremos valor ao fóssil que encontramos no fundo da gaveta masculina que data do tempo em que lhe pedimos para se descartar da conchinha - linda, linda, linda -, que encontrou nas Caraíbas há milénios e que seria corrida porta fora num minuto. Se não somos a Madre Teresa acabamos com o seu glamour se esperarmos aqui que o Sporting vença o desafio que só dura mais um minuto. Se estamos num dia mais chuvoso - e todas temos os nossos dias difíceis, menos Christine Lagarde que tem os dos outros -, é aconselhável criarmos o hábito de fazer repousar a nossa paciência nos lençóis encharcados que o rapagão estenderia ao sol se esperássemos uns instantinhos. Se temos tendência para uma reserva compostinha, vagamente puritana e não queremos insinuar que uma orgia é sempre bem acolhida no aconchego do lar, é conveniente furarmos os olhos às tias velhas que nos visitam, porque o rapaz continua de cuecas, perna alçada e meias arco-íris, enquanto esperamos aí um minuto que vá já trocar de preparos, que as velhas prometeram na véspera uma visitinha de cortesia.

 

Estas manigâncias não são forçosamente desvantagens.

 

Enquanto o rapagão nos brinda com o vou já, o só um minuto ou o espera aí, podemos perfeitamente vestir a nossa lingerie mais etérea, retocar a nossa imagem de diva esvoaçante e sair ao encontro do nosso amante furtivo que nos proporcionará o chamado sexo mágico - fazemos e desaparecemos.

Voltamos já, demoramos só um minuto e ele espera ali.  

 

A louça do jantar que fossilize.

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