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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe mórbida

rabiscado pela Gaffe, em 22.06.17

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Posso esperar os séculos que quiser.
O tempo vai pairar, não vai passar, não se vai escoar por entre as frestas e as frinchas do meu peito.

Hei-de entender a morte. Hei-de entender aquilo que ela quer. Hei-de sentir o rosto que escolheu para arrancar as vidas. Hei-de tocar a máscara que escolhe e que mostra uma vez só na vida.


- Mascaras-te de quê?
- De Morte, mas da minha. Daquela que me virá buscar um dia.

 

Foto - Calvin Coolidge, 1924

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Gavetas:

A Gaffe a sussurrar

rabiscado pela Gaffe, em 21.06.17

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Nas minhas memórias arrasto o passado sem olhares de ânsia inútil ou sem qualquer amarfanhar de alma que vem do desejo de recuo. Olho para mim e acredito que tudo o que vivi não agarra e não contém o germe capaz de fazer rebentar flores carnívoras.

Lembro, por exemplo, da primeira vez que vi a Luzia, mas tal recordação não me leva a nenhum sentir doloroso. Sei que a vi à entrada da casa, junto ao portão de ferro forjado. Havia ainda a alameda de vinhas despidas e um caminho de terra calcada que teria de percorrer até me chegar. Ao longe, a Luzia parecia ainda mais pequena do que realmente era. De vestido cinzento, comprido e tubular, de avental gigantesco, imaculado, e um lenço enrolado no pescoço. Um lenço amarelo tostado, liso e limpo, emergindo do antracite do conjunto. Permaneceu quieta por momentos e depois arrancou com passinhos decididos. Através da janela, via-a aproximar-se. Primeiro foram os olhos. Negros, minúsculos e aguçados, pareciam andar mais depressa do que a dona. Chegaram de repente e apanharam-me desprevenida. O seu olhar cheirava a perigo. Era predador e eu julguei ser a caça. Antes da mulher ter chegado completa, já me tinha escondido dentro do colo da minha avó.

O seu amor absoluto foi-me entregue todo e exactamente por isso acabei presa inevitável. A sua ternura sempre contida, sempre doseada nas relações com os outros, tornava-se comigo uma vigilância doce e protectora.

Amava-me, mas nunca o deu a perceber de forma clara. Como se o seu sentir fosse dado adquirido ou facto a ignorar porque revelador de falhas. Sentava-se a uns metros de mim e ficava ali, quieta e em silêncio, de mãos pousadas no avental, a provar que era amor aquilo que eu via. Com o tempo percebi que nesses momentos a Luzia vigiava. De olhos aguçados, cheirando o ar, atenta ao mais irrisório movimento, afastava-me da vida sem perceber que essa protecção tornava predador o amor que me entregava.

 

No início das tardes, depois do almoço, a Luzia alisava com as mãos o tecido branco da toalha. Preparava o jogo, perante a impaciência da minha avó, que adiava, de braços cruzados e murmúrios entre dentes, a ordem de se limpar a mesa. Fazia depois minúsculas bolas com o miolo do pão. Colocava-as alinhadas e marcava a meta, largos palmos longe delas, com um traço de unha sobre o pano.

Tínhamos, eu e o meu irmão, de soprar as bolas de pão ao mesmo tempo, com força e de forma contínua, até que uma tocasse no risco da meta. A vitória era levada por uma colher ao boião de mel, embebida nele e oferecida como guloseima. O jogo foi adquirindo algumas variantes e, com o tempo, para além do sopro, deveríamos ser capazes de ciciar, de fazer escapar as sibilantes, encontrando o sinónimo da palavra que a minha avó, que se rendia sempre, tinha escolhido e que inevitavelmente seria solta com sons de assobio.

À espera de um rumor, as duas cravavam os olhos na minha boca e na do meu irmão à espera que um de nós articulasse os sons desejados. Mas as bolas de pão que o rapaz soprava eram sempre mais rápidas e chegavam à meta antes de se soltar qualquer soído de serpente. Dia após dia, mês após mês, colheres mergulhadas em mel passaram inúteis pela minha esperança que teimava em jogar e que eu sabia, tão bem como minha avó, ser absurda.

