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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe vigiada

rabiscado pela Gaffe, em 20.07.17

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Após um processo complexo de negociações - e ligeiramente ronaldesco -, a minha sobrinha foi afastada do frio nórdico onde se aquecia ao colo da mãe e entregue à atmosfera gelada da minha irmã que se tornou sua tutora, reservando ao meu irmão, pai da criança, o papel de vigilante, supervisor e garante do cumprimento das normas estabelecidas pela tutela que durante as suas prolongadas ausências não confia nem nos peluches que a criança escolhe.

 

A adaptação da menina à sua nova forma de viver foi rápida. Depressa se moldou à figura que a domina, adquirindo, por mimetismo, a capacidade de vergar, de manipular e de, tantas vezes, chantagear aqueles que a mimam sem autorização, como se o seu afastamento da origem e a aproximação ao poder lhe tenham dado a prerrogativa de desobedecer soberanamente.

 

É de uma beleza encantatória, mas talvez demasiado silenciosa e excessivamente controlada, como se bastasse surgir, tocando com os dedos no tampo dos móveis, arrastando a luz que vem com ela de um exterior menos soturno, para que todos os olhares tombem na teia com que vai urdindo os dias sem brincar.

 

Admito que a ligação que tenho com esta criança é de quase receio, de quase arrepio. Não que a pense sinistra ou saída de um sonho mais ínvio ou mais funesto – tão longe disso! -, mas porque acabo sempre cativa dos seus divagares mudos, dos seus gestos lentos e da sua aparente fragilidade, contrariada pelo modo quase áspero com que lida com os poucos amigos que a idolatram.

 

Há dias, ao jantar, a menina ficou muito quieta, a sorrir, de olhos fixos no espaldar de uma cadeira longe da mesa.

Perguntaram a razão do pasmo e do sorriso pateta.

- Está ali o Zé Luís, sentado. Estou a olhar para ele.

Ninguém se alterou. Ninguém se virou para conhecer o Zé Luís. Os talheres moveram-se com a lentidão e a indiferença habituais. Apenas eu fiquei atónita.

- E o que está a fazer o Zé Luis, sentado ali na cadeira? – arrisquei, mesmo sabendo que podia ser trucidada ao cometer o erro de me imiscuir e perturbar a serenidade do jantar atribuindo atenção a um devaneio de uma criança demasiado imaginativa.

- Está a vigiar-vos.

 

Confesso que me perturbou.

A resposta saiu convicta e eivada da tranquilidade que provém do hábito e foi essa insinuação de certeza, que é consequência daquilo que se tornou rotineiro e mais banal, que fez vibrar o que devia permanecer gelado nos olhos da minha irmã.

- Os teus amigos imaginários podem sentar-se onde quiserem, mas não podes trazer esse para dentro de casa. Estás proibida de brincar com gente mal-educada.

Saiu depois. Interrompeu o jantar.

 

A criança ficou quieta.

Tentei sorrir. Pousei a mão na cabeça da menina e comovi-me.

A infelicidade daquela criança era chocante, e porque a infelicidade em demasia quando infligida a uma criança, impede-a de conhecer a fronteira entre o amor e o desamor, avistei-lhe dentro dos olhos o glaciar que se formava lentamente.

Percebi então que aquela menina vai sem dúvida cumprir o estipulado. Crescer em demasia. Desmesuradamente só. Sem ter quem a vigie.

 

- Podes brincar comigo e com o teu amigo no meu quarto. Fica um segredo nosso.   

 

Foto - Vivian Maier

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Gavetas:

A Gaffe trendy

rabiscado pela Gaffe, em 19.07.17

André Ventura

is the new black

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A Gaffe no Mali

rabiscado pela Gaffe, em 19.07.17

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É curioso verificar que o único filme que aqui sugeri, referenciando-o como de interesse significativo, tenha sido um da realizadora libanesa Nadine Labaki, e que, neste momento, encontre num realizador da Mauritânia uma idêntica importância.

 

Ao contrário do primeiro - E Agora, Onde Vamos? -,Timbuktu não permite sorrisos, embora, e de um modo estranho, acabe por nos confrontar com realidades similares que se confinam ao esmagamento de toda a liberdade por força de opressões que se ligam alegadamente aos deuses.

