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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe entra em pânico

rabiscado pela Gaffe, em 30.08.13

 

O photobucket acaba de informar a Gaffe que foi excedido o limite de armazenamento grátis de imagens, permitido pela sua vocação benemérita, e que esta rapariga desesperada terá de esperar pelo reset da praxe (que ocorrerá dentro de sensivelmente quinze dias) para voltar a ter visíveis as suas pequenas escolhas pictóricas! A alternativa será o pagamento de uma quantia equivalente a um gel de banho da Dior.

Depois de controlar o pânico, a Gaffe volta a ler com atenção a amável comunicação do armazém e decide que não se importa de esperar pela operação indicada. Em consequência, o nicles será a única ilustração passada passível de ser apreciada.

Reconhece que as avenidas ficam estranhíssimas, mas não há nada como um período de nojo bem feito para se aprender a respeitar a máxima que refere não ser de bom tom depositar todos os nossos ovos num cestinho apenas.

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Gavetas:

A Gaffe apaixonada

rabiscado pela Gaffe, em 30.08.13

Nada em Paris é imperfeito e a imagem que reconheceria como minha é a de Paris, Rue de la Paix, e a de pérolas pousadas no pescoço de quem sabe que o pecado é um abrigo, um confronto com a mortalidade.

Ao dizer adeus a Paris, descubro que vou amar esta cidade como quem mata no limite da necessidade última de bâton sobre o assassínio.

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A Gaffe com velhos amigos

rabiscado pela Gaffe, em 29.08.13

É curioso como o reencontro com os nossos mais queridos amigos depois de uma ausência repleta de saudades e troca de memórias por cabo e por wireless, nos pode fazer descobrir que a distância que nos separou no espaço se pode transformar numa distância interior, calcetada sem o termos percebido, mas agora demasiado evidente para podermos encetar a conversa que ficou incompleta no tempo de partir.

O meu revisitado círculo de amizades, outrora renhidamente fechado e avesso a intromissões, contrário a qualquer tipo de parolo deslumbre que incute a ânsia do aparecer, porque quem não é visto não existe, revolucionariamente livre, rebelde e incorruptível, a fazer sonhar com a Resistência à ocupação Nazi, enforma e dá corpo agora ao Tout Paris.

Domado e assimilado por completo, reproduz com exactidão comportamentos chave do sucesso, lugares-comuns que a vida empresta aos tontos seduzidos pelo deslumbre dos camarins do brilho de brilhantes, bolas de sabonete da Ach Brito, desfiles e vernissages de pavões.

No centro do glamour não sou o corpo estranho. O meu exílio foi propositado; o meu afastamento, racional; no meu desterro havia um objectivo e a coragem coroa-se de louros e é tida como heróica pelos que não percebem que, na esmagadora maioria das vezes, os heróis não são mais do que o cagaço com armas na mão.

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A Gaffe anoitecida

rabiscado pela Gaffe, em 27.08.13

Pyotr Kholyavchuk

O anoitecer fica-lhe bem. Confunde o seu perfume. Deixamos de saber se foram os nossos olhos que lhe tocaram a pele das avenidas ou se quebrou o aroma dos vidros indefinidos do voo das luzes.

Quando Paris anoitece afastam-se os pássaros, porque nenhuma alada história se sobrepõe à da cidade.

Ama-se Paris soberanamente, como se a Cidade fosse um guerreiro antigo, porque a sua fragilidade dissimula a guerra.

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A Gaffe nas escadas

rabiscado pela Gaffe, em 25.08.13

Há cerejas nas escadas de Montmartre!

Um cesto de verga das vindimas e um velho desdentado sentado num mocho de madeira, com um nome português dos mais perfeitos que existem: Joaquim.

Cerejas de Resende. Lá do Norte. Graúdas e bichentas que apanharam chuva. Disformes e sumarentas, açucaradas, com pés que serão chá depois de secos.

Cerejas de Resende,  fora de época, nas escadas de Montmartre. Inexplicáveis, escondem o segredo de mim e da polícia.

Compro um quilo e abraço depois o Joaquim, o velho que me chama agora menina e me diz que de cerejas percebe ele, que as melhores são as que trazem roxo à superfície e que não são medidas a compasso.

