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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe alta e negra

rabiscado pela Gaffe, em 30.06.12

 

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Sei que não é consensual um look absolutamente preto, mas é imprescindível no guarda-roupa masculino a presença de uma camisola de gola alta desta cor.

Atravessando várias estações, sobrevive, intemporal, a todas as investidas e surge aliada a peças formais, descontraídas ou mesmo insinuantes, nas colecções de quase todos os criadores que se tornaram ícones e gurus neste domínio.

Não adianta, rapazes, o facto desta peça não provocar unanimidade, nem sequer é importante que o preto seja cor banida da vossa lista de preferências. Como diria a minha santa avó: Sofre, Rita, se queres ser bonita.

No universo do que é visível pelo Outro, a essência da nossa alma está demasiadas vezes empenhada na conquista, na sedução e na resposta positiva àquilo que é a expectativa de quem nos olha e não há nada mais deprimente do que se perceber que a visão do Outro nos é, justa ou injustamente, desfavorável.   

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A Gaffe melancólica

rabiscado pela Gaffe, em 29.06.12

A imagem mostrada não é, como parece evidente, actual. Terá algumas décadas de poeira e de passado que a tornam fascinante.

Surpreende pela inacreditável presença que possui, pela máscula beleza do protagonista e pelo facto de não divergir ou destoar de qualquer produção de moda deste instante.     

O carácter cíclico, aqui bastante bem comprovado pela similitude existente entre duas épocas distintas e longínquas em termos temporais, em que se envolve o fenómeno ligado à inventividade dos criadores de imagem que inclui (neste caso, como nos outros) o vestuário, provoca necessariamente o espanto de nos vermos de súbito movidos e transportados pelo tempo e no tempo.

A criatividade, assim relativizada, deixa-nos um travo melancólico na alma e acaba por nos murmurar que, quando formos apenas o passado, haverá, vagueando algures numa rua, a memória do que somos.   

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A Gaffe usa uma singlet

rabiscado pela Gaffe, em 28.06.12
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Que me perdoem os adeptos, mas esta peça extraordinária não se aguenta em corpos enfezados ou no do fiel bodybuilding, consumidor de anfetaminas e afins.

A singlet, normalmente vista na construção civil donde partem os lendários piropos de gosto duvidoso, foi divinal e obrigatória nas décadas de 30 e 40 pertencendo originariamente à gama classificada como underwear, até Marlon Brando (e neste momento tenho de me deter para retomar a respiração normal) a transportar para a ribalta interpretando Stanley Kowalski no Um Eléctrico Chamado Desejo, de Elia Kazan, baseado na obra de Tennessee Williams (como toda a gente sabe).

Com laivos de reconhecido apelo de índole mais ou menos confessável, a singlet, usado como peça exterior, obriga a um sério trabalho de campo e de ginásio, capaz de modelar o torso de quem a usa e que não quer passar despercebido ou sentido como um idiota com a mania que é bom, diria o colega equilibrando-se no andaime.

Perigosa, porque de fácil atracção e capaz de destruir a imagem do cavalheiro que se aproxima, embora com a lentidão exigida, da idade da reforma, a singlet é estupenda quando usada por Meninos do Rio, tisnados pelo sol, isentos de pensamento que o mar não possa diluir ou arrastar, inconscientes e descartáveis, belos e inúteis, que vão saber o que fizemos no Verão passado e que serão esquecidos quando a prancha de surf estiver corroída pelo sal da nossa pele.

A derradeira hipótese de a usar com relativo à vontade, sem o fantasma ossudo e mirrado, ou intumescido e hipermusculado, do medo de se revelar um corpo pouco atraente, é numa estação mais fria, onde a singlet recupera o seu domínio externo e surge saborosa a desestruturar a lógica das imagens mais compostas.

 

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Gavetas:

A Gaffe experiente

rabiscado pela Gaffe, em 27.06.12

 

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Gavetas:

A Gaffe faz copy/past

rabiscado pela Gaffe, em 27.06.12

Passeando levemente pela brisa dos blogs similares a este, reparei com perplexidade que, em quase todos, há uma referência completa e pormenorizada ao que se observa na imagem que se propõe.