É curioso também como as duas abordagens a este facto podem ser ao mesmo tempo díspares e convergentes, acabando, as duas, por revelar como é ínvia a existência de formas opostas de se sentir a mesma divindade e como essa alternância pode significar destruição de uma destas visões.

 

Do realizador Abderrahmane Sissako, o filme é uma belíssima longa-metragem que se torna imperdoável não ver.

 

Tem Timbuktu, Património Mundial da UNESCO desde 1968, no Mali, como uma das personagens mais marcantes e é o deserto que constrói a coloração do filme, apenas rasgada pela terra ocre e queimada, saturada e tantas vezes luminosa, dos tecidos e dos adornos das mulheres.

 

Em 2012, a cidade é ocupada por um grupo islâmico fundamentalista liderado por Iyad Ag Ghaly.

 

Timbuktu é invadida por leis, por medos, por proibições, pela desumanidade que trespassa a vida de cada um dos seus habitantes, tragicamente, dolorosamente, comoventemente.

É nesta construção opaca e implacável de inibições e de desmandos, de opressão, de repressão, de crueldade insana e irracional, de desmantelamento da arte de sonhar, que se inclui a proibição da música, da dança, do riso, do canto e da visão dos corpos, dos rostos e das mãos. É nesta brutalidade que esfacela à força a vida de Timbuktu, que, por entre este massacre, se vai erguendo a extraordinária floração daquilo que foi interdito.

 

A mulher que estoura em canto enquanto é chicoteada por ser apanhada a cantar.

A outra que prefere a morte a amanhar o peixe com as mãos vestidas.

O jihadista que se transforma em pássaro, dançando às escondidas, porque foi bailarino.

O jogo de futebol que é jogado sem bola, ou com a bola que inventamos quando há esconderijos de sonho por demolir.

 

Ao lado, ou mesmo em cima de nós, uma banda sonora magnífica, dolorosa, desértica, ou então impulsiva, quente, colorida e feliz, tantas vezes interrompida, emudecida, pois que é proibida toda a melodia.

 

Timbuktu é sem sombra de dúvida - como poderia, se sol a pique invade aquele povo? - um filme fabuloso.

 

Acaba por nos fazer sentir gazelas. 

 

 

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A Gaffe a cavalo

rabiscado pela Gaffe, em 18.07.17

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Despedi-me hoje de manhã muito cedo do rapagão.

Partiu para Manaus numa visita que demorará três semanas que lhe proporcionarão um mais aprofundado conhecimento não sei exactamente do quê, mas que me pareceu entusiasmante, pelo nervosinho demonstrado pelo homenzarrão.  

 

Tendo em conta que chegar a Manaus, partir depois para o Parque Nacional de Jau e passado algum tempo seguir para o Parque Nacional da Neblina, lhe arranca mais do que oito dias de viagens, o homem não vai ter grande tempo para andar atrás do gado, embora - pelo sim, pelo não -, o tenha ameaçado com todas as sevícias que encontrei - mais as desviantes e anómalas que Gentil Martins referiu - caso o rapagão ceda ao fascínio das vacas que por lá mugem e se ponha a cavalgar em lombo alheio.

 

Insistiu muito na minha companhia, mas só a perspectiva de me ver a evaporar ou coberta de lume tropical; no meio de caminhos repletos de bichos estranhos e rastejantes que nos picam imenso e têm dentes maiores que a cabeça; envenenada por uma serpente ou ali morta por um jacaré – que nem sequer é Lacoste; aos solavancos por trilhos estreitos, cheios de ervas do tamanho de embondeiros; com as mamocas a desintegrar-se com o calor e sem poder voltar para casa no primeiro avião que aterrar na selva, foi desmotivadora. Não quis ir.

 

Suspeito que foi apenas para se vingar do meu abandono que, pronto para subir para a sela do avião e rumar ao pôr-do-sol Amazónico, me disse com um ar muito descontraído, como quem não liga à coisa, que quer visitar a região onde os homens tratam das manadas de gado - bichos de grande porte, quase mamutes -, completamente nus ou apenas com uma tira de tecido a embrulhar - mal - as zonas mais expostas às crinas dos cavalos.

 

Fiquei perplexa.

