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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe e o Anjo Azul

rabiscado pela Gaffe, em 29.01.13

(Marlene Dietrich no funeral de Edith Piaf – 1963)

Aproveitando a onda nostálgica que parece ter assolado este blog, a Gaffe decide revisitar uma das mais deslumbrantes mulheres de todos os tempos.

Em 1963, no funeral de Piaf, Marlene Dietrich é o glamour amadurecido e se, como repete um maravilhoso amigo, a Dor é fotogénica, a imagem da mulher que arrasta a voz quase enrouquecida, dolente e morna, sedutora e hipnótica, é a ilustração do que ele afirma.

Dietrich traz a distância gelada do enigma no arquear das sobrancelhas e a ameaça de uma subtil luxúria aprimorada, o abismo da sedução inevitável e a cinzelada perfeição que esculpe o mito.

Prefiro-a desta forma. Envelhecida. Na busca de um disfarce para as rugas e numa frágil fuga ao tempo inexorável. Encontro-lhe o deslumbre da resistência inútil, mas tenaz, à fugacidade e a sombra e o assombro de uma tristeza quase encoberta, sublimada por uma mulher que planearam divina.

Um pardal fugia do seu peito.

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A Gaffe e o príncipe encantado

rabiscado pela Gaffe, em 28.01.13

Depois de alguns dias nostálgicos e entristecidos, a Gaffe retorna ao seu quotidiano mais banal e insípido, continuando a sonhar ver surgir a famigerada luz ao fundo do túnel.

Nós, raparigas espertas, alteramos significativamente este conceito de luminosidade. O reluzir do pavio acesso, na negrura do caminho, pode significar, não raras vezes, o reflexo de um raio de sol que se distrai no metal polido da armadura de um príncipe.

Todas as mulheres o esperam. Todas as mulheres aguardam, mesmo que secretamente, que surja o cavaleiro que as tomará nos braços de Cantigas de Amigo e as arrebatará, transformando em veludo e rosas as pedrinhas nos Louboutin, nos Jimmy Choo ou nas miseráveis sabrinas que os substituem nos tempos que correm.

O sonhado cavaleiro, para além de garboso, de divinal beleza, servo submisso, valente protector e de galante fraseado, deverá amar-nos desmesuradamente, com consciência da precária certeza de nos ter. Para nos seduzir, será obrigado a rasgar a alma nos espinhos que nos rodeiam e afogar a montada nos fossos que cercam o castelo onde adormecemos frágeis, mas com um olho aberto.

Embora nem todos os sapos tragam príncipes dentro, acredito que todos os homens trazem príncipes. Alguns, com o tempo, tornam-se sapos e essa metamorfose é irreversível.

Sabemos, por instinto, que os sapos só nos seduzem se nos obedecerem, mimarem, bajularem, atormentarem com presentes, venerarem, acariciarem o malfadado gato que adoramos, glorificarem as nossas pequenas idiossincrasias, canonizarem as nossas exigências, incensarem as nossas compras mais idiotas, afagarem os nossos desânimos e as nossas frustrações e correrem atrás do táxi quando decidimos ir embora.

Só o acatar destas condições permite a um sapo aspirar a seduzir-nos.

Temos tendência para revelar o lado mais negro, mais mesquinho, mais medíocre e mais torpe das nossas almas, quando o sapo não é o nosso príncipe, porque sabemos que, se para nos seduzir ele terá de cumprir na perfeição todas as situações enumeradas (e muitas mais de que não se fala por pudor), nós, para o arrebatar, temos apenas de lhe aparecer todas nuas.

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A Gaffe das manhãs do avô

rabiscado pela Gaffe, em 25.01.13

Todas as manhãs, antes de eu sair, o meu avô, de roupão felpudo e de pantufas fofas, sugava-me com dois beijos nas bochechas.
Há exactamente um ano que, sem aqueles beijos, nunca mais tive uma manhã de sair à rua a sentir-me a Dietrich.

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A Gaffe a tweetar

rabiscado pela Gaffe, em 21.01.13

É lamentável que, entre os direitos do Homem, tenha sido esquecido o direito da pessoa se contradizer.

É reconfortante ter Baudelaire a salvar a minha inconstância. Ter este potentado a apoiar-nos, atenua as nossas oscilações, incoerências ou mudanças abruptas de direcção.