Se me perguntarem qual é a programação da Ópera de Paris, do Scalla de Milão ou do Guggenheim (esteja ele onde estiver), consigo até apontar facilmente os horários em que determinado acontecimento ocorrerá, mas não sou capaz de identificar sem auxílio de uma cábula, ou de um desavergonhado roubo, a proveniência de cada peça que uma menina com um ar ligeiramente retardado usa na fotografia.

Como sou, embora raramente, uma Maria via com as outras, decidi despachar este assunto e colmatar esta lacuna, roubando sem piedade o que algures me agradou e que, não me deixando convencida, e muito menos eufórica, consigo deixar passear pela brisa deste blog.

Ataquemos, portanto, corajosamente esta questão:

Saia - Tibi

Top - Equipamento

Sapatos - Stuart Weitzman

Bolsa - Chanel

ÓculosKaren Walker

Bâton - MAC 'uby Woo'

UnhasEssie 'pirulito'

Bandolete - ASOS

Jóias - David Yurman, Kate Spade, Jcrew, Stella & Dot, Pomelatto, YSL

Cardigan - Zara

 

Uma maçada, não é?!

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A Gaffe conservadoramente tatuada

rabiscado pela Gaffe, em 27.06.12

Lembro que referi num post anterior que uma rapariga não é particularmente fã de corpos cobertos por tatuagens. A opinião mantém-se, mas sublinha-se que o mesmo não acontece quando se fala de contrastes e colisões, por ventura antagónicas, que despertam no menos fundo da nossa intimidade os calafrios propensos à mais escandalosa das garotices.

Há no encontro de antíteses, no embate de imagens discrepantes, no choque de pormenores discordantes, um apelo, quase de índole sexual, que faz disparar todos os nossos alarmes.

O delicioso aroma dos bons patifes encontra-se, subliminar, nesta colisão.

Acreditamos, ou fingimos crer, que a conservadora imagem que nos é visível, camufla, embora sem convicção, um universo, mais ou menos esconso, que hesitantemente desejamos conhecer, porque somos todas, não há como negar, atraídas pelo marginal mais boémio, vadio e extravagante e a boémia malfeitoria, vestida por Prada ou Valentino, desculpa toda a tatuagem que não queremos abraçar e faz também de nós agulhas destinadas a riscar o corpo disfarçado.

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A Gaffe e os cromos repetidos

rabiscado pela Gaffe, em 26.06.12

De Paris a NY, passando por Milão, Tóquio, Madrid ou, embora em menor escala, Lisboa, entramos, nas ruas, numa espécie de portal temporal, uma variante afunilada de passagem para um universo onde encontramos em cada esquina rebanhos de homens que nos parecem repetidos e que nos causam a sensação de déjà vu. São homens relativamente interessantes, supostamente bem vestidos e elegantes, que se duplicam até à exaustão, forçando uma imagem que tende para a uniformização e generalização.

 

 

Esta característica é maçadora e aproxima o homem do estereótipo que, como sabemos, é companheiro favorito das massas amorfas e pouco racionais.

O homem torna-se igual ao outro em cada rua onde passa. A imagem é a mesma, invariável e quase monótona, com algumas, minúsculas, honradas e honrosas, fugas de cor ou pormenor.

A tendência é a de tornar similar, tornar geral, idêntico e aborrecido, um pequeno conjunto de imagens masculinas que vão funcionar como elemento aglutinador e comprovam a pertença de grupo. No entanto, esta metamorfose da diversidade em uniformidade, coloca o homem na área do facilitismo que é consequência da cegueira submissa ao pensar de determinado e bem referenciado grupo.

