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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe de Catarina Molder

rabiscado pela Gaffe, em 09.10.12

Aparentemente, tenho-me afastado da linha editorial deste blog. No entanto, amassadas as coisas, acabo por concluir que este distanciamento não é, de todo, significativo.

Se admitirmos que toda a publicidade envolvida por um galmour desmesurado, que borbulha em nosso redor tem como principal objectivo o fazer-nos sentir mal, inseguras, desleixadas, obesas, raquíticas, com pontas espigadas, andrajosas, miseráveis, obsoletas e velhas bruxas sem palácio, rapidamente percebemos que a Gaffe vai atirando uns palititos à fogueira do desejo consumista. Podem ser pedacinhos insignificantes, mas são um contributo para o atiçar da vontade de nos vermos reflectidas no esplendor que passa nos anúncios. Rendemo-nos à estratégia publicitária que nos faz sentir uns trapos e acabamos a comprar os milagres que farão das nossas olheiras, duas meias-luas românticas em noites de paraíso.

Os rapazes iniciam este percurso consumista, mas dir-se-ia correrem muito mais depressa do que nós.

Uma das farpas minúsculas que atiro a este fogareiro, apanhei-a quando, espalhada no sofá a debicar chocolates, me deparei com um programa na RTP2, em horário aristocrata.

Super Diva - Ópera Para Todos é um debruçar interessante sobre as potencialidades da ópera. Reúne diversas rubricas onde se fala do libreto, das árias famosas, de curiosidades, de pequenas referencias ao autor da obra em causa, a cargo das narinas de Ruy Vieira Nery, terminando-se com a interpretação de uma das árias por um grupo pop ou rock actual.

Espantou-me uma certa simplicidade didáctica quase infantil e muitas vezes infantilóide, que o programa escolhe para atingir o público do canal 2, que não me parece assim tão débil e tão básico. Se retirássemos o nariz descomunal de Vieira Nery, que sorve com os seus dois buracos negros, toda a matéria em redor, com excepção de um busto assustador, ao lado, petrificado pelo espanto, o programa poderia e deveria passar numa tarde qualquer tendo crianças como público-alvo.

O que se passa então com Super Diva,com todas as características de um programa infantil,que lhe entrega estatuto digno de figurar no horário nobre de um canal que se deseja restrito, nesse mesmo horário, a nichos relativamente bem identificados e bem mais adultos?

Há uma hipótese que me parece plausível:

A presença da soprano Catarina Molder.

Compreende-se que não se queira mostrar a apresentadora às crianças. A senhora é sinistra. Aparece de olhos arregalados, esbugalhados, escancarados, e unhacas sanguíneas, pronta a devorar, literalmente, quem com ela contracena interpretando árias em cenários deslocados e encenações surreais.

Catarina Molder faz passar uma imagem de psicótica, de neurótica esgazeada, esvoaçando, esbaforida, como um pássaro bisnau por entre o visível constrangimento de alguns dos convidados.

Catarina Molder arrepia, lembrando uma personagem Disney, uma Cruella de Vil suburbana e mentalmente desgrenhada, depois de um esgotamento cerebral.

Crsitina Molder torna-se devoradora da atenção que nos merece Tosca ou Carmen, mesmo maltratadas, ou qualquer outra ópera ali focada, apresentando-se com um guarda-roupa digno de um Chapitô decadente, sem querer de forma alguma ofender a colorida Escola da querida Teté. Uma mistela inenarrável oriunda dos idos 80 mais manhosos. Não é humanamente compreensível a total ausência de bom senso, de bom gosto, de cuidado e de inteligência, na escolha do que a Molder enfia sem critério, apertando-se, espartilhando-se em rendas e lamés duvidosos, sufocando num entusiasmo, muito louvável, mas que peca por um exagero que acaba por parecer forçado.      

Cristina Molder é, portanto, adversa à publicidade. Resiste-lhe heroicamente. Tem a coragem de não sofrer com os exemplos de glamour que nos são impingidos, nos fazem sentir maltrapilhas e ultrapassados monos, e nos impelem a comprar. Assume o tenebroso, o incontornável,  o péssimo gosto, como bandeira que ergue contra o apelo desenfreado ao consumismo fútil.

Valha-nos isso.

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