Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe no tempo de Paris

rabiscado pela Gaffe, em 27.04.13

 

Esta é a imagem de um allure absolutamente parisiense e, em simultâneo, a mais próxima do conceito de bon chic, bon genre (e não somos, de todo, raparigas modestas) que a Gaffe gosta de cultivar.

Evoca uma época em que Paris era preenchida por artista de todos os quadrantes, com relevo especial para os poetas e pintores, boémios e talentosamente pelintras. É uma imagem que contém histórias dentro e que seduz e nos envolve, porque quase lhe sentimos o perfume.

A Gaffe adopta sem hesitações laços poéticos e chapéus com travos de mistério, porque conhece o seu cabelo e já desistiu de o tentar domar. Tantas vezes lhe ralhou inutilmente, tantas vezes o prendeu para o ver soltar-se numa explosão imensa, numa festa tonta, com fogos de artifício. São cabelos de vendaval, são tempestades soltas, são pior do que montanhas russas, são jardins de castelo abandonado, e, todos ruivos, parecem folhas de Outono em debandada.

Nada faz parar a aventura que é tentar domar ruivos rodopios de temporal do que um chapéu fitado e laços que nos atam a histórias de Monmartre no tempo de Picasso.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe redime-se

rabiscado pela Gaffe, em 24.04.13

(Todd Jordan)

A Gaffe tem sido uma menina tonta.

Não pode, impunemente, revelar uma face mais intimista e soturna quando declara sem dó nem piedade, alto e bom som, que conduz e alimenta pedacinhos de palavras fúteis e absolutamente ocas.

Deve, tendo em conta o facto, atapetar uma Primavera quente e solarenga com texturas inusuais, com cores suavizadas e sofisticados cortes onde reina um ligeiro laissez faire, laissez passer.

A Primavera agradece e nós, meninas espertas, gostamos demasiado de mesclar o sol com aprimoradas imagens de elegâncias em tons pastel.  

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe na cabeça

rabiscado pela Gaffe, em 21.04.13

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe e o etéreo

rabiscado pela Gaffe, em 19.04.13

 

A fragilidade é como a inocência, pode ser tão delicada e etérea, como subitamente nos surgir concluída em aço.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe e os guerreiros

rabiscado pela Gaffe, em 16.04.13

 

Há homens devastados pelo vento, pelo travo das horas destemidas e pela ousadia do querer o que é sonhado, porque não vale a pena querer menos do que isso. Trazem o sabor a sal, a maresia ou a batalhas onde as armas são apenas um bater de asas de milhafre.

São homens que nos trazem na erosão do tempo as Cantigas de Amigo, como rosas que foram decepadas para renderem os nossos corações.

Olhamos e queremos que tragam no peito as nossas cores atadas, protegidas.  

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe num pulso com pulseiras

rabiscado pela Gaffe, em 16.04.13

A mulher tem o cabelo amarelo-torrado, preso na nuca por um gancho de plástico. É aos caracóis, forçados por um ferro quente. Ondula no vestido justo, preto, com lantejoulas no decote vasto e tenta o equilíbrio nos sapatos com uma rampa de cortiça na sola e tiras que lhe apertam o peito do pé. Chocalha de pulseiras reluzentes.

Não tenho histórias para esta mulher. Procuro-as no que ouço e que vem do chocalhar das bugigangas, mas não há enredos nos pulsos. Há um chocalhar de círculos parecidos com os da vida.

A mulher de cabelo amarelo-torrado não respeita o acordo ortográfico, não sabe escrever como dizem que é devido, tem a história toda contada nas rodas ao monte nos pulsos. Chocalham nos pulsos os elos sobrepostos da mulher de cabelo amarelo-torrado por um ferro quente.

Da vida ou das pulseiras, tanto faz.  

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe e a chuva em Paris

rabiscado pela Gaffe, em 15.04.13

 

Quando chovia em Paris, abrigava-me nos umbrais dos edifícios e esperava. Mantinha-me quieta e inventava histórias nas nódoas de chuva que alastravam nos passeios.