Sintoma de pertença a um círculo específico, esta comunidade imagética constante e imutável, aproxima o indivíduo do estereótipo, fazendo-o reconhecido pelos pares e pela multidão externa ao grupo, mas, como será de esperar, implica uma ausência de esforço, de imaginação, de criatividade e de originalidade, características não exigidas na formação do lugar-comum, do cliché, do chavão de trapos. É a simplificação absoluta da razão, o resumo básico e pouco cuidado do pensamento e, como tal, é aceite e reconhecido pelas massas, mas é, como se torna óbvio, uma redução primária da criatividade e da inteligência.

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Não se pense que não é agradável ver homens que provocam em nós, raparigas espertas, a perigosa sensação que nos faz acreditar que todos são o mesmo, pensam o mesmo, vestem o mesmo, fazem o mesmo, escolhem o mesmo, gostam do mesmo, dizem o mesmo, sofrem do mesmo, falam do mesmo e, tragicamente, trazem-nos sempre a mesma história sexual. A previsibilidade masculina sempre foi uma das nossas mais poderosas armas, mas, temos de admitir que se nos sai constantemente na saquinha de papel cromos repetidos, acabamos por mudar de colecção ou, no mínimo, procurar a estampa que, em princípio, não escolheríamos para colar na primeira página da nossa caderneta. 

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A Gaffe com saudades do futuro

rabiscado pela Gaffe, em 25.06.12

(Jil Sander – Homem - Outono/Inverno 2012-13)

Devo assumir, perante a chuva de especialistas que se me deparam em cada canto e esquina da vida e dos blogs, que sou completamente leiga em assuntos relativos aos que tenho a ousadia de abordar. Não consigo sequer distinguir uns sapatos Oxford ou Blucher de uns Monk Strap e para nomear uma característica específica de determinada peça tenho, não raras vezes, de recorrer ao Google, para não parecer completamente tonta.

Sou uma rapariga de província, minimal e simplória, que decidiu, a talho de foice, enfiar o nariz em seara alheia.

No entanto, nunca foi meu objectivo marcar com firmeza o pequeníssimo universo dos comentadores altamente qualificados nesta área. O meu primeiro e único propósito é registar o que me agrada, independentemente da actualidade do que é assinalado.

Por esta razão, refiro com agrado os chamados paper bagging que, embora não sendo novidade, me deixaram tonta de tanto os desejar.

Originários da ANVE, pequena marca que nasceu a partir de curtos esboços de Anne e Kerstin, as Clutch Saco de Papel, espalham-se pelos quatro cantos do planeta e, como parece óbvio, inspiram-se nos desenhos dos sacos e no modo como cada pessoa pega neles. Seguros na mão, escondidos e apertados com força por baixo do braço, enrolados ou com uma dobra, estas pequenas maravilhas de pele, manufacturadas, são originais reproduções dos velhíssimos sacos de papel que nos cansamos de ver seguros pelas empregadas lá de casa e conseguem conquistar por completo uma rapariga provinciana que se lembra com saudade da padaria do Sr. Antunes, perto de Chaves onde nasceu, e que agora encontra nas ruas de Paris uma versão sofisticada, cosmopolita e fashionable, do modo certo onde o pão quente, estaladiço e incomparavelmente saboroso, era levado à mesa improvisada dos lanches sorrateiros de uma infância.

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A Gaffe tripla

rabiscado pela Gaffe, em 25.06.12

Como diria a minha santa avó, não há duas sem três

Completo a trilogia David Gandy referindo uma das peças que mais deliciosas do guarda-roupa masculino. A American Apparel henley (tunisina para os amigos), usualmente de manga comprida, aparece aqui tornando visível a volumosa musculatura (e algo incomodativa, tenho de admitir) do rapaz que nos provoca arrepios constantes.

Para além de confortável é uma coadjuvante perfeita quando os meninos decidem passar horas seguidas nos ginásios, suando o soalho e os instrumentos.

Como é evidente, a peça, aliada nestes casos das calças cómodas largas e frescas de algodão fino, que permitem uma movimentação ampla exigida ao atleta, não deve servir para um passeio de fim de tarde num tenebroso e apinhado Centro Comercial. Não deve servir para divagar em lado nenhum, abrindo-se uma excepção relacionada com a calçada junto à praia, entre as brumas e os canaviais.

