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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe pré-republicana

rabiscado pela Gaffe, em 04.02.13

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Gavetas:

A Gaffe e uma Odisseia

rabiscado pela Gaffe, em 04.02.13

Nunca fui grande fã de Bruno Nogueira.

Aprecio o humor que se equilibra no fio da lâmina, mas sinto demasiadas vezes o humorista a resvalar para a esquina pouca clara em que se torna fácil provocar o riso através do uso matreiro do mais sombrio e pérfido que se esconde em nós. Quando nos atiram à cara, descarnado, aquilo que não ousamos sentir, ver ou ouvir por pudor, vergonha ou qualquer outra razão mais ou menos freudiana, reagimos da forma mais segura, escudando-nos no riso que nos torna cúmplice do descarado que revela o que não admitimos assumir sozinhos e nos iliba, transferindo para o lugar do outro, o peso daquilo que não temos coragem de arrastar às claras.

Embora acredite que este possa ser um dos fundamentos ou uma das bases do humor, o uso arrogante desta característica torna o seu utilizador num pedante com tendência para se pensar intocado por aquilo que usa como instrumento capaz de provocar o riso e Bruno Nogueira sempre me pareceu ter um ego do tamanho de uma ténia descomunal.

Esta dimensão egocêntrica de Bruno Nogueira – desta vez sem a rede da genialidade de João Quadros – parece estar na origem de Odisseia.

Nesta viagem o humorista é acompanhado por actores topo de gama - Gonçalo Waddington, Nuno Lopes e Rita Blanco, são exemplo da qualidade ímpar dos protagonistas. Cabe a este elenco fabuloso suportar e aguentar com a mestria e com o talento indiscutíveis que possuem, uma série que deixa perplexo qualquer espectador comum, relativamente esclarecido e mais ou menos exigente, ou seja, qualquer criaturinha desprevenida e suficientemente desperta e esperta como eu e eu espero, com sinceridade e algum entusiasmo, que tudo o que percebo ali aumente e melhore.

O que é a Odisseia?

Uma série de humor ou uma reflexão existencialista? Um experiência interseccionista muito ao gosto pessoano ou um raquítico labirinto onde todas as vias são becos sem saída? a colecção de private jokes de três amigos (Tiago Guedes será o outro mosqueteiro) ou um pretensioso exercício de pedantismo intelectual? Um produto destinado a fazer sorrir e erguer a sobrancelha irónica de alguns eleitos ou a manifestação, dispendiosa, de um grupo de compinchas que se convenceu que era capaz de revolucionar o modo de fazer séries de humor? Um aglomerado de surrealismos enfiados à sovela – ser-se dalinianamente surreal, fica sempre bem a qualquer humorista que se quer demarcar de Fernando Rocha - ou um parque de diversões onde é possível brincar como se quer, fazer o que se quer, cuspir para o chão, deixar de fora uma extensa cambadas de idiotas que não entende o jogo que se inventa e, depois da rapsódia de malabarismos giros, ser-se bem pago?

Segundo entendi é tudo isto e tudo mais que se quiser. Não pescamos nada, logo tudo é peixe.

Há, no segundo episódio de Odisseia, um cena em que os dois amigos, Bruno e Gonçalo, dentro da autocaravana, alçam a perna e disparam em todas as direcções (com o Bruno a encontrar antológicas posições de ataque, com a banda sonora e com a mímica dos dois actores, é permitido ao espectador adivinhar o quê) atingindo-se mutuamente. Apesar de não ser tão original como lhes pareceu, a cena é obviamente metafórica. O que Bruno Nogueira e Gonçalo Waddington apresentam nesta pequena e fedorenta nuance de Odisseia, é a metáfora daquilo que estão a fornecer ao público.

Depois digam que não é revolucionariamente inteligente aquela coisa.

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