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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe conta outra vez

rabiscado pela Gaffe, em 20.05.11

Uma das inúmeras exigências feitas a uma obra destinada a crianças é a da utilização de signos, se quisermos de significantes e de significados, numa prática sócio-semiótica progressiva, susceptíveis de ser assimilados com facilidade pelo destinatário cuja "inteligência abstracta" ainda é incipiente.

Fáceis de ser assimilados, não significa nem justifica de todo um uso limitado de vocábulos "simples" ou, muito menos, a utilização de uma espécie de linguagem débil, assumindo-se que é nesta restrição forçada que a leitura se processa com maior facilidade numa obra infantil.

A dificuldade do tradutor que tentava com algum desespero encontrar no francês o vocábulo próximo (mas não equivalente) da portuguesa "crónica", é absolutamente desprovida de senso. A palavra "crónica", dizia-se, não pertencia ao normal e usual, quotidiano, universo infantil e como tal deveria ser substituída por uma outra mais acessível, mas que gerava alguma dificuldade em achar. Esta posição é exemplo de uma certa anomalia na definição e na avaliação dos objectivos da literatura infantil actual. O uso de uma linguagem apurada e exigente que recorre a signos, fonemas, vozes, termos e sons, eventualmente afastados do universo da criança, não é de forma nenhuma um handicap tornando-se, pelo contrário, uma mais-valia. Entrega à criança a possibilidade da descoberta, processamento e desenvolvimento da língua e da sua capacidade de a interpretar e, em última análise, de a amar.

Ao contrário da, por exemplo, esmagadora maioria da literatura infanto-juvenil editada em Espanha, que tem como um dos seus critério de selecção a qualidade e riqueza vocabular, a portuguesa actual, é, salvo raríssimas excepções, de uma enorme pobreza nesta área (não falamos sequer da Inglesa com uma tradição de apuro, exigência e qualidade invejáveis). Escreve-se para minúsculas entidades desprovidas de inteligência, incapazes de raciocínios ligeiramente mais elaborados e um pouco mais que idiotas ou imbecis. Escreve-se procurando o mais incipiente do vocábulo e a mais irrelevante das frases.

Escreve-se quase exclusivamente com um intuito "moralizador" (compreendido numa abordagem diacrónica) muitas vezes preconceituoso e demasiadas vezes canhestro, como se fosse esse, ainda hoje, o objectivo primordial da literatura para a infância. Escreve-se para "formar leitores" sem se ter em conta que não é uma avalanche de edições pouco criteriosas que os formará, nem a ausência do factor surpresa de uma voz, impulsionador da procura e da descoberta externa à obra, paraliterária ou metaliterária, que os desenvolverá.

Escreve-se pobre em Portugal, para pobrezinhos.

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