Espero sinceramente que o homem não tente a façanha, porque com o galope do cavalo e a piloca a dar-a-dar ainda volta para casa com o nariz partido.

 

O certo é que o rapagão é de uma lisura, de um rigor e de uma correcção exasperantes quando se trata da verdade, mas a nudez daqueles cowboys deixou-me confundida.

Então há um recanto neste planeta onde os tipos andam todos suados, todos musculados, todos morenos, todos tisnados, todos másculos, todo, todos, todos, todos a abarrotar de adrenalina e de testosterona, atrás das vacas, de pila ao léu, a dar-a-dar no cavalo?! Nunca tinha ouvido, lido ou sido informada acerca o assunto!

 

Não acredito.

Mentiroso!

 

A verdade é que me arrependi, logo ali, mal o maldito levantou voo, de não ter ido com ele.

 

Alguém sabe onde fica esta porcaria?

É que uma rapariga como deve ser tem o dever de acompanhar o seu homem, dê por onde der e seja para onde for, e sobretudo tem a obrigação moral de impor alguns princípios civilizacionais à barbárie e de vistoriar a fardamenta dos profissionais em nome da segurança e da alegria no trabalho.

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A Gaffe de múltipla escolha

rabiscado pela Gaffe, em 17.07.17

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A Gaffe sugere que se escolha uma das hipóteses que se fornecem, identificando cabalmente a personagem fotografada:

 

a) O estilista do DAESH fartinho das cores pastel, tudo muito terra queimada, tudo muita areia, tudo muito ar poeira, a anunciar as cores Primavera/Verão 2018;

 

b) Um suicida do DAESH. Terrorista, mas com muito bom coração, que não quer magoar muita gente, apesar de desejar muito o forrobodó com uma data de virgens;

 

c) A Cristina Ferreira no território do Estado Islâmico, disfarçada para não levar um tiro logo ali, a publicitar a sua revista;

 

d) Gentil Martins a provar que não é nada preconceituoso, homofóbico e fundamentalista e que foram as pessoas mal formadas, imorais e perigosas – sobretudo dois gays, três lésbicas e a D. Dolores - que interpretaram mal as suas palavras.

 

À resposta mais próxima da correcta é oferecida uma assinatura da GAFFE Magazine.

Um mimo.  

 

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A Gaffe editora

rabiscado pela Gaffe, em 17.07.17

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A Gaffe decide-se pela edição e torna-se detentora de uma revista cujo primeiro número aparece neste exacto momento e em primeiríssima mão.

 

A capa é em inglês apenas por duas razões:

 - A necessidade de a internacionalizar a muito curto prazo;

- O facto de ser parolo. Todos sabemos que neste recanto à beira-mar plantado o parolo vende que é um disparate - que o diga, por exemplo, Miguel Araújo que de acordo com Fátima Campos Ferreira passa a vida a cantar em inglês.

 

A Gaffe encontrou sérias dificuldades na escolha do tema de abertura a destacar na produção da capa. O ideal seria aproveitar um assunto disponível, fácil, logo ali à mão, capaz de criar controvérsia, originar discussões monumentais e todas imbecis nas redes sociais, com insultos execráveis logo ao lado de dissertações patéticas acerca do focado.  

 

Chegou a pensar na fotografia de Gentil Martins com uma pequena transcrição das suas opiniões, eivadas de preconceitos, acerca dos homossexuais - opiniões esbardalhadas em ambiente oficial e não no aconchego do lar em amena cavaqueira com um amigalhaço -, mas este querido e admirável cirurgião, que não tem lido muito a documentação oriunda da OMS - DSM e CID-10 é que nem cheiro -que lhe é entregue, já nem uma vedeta americana reconhece nos passeios por Lisboa. Pertence ao início da era pré-Madonna em que, como se sabe, a comunidade gay se confinava ao armário dos medicamentos e não saía muito, nem abundava nas Semanas de Moda e na Moda Lisboa.

Apesar de se poder tornar numa capa jeitosa, não renderia o ambicionado.

