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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe de peitilho

rabiscado pela Gaffe, em 03.07.12
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É dificílimo usar um overall sem o pindérico estereótipo que o associa a piropos de péssimo gosto, à robustez de mecânicos trogloditas e a uma série de signos que pouco dignificaram uma espécie de masculinidade defendida a todo o custo pelo homem do século XX.

O overall esteve, também, e durante demasiado tempo, ligado a imagens com laivos significativamente lúgubres e insidiosamente pouco másculos e imbuído de signos próximos de uma linguagem homoerótica que impedia o seu uso (sobretudo urbano) generalizado e aceite com indiferença (que, nestes casos, é a melhor e mais eficaz forma de se ser recebido). O lenço (ou bandana) preso no bolso esquerdo traseiro do overall era tido como uma mensagem codificada e lido, por exemplo, como uma anuência e um convite de cariz homossexual – diz o meu queridíssimo massagista que percebe de forma altamente suspeita deste assunto.

É, no entanto, uma peça encantadora.

A imagética que lhe é associada, ao contrário do que é habitual supor, passa nos Estados Unidos, onde é popular, pelo trabalho árduo, suor e músculos ou pela ingénua e cativante figura do rapaz um tanto ou quanto desprotegido, vagamente perdido, mas talentoso e dotado (James Dean é o paradigma desta segunda situação), capaz de percorrer o mundo em busca do Graal, mesmo tendo, nessa demanda, de ficar esporadicamente submerso em estrume.

É uma peça prática se o peitilho não for apertado e subido em demasia (neste caso, teremos o valoroso rapaz, em busca do Graal, muito devagarinho e com voz fininha) e pode ser usado informalmente, descontraidamente, relaxadamente, enquanto nós, nos jardins proibidos, baloiçamos a sombra de um pecado preso nas alças cruzadas nas costas do gentil guerreiro já suado.

Recomenda-se nos bucólicos piqueniques onde se estendem toalhas Vichy e se espalham cestos de vime sobre a relva fresca e onde nós, raparigas espertas, sabemos por experiência adquirida desapertar fivelas e nós, mesmo os mais cegos.

Não se aconselha nas urbes bolsistas, embora haja um nicho encantador nesses espaços, pronto a ser estendido nas toalhas dos nossos contentamentos e com um fantástico allure de artista incompreendido.

Está vivo e pronto a ser despido. Uma bela notícia para as raparigas que, como eu, gostam do magnético aroma de terra molhada.    

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