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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe nasal

rabiscado pela Gaffe, em 31.05.12

(Givenchy menswear nose ring)

Chegam-nos de demasiado longe, de tão longe que o Senhor Professor Hermano Saraiva já não retém memória. Maias, Asztecas (ou Astecas, como lhes aprouver) e Incas foram particularmente adeptos deste tipo de inserção de grandes peças de joalharia através do septo nasal, com o objectivo (atingido) de fornecer ao rosto uma aparência feroz e assustar o inimigo.
Mais recentemente, este tipo de piercing foi adoptado pelos nativos americanos, nomeadamente usado por líderes, como Shawnee Tecumseh e Tenskwatawa. São vulgares e muito populares na Índia, Tibete e Nepal e as mulheres tradicionalmente Bengali usam a Nathori (um anel de ouro com uma lágrima que se move ao longo do anel) como um sinal compromisso emocional.

Estes adereços nasais aparecem, neste caso sem qualquer interferência decisória dos próprios, em animais, geralmente touros, como requisito necessário para os desfiles em feiras agrícolas e para um maior controlo da irritação natural do bicho que recorda que já usou o mimoso aro para incentivar a desmama, desencorajando a sucção, era ele bezerro, menino e moço.

Givenchy incorpora na sua quase nebulosa, ligeiramente sombria, colecção, o aro no nariz, usado, neste caso, para representar a subjacente figura mítica da colecção masculina, o Minotauro (que se intui residir no mais esconso da alma do cavalheiro moderno).

Reforçando a estética brumosa e ogival, vagamente teutónica, da sua mais recente colecção, o aro no nariz embeleza e acrescenta dureza e agressividade tribal a um look por si só, já absorto no abismo fascinante das sombras.

É curioso constatar que os piercings, faciais ou não, têm caracterizado inúmeras vezes as Casas rivais. Alexander Wang deu aos seus modelos simulados anéis de septo; Hakaan ofereceu piercings falsos às suas meninas; Chanel cravou pérolas nos corpos nus e quase oitocentistas das mulheres da sua mais recente estação e, no masculino, Thierry Mugler tatuou os modelos de uma variedade magnífica de adornos faciais no Inverno de 2011.

Não sou particularmente fã, mas admito que o belíssimo aro Givenchy pode produzir uma imagem de extraordinária força e de indelével memória, no nariz de quem o usa e quem o vê usar. No entanto, não me parece que alguma vez Audrey Hepburn, a divina, frágil e angelicamente favorita musa de Givenchy, se atrevesse a debicar a Tiffany's misturando o negro sumptuoso do vestido e o brilho do colar que a celebriza, com um aro, mesmo de platina, antepassado daquele que desmamou bezerros.

Nota – Sei que é da colecção Givenchy Outono/Inverno 2011, mas não me parece que isso se perceba! Há pequenos adereços que atravessam incólumes o frio.

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A Gaffe preocupada

rabiscado pela Gaffe, em 30.05.12

(Clarence Hailey fotografado por Leonard McCombe)

Fico preocupada quando referem a minha falta de clareza. Sou uma rapariga que se incomoda com estes pequenos percalços.

Quando o amabilíssimo Vic declarou, educadíssimo, que não fui explícita aquando da referência à imagem aventureira da Marlboro, tive de injectar um analgésico e engolir um relaxante muscular.

Odeio não ser precisa.

Meu querido amigo, eu sei (e não sei se lamento saber tamanha inutilidade) o nome do cow-boy, fotografado para a Marlboro por Leonard McCombe em 1955! Clarence Hailey foi uma das primeiras imagens da marca. Guardo nos meus pobres e desalinhados papéis a foto do rude, carrancudo, hirsuto e belíssimo fumador que ajudou a tornar definitivamente másculo um certo trejeito feminino que estaria apenso à Marlboro.

Este texano esteve seguramente na origem de uma imagética muito própria de determinado tipo de homem, capaz de se aventurar a montar um animal, grande, normalmente preto, com chifres aguçados e que costuma dar coices e pinotes quando sente que está a ser tratado como se tivesse no dorso o FMI.

Anexo a esta masculinidade, a esta testosterona desenfreada, estão peças com um certo sabor vintage, actualizadas pelos novíssimos materiais e novas formas, que são tratados para se pensarem surgidos de tempos idos e mais destemidos. Pontuam os linhos, as sarjas e as camurças, as peles curtidas pelo tempo que se inventa, os veludos canelados, os lenços de linho amarrotado, os suspensórios e as botas de deserto, que favorecem cortes simples e cirúrgicos e que trazem implícita a ambição latente de aventura e andança, de coragem e de audácia, de arrojo e destemor.

O homem Marlboro é um clássico, eventualmente um estereótipo, um quase arquétipo, capaz de nos arrebatar pelo perigo que é insinuado no modo como, displicente, olha o corriqueiro quotidiano das cidades que passa lento sem saber domar cavalos ou montar a fúria desbravada do touro da existência.