Nunca ganhei.  


A minha absoluta fragilidade de alma, a minha indomada e dolorosa insegurança nasceram ali e cresceram soltas, perto dos olhos vigilantes da Luzia, uma das mais fenomenais mulheres da minha casa.

 

Morreu ontem, pela noitinha.

 

Um dia perguntei-lhe qual era o seu maior sonho. Disse que me iria rir se o soubesse.

Jurei que não.

Queria muito ver os macacos no Jardim Zoológico.  

Nunca chegou a ver os macacos enjaulados e eu nunca ganhei o jogo das toalhas brancas.

 

Só agora sei o que significa sussurar.

 

Imagem - Denis Sarazhin

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Gavetas:

A Gaffe com a mãe

rabiscado pela Gaffe, em 20.06.17

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A fragilidade da minha mãe, a sua quase imaterialidade, foi transformada numa elegância reservada, quase tímida, discreta e tranquila.

É uma elegância que não surpreende. É esperada, visível no primeiro assomo, inevitável como um facto. Uma evidência construída pelos gestos leves, brandos, de uma serenidade possivelmente submissa, mas que nos faz sentir num abrigo com sombras de lilases.

O labor da minha avó teve neste caso um parco sucesso. A minha mãe não é impositiva, não tem nas mãos as capacidades de um líder e o seu modo de se mover, pacífico e quase demasiado silencioso, impedem que domine e controle a alcateia imensa que à sua volta ronda.

Às vezes, no jardim, sentada a ler - Hemingway que não condiz com ela -, num sossego brando e quieto, o ar fica envolvido de espuma e de perfume e dir-se-ia ao vê-la assim etérea, transparente, que a imponderabilidade a tomou por sua. Mesmo quando vira a página do livro nenhuma flor estremece.

 

Dizem à toa que a beleza salta uma geração. Se a avó é formosa, a filha não o será, herdando a neta as características perdidas entretanto.

 

Aqui a beleza estabilizou. Tornava-se fácil, enquanto havia a possibilidade de as ver juntas, perceber que possuíam, as três, perfis aristocratas que lhes forneciam um lance quase enigmático, essencial à elaboração de uma imagem que invade a memória dos outros. Todas de olhos claros, de uma transparência que se foi perdendo à medida que o tempo carregava o verde azeitona e atenuava os lanhos de cinza. Todas brancas e loiras, embora a minha irmã tenha abrandado a alvura por ter dado primazia ao tom de pele do meu pai. Altas e magras, como hastes, caules de uma qualquer flor estranha que oscila sem quebras, não por força do vento, mas por desejo de terra e céu ao mesmo tempo.

 

É curioso perceber que se tão unidas pelos traços físicos, apenas os extremos se tocaram no modo como lidam com a vida. A minha mãe, no meio, é o esvoaçar do silêncio de um pássaro por entre as margens da vertigem deste rio.     

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A Gaffe azul salmão

rabiscado pela Gaffe, em 19.06.17

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O meu vestido era de linho, de meia manga, trapézio, cor de salmão com pequenas pintas brancas e um folho grande na bainha. Apertava atrás com minúsculos botões de madrepérola.  

 

Nunca mais tive um vestido tão bonito.

 

Tinha deixado que me prendessem os cabelos no interior da copa do chapéu de palhinha de abas largas, porque dessa forma podia deambular no orgulho de ter pela primeira vez nas orelhas as pérolas miúdas que substituíam definitivamente as bolinhas de ouro disparadas há um mês.

 

A maré mansa e o vento dócil permitiam que brincássemos perto do mar.

 

A minha avó de vestido de linho, largo azul-marinho, de chapéu de abas largas e brincos de pérolas, ficava a olhar-nos. Tinha um lenço de seda no pescoço. Um lenço que parecia uma onda, tocado pelo vento. Uma onda a esvoaçar.

