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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe e as Pépas

rabiscado pela Gaffe, em 11.01.13

Não vi até ao fim o rapaz sentado a tocar no monitor flexível da Samsung. Sei que lhe explodiu qualquer coisa, mas não tenho paciência para apanhar com cacos ou estilhaços.

Vi apenas uma rapariga a desejar uma carteira Chanel como corolário para 2013 e uma senhora que afirmava que em dois mil e treuze (deviam ser fustigadas em público – com um chicoute - as criaturas que acrescentam uma vogal a uma palavra) desejava ser minimalista, estar rodeada de pouco, ter pouco, pouco, pouco, inconsciente do tão pouco que já parece ter.

Não tenho rigorosamente nada contra (como ousaria?!) os desejos e as ânsias de quem quer que seja – até porque já tenho a Kelly Bag da Hermès que ambicionei com um secreto desespero patológico - mas tenho o direito de deixar sublinhado no meu testamento vital que, se algum dia revelar sintomas, vagos que sejam, daquilo que atingiu estas duas raparigas, quero que me espetem um garfo enferrujado no intestino grosso, local para onde, tenho a certeza, terá migrado a noz mirrada do meu cérebro. Façam-no sem anestesia, para poder sentir que ainda estou viva e sofrer as agruras purificadoras de uma septicemia castigadora.

A Samsung e a escolha do marketing agressivo para dar maior visibilidade a determinado produto, conseguindo daquela forma a previsível propaganda, fez-me de súbito pensar naquelas pulseiras magnéticas que consistiam num aro de metal interrompido por duas bolas que se tocavam e que, dizia-se, concentravam o poder de atracção de boas energias (como é habitual que se pense quando estão em causa duas bolas juntas).

A Multinacional escolheu para protagonizar esta campanha três ou quatro pessoas que são, mantendo a analogia da pulseira, uma das bolas que se une àquela que é constituída pelas residentes de uma Casa, exposta pela TVI, onde não se consegue compreender, entre muitas outras coisas, como é possível umas mamas terem uma rapariga anexa.

Não se trata de uma antítese. Não é caso para referir que os extremos se tocam. É apenas incutir, nos incautos, uma insidiosa suspeita:

Há apenas duas espécies de criaturas que encarnam a imagem da juventude (tenho tanto medo de dizer mulher!) em Portugal. A rapariga que resume a ambição de 2013 (ou treuze, segundo a outra convidada) à posse de uma mala Chanel e aquela que vem apensa a treuze mamas coladas.

O aro que as liga desaparece, entretanto. Perante estas duas caricaturas, pensamos não existir o caminho, longuíssimo, povoadíssimo, que vai de uma bola a outra.

Não são imagens de contrários. Não se contradizem. Não são opostas. São coisas iguais. Mudaram apenas o cenário, a pronúncia, o cabeleireiro e o léxico foi ligeiramente mais cuidado. O despojamento cerebral, a incapacidade de destruir os atrofiados limites e as lodosas margens que comprimem e espartilham as mais pequenas chispas de talento, a ausência do real, a ambição tacanha e pindérica, sem voos de albatroz, a aniquilação total do pensamento consistente e a desertificação completa do sentir mais fundo (ou mais profundo), são exactamente os mesmos.

Não sou uma rapariga má, cerceadora, castradora ou juíza omnipotente de desejos alheios. Quem os tem, faz deles seus, diz a minha santa avó.

Estou apenas um bocadinho aborrecida.

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