 

A verdade é que não é de todo imediato encontrar livre um nicho susceptível de ser aproveitado para gerar dividendos e nos pagar as férias na Grécia – Antiga o mais possível, que é na Antiguidade que há muita Mykonos à solta - e em simultâneo capaz de nos catapultar para o palanque das heroínas que empunham as bandeiras de causas esmagadas pelas opressões sociais e de nos entronizar como defensoras de determinados grupos ou específicas minorias. A revista CRISTINA açambarcou esta vertente, aproveitando dois homens que se beijam e duas mulheres nos mesmos preparos, para esbardalhar na capa como se fossem surpresas. É evidente que a Gaffe ficou sem hipóteses imediatas de ganhar uns valentes trocados e ser santificada ao mesmo tempo.

 

Pelo sim, pelo não, decide manter as âncoras no mesmo oceano e abordar o tema tão adverso a Gentil Martins, mas com uma pitada de suspense, que não fica mal, e uma ou duas insinuação de cariz mais intelectual que vão despertar a curiosidade aos eventuais compradores mais cerebrais. Depois, meus caros, o tema desta forma abordado e aproveitado é bem capaz de transformar a Gaffe em ícone das minorias e em simultâneo aumentar-lhe significativamente a conta bancária.

 

A revista não tem conteúdo. Não tem nada dentro. Só tem a capa. A Gaffe garante que esse o único ponto comum entre a GAFFE Magazine e a revista CRISTINA.  

 

As assinaturas estão ao vosso dispor.

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A Gaffe arrasada

rabiscado pela Gaffe, em 16.07.17

Notícia de rodapé.

 

A pátria de um porco é em toda a parte onde haja bolota. - F. Fénelon

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A Gaffe policial

rabiscado pela Gaffe, em 13.07.17

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Um choque, a polícia.

A Gaffe está escandalizada.

 

Aonde estão os polícias pachorrentos, bonacheirões, gorduchos, fofos, que ajudavam velhinhas a atravessar, que paravam de bloco de notas debaixo do braço cruzado só para nos deixar passar, que escondiam o casse-tête com a barriga e que tinham um apito lustroso com que arbitravam os jogos da pequenada?!

 

Os actuais são matulões hirtos e firmes como barras de ferro; umas cavalgaduras mal-encaradas; com fardas que ficam um mimo naqueles rabos; com queixos quadrados e másculos; olhos de lince, lábios de mosto, quem faz um filho falo com gosto; peitorais talhados em mármore; coxas de embondeiro; armas por tudo quanto é canto - e os recantos que eles têm! -; sempre prontos a disparar e dispostos a torturar, a espancar e a insultar a gente pobre que, como é sabido, não tem princípios, não olha a meios e que no fim, é bom de ver, acaba como o Lula: grelhada.

 

Uma maçada.

 

A Gaffe pega num pauzinho - não vá o rapaz cumprir a ameaça - e tenta cutucar Salvador Sobral de modo a que o menino dê autorização para que Amar Pelos Dois se ouça ininterruptamente nas esquadras da polícia. É evidente que há alterações a fazer à letra. O eu sei que não se ama sozinho revela apenas que Salvador ainda não descobriu os prazeres de Onan - não sabe o que anda a perder -, não se coadunando com os Hill Street Blues que amam aos magotes e fazem patrulhas com imensa gente, mas a tranquilidade, a doçura, a abnegação, a suavidade e a finura da canção teriam um efeito muito Zen na adrenalina desenfreada que provoca uns tantos desacatos e que tem tendência a esbardalhar contra as grades aquelas coisas maçudas que se escreveram na Constituição e que os hippies dos Direitos Humanos decoraram.

 

É evidente que, por outro lado, e no outro lado, seria aconselhável emitir também ad eternum uma cançoneta apaziguante. A Cabana Junto à Praia do Cid é perfeitamente capaz de dissuadir os delinquentes de azucrinar a paciência dos agentes, convencendo-os a dar uma voltinha no areal da Caparica tendo sempre o cuidado de evitar o sol do meio-dia que, como se sabe, mirra imenso as pessoas. Assunção Cristas pode perfeitamente tratar do sonoplastia, pois que calça uma botas e veste umas gangas para calcar cocó à vontade e, segundo reza a própria, é motivada por Jesus que sabemos ter sido uma pessoa amorosa e boa.

 

Como nota apensa, pois já que nisso se fala - e tendo em conta que a Gaffe se preocupa imenso com os veraneantes menos conflituosos -, é pertinente repetir:

 

O sol em excesso mirra as pessoas.