A minha irmã quis trepar às rochas.

- Brincar na areia é uma ideia que deves considerar – aconselhou a vigilante.

Levou o meu irmão. Galgar as rochas era muito mais aventureiro.

Fiquei ao lado da minha avó. Queria muito ser igual a ela. De vestido de linho, chapéu de abas largas e brincos de pérolas.

O meu irmão caiu e arrastou a companheira. A minha avó viu-os chegar, choramingando, da desfeita e magoada façanha montanhista. Levou-nos para casa.

 

As escoriações não eram graves. Arranhões na perna e numa das mãos do rapaz e um pequeno corte no joelho e no orgulho da rapariga a não carecer de sutura. A minha mãe tratou do jovem, ao mesmo tempo que o mimava com o sorriso do embalo.  

A minha avó trouxe de dentro o conjunto que a acompanhou a vida toda. Um frasco de água oxigenada, outro de soro fisiológico, um pacotinho de gaze e Betadine. Entregou-o à minha irmã.

 

- Eu sento-me aqui enquanto tu limpas e desinfectas esse golpezinho.

- Tu não me tratas?!

- A decisão de escalar às rochas foi tua. Foi a melhor decisão, admito. Construir castelos parvos de areia é bem menos interessante que trepar a um barco de piratas. Mas tu caíste. A tua decisão fez-te cair. Tens de parar de choramingar e tratar esse lanho. É tão teu como a tua decisão.

- Tu deixaste!

- Não. Não interferi. Lembrei apenas que tinhas outra forma de brincar. Tu escolheste a que melhor te pareceu. Decidiste subir às rochas. Foi uma bela determinação, mas caíste. Agora deves tratar das feridas que a tua decisão provocou. Não te magoaste muito, não vai custar. Convém que não choramingues. É desagradável ouvir alguém lamentar a dor causada por uma decisão que tomou.

- Ele também foi e a mãe está a ajudar – sofria a minha irmã.

- Tu convenceste-o. Aqui está uma coisa que não precisas que te ensinem: convencer os outros. Depois, minha querida, é um rapaz. Os rapazes quando se magoam, não se sabem comportar. Têm de ser socorridos.

 

Foi neste dia de maré mansa e de vestido salmão com pintas brancas que descobri que quando crescesse queria ajudar a cuidar dos outros e que comecei a ter medo de tomar decisões.  

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A Gaffe lavadinha

rabiscado pela Gaffe, em 17.06.17

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Raparigas!

Se a vossa ambição for só encontrar um homem com uma vida sexual marcada apenas pelo espírito de missão, procurem-no numa qualquer lavandaria comunitária.


Aí, pelo menos, tereis duas certezas: a de que, o que encontrais, é um trabalhador esforçado e a de que esporadicamente se lava.

NotaNão! Jamais fornecerei o endereço da lavandaria da imagem e, caso a encontrem sem eu ter dito nada, fiquem a saber que o menino do meio já está reservado.

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A Gaffe com um génio acabado

rabiscado pela Gaffe, em 16.06.17

Jogo

 

É um homem pequenino, mesquinho, com um ego monumental, ultrapassado e tão confuso que chega a ser olhado com alguma indulgência e ternura pelos pares e pelos supervisionados, o que não deixa de ser humilhante para alguém tão empinado.

 

Detentor destes miseráveis dotes, o homenzinho acciona todos os alarmes, buzinas e sirenes sempre que é cometido um erro minúsculo e desinteressante. Os grandes erros, agora não os consegue, nem prever, nem corrigir, porque os não detecta. Ninguém avalia o certo e o errado do que não conhece.

Fica-se pela rama.

Foi genial outrora e ainda sobram réstias do talento, mas comete aquelas pequenas falhas que não tendo importância digna de nota, acabam por inflacionar os julgamentos maldosos que dali surgem, sendo corrigidas pelos inferiores que jamais tocarão a bainha daquilo que ele foi, há muito tempo.