É decididamente uma peça exclusivamente masculina, usurpada, esporadicamente e com reconhecido mérito, apenas por Angelina Jolie, quando a pequena andava aos saltos, disparando obuses, arremessando granadas e desancando os maléficos trastes que ameaçavam a segurança do planeta. Se não conseguirmos uma aproximação, ainda que ligeira, a Lara Croft, deixemos para os nossos rapazes a tarefa de inundarem o algodão egípcio de suor e sangue.

Fiquemo-nos pela discreta vontade de, no fim de todos os esforços, podermos desabotoar calmamente a carcela do decote.

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Gavetas:

A Gaffe veste o rapaz

rabiscado pela Gaffe, em 24.06.12

 

(David Gandy, London Collections Men – 2012)

Redimindo-se do despudor com que, ao acordar, despiu e apresentou David Gandy, esta criatura desavergonhada, volta a deslumbrar-se (com mais recato, é certo) com o fabuloso macho, desta vez chamando a atenção para a conseguida harmonia das texturas e discretos padrões das elegantíssimas peças, destacando, com especial cuidado, os bolsos do balzer e o colete, mas continuando (desta vez corando ligeiramente)  a apetecer-lhe ver tudo despido.

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A Gaffe possuída

rabiscado pela Gaffe, em 24.06.12

 (David Gandy por Mariano Vivanco)

Como diria a minha santa avó, hoje é dia do Senhor e por muito que aprecie o guarda-roupa com que este maravilhoso exemplar da espécie nos cega, escolho definitivamente vê-lo desta forma.

Esplendoroso, prodigioso, fabuloso e divino, David Gandy é seguramente muito mais atraente nu do que vestido por todas as griffes que não compreendem que basta colocar uma insinuação das suas etiquetas no dedinho mindinho deste portento, para que desatemos a correr apaixonadas pela marca.

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A Gaffe laçada

rabiscado pela Gaffe, em 22.06.12

No corpete de Maria Antonieta, Rainha dos franceses, existiam laços que, pecaminosos, tinham nomes consequentes das posições que ocupavam no tecido e nas varetas que sufocavam Sua Majestade.

As fitas que nos mamilos da Rainha se laçavam, eram os pequenos contentamentos e aquelas que desciam ao encontro do início da púbis, sem a tocar, apenas aflorando o caminho doce que a ela chega, a chave da felicidade.

Os laços e os nós são, na lingerie, a essência da feminilidade, imprescindíveis no jogo de sedução e do prazer e contribui de forma decisiva para que sejamos donas do universo em que o erotismo deixa marca. São o modo como tecemos a teia e o primeiro vibrar anunciador da queda da presa.

Maria Antonieta, Rainha decapitada de uma França já perdida, reconhecia o poderoso apelo das laçadas mais íntimas. Sejamos pois absolutas soberanas no reino onde sabemos dominar.   

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A Gaffe e os mad men

rabiscado pela Gaffe, em 21.06.12

Os cavalheiros que se apresentam são os tímidos retrossexuais da Pitti Uomo.

Os mad men menos ousados, e muitíssimo mais retraídos, de uma onda ligeiramente grosseira que alastra hoje pelos meandros da testosterona em melancólica procura da uma imagem masculina próxima dos anos 60.

Não são efusivamente imaginativos, afastando-se mimosamente do másculo e machista ambiente da década onde procuram influências, mas, pelo menos, não parecem deselegantes, misóginos e peludos fumadores inveterados.

São mimosos mad men que não recuperam o irresistível, mas insuportável, charme de Donald Draper, nem creio que deles surja um slogan digno da Sterling Cooper, capaz de nos convencer ou excitar convenientemente.

São fofinhos!... e nada há de mais destruidor e inconsequente para um pujante rapaz do que ser considerado fofinho por uma mulher.

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A Gaffe marca o lugar

rabiscado pela Gaffe, em 20.06.12

Sempre disse não ser uma grande fã do desporto. O máximo que consigo é observar com prudência a movimentação dos corpos e, de vez em quando, saltar de entusiasmo moderado no sofá onde me estatelo, quando encontro um ou outro atleta mais absorvente.

