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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe e os Lolitas

rabiscado pela Gaffe, em 25.05.12

Eu sei, meus muito jovens queridos, que vos é penoso parecer que o intelecto vos ocupa parte substancial do dia e que é muito mais risonho fazer passar uma imagem boémia e trauliteira de festejos no Bairro Alto, mas, podem crer, uma rapariga muito, muito, muito esperta, acaba irremediavelmente por partilhar lençóis com o menos suspeito, o mais tímido, o mais inibido, o mais inteligente e o mais vintage que encontrar, desde que não faça lembrar, nem à sombra de uma esquina, Stephen Hawking (que Deus me perdoe!).

O instinto e selecção natural, tão badalados por Darwin, connosco são muito mais retorcidos do que aquilo que se fez acreditar. Não procuramos necessariamente o parceiro mais musculado, aquele que traz apenso a garantia genética do sucesso e do saudável, com esperma capaz de produzir rebentos seguros e fortalecidos e de nos fazer acreditar que teremos carne de caçadas trogloditas para o resto das nossas vidas.

Já encontramos essas coisas nos laboratórios.

O que se torna irresistível é a possibilidade de nos tornarmos Mrs. Robinson e conduzir, num perigoso tango, o jovem, terno e tenro, de calças de bombazina nervosa, e comandar os passos que se devem dar para despir o tão invejável colete Tommy Hilfiger, pérola riscada, e desatar os nós das gravatas de tom militar.

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A Gaffe de smoking

rabiscado pela Gaffe, em 25.05.12

Graças ao elegantíssimo Yves Saint Laurent, a silhueta feminina ousou apossar-se de uma das mais típicas peças do guarda-roupa feminino.

Usufruindo de forma inteligente deste sofisticado direito, a mulher acentuou sobremaneira a sensualidade implícita no smoking, destituindo-o daquela previsibilidade que nos fazia confundir o embaixador com o garçon (geralmente muito mais atractivo do que o alto dignitário) de sorriso perfeito e Dom Pérignon em riste.

Fornecendo-lhe um halo de mistério e de enigma, o smoking jamais possibilitou a androginia, acentuando, pelo contrário, a saborosa insolência da atitude dandy e a ondulação sensual da star que o veste com a segurança do mito e a certeza do ídolo.

Uma das peças que precisam com rigor cirúrgico as características sublinhadas pelo uso feminino do smoking, é a deliciosa traição da cor do bâton.

Emerge Dior, comme d´habitude. Evocando a aura temporal das femmmes fatales, surge Dior Addict Lip Color e, entre a paleta disponível, a cor 989 que domina o negro sedoso e, neste caso, transgressor, da peça vestida e torna a mulher na única criatura que o embaixador e o garçon vão querer beijar com a diplomacia frágil do desejo

(Dior Addict Lip Color - 28.50€)

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A Gaffe de Nuno Baltazar

rabiscado pela Gaffe, em 25.05.12

 

(Nuno Baltazar - Moda Lisboa)

Chega sempre o momento em que uma rapariga esperta não consegue suster mais a respiração e deixa de contar até onde sabe, descontrolando a irritação.

O momento chama-se Nuno Baltazar.

Com excepção de singulares ocasiões (o desafio Hombresenfalda*, proposto por Roger Salas, está relativamente bem conseguido), Nuno Baltazar não é particularmente talentoso.

Esta miserável falha reflecte-se na colagem que fez a Catarina Furtado que, ou engordou mais do que se contava, ou é vestida com dois números abaixo do estritamente necessário. A ex-namoradinha de Portugal (título a todos os níveis desagradável e tonto) acaba por ser, não a embaixatriz da marca, porque já é embaixatriz dos pobrezinhos, mas a única hipótese de visibilidade do seu amigo querido.

Inseparável do seu ídolo, da sua musa sorridente, o criador raramente consegue escapar à imagem e à imagética construídas por, e para, Rita Hayworth e acaba por transformar todas as mulheres em medíocres Margaritas Carmens.

Não inova, não renova, não reforma, não provoca o deslumbre e o assombro que são apanágio dos verdadeiros criativos.

Repete-se, confrangedoramente.

É evidente que existem momentos em que esta norma é transgredida e Nuno Baltazar atinge alguns, parcos, episódios dignos de nota e de atenção benevolente, mas, observado o somatório, o resultado é mediano e demasiado frágil (paupérrimo, se quisermos ser objectivas). O criador acaba passível de se ver transformado num case study. Não existe perdão neste lado do universo para aqueles que ignoram a pesada exigência e o pesado esforço que são exercidos sobre os que sobrevivem, ferindo-se de morte com os cotovelos, e Nuno Baltazar parece imune à falta de talento que se impõe.

Ao lado de Catarina Furtado, vai sorrindo, apoiando o déjà vu na silhueta espartilhada, esmagada e aparentemente oprimida, da apresentadora que o vai salvaguardando, por enquanto, do esquecimento (e, de certa forma, lhe sustém o reconhecimento quase inexplicável).

Se não podemos ter tudo, façamos o que podemos com aquilo que tivermos, diz o filósofo, e Nuno Baltazar tem objectivamente muito pouco.

 

(Nuno Baltazar - Hugo Vieira/Best Models fotografado por Pedro Ferreira)

*O conceito discursivo proposto integra no tempo e no espaço os diferentes registos da saia masculina, que adquire protagonismo como adereço cénico nas performances dos bailarinos Rudolf Nureyev, Nacho Duato e Joaquín Cortés e é em simultâneo símbolo de identidade cultural (kilt escocês ou o traje típico dos derviches turcos) e com o bastante comum abalroamento conceptual do design relacionado com moda.

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