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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe de partida

rabiscado pela Gaffe, em 15.08.12

(Jil Sander)

A Gaffe, rapariga bem comportada, ajuizada, esforçada e trabalhadora, decide tirar férias!

Durante as próximas duas semanas ruma ao infinito, zarpa para parte incerta, perde-se no horizonte, sem Ipod, sem Iphone, sem Ipad, sem ais de qualquer espécie, levando apenas o seu e atrevidíssimo guarda-roupa de veraneio, os óculos de sol Prada, o protector solar, as dóceis e macias toalhas de praia Moschino, azuis tempestade, e os exíguos e provocantes triângulos que usa para disfarçar a nudez.

Volta logo no início de Setembro com significativas novidades, prometendo desde já diversificar o conteúdo do blog, embora respeitando sempre o leitmotiv do mesmo.

Agora, a Gaffe vai retocar o bâton, apurar o blush e retirar um pedacinho de saudade que lhe pousou nas pestanas.     

 

Até já!

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A Gaffe em Havana

rabiscado pela Gaffe, em 14.08.12

O Havana é um casaco prático e funcional que não deixa os seus créditos por mãos alheias. Alia-se na perfeição às calças de sarja macia ou às pragmáticas cargo, tornando-se peça ideal na construção de um casual agradável e atraente.

Há características a que o Havana deve possuir para ser classificado como tal.

Como sou uma rapariga simpática, aponto as essenciais:

 

1 – Lapelas entalhadas;

2 – Ombros naturais;

3 – Um botão de beijo (ou dois botões jaqueta);

4 – Bolsos de chapa;

5 – Casas funcionais;

6 – Dupla abertura lateral.

 

É evidente que me escapa o significado de algumas destas prerrogativas. Sou simpática, mas não sou alfaiate e, sejamos sinceras, num dia chuvoso não é de todo agradável navegar à procura do significado de pormenores, que não vou fixar, apenas com o intuito de esclarecer rapazes menos atentos e mais preguiçosos.

Os meninos que se cuidem.

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Gavetas:

A Gaffe vaporosa

rabiscado pela Gaffe, em 13.08.12

Embora actualmente de forma pouco segura e muito mais flexível, as rendas, os bordados e os padrões florais ou floridos, foram durante demasiado tempo apanágio do feminino.

Este facto deu uma enorme vantagem às mulheres que se apoderaram com convicção das potencialidades deste universo vaporoso e frágil, armadilhando-o e fornecendo-lhe uma conotação erótica que é, em última análise, proveniente da ausência obrigatória destes elementos no círculo de uma masculinidade empedernida que se vê deslumbrada e desperta pelo sussurrar destes tecidos.

O astuto, cuidadoso, engenhoso, e muitas vezes inquietante, uso feminino das rendas e dos padrões florais, opera maravilhas no subconsciente dos incautos rapazes que presos nas redes, teias e flora dos tecidos, acabam por sucumbir ao fascínio do que lhes é interdito.

A proibição, aqui como na esmagadora maioria dos casos, incute e impele o desejo de transgressão e é agradabilíssimo sentirmos que no esvoaçar do pano se liberta a sombra do pecado e o subtil fascínio da irresistível feminilidade.

Mas (convém não esquecer) a lua tem uma face mais obscura e trágico é quando este miraculoso encantamento de rendas e bordados a preceito, se traduz na visão catastrófica do nosso rapagão a desfilar pela brisa da nossa intimidade usando, balanceado, as nossas artimanhas.

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A Gaffe na lapela

rabiscado pela Gaffe, em 10.08.12

(Luciano Barbera)

Perdeu-se há muito a delicadeza suave de uma flor numa lapela masculina.

A linguagem subliminar inscrita neste pormenor foi-se esbatendo e secando. Os homens decidiram tornar um detalhe de uma delicadeza significativa numa demonstração de desprotegida e inocente fragilidade, permitida apenas em casamento e baptizados.

A possibilidade de adornar as lapelas masculinas ficou restrita a pins minúsculos e banais onde se faz alarde do orgulho desportista ou do brio populista, mas governamental.

É lamentável o abandono votado aos discretos alfinetes com que os avós faziam brilhar lapelas rigorosamente entreteladas ou com que prendiam as sedosas gravatas com riscas regimentais.

O empobrecimento da panóplia de adereços masculinos não se reflectiu no aparentemente almejado evoluir de uma imagem de masculinidade a toda a prova, nem a tornou mais límpida, capaz de referenciar um despojamento másculo de quem se quer dinâmico e eficaz, com a sobriedade apensa à ilusão de não se perder tempo.

No entanto, o adornar florido da lapela masculina, inversamente ao tido como certo, é um dos mais encantadores detalhes a fazer prova da mais segura masculinidade e da mais assumida presença da sedução inteligente.