Após ter declarado, com alguma solenidade, que prescindia do abreviado twitter, acreditando que um passarito minúsculo e limitador não condizia com a sua tendência para o derrame incontido das palavras, a Gaffe contradiz-se e assume que é uma Maria-vai-com-todas (sublinha-se o feminino da expressão, isentando-a de qualquer conteúdo menos apropriado e dado a trocadilhos mais brejeiros).

Desconhecendo por completo o modo de interagir com outros pios, a Gaffe limita-se a cacarejar sem qualquer preocupação a não ser aquela que a obriga a controlar as palavras e as reter no pequeno galinheiro ao seu dispor.

Seria menos maçador se a seguissem!

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Gavetas:

A Gaffe e os conselhos do avô

rabiscado pela Gaffe, em 19.01.13

 

 

 

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A Gaffe floral

rabiscado pela Gaffe, em 18.01.13

Hoje estou floral, porque me apetece.

Há dias em que tudo é maçador e entediante. Dias em que nos aproximamos da compreensão do spleen queirosiano e desejamos as ruas vazias, sem bulício, as janelas calafetadas e todos os livros fechados.

Dias de não haver diários.

São dias sem gente ou com gente que não vamos ver.

Dias em que me apetece apenas a enternecedora tontura dos aromas entrançados de flores antigas, numa mudez, numa nudez, que é a mais perfeita forma de dormir sem gota de perfume.

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Gavetas:

A Gaffe e o joalheiro

rabiscado pela Gaffe, em 18.01.13

Falei aqui, com um imenso carinho e profunda admiração, de Valentim Quaresma e é com um enorme prazer que o vejo, como convidado, numa das mais prestigiadas feiras internacionais de joalharia de moda, a Bijorhca, em Paris.

Etats d’âme pode ser visitada, a partir de amanhã e até dia 21 de Janeiro, na The International Fine & Fashion Jewellery Show, em Paris.

Alegra-me pensar que sempre tive razão!

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Gavetas:

A Gaffe vitimizada

rabiscado pela Gaffe, em 18.01.13

Redhead women make the best victims.

They’re like virgin snow shows up the bloody footprints.

Hitchcock

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A Gaffe, de vez em quando

rabiscado pela Gaffe, em 16.01.13

(Jean Patchett, New York, 1949 - Irving Penn)

Vez em quando, uma rapariga, por muito esperta e desperta que seja, apenas deseja a nuvem do sossego mais terno e mais esquecido, do abandono mais lasso, e uma réstia de saudade que perdura presa à memória de uma cançoneta breve e leve que se trauteia baixinho ao bocal de um telefone que não tem coragem de acordar.

Nestes momentos, fecham-se as agruras e extinguem-se todos os sons que não se unem à doçura quase delicodoce da melodia que enlaçamos como se abraça um minúsculo urso de peluche ou a almofada que manchamos de bâton.

São os instantes em que uma mulher não está para ninguém, sobretudo para si própria.       

 

Estou de volta pro meu aconchego
Trazendo na mala bastante saudade.
Querendo
Um sorriso sincero, um abraço,
Para aliviar meu cansaço
E toda essa minha vontade.
Que bom,
Poder tá contigo de novo,
Roçando o teu corpo e beijando você,
Prá mim tu és a estrela mais linda
Seus olhos me prendem, fascinam,
A paz que eu gosto de ter.
É duro, ficar sem você
Vez em quando
Parece que falta um pedaço de mim.
Me alegro na hora de regressar
Parece que eu vou mergulhar
Na felicidade sem fim.

 (Dominguinhos e Nando Cordel)

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A Gaffe e os submissos

rabiscado pela Gaffe, em 15.01.13

(Dan Trepanier)

A tentativa de um homem se demarcar e imprimir na multidão uma representação memorável, não está, na maior parte das vezes, no uso indiscriminado de exuberantes, coloridas, invulgares ou excêntricas imagens que procuram, com algum desespero patético, suprir uma espécie de carência de atenção necessária, embora enganadora, à solidificação da segurança e da auto-estima.

A garantia de solidez e de estabelecida personalidade, obtidas pelo uso de fanfarronices, mesmo as que trazem apensas as griffes mais sonoras, é franzina, quebradiça ou mesmo nula, perto do homem, como o da imagem, que parece escolher o que sempre obedeceu ao seu inabalável modo de se mostrar à vida, acomodando o que escolhe ao que o define.