 

Não adianta depois tentar soprar que não voltam ao normal. Só incham. Pode inclusivamente fazer com que mudem de sexo. A pila com o calor envagina. Provavelmente é essa a razão da enchente de banhistas estranhos ao meio-dia, no Meco.

Seria muito importante criar uma campanha parecida com a se esbardalha nos maços de tabaco e sem o patrocínio de ninguém.

 

A Gaffe sugere um antes e um depois com um aviso mimoso:

 

ANTES

CP2.jpgCUIDADO

O sol mirra as pessoas

 

 

DEPOIS

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Não adianta soprar que só as incha

 

Agora, meus amores, vou incendiar as redes sociais e volto já.

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A Gaffe nevada

rabiscado pela Gaffe, em 12.07.17

Ava Gardner by John Engstead.jpgÉ uma das amigas da minha irmã. Alguns meses mais velha do que ela, casou aos vinte e sete anos permanecendo grávida durante os cinco primeiros de felicidade partilhada. Sucessivamente grávida. Ano após ano.

Colegas de curso, as duas percorreram estradas diferentes. A minha irmã ignorando por completo a prazenteira perspectiva de constituir família, trocando esta bagatela por uma carreira de diamante, a amiga desistindo da profissão a favor de cinco crianças e de um marido escandalosamente rico.  

 

Comprou um velho e abandonado palacete no Norte. Veio de Lisboa, da Estrela, entregar o projecto de recuperação à única arquitecta em que confia. Não o agarra, porque já nem sabe ler a planta de um cubículo - confessa, com a curta farpa de um orgulho estranho espetada no sorriso.

 

É uma mulher bonita, sem ser deslumbrante, ou então o fascínio e o brilho que poderá reter, são asfixiados pela figura da minha irmã que não esconde o desprezo que sente por uma criatura capaz de abdicar de um projecto de vida próprio em nome dos projectos de vida seja de quem for. É quase embaraçosa – e muito cruel - a forma como a minha irmã a olha, com uma ameaça latente no azul metálico e cínico do olhar, e exibe uma pretensa superioridade intelectual invadindo a amiga com questões que a pobre devia dominar, mas que a tornam imbecil, serigaitando num nervosismo tolo ao admitir que já se esqueceu das respostas, fazendo saltitar risadinhas que esbarram com a indiferença que sorri eivada de maldade da interlocutora.  

 

O óptimo seria que se desse como finda a recuperação depois do Inverno.

 

- nêv - informa, acrescentando que poderia ser agradável depois do frio passar uma primavera mais bucólica.

 

Olho as duas mulheres, sentada no sofá da minha atenção mais picuinhas.

Podiam ser, de modo brutal e sanguinário como apenas as grandes amizades o sabem ser, inimigas mortais, porque pertencem ao nicho onde só habitam predadores.

São ambas detentoras de um capital simbólico elevadíssimo. As duas pertencem ao que, muitas vezes como insulto, se chama elite dominadora. São igualmente sofisticadas, igualmente loiras, igualmente elegantes, igualmente ricas. Não há grande matéria que as separe.

São portanto amigas.

 

o único estilhaço que as separa, encontro-o eu num destino de Inverno.

- Vô pá nêv.

A outra não.  

 

Foto - Ava Gardner por John Engstead

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Gavetas:

A Gaffe "en passant"

rabiscado pela Gaffe, em 11.07.17

- É que até aquilo dos encológicos!

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Bai-me tudo pás ancas.

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Gavetas:

A Gaffe assassina

rabiscado pela Gaffe, em 10.07.17

assassina

 

A arma mais eficaz contra o medo é um horário de trabalho que às quatro da manhã de um Sábado nos deixa de gatas à procura da saída e do carro que nos aconselham a deixar estacionado na garagem e nunca nas imediações, porque há imenso assaltos.

 

Saio a arrastar os pés, desgrenhada, pindérica, esgotada e a sentir os joelhos na nuca. Procuro não adormecer no elevador, fazendo de conta que ando à procura das chaves na carteira que parece pesar duas toneladas e evito tombar para o lado encostando-me à parede enquanto o maldito desce sem parar.

