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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe e o Punk

rabiscado pela Gaffe, em 25.02.13

Encontrei, perdido na biblioteca, entalado entre calhamaços descomunais, um minúsculo livrinho encantador editado em 1984 por Robert Laffont. Les Mouvements de Mode, de Hector Oblak, Alain Soral e Alexandre Pashe. É um manual divertido que nos descreve algumas das diversas tribos urbanas que assolam e assombram as gerações anteriores às suas eclosões que as contemplam com pasmo e perplexidade. 

É uma obra evidentemente datada. Está ultrapassada, deixando de caracterizar uma panóplia imensa de subculturas urbanas que entretanto surgiram, transformaram ou extinguiram, mas é um curioso repositório de características bem definidas de tribos urbanas que conhecemos com alguma deficiência, embora tratadas de forma simplista e muitas vezes redutora. É uma colecção de estereótipos que cumprem uma função específica: procurar denominadores comuns a diversas e mais evidentes expressões e experiências, quer adolescentes, quer juvenis, ao mesmo tempo que as tenta seguir nas suas ramificações e desvios.

 Não esquecendo que o livro tem cerca de trinta anos e que as dinâmicas sociais usam TGV para ultrapassar o que tomamos como certo, a leitura que se faz acerca do movimento Punk é curiosíssima, sobretudo no que concerne à estrutura mental dos seguidores desta expressão social. Fala-nos o livrinho de uma imunidade ideológica que é assumida pela recusa do todas as formas de aborrecimento, sensação e estratégia de aparência. O silêncio odioso torna-se eloquente quando pretende a revelação, a denúncia, dos horrores sociais (de que o Punk é o espelho) ou, o que é mais palpável, a legitimação da vivência das debilidades adolescentes. O Punk é como um leproso que permite que a lepra o alimente fornecendo-lhe energia e transformando-o na agressividade que é agredida, detentora de uma violência imóvel, como é apelidada a resistência que se canibaliza.

Curiosa é também a referência a uma condição que é tida como causa principal do surgimento do movimento Punk e que aponta a desilusão generalizada ocorrida sobretudo entre 1975-77 onde de uma moral clara (a revolução contra o capitalismo ou o amor contra a morte lenta) se desemboca numa filosofia doente (proveniente de um marxismo debilitado), numa história sem sentido, num vácuo existencialista, onde a falha é uma constante da vida e onde o estrato intelectual das sociedades se vê perdido, se inscreve na Amnistia internacional ou se transforma em esteta. Ao jovem, em 1976, é reservado o comportamento primário do Punk.

Avesso a específicas e reconhecidas condições e situações sociais, o Punk é anti quase tudo.

Anti-social, anti-jovem, anti-burguês, anti-liberal, anti-comunitário e anti-punk, este movimento faz definhar o sentimento amoroso, reduzindo-o a um imaginário sadomasoquista que se exprime também através do uso do negro, das queimaduras de cigarro, dos alfinetes e de uma imensidão de adereços que vão desde o abuso de fechos metálicos (zips) que funcionam como cicatrizes dos tecidos, passando por coleiras, pulseiras e anéis com simbologias decadentes e acabando nas decorações militares, insígnias políticas e nas correntes pesadas que lhe dificultam o andar. Tudo sujeito a um spray com palavras de claro intuito provocador, sendo fuck, sexe ou rock as favoritas.

Acabamos por reconhecer que o Punk é a consternação. Consternação face a falência da contestação, face ao conformismo do anti-conformismo. É um modelo de identificação social criado por uma juventude que espera um novo papel social e por uma parte dessa juventude que não pode esperar seja o que for. Em 1975 ser nada ainda é hippie, porque ser-se hippie já não quer dizer nada. Em 1976 o jovem punk pode ser novo, bastando para tal dizer eu sou nada, ou seja, eu sou punk.

O resto do manancial informativo contido no livrinho é extenso, mas vale o esforço da procura até porque, neste caso específico, é bem provável que em 2013 se esteja na berma de um caminho similar ao calcorreado por este movimento escuro e cabisbaixo.

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