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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe de Valentim Quaresma

rabiscado pela Gaffe, em 11.03.13

Finda que está a recente edição de Moda Lisboa, passo o Domingo saltitando, esvoaçando e debicando desfiles e apensos comentários, de acordo com o permitido pela minha paciência e capacidade de tolerância à tolice.

Não consigo (lamentavelmente, porque me afirmaram ser rentável) cingir a minha pobre e irrisória opinião ao adorei, adorei, adorei, mas do que mais gostei foi dos sapatos. Admiro e invejo, com uma sinceridade de coração aberto, os queridos que recheiam a conta bancária com notas deste teor, mas sou uma provinciana incapaz de arranjar rechonchudos (ou mesmo enfezados) patrocínios.

Acabo, portanto, a despejar sem peias, limites ou condições, o que espremi do evento.

Acredito que a criatividade, a originalidade, a inovação e a ousadia pensada e projectada com asas de faíscas de quem cria os imaginários da metamorfose – filhas legítimas da inteligência – são as primeiras órfãs da época carcomida que vivemos.

A edição da Moda Lisboa reflectiu a letargia e a imobilidade que grassa nos tempos referidos, demarcadas pelo monótono e pelo repetido. Todos os desfiles foram previsíveis e esbatidos (mesmo o do querido e inteligente Luís Buchinho e o do charmoso e ambíguo, mas provocantemente masculino, Nuno Gama, me pareceram atabalhoados - adorei, adorei, adorei os galgos!). A esmagadora maioria declarou uma semelhança empobrecida, quase uniformizando todas as propostas, provocando um fenómeno que se insinuava já nas edições anteriores, embora de forma muito ténue: a acentuada transferência do foco de atenção do interior da esperada inovação em desfile, para uma determinada fauna (que eu, por ser rústica e saloia, sou incapaz de compreender) que no exterior espera que aconteça a explosão de glamour, de criatividade desfraldada, de assunção da diferença, de renovação e aliança entre a inteligência do design, a técnica, a originalidade e a mutação.

Os desfiles sucederam-se e acabou tudo, não no mais do mesmo, mas no mais do muito parecido.

Reflexos subtis de uma recessão deprimente.

Nesta unanimidade e conformidade enfraquecida, destaca-se um outsider que, não sendo pertença directa do meio, acaba por conquistar definitivamente o evento.

Valentim Quaresma.

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É lamentável que não lhe seja dada a importância devida.

Leio brevíssimos comentários que se resumem a uma descrição árida do apresentado pelo criador, resumindo o que foi visto a uma procura de um ponto de ligação entre a industrialização e a criatividade.

É Valentim Quaresma o responsável por conclusões que são, apesar de pouco legíveis, vagamente esclarecedoras:

A criatividade é a materialização da imaginação, a ideia de "sonhar acordado" surge como uma oportunidade de estar em contacto com uma realidade transfigurada, que interpreta uma fantasia visionária. A industrialização surge através de uma cadência de movimentos, materializando-se na busca de cores e formas ambíguas aliadas a um espírito retro-futurista que caracteriza o seu universo criativo.

Creio que a criatividade é a materialização da inteligência. Valentim Quaresma tropeçou nas palavras, entregando à magnífica colecção Daydream uma semântica que a descreve de forma complexa e também (segundo esta miúda que não tem qualquer competência para discordar do que diz o autor) para inglês ver.

Quaresma é, em última análise, um escultor. Um belíssimo escultor, capaz de nos entregar peças esteticamente soberbas.

O ponto fulcral da colecção apresentada está na capacidade de tornar imprescindível, e notória, a fusão de um ilusório quase medievo, de másculos ferreiros de aventais de couro, de cavaleiros protegidos por articuladas placas de incompletas armaduras e de personagens femininas oriundas deste mesmo irreal, que habitam os lagos donde emergem as míticas espadas, e a tecnologia de ponta que projecta o objecto-futuro.

É simples, embora pareça rebuscado. Toda a obra inteligente permite um manancial de interpretações que escapa ao autor, porque se espalha por inumeráveis deltas.

Não é indispensável ouvir o criador quando a obra o supera de tal forma que se torna pertença do imaginário de cada um que a vê.

Valentim Quaresma fez esquecer a fauna e a flora dos espaços envolventes. Tornou-se único e única salvaguarda de um evento que não encontrou o Graal, mesmo um de plástico.

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