 Contrariam-no nos detalhes, nos pormenores, nas minudências dos métodos, na ausência de actualização profissional, embora lhe invejem o passado monumental.

 

Esta espécie de decadência que se vai arrastando e aumentando a olhos vistos e sátira desatada, podia facilmente ser travada com a beatitude dos velhos sábios que se permitem errar e com a complacência e a placidez dos génios que sorriem quando se apercebem que os universos que dominaram, ou criaram, foram tomados já pelos discípulos.

O estatuto de mito é também entregue aos que sabem desistir usando a sabedoria dos que se lhes seguem.

     

O irritante é que a luta desesperada pela manutenção da autoridade, do reconhecimento, do respeito e pela confiança profissional, levam-no, mesmo quando vagamente contrariado, a agir como um garnizé tresloucado. Grita e espuma e cospe esganiçado uma espécie de tirania patética fácil de ridicularizar.

 

Quando alguém brada o desespero apelando apenas a um estatuto perdido, invocando as medalhas merecidas outrora, clamando por uma autoridade que reside apenas num reflexo esbatido do atleta que se deixou de ser, saímos do anfiteatro ordenadamente. O jogo acabou. Fecham-se as portas. 

Já não há ninguém.

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A Gaffe tapada

rabiscado pela Gaffe, em 14.06.17

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Estirei-me no sofá.

Absolutamente inútil, com um copo de limonada gelada na mão e uma revista atirada a um canto. O meu spleen queirosiano atingia a comédia idiota que se arrastava sem interesse na televisão muda.

Lanço breves os olhos a um artigo onde uma senhora – anafada, com certeza, baixinha, com certeza, com cimento armado na cabeleira, com certeza -, alfinetava a opinião de uma qualquer desconhecida, sem perceber que o alfinete estava a ser cravado com o seu punho fechado e que o bico voltado para cima ameaçava atingir-lhe o osso.

O calor expulso estalava a noite e a comédia marchava muda até a cena surgir deliciosa.

 

Um actor em excelente forma física atravessava uma sala, completamente NU!

 

Durante todo o trajecto – e não foi de desprezar -  a pilita do senhor ficou tapada por uma data de objectos que o realizador teve a destreza de colocar estrategicamente. Uma operação que exigiu uma colecção razoável de jarras, livros, estatuetas, ramos de flores um espaldar de cadeira, uma esquina de mesa, protuberâncias de móveis e um gato repolhudo. Todos os elementos partilhavam uma característica: eram todos bastante volumosos.

 

Uma rapariga fica a pensar que de bom grado estilhaçaria os vidros opacos e esbardalharia as tolas bugigangas que impedem a visão de outros universos que não os que lhe provocam um tédio acalorado. No entanto, admite que às vezes é de extrema utilidade ter à mão de semear uma qualquer coisinha - uma concha, um berlinde, um fósforo, um papelito, uma florinha terna e simples - que impeça a visão de alheias e ridículas tolices confundidas com mordidas de alfinete.

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A Gaffe por avisar

rabiscado pela Gaffe, em 13.06.17

Cristiano Ronaldo

 

Já saíram os gémeos de CR7 e a Gaffe só agora teve disso notícia, perdendo assim a oportunidade de assistir ao desfile da marca.

 

Agora mais vale esperar pelos saldos.

 

Ilustração - Luis Quiles

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A Gaffe ordenada

rabiscado pela Gaffe, em 12.06.17

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No pátio aberto ao sol um pássaro preto traz no bico uma cereja. Salta no granito a arder com uma cereja no bico e faz estalar as penas no ar quente quando vê brilhar a superfície do lago que treme com o movimento da carpa.

No meio do lago a carpa agora parada abre a boca. Fecha a boca. Asfixiada. Abre e fecha a boca. Abre e fecha a boca. Sem interromper a quietude aquática, a transparência das guelras move-se como um fino lanho em prata. Tem olhos vítreos, avermelhados. Como cerejas imóveis nos bicos dos pássaros.