Às vezes fazia muito frio. Nessas alturas os momentos de chuva a cair apeteciam-me tanto que me esquecia das horas e era capaz de passar, pasmada, todo o tempo do meu mundo a olhar para o chão que se encharcava. Os sons de Paris acinzentavam-se e as luzes chapinhavam nas poças que alastravam.

Creio que era feliz naqueles pedaços de chuva estrelados. Abraçava-me, apertava o casaco, amarfanhava a camisola junto ao pescoço e tentava manter os pés quentes batendo com eles nas pedras abrigadas.

Lembro-me que tinha umas luvas grossas de pele, forradas, que me aqueciam demasiado as mãos. Nunca gostei muito de luvas, mas aquelas tinham sido dadas pela minha avó e usava-as como quem usa um talismã ou um golpe de saudade. Mantinha as mãos enluvadas próximas do nariz, porque gostava do cheiro do couro misturado com o cheiro da chuva e da memória da minha avó.

Perdi uma no metro. A outra ainda a tenho na gaveta. Vou, de vez em quando, quando não há chuva, procurar o levíssimo rasto de felicidade que nos umbrais dos edifícios de Paris ficava quieta enquanto me abraçava. Havia sossego, como se não precisasse de nada, como se me bastasse, como se estivesse isolada, à parte, e então sentia a cidade como coisa minha. Só eu e Paris, nos umbrais molhados.

Fiquei uma tarde, já tarde (tão tarde!) segura pela chuva. Fechei o casaco e calcei as luvas, amarrotei o abraço para não sentir frio e fiquei a ver o sossego pasmado. Veio então de novo aquela morrinha que é ser feliz ou pensar que o somos. Procurei as luvas sem me aperceber que já não as tinha e não tinha nada a não ser um canto de Paris à chuva e senti a chuva a cair dentro de mim.

Quando eu voltar a chover em Paris, quero sentir de novo as pedras alagadas.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe no seminário

rabiscado pela Gaffe, em 11.04.13

Uma rapariga sente que, todas as vezes que depara com jovens noivos da Santa Madre Igreja, a atracção pelas longuíssimas batinas e alvos paramentos a leva à tentação de traçar rotas e de rumos que a levarão ao fogo (neste caso, do Inferno).

Somos pecadoras quando o proibido se cruza com o nosso desejo desde o primeiro tempo paradisíaco. A sedução do interdito recolhe em nós, raparigas espertas, terreno fértil e arranja sempre forma de eclodir.

A coragem (e sublinhemos que a coragem é, como diria a minha santa avó, o cagaço* de armas na mão) de rasgar as películas que nos separam do que nos atrai, leva-nos ao uso subtil de elementos que nos trazem o aroma do embargado, do obstruído ou do tolhido.

A fantástica blusa da imagem traz o perfume dos juvenis nubentes sacros que nos corredores de um latim granítico, abrem breviários, iluminam altares, acendem pavios e dispersam incenso.

Sentimo-nos abraçadas pelas suas orações mais reservadas.

A fabulosa saia, invoca-me, de modo surreal e pouco razoável, os estranhos aventais maçónicos, sabe Deus porquê!

Questões a discutir com a turma mais garbosa de seminaristas.

 

 *Pardon my french

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe e um guerreiro

rabiscado pela Gaffe, em 10.04.13

 Desde tempos imemoriais que o cabelo feminino é tido como sinónimo de sensualidade, muitas vezes de luxúria, outras vezes de condenação, várias outras de encarnação de inocência e de representação simbólica de virginais predicados. A atracção irremediável deste elemento que origina as mais incontidas paixões, expressou-se nos mais consagrados romances e declamada poesia.

O cabelo é uma arma, impossível de refrear se Dalila for, de novo, uma traição inesperada.   

Uma rapariga esperta reconhece que não é só no interior da sua cabecinha que reside um dos maiores afrodisíacos de sempre. O cabelo é um dos principais e magníficos entrelaçados que enformam o ninho ou a armadilha que acolhe ou amarra a força viril dos guerreiros invencíveis.