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A Gaffe em viagem

rabiscado pela Gaffe, em 09.08.12

Todas as viagens são pequenas colisões com universos distintos do nosso e todas nos provocam o embate com o Outro. Olhamos e somos olhados e é nesta simbiose que se adquire a capacidade de operar ou favorecer o crescimento positivo do que somos.

Olhar o Outro e deixar que o Outro nos olhe, consubstancia o âmago da harmonia mais simples e a simplicidade é factor essencial para a evolução sustentada e sustentável dos nossos mais interiores e mais íntimos edifícios.

Se estas visões, estas trocas externas e internas de olhares, se fizerem a partir de uma partilha consensual de uma viagem, o resultado torna-se perene, porque deixa paisagens em retinas díspares abalroadas pela mais pacífica das cumplicidades.

Posto isto, meninos, façam-nos um favor! Não usem lentes baças quando nos abraçarem nos lugares aonde chegam os olhos dos nossos corações.

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A Gaffe na aldeia

rabiscado pela Gaffe, em 08.08.12

Minhas queridas, nunca, mas nunca, se atrevam a visitar a aldeia pitoresca que vos viu nascer, com os pés vertiginosamente enfiados no vosso glamour Louboutin.

O descalabro espera-vos.

Esqueçam a sofisticação do equilíbrio treinado nas ruas das capitais europeias; ignorem a delícia que é ver o pasmo das burguesas pequeninas e adocicadas, que saltitam excitadas na hora da catequese; procurem evitar o orgasmo que é sentir que, perto de nós, a princesa lendária que se espetou contra o poste, é cilindrada pelo nosso imerecido cintilar.

Tudo o que é deslumbre, sedução e requinte se eclipsa no segundo em que o nosso pé Louboutin surge à porta do Jaguar para pisar as pedras da calçada.

A partir desse momento, tudo é trágico.

Se a sola rubra do sapato não pisar pistas biológicas deixadas pelas cabras (e não me refiro às catequistas) e por bois que quase nos enfiam o focinho húmido nas axilas, corremos o sério risco de nos estatelarmos no centro da aldeia, com o tacão cravado num interstício manhoso, numa fenda traiçoeira, nas pedras da calçada, sem termos sequer um garboso matulão Armani para nos amparar a queda. Se não formos mordidas pelas galinhas (falo também das catequistas) e sentirmos o nosso jovial conjunto, Valentino Verão 2013, esventrado pelas garras de gatos psicopatas, acabamos a enfardar chouriços de sangue suspeitando que o interior está recheado com uma das nossas incautas antecessoras.  

O campo, minhas caras, é um lugar perigoso para uma rapariga pedante, pretensiosa, afectada e snob como eu. Engana-se quem pensa que as cidades sobrelotadas são ninho de armadilhas, incubadoras de crimes. São as perdidas aldeias no perdido interior de Portugal o Dexter Morgan desta história.

Nunca, mas nunca se esqueçam, na rota das aldeias esquecidas, de incluir nas vossas Louis Vuitton um parzito de chinelos que não vos partam as unhas e um rosário. Há que pedir a Deus para, pelo menos, não se nos estale o verniz.

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A Gaffe melancólica

rabiscado pela Gaffe, em 08.08.12

(Marios Lekkas)

A extraordinária elegância do conjunto é susceptível de transferir a atmosfera vivida nos anos 20 para uma enevoada estância de Verão da actualidade.

Nada é imperfeito, desde a escolha do modelo e à modelação do cabelo, ao cardigan listado, com entrançado discreto, passando pelos calções deliciosamente vintage.

O Verão, nestas ocasiões, torna-se memorável, porque a sofisticação de um tempo perdido ou de um ambiente onde Thomas Mann fez morrer de amor heróis decadentes, acompanha a brisa cor de cinza que envolve, discreta, uma melancólica e delicada passagem da beleza.  

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Gavetas:

A Gaffe alia-se ao imprevisto

rabiscado pela Gaffe, em 07.08.12

 

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Pergunto-me se haverá incompatibilidade séria entre o uso de calções em simultâneo com um blazer e hesito, periclitante, na resposta.

Não é de todo fácil aguentar com o charme que exige esta aliança. O refúgio no clássico e reservado azul-marinho pode ser uma estratégia acertada, mas o conjunto obriga a cuidados acrescidos.

A segurança é imprescindível ao homem que se permite desafiar imagens de reserva e discrição inerentes ao casaco rigoroso e de cor consensual, com a adição de uma peça naturalmente pouco estruturada e em subtil contradição com a linguagem que se espera.

A imposição desta imagem cruzada e agradabilíssima não é compatível com tímidos rapazes que tentam passar despercebidos nos gabinetes em que contabilizam o défice. É sobretudo uma representação descontraída de um homem capaz de, em simultâneo, cumprir com eficácia os objectivos que lhe são propostos, com um humor que cria uma atmosfera simpática e desprendida e o recurso ao azul-marinho, no blazer, coadjuvado por uma cor neutra ou por um padrão minimal nos calções, solidifica a presença incontornável destas características.