Todas as constantes, e sobretudo cegas, adaptações, ajustamentos e submissões aos ditames dos folhetos de revista assinados pelos mais conceituados impulsionadores do consumo, reproduzem apenas a debilidade e a instabilidade dos que caninamente seguem um dono.

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A Gaffe passada

rabiscado pela Gaffe, em 15.01.13

O Passado, é o Futuro usado – dirá Millôr Fernandes.

Há instantes raros em que o tempo se curva e o resultado é o encontro inesperado entre um lugar perdido e procurado por Proust, algures à sombra das raparigas em flor, e lampejos de esmaltes que se vislumbram no pescoço do presente.

Usemos o futuro como gargantilha.

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A Gaffe e a visita

rabiscado pela Gaffe, em 14.01.13

Tive, durante dois dias, o meu mais querido amigo instalado no meu apartamento.

É um moreno gigantesco, de caracóis soltos, pretos e descontrolados, barba que cresce numa preguiça organizada, olhos rasgados e negros, como lagos sem fundo e sem limites, e um corpo de quem pratica pólo aquático desde miúdo. Uma quantidade brutal de feromonas ambulantes.

É um dos homens mais inteligentes que conheço. Professor numa faculdade de prestígio internacional, lecciona uma disciplina que é considerada demoníaca pela população estudantil e é um dos mais solicitados e conceituados consultores na área que domina.

Partiu hoje, ao início da manhã, arrastando seu eterno mau humor pela pista do aeroporto.

Durante estes dois preciosos dias acomodou-se e organizou-se como se o meu humilde covil fosse o seu natural habitat.

Desde as minhas almofadas favoritas, à minha manta de lã, ao meu gel de banho, ao meu computador (que açambarcou como se não houvesse amanhã e não existisse o dele), ao meu cadeirão preferido, à minha pequena biblioteca, passando por todo o meu arsenal de cremes e loções, o monopolizar foi geral.

Tudo lhe foi perdoado, porque é rara a cumplicidade que me faz sentir que posso estar em silêncio junto de alguém, durante horas, sem a menor réstia de constrangimento.

Há, no entanto, uma pequena característica neste homem fabuloso que me deixa abespinhada.

O uso abusivo, matreiro e traiçoeiro, que faz da primeira pessoa do plural dos verbos de todas as frases que implicam trabalho:

- Temos de cozinhar qualquer coisa!

Das frases que sugerem uma amabilidade conivente:

- Hoje não lavamos o cabelinho, pois não?

Das frases que insinuam algum incómodo e alguma ambiguidade:

- Temos de convidar o teu professor de Literatura Medieval. Aquele com quem tivemos um caso desgraçado e que nos chumbou por despeito.

Das frases que ajudam a patentear um fracasso:

- Não vamos saber, nunca, o que seria se continuássemos em Paris.

É de nos arrasar os nervos.

Não nos iludamos, raparigas, a maioria dos homens usa este subterfúgio para escapar às mais minúsculas, mais pindéricas e mais corriqueiras das tarefas e quase todos eles tentam mascarar ou ocultar as críticas mais irritantes que nos fazem ou desviar as desagradáveis obrigações que julgam ter, tornando-nos parceiras forçadas das maçadas que lhes surgem pela frente.

A solução que encontrei consiste em não ouvir aquilo que não é dirigido especificamente a mim, com o verbo na segunda pessoa do singular.

Não resulta em todas as situações, mas acalma a minha vontade de o electrocutar com o enrolador de pestanas.

 

Convém não esquecer que esta maldita característica é extensiva aos hetero.

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A Gaffe de manta

rabiscado pela Gaffe, em 12.01.13

Eu sei que é difícil levantarmo-nos, manhã por nascer, ensonados, embuçados no amarfanhado do pijama quente e ainda com o murmúrio do cheirinho a alfazema dos lençóis de linho da nossa santa avó, sabendo que há uma rua de granito frio e imenso que teremos de calcorrear para cumprir o dia.

Rapazes! Não adianta, no entanto, arrastar convosco as mantas desta memória morna e mansa, sobretudo se não forem, o atraente e ensonado matulão da imagem, com o charme de quem foi mal tratado pela boémia.

Há acessórios que não se devem ousar, nem usar, quando não se tem a altura e a massa muscular exigidas pelas circunstâncias, o ar carrancudo da indiferença e, sobretudo, a expressão facial de quem nos esmaga até pelo telemóvel.