No entanto, sou fã dos balneários. Não pelas razões óbvias e marotas (que, não nego, também contribuem para esta minha malandra inclinação), mas porque penso que todas nós, raparigas, antes de qualquer modalidade ter início, com alguns minutos que antecedem a entrada dos rapazes, devíamos espargir pelos cantos do reservado e masculino recinto algumas gotas do nosso perfume.

A nossa marca indelével agiria subliminar e inconscientemente na concentração dos deuses dos estádios e, quando fossemos, displicentes, com o papelinho na mão, pedir-lhes um inútil e descartável autógrafo, seria mais fácil despertar a memória insidiosa que soubemos esconder nas horas vagas e vazias dos másculos balneários e acabaríamos com toda aquela testosterona aos nossos pés.

Gucci, contribui com Envy, de uma fresca e cosmopolita sofisticação, Narciso Rodriguez traz-nos NY, quente e avassaladora, e, para as mais atrevidas Lolitas, existe o primeiro Donna Karan NY, ligeiramente ácido e cativantemente pecador.   

Nesta operação, eventualmente proibida pelas Sociedades de Psiquiatria, é aconselhável que nós, raparigas leigas, distingamos com extremo cuidado as instalações onde cometemos o crime. De contrário, corremos o risco de (porque confundimos, aquando do borrifar do nosso pecado, a estrebaria com o balneário) em vez do garboso atleta, termos de lidar com o cavalo inconvenientemente apaixonado.

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A Gaffe e a tribo digital

rabiscado pela Gaffe, em 19.06.12

Na eventualidade de serem tentados a usar, respeitando literalmente, o que no desfile trespassa o vosso deslumbre, socorram-se de um relaxante muscular com propriedades sedativas.

O que passa, vossos males espaça, mas caso não tenham o incêndio do corpanzil de nadador olímpico em que se transformam os modelos ou a coragem (também olímpica) para enfrentar a urbe conservadora e cinzenta antracite, não arrisquem levar o cão a passear reproduzindo com absoluto rigor um modelo que vos cegou num desfile de Galliano numa das suas fases psicóticas (a não ser que o cão seja um doberman treinado para atacar trolhas, beatas, o pároco da freguesia, taberneiros e afins).

A proposta interessantíssima que mistura padrões tribais com elementos digitais, provenientes de um universo informatizado e quase asséptico, acaba por produzir peças deliciosas cujos padrões se conjugam, e coadjuvam, numa miscelânea atractiva e perfeitamente conseguida.

Há, no entanto, que acalmar a propensão para o entusiasmo imediato que quase sempre acaba por nos deixar uma ou outra mazela no bom senso.

Esta mescla de elementos quase antagónicos de dois mundos que, dir-se-iam, em princípio, discordantes e impossibilitados de intersecção, não pode (se o tal cão for um pincher) ser usada indiscriminadamente pensando-se que, se desperta a faísca do deslumbre no tapete do desfile, vai provocar o trovão na esquina do quotidiano.

As adaptações e as reinterpretações são essenciais.

O autocarro que nos transporta pelas ruelas da vida não inclui lugares iluminados por profissionais altamente qualificados, nem há música de fundo para nos modelar os compassos e os passos.

A forma mais perfeita de adaptação do extraordinário criativo, destinado a permanecer debaixo de luzes e de sons externos ao quotidiano mais comum, é o uso da inteligência, crítica, analítica, contundente e cirúrgica, que permite, por exemplo, uma conjugação do mais principesco dos clássicos padrões com subtis elementos tribais, consubstanciados em pormenores discretos e quase ínfimos, unindo, desta forma, a proposta, possivelmente considerada excêntrica, que foi apresentada.

O absoluto clássico é susceptível de se tornar elemento primordial numa actualização, como diriam os connaisseurs, mais vanguardista.

Basta um inteligente golpe de asa.

 

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