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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe patrocinada

rabiscado pela Gaffe, em 28.06.13

A Gaffe, sob o altíssimo patrocínio da avó, habita agora um novo, espaçoso, solarengo e belíssimo apartamento, numa rua onde o sossego e o silêncio acamparam, com uma paisagem bucólica (para acalmar a sua quotidiana agitação) que se avista de uma varanda gigantesca e ampla e, na outra margem, um friso de vivendas de janelas cerradas.

Os compartimentos ainda fazem eco e existem por todos os cantos malas e caixotes empinhados onde uma nesga de tristeza procura fazer ninho.

Ao anoitecer, todos os ruídos abrandam e a Gaffe sente uma ligeiríssima vontade de chorar, embora não saiba se é mesmo dela ou se pertence a outro.

Senta-se no sofá de couro castanho, também ele novo e com laço apenso, dedicatória doce do seu pai, cruza as mãos no regaço, com os pés nus inclinados para dentro e as séries televisivas que deslizam, iguais umas às outras, que trespassam o silêncio com os estampidos dos tiros.

Espera pela hora de se levantar e sair devagar como uma visita e vai percebendo que os espaços que habitamos são aglomerados de memórias; que sem a fusão da nossa mão com aquilo que tocamos; que sem a cumplicidade construída pelo tempo que une, como fio de teia de pequena aranha, a nossa vida ao pó que fica nas memórias dos móveis e dos objectos, ficamos suspensos e frágeis, sentados nos sofás, que não sentimos nossos, perto da solidão que nos faz crer lentamente que é uma velha amiga. 

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A Gaffe na marina

rabiscado pela Gaffe, em 24.06.13

 

Chegadas as temperaturas que esperávamos com alguma sofreguidão e embora a Gaffe não consiga delas tirar grande partido (as ruivas jamais bronzeiam), é sempre agradável deparar com o eterno allure de marinheiro, riscado e azul com linhos brancos.

A harmonia é perfeita!

Ao contrário do que um primeiro vislumbre poderia fazer supor, o colorido dos conservadores e yuppies sapatos de vela não cria uma desconstrução capaz de impelir os nossos regozijados olhos apenas para o contraste que provocam no conjunto.

São um excelente complemento que coadjuva, elabora e renova com eficácia e inteligência a tradicional imagem que veremos sempre perto das marinas onde pairam os barcos do nosso mais acalorado contentamento.

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A Gaffe e as raparigas espertas

rabiscado pela Gaffe, em 21.06.13

 

As extraordinárias raparigas Ziegfeld: Jean Ackerman, Jean Audree, Myrna Darby e Evelyn Groves, vestidas por John Herkrider.

John Herkrider era um artista Texas-nascido, que começou sua carreira como actor, actuando ao lado de gigantescas figuras como Mary Pickford ou Theda Bara. Torna-se posteriormente figurinista, concebendo o guarda-roupa para praticamente todas as produções finais de Ziegfeld, incluindo Rio Rita, Ziegfeld Follies, Show Boat (1927), Rosalie, Os Três Mosqueteiros, Whoopee (1928 ), Show Girl (1929), Simple Simon, Smiles (1930), e a edição 1931 das Follies.

Há registos dos cavalheiros, evidentemente, mas é lamentável que se tenham perdido os nomes e as memórias (e a memória) das mulheres que seduziram centenas de tontos que tombaram encadeados pelo cintilar das lantejoulas patrocinadas por Ziegfeld e modeladas por Herkrider.

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A Gaffe rendilhada

rabiscado pela Gaffe, em 20.06.13

Astrid Andersen não é aquilo a que possamos chamar uma criativa de génio.

Muito antes da sua colecção Primavera/Verão 2014 ser apresentada, já Joana Vasconcelos encadernava cães de loiça usando croché e rendas de bilros.

Apesar da transparência do modelo nos fazer adivinhar uma data de noites mal dormidas, a proposta não é para ser seguida, meninos.

Esqueçam o coleante rendilhado e visitem a obra escultórica da artista plástica (ou visual, como se queira). É menos divertida, mas não nos faz ter de procurar debaixo dos móveis o queixo caído de espanto. Espanto silencioso, porque convém não revelar que somos leigas, retrógradas, pindéricas, parolas, limitadas e que não entendemos um pirolito de arte contemporânea.

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A Gaffe sem verão

rabiscado pela Gaffe, em 19.06.13

 

Digamos que o tempo (a Gaffe recusa-se a mexer em lixo contaminado) atraiçoou todos os planos de uma qualquer rapariga que consegue ainda sonhar com um pequeno paraíso doméstico e domesticado produzido timidamente com o seu subsídio de férias.

As condições meteorológicas tão em voga, não permitem nenhuma ousadia e limitam as possibilidades de ofuscarmos o sol com os nossos corpinhos desnudos banhados pelas ondas de uma idílica paisagem marítima, ainda que sem bandeira azul.