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Gavetas:

A Gaffe penalizada

rabiscado pela Gaffe, em 30.05.12

(Amato Haute Couture – fotografia deTina Patni para Velvet Magazine, Março 2012)

É interessante perceber, pelo feedback que tenho obtido, que O Martelo de Afrodite é mais lido por homens do que por mulheres.

O pecado é meu, como é patente.

Não tenho dedicado a atenção devida a feminilidade. Há razões que justificam o facto. A primeira prende-se com a minha tendência para gostar muitíssimo mais de homens, a segunda (e basta) é porque ainda não estou convencida a entregar armas às minhas potenciais adversárias.

Contudo, minhas caras, para compensar a evidência e atenuar a falha, decido oferecer-vos o maior presente que encontrei!

Não podem agora acusar-me de não referenciar a feminina distinção, porque acabo de vos mostrar o quanto posso ser exagerada.

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A Gaffe aventureira

rabiscado pela Gaffe, em 30.05.12

Seja em que estação, em que ano e em que universo for, todas nós, raparigas espertas, somos atraídas de forma inconcebível pelo aroma dos desertos ou das aventuras em que as orientações se perdem fazendo-nos perder o Norte.

O fascínio pelo apelidado homem Marlboro mantém-se intemporal e, mesmo com o cigarro que originou a imagem, o apelo sexual permanece e é activado sempre que os nossos frágeis corações são trespassados pelos magníficos aventureiros enrugados e de vaga agressividade.

Por isso, rapazes, sejam gentis e não nos deixem somente presas a Príncipes de Gales ou a cinzentos correctores de quaisquer bolsas e carteiras.

Aproximem-nos do sonho, rapazes, e ignorem por momentos os devaneios, as divagações e as oníricas propostas dos criadores da estação seguinte e, mesmo sem fumo, provoquem-nos com as promessas dignas de Marlboro.

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A Gaffe entre cidades

rabiscado pela Gaffe, em 29.05.12

(Louis Vuitton 2012 - fotografia de Brett Lloyd)

Uma conversa entre Paris e Tóquio, é como é definida a colecção Louis Vuitton para o Invernos de 2012, como todos os entendidos já reconheceram e badalaram.

Um conto de duas cidades, como nos é dito por Kim Jones, traz a influência da Viagem (coração da herança Vuitton) e uma influência notória da ilustração de Antonio Lopez que também mescla, no seu trabalho, a cultura europeia com a cultura oriental, nomeadamente a japonesa.

Alister Mackie oferece-nos, através da griffe Louis Vuitton, uma excelente mistura do que é tradicionalmente japonês (camisas kimono, por exemplo) com a elegância parisiense visível sobretudo nos fatos masculinos. A urbanidade é uma constante, alterando positivamente a imagética menos High Tech do velho país sol nascente.   

São peças em que o luxo é combinado com o ecletismo. São trincheiras com manchas de crocodilo, casacos de camelo com gola de pele de canguru, blusões de crocodilo com gola shearling que estilizados por Mackie, geram um homem feito à medida, com uma incrível atenção aos deslumbrantes detalhes.

Mas é a sagacidade dos acessórios que entrega a vantagem incomensurável sobre todo o resto e distingue, mais uma vez, a marca. É de sublinhar nesta aventura, os cintos de segurança, sinalizados, e os brincos de seta, presos no nariz ou nas boinas, que proporcionam ao formalismo da cidade a presença incontornável do inovador, do arrojado e do audaz espírito de um homem que se quer único e distinto por entre a multidão que se aglomera.

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A Gaffe hesitante

rabiscado pela Gaffe, em 28.05.12

O tempo inconstante que se faz sentir, obriga a malabarismos e a hesitações pouco convenientes e de duvidoso gosto.

No entanto, a possibilidade de nos oferecermos um clássico é sempre uma das soluções mais interessantes e espicaça, quase fazendo emergir, o charme do espião mais sedutor do planeta.

A clássica gabardina de tecido leve, mas impermeável, conjugada com o corte impecável e minimalista das calças, que ousam um comprimento inusual, e com os magníficos sapatos em tons pastel, maravilhosamente picotados, emprestam a qualquer cavalheiro o charme discreto da burguesia e incutem-nos a esperança de termos encontrado um tempo certo.

Não hesitem. 

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A Gaffe e o tesouro naufragado

rabiscado pela Gaffe, em 28.05.12

 (PPQ bracelet)

Não é aconselhável a raparigas minúsculas e preocupadas com o facto de não constar na lista dos adereços da estação mais recente, porque esta fabulosa pulseira de resina grossa, para além de ser referenciada em 2011, é relativamente pesada e não convém partir um osso batendo com ela nos tornozelos.