 

A casa resguarda-se do sol, cerrando as portadas. A luz azul plana e paira dentro. Dedos finos de luz azul por entre as frinchas das portadas, pousam na toalha branca sobre a mesa, arranjam um desalinho invisível das hortênsias cortadas pela manhã, abrem uma vereda esguia na madeira do soalho e tocam os arabescos quase florais dos tapetes rasos.

 

A casa sossegada, arrefece.

 

No pátio escalda a cereja no bico de um pássaro, como a minha indiferença no frio da casa. Uma carpa move a boca inútil como a mulher com frutos vermelhos no regaço que sentada me asfixia com a sua tristeza daninha.  

 

Tudo é exacto. A ordem do universo é apenas isto.

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Gavetas:

A Gaffe sacana

rabiscado pela Gaffe, em 09.06.17

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O bom sacana.

 

Suspira-se quando se atravessa - mordendo o lábio com que nos mente -, na vida que trazemos engolida pela multidão dos bons rapazes.

A inconsciência dos estragos que provoca é encantadora e o sorriso quase infantil que espalha nos corações destroçados, acreditando que a culpa dos estilhaços nos pertence por inteiro, é cativante.

 

Não adianta irritarmo-nos. O bom sacana desarma qualquer indignação com intenções mais bélicas e acaba a mendigar perdão apenas porque acredita mesmo que é nesse aparente arrebatamento, nesse fingido remorso, nessa contrição encenada, que se emendam os males do mundo.  Neste malandro um pedido de desculpa é sempre um acto de altruísmo e a alegria com que o realiza torna-se comovente aos nossos olhos.

 

É irresistível!

 

Irresistível, porque nenhuma mulher consegue por tempo indefinido asfixiar o instinto maternal que este sacana desperta. Salta-nos a enfermeira cá para fora, para fazer companhia a babysitter que entretanto já tinha chegado.  

 

O que fazer então quando no recreio o nosso colinho é implorado por este bom malandro?

 

O mais aconselhado é apalpar-lhe o rabinho, verificar no corpinho todo, com muita vontade e afincadamente, se não tem dói-dói e depois mandá-lo para casa da mãe, já muito habituada a mudar-lhe a fralda.

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A Gaffe por vingar

rabiscado pela Gaffe, em 09.06.17

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A história é tão pequena como a protagonista.

Há cerca de um mês encontrei na rua uma cadelinha abandonada. A morrer de fome, repleta de parasitas, tão debilitada que era improvável que sobrevivesse mais do que dois dias. Impressionou-me o medo e a súplica que a faziam, mesmo prostrada, abanar a cauda quando me aproximei.

Foi difícil recolher aquele pedacinho de ossos. Foi difícil convencer aquela miséria escorraçada a ficar ao alcance do meu colo.

Chocou-me e partir-se-me o coração, quando finalmente a recolhi nas mãos, ver a marca no pescoço que lhe tinha arrancado o pelito sujo. A cadelinha tinha estado amarrada por uma corda e exposta a todos os maus tratos antes de ser abandonada na rua para morrer.

 

O rapagão veio desarvorado quando lhe pedi socorro.

 

Era praticamente impossível acertar na idade da órfã. Era perigoso vaciná-la tendo em conta a brutal fragilidade em que se encontrava. Estava demasiado debilitada, estava esquelética. Pela dentição não tinha mais do que três, com alguma sorte, quatro meses.

 

Em que mês a amarraram a uma corda? Em que mês lhe começaram a bater? Em que mês arranjaram tempo para a torturar? Em que dia é que se aperceberam que chegara a altura de a matar? Não eram muitos os meses disponíveis.  

 

Foi desparasitada, alimentada, vitaminada, limpa com toalhetes e mimada. Adormeceu depois de se cansar de abanar a cauda e de nos beijar as mãos.

Não sabia brincar e escondia-se atrás de um móvel a chorar - nunca chorava por ficar sozinha - quando ao amanhecer a íamos visitar. Chorava de medo. Batiam-lhe quando acordavam?