 

Saio muito devagarinho para não me desfazer e de chave em alerta máximo ouço o carro a dar sinal de si num PIIIIIIII que me arrasaria os nervos se ainda os sentisse.

 

Caminho já curva, com as mãos a arrastar no chão e de língua de fora.

 

Ao longe, três carros depois do meu, atrás de um pilar, enfiado na penumbra, adivinho um vulto, parado, quieto, um bocadinho sinistro. Consigo perceber que é um homem, de mãos nos bolsos e careca. Nunca hei-de perceber como soube que o mafarrico era careca.

Tão segura a garagem!

Vou no mínimo, ser assaltada. No máximo apunhalada. Comigo não há estádios intermédios. Imagino o perito forense debruçado sobre o meu cadáver - coberto por um lençol imaculado, caracóis escapando rubros, misturados com o sangue que brilha à luz dos focos da ciência e sapato Manolo Blahnik abandonado perto do meu corpo - banhado em lágrimas:

- Quem foi o monstro capaz de fazer isto a um anjo tão lindo como este?! 

 

Naquele instante o que interessou foi enfrentar o demo que não sabia que o anjo lindo prestes a assassinar tinha saído de um inferno monumental onde se manteve de pé horas a fio, enfrentado multidões ensandecidas de criaturas traumatizadas; tratando da saúde a umas outras tantas; corrido corredores sem fim à procura de apoio de urgência – já que aqui toda a gente pertence à Disney! -; esbardalhando raspanetes a torto e a direito por dar conta que lhe faltava material – quase esmagando o que estava apenso a um belíssimo rapagão que inocente se meteu à sua frente -; enfrentando dois polícias que lhe vieram trazer um tarado teimando em deixá-lo ao seu cuidado - Nem pensar, meus caros. Se tiver de ficar com alguém, prefiro um de vós. Saudável, musculado, sóbrio, com um hálito dentro dos limites estipulados pela Lei e com o apito em condições -; espetando bisturis em tudo o que se movia sem autorização e apanhando dois esgrouviados nus a correr pelas salas de espera do piso onde tudo acontecia sem que ninguém - sublinha-se ninguém - se apercebesse que o que traziam ao léu, a dar-a-dar, não merecerá uma capa da Cristina.

 

Posto isto, será bom de ver o que esperava o careca maldoso, atrás do pilar com ar de assassino de ruivas cansadas.

 

Verifiquei a biqueira de um dos sapatos e o salto do outro. Tudo em ordem. Não me tinha esquecido de os calçar. Lamentei a sorte do meu substituto que, mal chegado, teria de acudir aos tintins de um rufia saído de um filme negro sem categoria, e já pronta e desperta, sem réstia de medo ou cansaço, desafiei a morte certa como uma ruiva o deve fazer: em frente, que já se faz tarde e isto não chega aos netos.

 

A sorte do imbecil careca foi a bocarra do elevador se ter abreto para expelir uma data de dois matulões - valiam por muitos - a quem tinha dado uma hora antes um raspanete digno de um império. Não me reconheceram por estar à paisana – dou graças, porque de contrário suspeito que os meus sapatos não davam conta de três pares de tintins -, mas afastaram por sugestão o careca mal-encarado.

 

Se me voltam a aconselhar o estacionamento na garagem, transformo-me em sniper.  

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A Gaffe anunciada

rabiscado pela Gaffe, em 07.07.17

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Passo todos os dias por um esconso e velho café encardido que me bate logo pela manhã com um cheiro de fritos mal a porta abre para deixar passar o dono, musculado e bazófia, com as cadeiras de plástico branco da esplanada curta. 

 

A porta do café encardido serve de montra de obituários. Aparecem vastas vezes colados ao vidro os anúncios de morte. Papéis A4 onde a fotografia de alguém encima a notícia, fornecendo ao mesmo tempo, entre parênteses, as datas do início e do fim do retratado, logo seguida da indicação da idade - para evitar fazer contas -, e os agradecimentos da família que informa o local das exéquias e a data da missa do sétimo dia.

 

Já vi, colados ali ao mesmo tempo, quatro avisos, uns ao lado dos outros. Lembrei-me de eleições. Não sei porquê.