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A Gaffe e as Pépas

rabiscado pela Gaffe, em 11.01.13

Não vi até ao fim o rapaz sentado a tocar no monitor flexível da Samsung. Sei que lhe explodiu qualquer coisa, mas não tenho paciência para apanhar com cacos ou estilhaços.

Vi apenas uma rapariga a desejar uma carteira Chanel como corolário para 2013 e uma senhora que afirmava que em dois mil e treuze (deviam ser fustigadas em público – com um chicoute - as criaturas que acrescentam uma vogal a uma palavra) desejava ser minimalista, estar rodeada de pouco, ter pouco, pouco, pouco, inconsciente do tão pouco que já parece ter.

Não tenho rigorosamente nada contra (como ousaria?!) os desejos e as ânsias de quem quer que seja – até porque já tenho a Kelly Bag da Hermès que ambicionei com um secreto desespero patológico - mas tenho o direito de deixar sublinhado no meu testamento vital que, se algum dia revelar sintomas, vagos que sejam, daquilo que atingiu estas duas raparigas, quero que me espetem um garfo enferrujado no intestino grosso, local para onde, tenho a certeza, terá migrado a noz mirrada do meu cérebro. Façam-no sem anestesia, para poder sentir que ainda estou viva e sofrer as agruras purificadoras de uma septicemia castigadora.

A Samsung e a escolha do marketing agressivo para dar maior visibilidade a determinado produto, conseguindo daquela forma a previsível propaganda, fez-me de súbito pensar naquelas pulseiras magnéticas que consistiam num aro de metal interrompido por duas bolas que se tocavam e que, dizia-se, concentravam o poder de atracção de boas energias (como é habitual que se pense quando estão em causa duas bolas juntas).

A Multinacional escolheu para protagonizar esta campanha três ou quatro pessoas que são, mantendo a analogia da pulseira, uma das bolas que se une àquela que é constituída pelas residentes de uma Casa, exposta pela TVI, onde não se consegue compreender, entre muitas outras coisas, como é possível umas mamas terem uma rapariga anexa.

Não se trata de uma antítese. Não é caso para referir que os extremos se tocam. É apenas incutir, nos incautos, uma insidiosa suspeita:

Há apenas duas espécies de criaturas que encarnam a imagem da juventude (tenho tanto medo de dizer mulher!) em Portugal. A rapariga que resume a ambição de 2013 (ou treuze, segundo a outra convidada) à posse de uma mala Chanel e aquela que vem apensa a treuze mamas coladas.

O aro que as liga desaparece, entretanto. Perante estas duas caricaturas, pensamos não existir o caminho, longuíssimo, povoadíssimo, que vai de uma bola a outra.

Não são imagens de contrários. Não se contradizem. Não são opostas. São coisas iguais. Mudaram apenas o cenário, a pronúncia, o cabeleireiro e o léxico foi ligeiramente mais cuidado. O despojamento cerebral, a incapacidade de destruir os atrofiados limites e as lodosas margens que comprimem e espartilham as mais pequenas chispas de talento, a ausência do real, a ambição tacanha e pindérica, sem voos de albatroz, a aniquilação total do pensamento consistente e a desertificação completa do sentir mais fundo (ou mais profundo), são exactamente os mesmos.

Não sou uma rapariga má, cerceadora, castradora ou juíza omnipotente de desejos alheios. Quem os tem, faz deles seus, diz a minha santa avó.

Estou apenas um bocadinho aborrecida.

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Gavetas:

A Gaffe rigorosa

rabiscado pela Gaffe, em 09.01.13

(Armando Cabral)

A mais rigorosa geometria implica quase sempre a lapidação do acessório, do supérfluo e do inútil. 

A imagem singular do homem despojado que usa os traçados e os cortes essenciais, limpos, seguros, de leitura imediata e prova de bom gosto, embora passsível de se considerar a antítese de uma vivência urbana que impulsiona o caos como regra quotidiana, é rara e susceptível de não ser reconhecida.

É, no entanto, a fórmula mais sóbria de inteligência. Aquela que usa a essência do mais límpido para delimitar o espaço incontornavelmente seu.

Este rigor, esta quase rigidez geometrizada, pode ser, também, uma defesa, armadura e protecção ou um dos refúgios da timidez e um tímido é um dos mais atraentes desafios que se deparam a uma rapariga esperta. 

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Gavetas:

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