 

O rapagão cuidou dela. Dez dias depois foi vacinada e encontrou uma casa nova e uma dona maravilhosa que desatou a amar de imediato.  

 

Já brinca e é tão feliz!

 

Tinham-me identificado o assassino. Ninguém estranhava o crime. Era o seu hobby. Torturava em lume brando os animais. Estava tudo normalizado. Por várias vezes tinha sido denunciado às autoridades. Por falta de evidências mantinha-se impune.

- Ele até é boa pessoa, mas...

 

Tenho-o hoje, agora, neste instante, sentado à minha espera. Li o processo. É grave.  

 

Pela primeira vez em toda a minha vida, vou detestar cumprir o meu dever.

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Gavetas:

A Gaffe aDAMAda

rabiscado pela Gaffe, em 08.06.17

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Os D.A.M.A. são um pequeno sucedâneo pretensioso das extintas boy bands, sem as suas vantagens - normalmente eram constituídas por rapagões em excelente forma física e conscientes das suas limitações musicais -, mas com todos os seus defeitos.

É provável que não mereçam um olhar e um ouvido que demorem mais do que uma cançoneta e poderá causar alguma perplexidade vê-los por estas Avenidas pouco melodiosas, mas a polémica totó que foi gerada por terem reagido de uma forma muito pouco educada - vamos ser benevolentes com os putos - à correcção de um erro ortográfico, a indignação da mais que provável adolescente responsável pela salvação da gramática, o consequente pedido de desculpa e a posterior exibição, por parte dos meninos, de um humor pateta pousado nesta ocorrência, deixa-nos terreno livre para libertar a nota.

 

Os D.A.M.A. pedem desculpa à moçoila em pranto - que lhes era devota e que resolve num assomo morfológico corrigir-lhes o ’tásse -, depois de a terem enfiado no grupo dos haters, achincalhando desta forma a imensa admiração, o brutal entusiasmo, a maior dedicação que a ofendida choramingas lhes dispensava. Divertidíssimos, os D.A.M.A. decidem agora apresentar desculpas também a Camões, mesmo sendo possível que não saibam o que é uma Epopeia e estejam a anos-luz da ironia e do sarcasmo.

 

Esta caricatura representa a inversão, ou a negação do que deveria estar assimilado. O talento, a mestria, a proficiência, a competência, a perícia – nem sempre sinónimos – estão na proporção directa da humildade. A genialidade é siamesa da capacidade de se reconhecer as falhas e da amarga consciência da responsabilidade que se assume quando falhar pode induzir em erro uma multidão – mesmo a que é constituída por adolescentes tontas. Os talentos - assim como os sábios e os génios -, são invariavelmente simpáticos, de uma humildade tímida que seduz e sempre dispostos a fazer tombar os olhos de vergonha perante um alerta de erro.

 

Fica desta forma explicada a minha desavergonhada arrogância e maldita antipatia.

 

É evidente que os D.A.M.A. não se podem incluir no grupo dos humildes ou no dos envergonhados, porque talvez não sejam mais do que um temporário vestígio de um musicalidade mais do que banal, replicado por outras bandas fit que surgem para adornar festivais de adolescentes espigados - tive o cuidado de os ouvir -, mas mesmo assim é de lamentar que superem o facto de forma sobranceira e enfatuada e que não tenham percebido que Camões não é um baterista.   

 

Ilustração - Joseph C. Leyendecker

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A Gaffe de Tennessee Williams

rabiscado pela Gaffe, em 08.06.17

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Ouço dizer algures que a vida traçada a regra e esquadro, a sucessão de dias programados, o quotidiano previsível, ou a coerência das horas seguidas, apesar de produzirem a sensação de segurança, desfazem o deslumbre e o espanto, como se nos voos fossem as tesouras que se fecham em lâminas de óbvio.

 

Não sei. É provável que sim.

