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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe nas histórias de fadas

rabiscado pela Gaffe, em 19.05.11

 

Usemos aleatoriamente o "Capuchinho Vermelho" e "A Bela Adormecida" que são, sem hipótese de contradição, duas obras com direito a figurar nas estantes da memória de todas as crianças. Não faremos uma análise exaustiva das obras. Afloraremos apenas o aspecto que ilustra de certo modo o que é dito atrás. O primeiro conto fala de uma menina que, usando um capuz encarnado, deverá no seu passeio pelo bosque, passar a ter cuidado com o lobo que a espreita com intuitos devoradores. Numa primeira e quase imediata aproximação, descobrimos a cor do capuchinho que, segundo uma data considerável de analistas, representa a menarca, a primeira menstruação de uma jovem. A rapariga, fértil, deverá cuidar da sua segurança e do afastamento do possível agressor e/ou desflorador, aqui transformado em lobo cujas características estão desenhadas de modo a ser considerado fatal. A lição possível é dada de modo eficaz e o aviso subliminar fica registado. A menstruação, metaforicamente encapuzada, é sinal claro, vermelho, para que a jovem menina passe a observar os sinais de perigo vindos do bosque. Uma agressão não pode, ainda hoje, ser evitada usando o medo do lobo que espreita?

É também curiosa a quantidade de sangue que se derrama nestes dois contos (mas não exclusiva destes). O sangue metafórico do capuz e o sangue provindo da picada que adormece a Bela. Desta feita, no caso da Princesa catatónica, ser picada é ser desflorada. Há um elemento perfurador, o fuso, que penetra na carne da jovem que tinha atingido a idade em que se tornaria normal uma iniciação sexual. Como castigo, a adolescente adormece e terá de ser o Escolhido a tentar reanimá-la com um beijo após ultrapassar uma série de provas que demonstram que é o merecedor. O feitiço é imposto pela bruxa (interessante também esta dualidade entre bruxa/fada, fada madrinha/feiticeira, que está muito próxima da imagem da mãe, criatura benévola versus criatura malfazeja) e é quebrado por imposição (permissão?) de uma fada com a condição de ser um corajoso, garboso e aprovado jovem a reanimar a princesa picada e ensanguentada. Neste caso, o beijo poderá ser leve e pueril, ao contrário do da Branca de Neve que será obrigatoriamente mais profundo de forma a retirar da garganta o pedaço de maçã envenenada. Muitas vezes ignorada ou dispensada esta característica contribui de modo decisivo para a perenidade e a intemporalidade da história.

Estes dois exemplos, mostrados de forma simplificada, dizem dos modos sublimados de abordar o sexo nas histórias para as crianças, transmitindo noções e conceitos que se enraízam no inconsciente colectivo e estão directamente relacionados com os chamados arquétipos da humanidade. Não são exageros de mentes sórdidas capazes de encontrar, de modo freudiano, o sexo nos anjos. Até porque são raros (se é que há alguns) os contos onde os querubins se tornam personagens dignas de eternidade oral ou escrita. Por não terem sexo, acabam não contáveis. A minha aproximação, pecando por defeito, é necessariamente curta e restrita e está apoiada nos mais básicos alicerces do corpo construtor da clássica narrativa infantil susceptível de atravessar gerações sem modificações na sua estrutura essencial. Carece de maior desenvolvimento (que não tem lugar aqui) e deveria, logicamente, ser aliada a outras que com esta fornecem o estatuto de “obra maior” ao que é contado. A violência, a morte, a crueldade, a disfunção (sobretudo no âmbito familiar) e o universo do fantasioso povoado por ogres, fadas, duendes e bruxas, são pilares quase totalmente ausentes na literatura infantil da actualidade que oferece à criança uma planície asséptica, afastada e purificada, repetindo e retratando um quotidiano aparentemente inocente, clarificado e isento de implícitas referências aos arquétipos edificadores e organizadores do inconsciente colectivo.

Com um público situado numa faixa etária ligeiramente mais elevada, J. K. Rowling recorre a estas implicações de forma quase exemplar em Harry Potter, provando que hoje, como no século que viu o Capuchinho ser atacado pela fera, ou nos reinos de Tolkien, recorrer à certeiras e velhíssimas "fórmulas mágicas" é garantia de aceitação, de reconhecimento imediato e projecção no futuro e não se está a falar, neste momento, de óptimas e inteligentes campanhas publicitárias.

 

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