Nestas circunstâncias, o minimalismo é um porto seguro. A conjugação de um curto corta-vento com as Women's Straight Leg Denim da Levi’s, por exemplo, umas mimosas sabrinas e uma carteira, larga, de qualidade razoável e com bom aspecto, a completar o arranjo, pode ser a solução ideal para esperar o autocarro onde viaja o Godot da nossa tão acabrunhada esperança de outros sóis. 

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A Gaffe com visitas

rabiscado pela Gaffe, em 18.06.13

Por muito que se tente, não é possível ignorar o incremento, o adubo, a dilatação, o aumento e a expansão que um recorte do SAPO provoca num cantinho abandonado como este onde os comentários são uma espécie rara como os pandas ou os pirolitos doces das feiras da minha infância e os visitantes um grupo restrito, mas de um bom gosto irrepreensível, que tropeça inadvertidamente nesta ruazita.

Uma rapariga desprevenida assusta-se quando de repente olha para o maldito contador e verifica que há mais de 300% de visitantes em relação ao dia anterior e suspeita que é, sem saber, o bigode de Mário Nogueira, ou que se transformou nas duas maminhas que trazem acopladas uma rapariga muito popular, no Big Brother das… coisas.

Tal como as maminhas da granada loira e o bigode do grande líder, esta popularidade é passageira (embora de uma visibilidade que fere os olhos).   

Amanhã, as maminhas com a menina colada, o bigode colado no menino e este blog que se cola a um quotidiano mais corriqueiro, vão voltar ao marasmo inodoro e habitual.  

Seja como for, hoje é agradabilíssimo ter gente por perto.  

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Gavetas:

A Gaffe de chegada

rabiscado pela Gaffe, em 18.06.13

A colisão entre o urbano, cosmopolita e sofisticado e o Douro mais íntimo e desbravado, tem os seus momentos divertidos.

A C, de tacões Manolo Blahnik, agulhas mais altas dois cm do que o habitual, abusa da sorte.

As pedras gigantes do chão da entrada da casa da minha santa avó, apesar de polidas pelo tempo, não estão niveladas e é fácil tropeçarmos quando nos pés usamos os Himalaias transformados em sapatos. No entanto, a minha amiga está convencida de que quem se deverá vergar, obedecer e moldar-se aos seus caprichos, terá de ser obrigatoriamente o outro. Admite com muita relutância a mínima adaptação ao que a rodeia, mesmo que isso signifique o seu equilíbrio.

Chegamos ao Douro na manhã de ontem.

A C. pousou a urbanidade na pedra, pronta a tentar manter o piso seguro debaixo dos tacões. É tarefa que lhe exige concentração e lhe entope todos os sensores. Foi por causa dos sensores apontados para os desníveis do solo que desprevenida sofreu o ataque.

Há, aqui, solto e feroz, uma espécie de galo bonsai, um frango com peneiras, um Marques Mendes dos galináceos, uma coisa chamada garnizé, três vezes mais pequeno do que um galo normal, mas seguramente mais agressivo do que toda a capoeira. Odeia tudo e todos e, sobranceiro e orgulhoso, desata a correr atrás de tudo o que se move pronto a bicar e a esfrangalhar os calcanhares ao maior dos invasores.

A carteira Louis Vuitton da minha amiga, transformada em arma assassina, serviu de arremesso, mas há que reconhecer que foi divinal ver a minha pobre C., desgrenhada e esgaivotada, esbugalhada e esgrouviada, a tentar afugentar o psicopata.

Pálida, com a tensão arterial em queda abrupta, rígida e já sem qualquer tipo de fleuma, incluindo a britânica, a C. enerva-se:

- Partimos amanhã! e não penses que te deixo sozinha com uma galinha psicótica e coisas tortas no chão que fazem cair as pessoas.

O Porto é já ali, mas com a C. destravada e sem controlo e comigo à frente do navio, ainda acabamos, as duas, no sul do Líbano, a perguntar onde raio se meteu a torre dos Clérigos.

Que os deuses nos protejam.

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A Gaffe é assaltada

rabiscado pela Gaffe, em 17.06.13

 

A Gaffe foi assaltada!

É evidente que não ficou agorafóbica, apesar de ter apanhado um susto monumental.

A noite de Sábado teria sido destinado a descanso absoluto, mas a insistência dos amigos foi superior à preguiça e esta rapariga pouco esperta aceitou passarinhar durante algumas horas pelos cafés da Invicta.

A promessa de se retirar para os seus aposentos, sem deixar passar as chamadas altas horas da noite, foi cumprida e a Gaffe recusou a companhia que a levaria até casa. Afinal, a rua é movimentada, não se podia considerar tarde e má hora a hora do regresso e havia apenas uns duzentos metros de insegurança para chegar ao seu humilde santuário.

Sozinha, sente que a seguem. Tem a sensação de estar a ser introduzida num pedacinho de película abandonada do mestre Hitchcock e decide acelerar o passo. Chega à porta do prédio e retira as chaves no exacto momento em que se apercebe do desatar a correr em direcção a ela do perseguidor até ali discreto.

Petrifica!

De chaves na mão, é atacada (convém exagerar, para entregar um sabor a tragédia à narrativa) por um jovem que lhe agarra a carteira. A Gaffe reage, segurando-a como pode, mas desiste perante o grito cadavérico do assaltante.