É, como parece evidente, uma solução fácil, mas, por vezes, a elegância cruza a mais simples das resoluções e poucas vezes procura os caminhos ínvios da mais complexa e labiríntica das encruzilhadas.         

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A Gaffe à meia-noite

rabiscado pela Gaffe, em 06.08.12

Muito mais do que o perdido sapato, todos os príncipes de todas as histórias povoadas por pequenas e infelizes meninas órfãs que tropeçam nas escadarias, da meia-noite da vida, perdendo no desequilíbrio o objecto mágico que as redimirá, são as ligas e a cumplicidade dos insinuantes ligueiros a razão última do delicioso pecado principesco.

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A Gaffe argolada

rabiscado pela Gaffe, em 04.08.12

(Theo Hutchcraft)

Nos meus tempos de menina e moça (não tão distantes como me parecem), esvoaçava pelos corredores da Faculdade um rapaz que me partiria o coração, não fosse eu uma rapariga esperta.

Jovem garboso e musculado, alto e espadaúdo, cabelo desalinhado e olhos pretos, provocava tsunamis por todo o lado. Um deus tempestuoso pelas brisas calmas das tardes.

O que me fascinava neste rapagão não era o corpanzil perfeito e aquele andar matreiro de patife irresistível (embora não fosse de todo alheia a estas características). Era o brinco!

Uma argola maciça, grande, poderosa e faiscante de ouro puro, presa ao lóbulo da sua orelha esquerda.

Derretia-se todo o meu bom senso quando me cruzava com este adereço, pecaminoso, porque despoletava alguns pensamentos que fariam corar de vergonha a minha santa avó.

Passei a ficar presa àquela argola presa na orelha do rapaz e só me libertei daquela algema quando percebi que o pirata navegava pelas rotas que deveriam ser apenas minhas.

Roubou o namorado à minha maior inimiga. Foram viver, os dois, juntos e em êxtase, para uma mansarda romântica na velha e corroída Paris e a argola foi vendida para suprir as primeiras desventuras financeiras.

Passei a respeitar mais as inimigas e a suspeitar de argolas deslumbrantes.

Há no entanto, escondida em mim, a fascinação por este gordo e possante adereço. Continuo a não resistir ao charme de um másculo rapagão penetrado pelo estilete curvo de uma argola em ouro. Sei que existe a hipótese de o saber numa mansarda de lata a usurpar o namorado a uma qualquer mulher que não conheço, mas este pormenor não é apanágio ou pertença única de homens com argola numa orelha. Há orelhas sem aro que sabem trair a preços vertiginosamente mais baixos que o do ouro.

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A Gaffe debruada

rabiscado pela Gaffe, em 03.08.12

 

Embora de fácil conjugação e insinuando um caminho quase minimalista, a imagem produz um efeito agradabilíssimo em consequência do bom uso que se faz dos detalhes do blazer.  

Um allure praticamente despojado e eventualmente banal, que se socorre da junção fácil entre o preto, o branco e o cinza e de cortes básicos e discretos, é enriquecido e tornado incontornável pelo acréscimo de pormenores colegiais num outrora reservado e bem comportado casaco.

Este pequeno malabarismo actualiza uma imagem tornando-a juvenil e, em simultâneo, amadurecida e provoca o encantamento discreto dos que com ela se cruzam (como se prova com o olhar suspeito do rapaz de branco que vai tornar a foto ligeiramente ambígua).

O ponto colorido no conjunto e o uso do lenço preto que reprime o eventual atrevimento capaz de quebrar uma sobriedade submissa, dispersam a atenção focada nos detalhes e equilibra toda a imagem.

A inteligência ao serviço de uma colegial e discreta insubordinação.

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Gavetas:

A Gaffe tem dúvidas

rabiscado pela Gaffe, em 02.08.12

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Gavetas:

A Gaffe triste

rabiscado pela Gaffe, em 01.08.12

 Style is knowing who you are, what you want to say, and not giving a damn.

Gore Vidal

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A Gaffe estival

rabiscado pela Gaffe, em 01.08.12

A proposta de Rubinacci é de extremo bom gosto, mas de difícil aplicação.

A justaposição de padrões sugerida, já por si complicada e fácil de perturbar com deslizes fatais quando não equacionados convenientemente, adquire maior dimensão no arrojo declarado do padrão do forro do casaco projectado no lenço no bolso exterior.

É indubitavelmente uma proposta sadia e repleta de calor.

O Verão torna-se elegante e descontraído e faz recordar a velha máxima, repetida até à exaustão pela minha santa avó sempre que os rapazes se atreviam a chegar, de chinelos e t-shirt descomprometida, à casa de praia em Miramar:

Em férias, nunca venham como estão, apareçam sempre melhor!

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