Sansão é apenas a narrativa de um mito que convém ser alterado. A lâmina que lhe decepou toda a pujança, nada mais era do que um fio de cabelo de Dalila.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe e uma canção

rabiscado pela Gaffe, em 09.04.13

(foto - Tommy Ton)

Um trench coat é sempre uma invocação subtil de Casablanca. A memória da obra-prima repleta de conflitos e de equívocos, que começam na selecção dos protagonistas (escolhas secundárias), não findando na recriação de cenários duvidosos, impregna uma peça que entregou uma marca indelével a Bogart e ajudou a tornar Bergman uma das mais divididas e angustiadas personagens do cinema.

É sempre um trench coat que acaba por povoar de enigmas e de voláteis mistérios a mulher que o usa, porque se apossa dos elementos masculinos impressos no trespasse (que oculta), no volume cintado (que esconde) e na sedução que é transportada pela névoa densa de uma fuga do amor no meio da guerra.

Aliar estas inconscientes invocações à renovação da cor e acrescento de detalhes magníficos (como, neste caso, o dos acabamentos das costuras), faz com que se reconheça que a kiss is still a kiss, e que, mesmo que o tempo passe, teremos sempre Paris todos os dias.      

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe aniversariante

rabiscado pela Gaffe, em 08.04.13

Este cantinho onde a Gaffe se atreve a ser uma menina tonta, faz hoje exactamente cinco anos!

É certo que não fui sempre constante, assídua, e empenhada, mas fiz, muitas vezes, deste pedacinho de tolice uma forma de redimir os meus dias e de escapar (de me esconder) dos cardos e das ortigas que me tocavam quando nada de novo havia ao Sul do Equador ou quando o mau tempo assolava todos os meus portos.

Se fosse um coração, este blog sofreria de arritmia. O seu pulsar não é uniforme e o traçado sinusal seria o rabisco de uma criança que brinca com um lápis de várias cores, desenhando formas imberbes na superfície do tempo.

São cinco anos de palavras que agora valem apenas uma gargalhada matutina e um chá de três pimentas, bebido convosco, no limiar desta manhã.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe e o andrógino

rabiscado pela Gaffe, em 05.04.13

 

De acordo com a mitologia grega, os andróginos eram criaturas que possuiam os dois sexos, quatro mãos e duas faces opostas e, em consequência, o dobro das possibilidades de se divertirem acompanhados nas Sextas-feiras à noite.

Fortes, audazes e destemidos, tentaram invadir o Olimpo para tomar o poder. Zeus, frente às ameaças, divide-os e condena-os, assim decepados, a viver eternamente em busca da metade perdida.

É justamente esta beleza enigmática que subjaz à demanda do que nos une à nossa outra metade e que nos instiga a dúvida e a incerteza do encontro, impulsionando ou, tantas vezes, delapidando o que de completo existe em nós.

A andorginia é, no entanto, abusada pelas actuais imagens estereotipadas que, na esmagadora maioria dos casos, a aliam a uma decadência erotizada, mas soturna e insinuantemente dúbia e raida de subtis ameaças.

Une-se ao decadente enevoado, a cortinas de vícios esfumados ou a provocadoras poses de divas assexuadas.

O eterno dilema com o qual sempre convivemos, é tornado quase disfuncional pela imagética de um século que entrega ao mito, que tem origem na perda ou na falha, a inconveniência e o engano de um reencontro ilusório.  

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe comprova

rabiscado pela Gaffe, em 03.04.13

Sempre me habituaram a amar o Douro. Os socalcos e as vinhas, a gente valorosa e sofrida e as cores maduras que inebriam a paisagem quando se aproxima o final do Inverno e a terra sorve e absorve e respira as cores tintas e quase sombrias que apoiam o surgir da Primavera.

São estas tonalidades que encontro nesta imagem e a mesma sensação de robustez, vigor e temerária sobriedade das terras de um rio portentoso e belíssimo.

Encontro desta forma a confirmação do que sempre considerei verdade insofismável: Um homem bonito, basta. Um homem que nos traz histórias, que nos reporta a paisagens e que nos transporta a lugares de esplendor cativo ou ignorado, apenas porque passa ou por nós espera encostado ao despertar de imaginários latentes e subtis, subitamente é o perfeito.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)


foto do autor




  Pesquisar no Blog






Copyrighted.com Registered & Protected 
JIFR-J5MR-Y1XR-YACD