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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe mais papista que o Papa

rabiscado pela Gaffe, em 14.03.13

Corri desenfreada quando anunciaram que já tinha sido eleito o Papa. É sempre uma ocasião em que uma rapariga pode correr e esbardanhar-se sem contudo perder a dignidade.

Confesso que pensei, tal a quantidade de fumaça branca expelida, que os senhores velhinhos tinham vestido o eleito e, já confusos, o tinham enfiado no incinerador. Mais um bocadinho e tínhamos a Praça inteira a tossir e a ser levada em maca.

Depois, foi uma desilusão constrangedora.

O Papa aparece à varanda franciscanamente despojado.

Maçamo-nos até à exaustão com críticas mordazes e malditas, muito pouco beatificáveis e nada abençoadas, relativas à opulência, ao luxo e ao fausto do representante de Pedro. Se a estola é desenhada por Armani e se os saptinhos, não sendo os de Oz, são Prada, desabamos de indignação e saltamos de revolta pia e de hipócrita repulsa com um sabor ligeiramente populista, mas entristecemos quando nos aparece de braços caídos e barriguita empinada, um papa sem capinha debruada a arminho e sem estola cravejada de jóias e bordada a oiro pelos operários explorados de um costureiro charmoso, caro e consagrado.

Creio que Francisco de Assis ou Xavier (cada um arrasta a sardinha para a sua brasa) e uma ou outro fashion adviser de reconhecida sapiência na área da trapalhada, mesmo a dos trapos santos, aprovam a sobriedade minimal do novo Pontífice, mas eu, que sou imbecil, pecadora e deslumbrada, esperava um Francisco de tipo arquiduque, com capinha de veludo vermelho, encarnado, carmim ou cardinal (cada um escolhe a cor da cereja que remata o bolo) bainhas de arminho assassinado (saio à minha santa avó, pouco ecológica quando há Papas pelo bosque), estola magnífica a curvar-lhe o pescoço com o peso do poder dos ornamentos e báculo de nobre metal na mão que suporta o anel divino.

Resmas de doçaria conventual para se expor e sai-me um jesuíta desbotado!

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A Gaffe e o Demónio

rabiscado pela Gaffe, em 14.03.13

Se Deus está nos detalhes, o Diabo está no modo como são descobertos.

Despir um homem é facílimo. Normalmente não nos demoramos nas pequenas delícias que vamos descartando. Talvez por isso a Santa Madre Igreja tenha condenado a nudez. Não são devidamente abençoadas as peças que tombam por terra.

Vestir um homem é louvado pelos anjos como acção benemérita, digna de tornar santo Martinho de Tours e, no entanto, Satanás, matreiro e provocador hipnótico, espreita cada lanço, cada passo, cada gesto, cada mover de dedos, cada balanço de olhares com que uma mulher esperta desconstrói a nudez de um homem, tornando-a pertença dos sonhos mais privados.

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