 

Daqui, ouço o mar a preencher a noite da iguana. Há uma lua pousada na pele da água. Uma lua límpida, que recusa o arrasto da maré. Na orla da Avenida, um homem corre em tronco nu. Tatuado. Musculado. Bonito. Corre compassado de calções azuis. Suponho que feliz. Quando o coração bate controlado, a felicidade ainda que banal pulsa com ele. Há uma mulher ao longe à espera do autocarro. Veste uma saia escarlate e parece nesta distância nocturna uma bandeira de uma qualquer revolução que não explodiu. Uma saia contida, apesar do grito. Passa por mim o cão pequeno, branco, com manchas ocre a pintalgar-lhe o pêlo. Presa pela trela tem a dona, senhora dos seus cinquenta de arrepiada cabeleira que encima uma blusinha fresca. Vejo-a a comprar fruta nas manhãs. Compra a fruta da manhã que chega presa à trela da noite anterior, depois de espetar a unha envernizada na casca da laranja matinal. Um rapaz, pendurado na mão de uma mulher embevecida, atravessa a rua. Ela tem os olhos pretos e cabelos tingidos de uma cor indefinida. Sorri. Tem dentes brancos, luminosos. Certos. Dentes da idade dele. Tão certos como o vestido justo, cor de açafrão. Ele tem especiarias no corpo. Pimenta e noz-moscada, cravo-da-Índia e canela. Beija-a, já deste lado da rua. Ela deixa-se beijar, no outro lado do mundo. Um velho perfura o paredão que o separa das ondas parcas e breves. Senta-se depois num banco de madeira e fica parado, parco e longo como um dia que morre sem se ter visto uma saia vermelha, ou um vestido cor de açafrão, ou calções azuis a correr sobre ele.

 

Quando chegar a casa, descalço-me e pouso os pés nus nas tábuas do soalho. O meu soalho é a minha noite no princípio. É nele que começa o meu espanto, o meu deslumbramento com as cores das noites certas das Iguanas.

 

na foto - Joan Miró   

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A Gaffe monumental

rabiscado pela Gaffe, em 07.06.17

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A Gaffe não compreende a ira que suscita a utilização de monumentos para finalidades que não são as apensas aqueles mamarrachos.

 

O objectivo daquilo é ser monumento, o que se torna maçudo, monótono e nada proactivo. Umas coisas grandes, paradas, velhíssimas, com imensos corredores e correntes de ar, que não conhecem o conceito de minimalismo, preenchendo todos os buracos com arrebiques que não lembram a D. Manuel - e cuja única vantagem é terem o pé-direito altíssimo -, facilmente fazem com que os seus funcionários se percam! Não admira que sejam encontrados depois aflitos e em pânico nas obras privadas dos directores daquilo, ou que se esqueçam que os dois ou três mil euros que levam para casa em dias em que chove que Deus a dá obrigando o povo a fugir para debaixo dos arcos - que não os das Capelas Imperfeitas de outro paspalho a ter em conta -, pertençam à bilheteira do mastodonte e não necessitam de protecção acrescida contra as intempéries.

 

A Gaffe não entende a preocupação verificada com 20 botijas de gás incendiado nos claustros do Convento de Cristo. O Convento está mais do que habituado a fogareiros e a fogueiras, tendo em consideração os churrascos de carne de Templário a que com certeza assistiu da janela da História.

As telhas partidas e as pedras quebradas, são de pouca monta e abrem mais uma outra janela, desta vez de oportunidade. Que se aproveite o percalço e se erga um miradouro nos telhados, abençoado com um restaurante chefiado por Ljubomir Stanisic - o homem é tão atraente! - com o alto patrocínio da TVI, ou que se inaugure um SPA na sala do Capítulo, entregando a responsabilidade de o inaugurar a Rita Ferro Rodrigues. Capaz é ela e é sempre de valor acrescentado tendo em conta que até aos mortos a rapariga pede a ligação.    