É, no entanto, um acessório deslumbrante, que lembra tesouros afundados que a água aprisionou, fechando em transparências oceânicas jóias perdidas para sempre.

Um dos maiores fascínios de qualquer peça passa também pelo facto de nos despertar a capacidade de divagar e de nos perdermos nas imagéticas paisagens que nos povoam o sonho.

A peça de resina, pérolas e ouro, a prisão que sugere um quase naufrágio antigo e já esquecido, arrasta consigo a sombra de uma história quase dramática, trágica, de tão perfeita.

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A Gaffe leonina

rabiscado pela Gaffe, em 27.05.12

Rapazes, usem e abusem dos linhos e dos tecidos alinhados.

Amarrotem-se, amarfanhem-se, amolguem-se e vinquem-se como se não houvesse amanhã para cuidar do aprumo corrector.

Façam-nos pensar que vos podemos amolgar sem crispação alguma e que é dos nossos braços que saís com o allure usado e extenuado das grandes aventuras das savanas. Afinal, sempre foi vosso desejo, ainda que apenas murmurado, o safari longínquo onde somos leoas a rasar o perigo.

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A Gaffe de bandolete

rabiscado pela Gaffe, em 27.05.12

Por muito tentadoras que sejam, minhas amigas, procurem ser comedidas com as bandoletes que escolhem.

 

Algumas não estão, digamos, propriamente à nossa altura, aliás podem ser bem mais altas do que dona. Arriscamo-nos a ser comidas por um burro  o que não é necessariamente desinteressante, dependendo tudo das qualidades físicas do animal -, estatelarmo-nos contra um muro por não se conseguir ver um boi à frente, ou fazer com que os restantes convidados acreditem que tropeçamos na cabra lá da quinta e desabamos em cima do monte de matéria suspeita que o jardineiro tem vindo a recolher recentemente.

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A Gaffe (malhereusement) dorme sozinha

rabiscado pela Gaffe, em 26.05.12

Podem sempre pedir duas fronhas iguais.

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Gavetas:

A Gaffe protege o olhar

rabiscado pela Gaffe, em 26.05.12

 (Prada - “Deluxe”)

Minhas caras, isto é Prada!

Nada no planeta é tão fácil de se transferir do grupo de acessórios para a qualidade de peça central.

Minhas queridas, se ousarem recatar os olhos com estes Prada, tenham a decência de usar, no mínimo, um Jaguar para os acompanhar e nunca, mas nunca, se atrevam a colorir o corpo com as fantasias sedosas e estridentes de um qualquer Versace de subúrbio.

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A Gaffe e os Lolitas

rabiscado pela Gaffe, em 25.05.12

Eu sei, meus muito jovens queridos, que vos é penoso parecer que o intelecto vos ocupa parte substancial do dia e que é muito mais risonho fazer passar uma imagem boémia e trauliteira de festejos no Bairro Alto, mas, podem crer, uma rapariga muito, muito, muito esperta, acaba irremediavelmente por partilhar lençóis com o menos suspeito, o mais tímido, o mais inibido, o mais inteligente e o mais vintage que encontrar, desde que não faça lembrar, nem à sombra de uma esquina, Stephen Hawking (que Deus me perdoe!).

O instinto e selecção natural, tão badalados por Darwin, connosco são muito mais retorcidos do que aquilo que se fez acreditar. Não procuramos necessariamente o parceiro mais musculado, aquele que traz apenso a garantia genética do sucesso e do saudável, com esperma capaz de produzir rebentos seguros e fortalecidos e de nos fazer acreditar que teremos carne de caçadas trogloditas para o resto das nossas vidas.

Já encontramos essas coisas nos laboratórios.

O que se torna irresistível é a possibilidade de nos tornarmos Mrs. Robinson e conduzir, num perigoso tango, o jovem, terno e tenro, de calças de bombazina nervosa, e comandar os passos que se devem dar para despir o tão invejável colete Tommy Hilfiger, pérola riscada, e desatar os nós das gravatas de tom militar.

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A Gaffe de smoking

rabiscado pela Gaffe, em 25.05.12

Graças ao elegantíssimo Yves Saint Laurent, a silhueta feminina ousou apossar-se de uma das mais típicas peças do guarda-roupa feminino.

Usufruindo de forma inteligente deste sofisticado direito, a mulher acentuou sobremaneira a sensualidade implícita no smoking, destituindo-o daquela previsibilidade que nos fazia confundir o embaixador com o garçon (geralmente muito mais atractivo do que o alto dignitário) de sorriso perfeito e Dom Pérignon em riste.

Fornecendo-lhe um halo de mistério e de enigma, o smoking jamais possibilitou a androginia, acentuando, pelo contrário, a saborosa insolência da atitude dandy e a ondulação sensual da star que o veste com a segurança do mito e a certeza do ídolo.