 

Sempre me surpreendeu que um café encardido e vadio tenha esta vocação, mas disseram-me que era hábito nas terras pequenas colar nos estabelecimentos anúncios de gente que passou para o outro lado de modo a que mesmo os vagos conhecidos fiquem a saber desse desfecho.

Sempre me atraíram estes anúncios tétricos que mostram gente que sorri numa fotografia tipo passe ou naquela mais bonita, que favorece, tirada por um profissional, ou a outra, que foi captada quando havia tempo para se estudar a pose.

 

Paro e leio.

 

Preocupa-me com a idade dos que morreram - as fotografias nem sempre revelam a contabilidade da vida que acabou -, como se a velhice me concedesse uma surpresa menor, de menor qualidade, de menor hipocrisia.   

Era já velho – perdoo à morte.

E era tão novo quando me deparo com o extremo oposto.

 

Nunca reconheci ninguém, mas sinto que me cruzei algures com todos. Perscruto a ruga na união das sobrancelhas, o trejeito no lábio, o desenho dos olhos, o sinal na bochecha, a verruga na testa, a mais ínfima pista que me indique o lugar onde aquela fotografia passou por mim ainda viva. Nunca os vi. Não me lembro de os ter visto. Nunca me viram. Não me lembro de os ter visto a ver-me. A vida deles passou-se longe da minha e é apenas o anúncio colado na porta do café encardido que me faz chegar ao sítio onde pararam.

 

Fico a pensar que muitas vezes, demasiadas vezes, ficamos de repente a olhar alguém que caminha ao nosso lado - vivo e ao nosso lado, regulando os passos pelos nossos, interrompendo o movimento dos braços com abraços -, e a descobrir que olhamos para um anúncio de morte colado na porta do café da nossa alma encardida e que nunca conhecemos o rosto de quem naquele instante é percebido findo.

 

Às vezes, penso que a vida é aquele velho café encardido a cheirar a fritos logo pela manhã, onde Caronte vai montando a esplanada curta com cadeiras de plástico, e que não somos mais do que anúncios que vai colando depois no vidro da porta.       

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A Gaffe com um cheirinho

rabiscado pela Gaffe, em 06.07.17

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É mais do que evidente que vou enviar o prémio a quem participou nesta marotice brejeira e dedicar-me ao blog da minha querida amiga que trocou David Gandy por uma bagatela.

 

Surge no entanto um prurido que me deixa ligeiramente embaraçada.

 

Publicar ao Deus dará uma quantidade ensandecida de rapagões, desconhecendo-se as casas de chegada, não é matéria susceptível de causar a uma rapariga simpática qualquer rubor. Uma pila com destino incerto, vai parar sempre a um pôr-do-sol distante, mas acolhedor, sem ricochete de grande monta.

No entanto, saber que pela calada de um e-mail enviamos a esplendorosa nudez de alguém, partilhando assim com um grupo restrito a masculinidade seja de quem for, não é tarefa tão simples como promete. Diz-nos o juízo que facilmente poderemos passar por impositivas sabujas a atirar à cara de quem mal conhecemos - mas que identificamos, mas que particularizamos -, a pila de um estranho que nos encheu os olhos - suspeito que esta frase terá de ser revista. Como é de prever, não é de todo educado e de bom-tom esbardalhar miudezas destas contra a incauta face de uma inocente criatura que conta pelo menos com um paninho esvoaçante na frente da agressora.

 

É estranho o facto de nos tornarmos capazes das maiores barbaridades quando os espectadores são anónimos, inócuos, distantes, amorfos e com uma opinião que não nos afecta ou nos deixa indiferentes, mas somos comedidos e cautelosos quando esses mesmo espectadores se tornam mais próximos e ganham uma importância capaz de refrear os nosso desmandos.

 

Creio que esta é uma das desvantagens da amizade, mesmo aquela que se constrói aqui nestas Avenidas: a nossa mais jocosa irresponsabilidade, a nossa mais tonta infantilidade, dá lugar a uma espécie de respeitoso pudor, de civilizada empatia, que nos fica bem, mas que nos coíbe de mostrar a pila.    

 

Na foto - um cheirinho a David Gandy por Mario Testino

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A Gaffe portuense

rabiscado pela Gaffe, em 05.07.17

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FAZER PELOS DOIS

Quem é o outro?

