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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe e a Capelinha

rabiscado pela Gaffe, em 17.02.13

Perco-me facilmente. O meu sentido de orientação está minado pelo vício que me faz prestar atenção aos minúsculos pormenores que encontro no caminho. Sou distraída por quase tudo o que se move ou tenha cor e lanço olhares de soslaio mesmo para os brilhos dos vidros partidos no passeio. Daí a minha total indiferença pela memória das estradas que percorro.
Quando me perdi, não dei importância. Encontrar-me-ia a breve trecho.
O carro enfia, desvia, entope, perfura, volteia na curva, abranda, acelera, retorce errante perdido e eu, separada do perder, observo. Longe do que faço, aquém do volante.
Nada me consome a distracção. Tudo é banal e feio. Passo e ignoro e penso no passado. Encontrarei o rumo logo que quiser. As ruas vão ser sempre as mesmas ruas que desembocam sempre ao pé do mar. Não há apelo nos sítios por onde passo, não há chamada, pedido, rasto a cintilar, fio de brilho. Guio e passo e enquanto passo perco-me no dia em que guio com passado.
Até que a vejo. Insignificante. Cubo erguido em pedra por esmolas beatas, sem traço, traça, raça ou só ser simples. À míngua, sequiosa, exígua de beleza. A capelinha com azulejo feio e redondo em medalhão por sobra a porta.
Faz-me parar a ver. A ver-lhe o nome. Perfeito a cintilar dentro das almas:

Nossa Senhora dos homens

e fez-se Catedral.

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