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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe do Ministro

rabiscado pela Gaffe, em 02.07.13

A Gaffe está demasiado triste para apreciar a brisa fresca que atenua o tórrido passar desta canícula.

Sente uma ternura pintalgada de saudade pelo seu querido Ministro das Finanças que, encostando a porta (não será de estranhar, a partir deste instante, o bater de outras Portas) com uma breve leveza ruidosa, à semelhança da habitual concordância indignada dos opositores, se esvai diáfano pelo ralo da banheira onde flutua o restante executivo.

O Senhor Ministro, pensa a Gaffe sacudindo o pó dos joelhos depois da queda monumental que ocorreu depois de tropeçar neste querido, era como um pequeno ursinho de peluche que levamos para a cama para nos salvar do escuro que, de súbito, se transforma no Chucky o boneco assassino, ou numa daquelas criaturas fofinhas que molhadas acabam em tons de verde tenebroso a escacar e a morder a fita inteira.

O Chucky interior do Senhor Ministro nunca arreganhou em público os dentes cariados e sempre teve umas olheiras demasiado profundas para conseguir arregalar os olhos com uma certa dignidade. Por sua vez, o Gremlin que pulsava dentro do discreto e contido cavalheiro nunca se mostrou histriónico e jamais se tornou publicamente arruaceiro, talvez porque a água onde boiava estivesse estagnada e putrefacta há já algum tempo e atenuasse os efeitos previsíveis.

Mas foi um querido!

Saiu monocórdico. 

Deslizou do governo com uma placidez e contenção admiráveis, reconhecendo, maroto, que fez aquilo a que uma rapariga poderia classificar como g’anda merda se não tivesse o tento ministerial revelado pelo ilustre demissionário. Resvalou do cargo com a elegância dos génios que assumem que os erros das figuras de estado são inconsequentes e não susceptíveis de penalização. Diluiu-se com uma suavidade férrea (mais uma vez na linha da concordância indignada) admitindo que provocou uma ou outra catastrófica cratera na vida dessa gentita que, sublinhou, não o elegeu, porque ele é demasiado bom e só por nomeação se dignaria retribuir o esforço que o país fez contribuindo para a sua excelsa formação. Esbateu-se com o ar de menino resmungão e irritado por ter cometido uma ou outra gralha no seu caderninho de matemática, subtraindo valores de somenos importância aos papalvos imbecis e iletrados que lhe deviam submissão.

Não foi fofinho?!

A Gaffe fica irritadíssima quando acusam este querido de jamais ter conseguir fazer pulsar as suas decisões a partir do ritmo do viver em carne crua da esmagadora maioria dos cidadãos (ou cidadões, como queira S. Bento que das multidães conhece os coraçães - e porque neste caso rima). O problema sempre esteve no PC (esta semântica ambiguidade é uma delícia!) e nas suas aplicações informáticas. O Excel e o Power Point sempre lhe deram razão, inabaláveis certezas e inevitáveis destinos. Culpem o Windows!

 

Não há qualquer direito a retrocesso, a emenda, a reprogramação ou a outra qualquer palavra que tenha apenso uma espécie de prefixo que implique, mesmo de forma desejada, o retorno, o início, o retrocesso ou o regresso à vida. Não se conseguem corrigir os erritos do Senhor Ministro.

Apesar da depauperada esperança que teima em sobreviver à sensação de queda fenomenal num poço sem fundo, a Gaffe teme ter de ouvir a sucessora:

- Computer says NO!

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