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A Gaffe quintinada

rabiscado pela Gaffe, em 04.07.17

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A Gaffe considera que retirar a possibilidade de ficar maravilhada ao ver as borboletas frágeis que batem asas nos comentários que vai lendo e ouvindo por aí, é uma barbaridade. Uma criatura tem o direito de se espantar de quando em vez com o lado negro da força e de se sentir uma deusa ao imaginar o cérebro dos que originam estes deslumbres que, embora macabros, não deixam de nos apontar a dimensão que pode atingir o buraco negro onde vastas vezes se enfia parte da humanidade.

 

Exactamente por tal, a Gaffe está solidária com Quintino Aires.     

 

Este menino é um ídolo. Um dos seus maiores fornecedores de embasbacamentos. Vai e vem, vem e vai, e neste ir e vir entrega ao povo uma surpresa.

 

Para além de considerar que andar atrás das galinhas e das cabras e das vacas com intuitos menos cavalheirescos, com intenções menos próprias, com impulsos mais libidinosos - sem sequer as levar primeiro a jantar e descartando a elegância de lhes telefonar depois a dizer como foi importante aquela noite à luz da lamparina campestre -, consubstancia uma comunhão com a natureza, Quintino Aires revela que são os ciganos, a esmagadora maioria da ciganagem, a traficar droga e a esbardalhar esquinas com as costas preguiçosas e manhosas.    

 

A Gaffe acredita que conhecer biblicamente uma galinha ou uma ovelha, não é de todo a imagem que se lhe depara de uma noite badalhoca no Hilton, mas já admite que uma vaca não é de estranhar nestas posições, tendo em consideração a quantidade de bovinos que por lá vão passando. Quintino Aires provavelmente referia experiências passadas que eventualmente lhe foram narradas por um ou outro paciente seu, muito ecológico e mentalmente em comunhão com a Mãe Natureza que tanta gente diz ser uma cabra.   

 

Tendo em conta a profissão do seu rapagão e tendo-o já apanhado com o braço enfiado até ao cotovelo no pipi de uma vaca, a Gaffe vai prestar mais atenção às mensagens e aos contactos no telemóvel do homem.

 

A Gaffe, como é sabido, é chique. Não se aproxima dos ciganos. Escolheu mesmo a plataforma SAPO para albergar as suas elegantes divagações exactamente pelas razões que se adivinham.

Como criatura elegantíssima que é, só trata da maquilhagem do nariz na Linha. Desconhece portanto os negócios do povo nómada que nem sequer sabe traçar um turbante em condições e que não distingue um tapete Balúchi de um Gabbeh, porque os rouba sem qualquer critério estético. Não lhe interessam os pobres que vivem em tendas cobertas por lonas, sem qualquer intervenção de Gracinha Viterbo, e que permitem que 75% da sua comandita engane as pessoas civilizadas com porcaria dos chineses.

É evidente que o pó da Comporta é muito mais fino e trabalhado.

 

No entanto, a Gaffe ficou desta vez muito assustada com Quintino Aires. O maravilhoso profissional de psicologia afirmou que quem fuma charros em demasia - ou coisa que o valha, porque nestes casos há fogos sem fumo -, sobretudo os vendidos pelos ciganos, mais cedo ou mais tarde acaba na cama com uma pessoa do mesmo sexo. Com grandes hipóteses de ser com o dealer - a Gaffe acrescenta, pois, tal como ela, toda a gente de bem conhece a tendência que estas criaturas têm para a vida fácil.

 

O susto ficou acoplado às dúvidas existenciais que a assolaram de imediato:

 - E o inverso?

- Será que uma rapariga que vai para a caminha com outra, caminha em direcção à droga? Será que cedo ou tarde ilustrará o título da obra de Miguel Sousa Tavares transformando-se numa Madrugada Suja?  

- Será que um rapaz que acaba na cama com outro numa Sexta-feira à noite vai na manhã seguinte injectar morfina na pila? Ou será que aproxima o rabo de uma linha de coca só para se esquecer como lhe dói a vida?

 

São questões pertinentes e deveras preocupantes que devem ser esclarecidas por Quintino Aires numa das suas próximas aparições no programa de Cristina Ferreira, já que Goucha provavelmente estará no camarim todo mocado.

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