Uma das peças que precisam com rigor cirúrgico as características sublinhadas pelo uso feminino do smoking, é a deliciosa traição da cor do bâton.

Emerge Dior, comme d´habitude. Evocando a aura temporal das femmmes fatales, surge Dior Addict Lip Color e, entre a paleta disponível, a cor 989 que domina o negro sedoso e, neste caso, transgressor, da peça vestida e torna a mulher na única criatura que o embaixador e o garçon vão querer beijar com a diplomacia frágil do desejo

(Dior Addict Lip Color - 28.50€)

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A Gaffe de Nuno Baltazar

rabiscado pela Gaffe, em 25.05.12

 

(Nuno Baltazar - Moda Lisboa)

Chega sempre o momento em que uma rapariga esperta não consegue suster mais a respiração e deixa de contar até onde sabe, descontrolando a irritação.

O momento chama-se Nuno Baltazar.

Com excepção de singulares ocasiões (o desafio Hombresenfalda*, proposto por Roger Salas, está relativamente bem conseguido), Nuno Baltazar não é particularmente talentoso.

Esta miserável falha reflecte-se na colagem que fez a Catarina Furtado que, ou engordou mais do que se contava, ou é vestida com dois números abaixo do estritamente necessário. A ex-namoradinha de Portugal (título a todos os níveis desagradável e tonto) acaba por ser, não a embaixatriz da marca, porque já é embaixatriz dos pobrezinhos, mas a única hipótese de visibilidade do seu amigo querido.

Inseparável do seu ídolo, da sua musa sorridente, o criador raramente consegue escapar à imagem e à imagética construídas por, e para, Rita Hayworth e acaba por transformar todas as mulheres em medíocres Margaritas Carmens.

Não inova, não renova, não reforma, não provoca o deslumbre e o assombro que são apanágio dos verdadeiros criativos.

Repete-se, confrangedoramente.

É evidente que existem momentos em que esta norma é transgredida e Nuno Baltazar atinge alguns, parcos, episódios dignos de nota e de atenção benevolente, mas, observado o somatório, o resultado é mediano e demasiado frágil (paupérrimo, se quisermos ser objectivas). O criador acaba passível de se ver transformado num case study. Não existe perdão neste lado do universo para aqueles que ignoram a pesada exigência e o pesado esforço que são exercidos sobre os que sobrevivem, ferindo-se de morte com os cotovelos, e Nuno Baltazar parece imune à falta de talento que se impõe.

Ao lado de Catarina Furtado, vai sorrindo, apoiando o déjà vu na silhueta espartilhada, esmagada e aparentemente oprimida, da apresentadora que o vai salvaguardando, por enquanto, do esquecimento (e, de certa forma, lhe sustém o reconhecimento quase inexplicável).

Se não podemos ter tudo, façamos o que podemos com aquilo que tivermos, diz o filósofo, e Nuno Baltazar tem objectivamente muito pouco.

 

(Nuno Baltazar - Hugo Vieira/Best Models fotografado por Pedro Ferreira)

*O conceito discursivo proposto integra no tempo e no espaço os diferentes registos da saia masculina, que adquire protagonismo como adereço cénico nas performances dos bailarinos Rudolf Nureyev, Nacho Duato e Joaquín Cortés e é em simultâneo símbolo de identidade cultural (kilt escocês ou o traje típico dos derviches turcos) e com o bastante comum abalroamento conceptual do design relacionado com moda.

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A Gaffe espia as marés

rabiscado pela Gaffe, em 24.05.12

Ryan Heavyside, assim se chama o fabuloso prodígio aqui fotografado.

Deixa de interessar quem o vestiu e fotografou, quando nos aparece tão bem enquadrado, de calças de alinhado branco e de casaco marinheiro com mistura de linho e seda, solto, largo, e amplo, de rebuços grandes onde podemos pousar as lágrimas de todas as nossas tristezas fingidas e oportunistas.

A nudez, ou a desejada, que se adivinha por baixo de todo este azul marítimo pode ser substituída por uma singlet básica.

Creio que o homem português não ousa sequer sonhar com a hipótese de navegar por estas águas límpidas.

É lamentável, parolo, provinciano, patego e mínimo, o modo como se observa de soslaio, com suspeito preconceito, nas ruas de qualquer cidade portuguesa, o homem que tenta ousar, mesmo de uma forma minimal, sentir a vida e o tempo que passa com a elegância que pode ser seu apanágio.

Ryan Heavyside poderia passar incólume nas ruas portuguesas, porque traz apenso o allure do forasteiro ou o do flaneur que sobrevoa as multidões pasmadas, mas seria imperdoável e estigmatizante para o nacional cinza corrector, outrora navegante, sentir o vento liberto das abas deste casaco marinheiro, no corpo liberto de um conterrâneo seu.

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