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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe patrocinada

rabiscado pela Gaffe, em 28.06.13

A Gaffe, sob o altíssimo patrocínio da avó, habita agora um novo, espaçoso, solarengo e belíssimo apartamento, numa rua onde o sossego e o silêncio acamparam, com uma paisagem bucólica (para acalmar a sua quotidiana agitação) que se avista de uma varanda gigantesca e ampla e, na outra margem, um friso de vivendas de janelas cerradas.

Os compartimentos ainda fazem eco e existem por todos os cantos malas e caixotes empinhados onde uma nesga de tristeza procura fazer ninho.

Ao anoitecer, todos os ruídos abrandam e a Gaffe sente uma ligeiríssima vontade de chorar, embora não saiba se é mesmo dela ou se pertence a outro.

Senta-se no sofá de couro castanho, também ele novo e com laço apenso, dedicatória doce do seu pai, cruza as mãos no regaço, com os pés nus inclinados para dentro e as séries televisivas que deslizam, iguais umas às outras, que trespassam o silêncio com os estampidos dos tiros.

Espera pela hora de se levantar e sair devagar como uma visita e vai percebendo que os espaços que habitamos são aglomerados de memórias; que sem a fusão da nossa mão com aquilo que tocamos; que sem a cumplicidade construída pelo tempo que une, como fio de teia de pequena aranha, a nossa vida ao pó que fica nas memórias dos móveis e dos objectos, ficamos suspensos e frágeis, sentados nos sofás, que não sentimos nossos, perto da solidão que nos faz crer lentamente que é uma velha amiga. 

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