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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe e o príncipe encantado

rabiscado pela Gaffe, em 28.01.13

Depois de alguns dias nostálgicos e entristecidos, a Gaffe retorna ao seu quotidiano mais banal e insípido, continuando a sonhar ver surgir a famigerada luz ao fundo do túnel.

Nós, raparigas espertas, alteramos significativamente este conceito de luminosidade. O reluzir do pavio acesso, na negrura do caminho, pode significar, não raras vezes, o reflexo de um raio de sol que se distrai no metal polido da armadura de um príncipe.

Todas as mulheres o esperam. Todas as mulheres aguardam, mesmo que secretamente, que surja o cavaleiro que as tomará nos braços de Cantigas de Amigo e as arrebatará, transformando em veludo e rosas as pedrinhas nos Louboutin, nos Jimmy Choo ou nas miseráveis sabrinas que os substituem nos tempos que correm.

O sonhado cavaleiro, para além de garboso, de divinal beleza, servo submisso, valente protector e de galante fraseado, deverá amar-nos desmesuradamente, com consciência da precária certeza de nos ter. Para nos seduzir, será obrigado a rasgar a alma nos espinhos que nos rodeiam e afogar a montada nos fossos que cercam o castelo onde adormecemos frágeis, mas com um olho aberto.

Embora nem todos os sapos tragam príncipes dentro, acredito que todos os homens trazem príncipes. Alguns, com o tempo, tornam-se sapos e essa metamorfose é irreversível.

Sabemos, por instinto, que os sapos só nos seduzem se nos obedecerem, mimarem, bajularem, atormentarem com presentes, venerarem, acariciarem o malfadado gato que adoramos, glorificarem as nossas pequenas idiossincrasias, canonizarem as nossas exigências, incensarem as nossas compras mais idiotas, afagarem os nossos desânimos e as nossas frustrações e correrem atrás do táxi quando decidimos ir embora.

Só o acatar destas condições permite a um sapo aspirar a seduzir-nos.

Temos tendência para revelar o lado mais negro, mais mesquinho, mais medíocre e mais torpe das nossas almas, quando o sapo não é o nosso príncipe, porque sabemos que, se para nos seduzir ele terá de cumprir na perfeição todas as situações enumeradas (e muitas mais de que não se fala por pudor), nós, para o arrebatar, temos apenas de lhe aparecer todas nuas.

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