- SOLTA!

O pobre do moço levou o telemóvel de serviço, todos os cartões possíveis e imaginários, habitualmente deixados em casa, mas naquela noite (prometida curta) não resguardados e dois € perdidos no fundo do que levantou voo.

Se o pobre assaltante me estiver a ler, gostaria de o informar que o grosso do dinheiro estava no bolso do meu elegantíssimo casaco e que a carteira que levou é uma falsificação de uma Louis Vuitton (indetectável à vista desarmada, mas mesmo assim uma despudorada e vergonhosa fraude) e que o BlackBerry estava, por acaso, na mão que não segurava a porcaria do roubado.

O menino levou o lixo.

Meu querido larápio, compensando o vácuo trabalho que teve, dedico-lhe a imagem que também roubei a quem desconheço e aconselho-o a ser mais eficaz e atento quando resolve mimar as aventuras de um gangster ranhoso num filme negro de terceira categoria.

Saiba, meu querido, que até para se ser ladrão é necessário ter classe e que não gosto que um desconhecido me trate por tu.     

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A Gaffe e um Porto de abrigo

rabiscado pela Gaffe, em 15.06.13

 

Este é o meu Porto: uma mesa de água, com pão de casario e névoa como vinho.

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A Gaffe e um molusco

rabiscado pela Gaffe, em 14.06.13

 

(Turquoise Tentacle por KTOctopus)

Há imensidão de fotografias, algumas bem marotas, em que um polvo retirado ao mar minutos antes (congelado não surtiria o mesmo efeito), se esparrama em corpos divinais que posam como se tivessem graves problemas ortopédicos.

Confesso que não acredito que os modelos escapem a estas sessões fotográficas sem nos fazer lembrar, pelo perfume, Lázaro depois de ter abandonado o túmulo.

No entanto, perante estes exemplares incríveis a Gaffe, embora dispensando os brincos, não pode deixar de pensar que um molusco destes ao pescoço vale bem o sacrifício de um nariz.  

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A Gaffe cinzentona

rabiscado pela Gaffe, em 13.06.13

Eu sei, rapazes, que nos dias que correm, deprimidos e apertados por trios alheios à nossa vontade, vivendo abaixo das nossas possibilidades e permitindo de modo absurdo que alguns continuem ainda a viver acima das deles, a tendência é enrolarmo-nos nas carpetes de outrora, que ainda nos recordam os tempo em que as vacas eram gordas (agora sofrem de distúrbios alimentares e sorriem).

Mas, nem tudo vos é permitido, nem a depressão e a falta que faz o Príncipe de Gales no vosso armário, vos iliba das tontices floridas que, com certeza, alegraria muita gente (sobretudo nos lugares, digamos, mais polivalentes, ambivalentes, ambidextros ou como se queira).

A não ser que detenham uma pilosidade facial ameaçadora, aconselho vivamente a não tentar vestir os cortinados ou as camilhas da minha santa avó. A senhora não iria gostar e o vosso dia passaria a sofrer de artroses na coluna de tanto se ver obrigado a vergar os cinzentos mais preconceituosos.

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Gavetas:

A Gaffe e a mochila

rabiscado pela Gaffe, em 12.06.13

Ralph Lauren já nos habituou a peças com sabor vintage dentro de algumas das suas inteligentes e cuidadas colecções, mas a Gaffe não resiste e tomba seduzida quando depara com a sábia mistura de uma imagem quase banal, mas com um ligeiro travo conservador, acentuado pela mochila que recorda os magníficos sacos de correio de uma América já ultrapassada.

Nestes casos de lettering desbotado, corroído, mas com memória, esperamos sempre que o carteiro toque sempre duas vezes. 

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A Gaffe e dois calções

rabiscado pela Gaffe, em 11.06.13

 

 

 

 

São fantásticos (não, não estou a falar dos peitorais dos meninos) os calções propostos por Orlebar Brown.

Um desenho absolutamente intemporal que evita a tanga com que o Tarzan de pacotilha nos faz clamar pelo auxílio da manada de gnus que são inevitáveis a atravessar o rio e a ser atacados pelos crocodilos em todos os documentários da especialidade, nem nos afligem com o bronzeado dos tornozelos adolescentes que conseguem equilibrar as bermudas já no início das coxas.

Apesar dos dias difíceis e cinzentos, é sempre radioso pensar que podemos encontrar espalhado pela areia o irrepreensível gosto dos rapazes que se transformam em homens, mesmo que o Verão seja o passado.

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A Gaffe no sapato

rabiscado pela Gaffe, em 06.06.13

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Gavetas:

A Gaffe e uma rapariga má

rabiscado pela Gaffe, em 05.06.13

Extraordinariamente bem-humorado, perspicaz, lúcido, sarcástico, tantas vezes corrosivo, outras tantas cirúrgico e certeiro nos seus apontamentos críticos e nos seus esquiços retirados do quotidiano, o bad girls go everywhere é, sem sombra de dúvida, uma das melhores, mais divertidas e mais inteligentes formas de observarmos a vida.

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Gavetas:

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