 

A Gaffe sugere que se aproveite, entre tantos outros espantalhos, Conímbriga - para encontros motard com strip masculino -, o Mosteiro da Batalha, os Jerónimos e Alcobaça - e neste é de transformar os túmulos de Inês e Pedro em dois excelentes balcões de bar aberto, um em frente ao outro, para aguentar assim as oscilações ébrias dos convivas -, a Igreja de S. Francisco e a Torre dos Clérigos que facilmente albergariam raves, festivais de Verão e festas de finalistas do Secundário, porque são todos frescos, têm boa acústica e já se acostumaram ao tráfico de estupefacientes nas imediações.

                                                                                                            

É verdade que os lugares para estacionar não pululam nestes recantos. É verdade que o Museu dos Coches fica longe e não é prático retirar dali o nosso Fiat híbrido, mas o Automóvel Clube de Portugal com certeza - se bem conduzido -, repetiria a ajuda e o povo poderia outra vez esbardalhar o veículo nos pátios de qualquer um dos monos referidos.  

 

 O importante, como diria o meu querido Mexia, é haver rendas para a luz.  

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A Gaffe passeriforme

rabiscado pela Gaffe, em 06.06.17

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 Trump é divertido.

Trump é um manancial de boas piadas e de trocadilhos bem-humorados. A delícia dos comediantes e uma fonte copiosa de notícias engraçadas que a comunicação social não se cansa de explorar atirando holofotes e lupas às facetas caricatas do presidente da maior potencia do planeta.

 

O serão é bem mais pândego quando, no aconchego do lar, passamos em revista as peripécias que protagoniza e que vão desde as sapatadas de Melania na manápula do homem, ao empurrão no senhor de gravata em riste que se vê de repente ultrapassado e impingido para um segundo plano da fotografia, até se chegar ao maravilhoso covfefe que se vai tornando um clássico da imbecilidade. Pelo caminho o rasto de tolice a raiar a imaturidade patológica é visível a olho nu e a gargalhada solta.

 

A comunicação social vicia-se nestes pequenos truques e malabarismos, nestes minúsculos incidentes patetas, nestas manigâncias tolas de um egocêntrico cravado num tweet, apostada em nos fazer ver a tragicomédia em que se torna uma eleição que faz vencedor um irresponsável mal preparado, populista, homofóbico, preconceituoso, misógino, com tiques de ditador de circo e tudo o que se quiser que Trump alinha.

 

Neste arraial de foguetes mal lançados, as ínvias e mais perigosas - porque não noticiadas - alterações à legislação americana, são vomitadas em surdina por uma administração composta por sinistros, bem preparados - maldosos, gananciosos, implacáveis, racistas, silenciosos e tudo o que se quiser, que tudo serve -, magnatas da desumanidade. Não são notícia. Não consubstanciam alertas. Não merecem o rodapé das televisões. Não nos dizem respeito. Não são susceptíveis de nos fazer rir. Não nos fazem sentir mais inteligentes, mais diplomatas, mais honestos, mais cultos, mais bonitos, mais respeitáveis, mais humanos - e tudo o que se quiser, que sabe bem -, que o homem mais poderoso do planeta.

 

Olhamos Trump já com uma certa complacência, já como uma espécie de sábios observadores da arena da idiotice, porque o que nos diverte, o que é imbecil e age como tal, nos deixa na boca um certo travo de superioridade intelectual, fazendo parecer que pertencemos àquela elite culta e democrática capaz de denunciar e ridicularizar o ridículo, de mostrar ao mundo o que jamais se faz numa cerimónia oficial e que é maravilhoso compreender as implicações do Acordo de Paris.     

 

A comunicação social é responsável directa por este amortecer do conhecimento daquilo que os manipuladores do espantalho vão urdindo pela calada da noite, à luz do dia. Preferem noticiar os solavancos e as torções que os fios manipulados vão imprimindo ao corpo do boneco, enquanto os donos do títere vão devorando o milho.

 

É assustador pensar que quando olharmos finalmente para o campo, depois de termos perdido o medo ao espantalho tolo, reste apenas um ninho de corvos e a terra espetada pelos bicos que a sorvem.     

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