Cerejas em Montmartre, de Resende!

Cerejas que vou rolando com a língua, antes de as fazer estalar cravando os dentes, no meu apartamento reinventado onde há escadas e luz remodelada, onde as paredes são novas e impolutas, onde rasgaram lanços e espaços abrindo a arquitectura das janelas por onde consigo ver de perto um dos pedaços mais caro do planeta.

La Deneuve tem uma casa ao lado, mas em Montmartre há cerejas de Resende.

Deixei cair cerejas da memória nas escadas. Deixei que elas rolassem pelos degraus. Deixei-as, sem ter medo de me lembrar das escadas em que Montmartre se despia e não vendia frutos de Resende, num tempo em que chovia sempre que eu não tinha as nuvens do olhar forrado a sol que acreditava meu.

Paris é dos que compram cerejas em Montmartre e dos que adormecem nas sombras das escadas.  Paris espera, eternamente igual, por raparigas e por vadios destes, que fazem rolar cerejas de memória ou que de papelões fazem um ninho.

Comprar cerejas e abraçar Paris à espera de colher comigo o tempo que esgotei longe daqui.

O Joaquim veio sozinho com um cesto de vindima cheio de alma.

Recolho-o num abraço e depois rio.

Há memórias em Montmartre e o Joaquim na escada de um abraço a espalhar cerejas pelo dia.

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A Gaffe a rolar

rabiscado pela Gaffe, em 23.08.13

Em Paris os braços dos rapazes ondulam nas ruas abertas com dedos esguios.

Trazem, os rapazes nas praças à toa, a cidade inteira presa pelos fios dos dedos tocados pela luz que chega das frestas das caras. A clausura da cidade a rolar nas mãos e um farrapo de alma à solta no ar.

Paris, fechada na esfera, rola sobre mim que a tenho cerrada e no centro da praça ondulam rapazes de braços abertos a fazer rodar o mundo que passa.

Paris é a máscara dos mimos de rua e a minha vida inteira e livre que passa.

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A Gaffe e a Cidade

rabiscado pela Gaffe, em 20.08.13
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 Paris abre-me os braços sempre que o desejo.

Paris amanhece e entardece toda nua na cama onde me deito devagar e vem de voz doirada murmurar-me:

(...)
Plus bleu que le bleu de tes yeux,
Je ne vois rien de mieux,
Même le bleu des cieux.
Plus blond que tes cheveux dorés
Ne peut s'imaginer,
Même le blond des blés.
Plus pur que ton souffle si doux,
Le vent, même au mois d'août,
Ne peut être plus doux.
(...)

Paris tem os mais belos sorrisos do planeta e os corpos mais ágeis, secos e plenos de promessas redondas e macias nos peitos rasos, lisos, planos e abertos.
Tem luz de oiro sobre azul quando amanhece ou de ferrugem no final da tarde e cafés com mesas pequeninas nas esquinas redondas das ruas que me perdem e onde pouso a vida como quem se esquece de dormir.
Domar Paris é como ter um gato ou molhar o corpo com o azul dos anjos.
Paris é minha! Desde que eu a vi, há muito tempo.
Sei o que ela quer e dá-me tudo: Um rasto de Dietrich, azul e de oiro; um traço de Dean, sem causa, apenas rebeldia; um risco de mistério emoldurado no traçar de pernas instintivas e o caixilho ruivo e perfumado do seu corpo.
Em Paris eu sou o que cidade quer: Uma obra sua, sem ter destino o Louvre.

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A Gaffe sobre os ombros

rabiscado pela Gaffe, em 14.08.13

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Gavetas:

A Gaffe tipografa

rabiscado pela Gaffe, em 13.08.13

A vossa barba, rapazes, é sans serif? É o vosso bigode a Bodoni, a Times New Roman, ou a Comic Sans? Que alianças tipográficos tem a vossa barba? Qual a vossa fonte favorita?  

Estas são as perguntas feitas pelo Guia Beard, a famosa tipografia, que resulta num gráfico bem-humorado criado por  Christian Goldemann, em que 25 estilos de arranjos de pêlos faciais populares são atribuídos a uma fonte com base em seu layout e características de seus folículos.

Questionado por  Co.Design sobre o que permite concluir uma aliança entre uma fonte e uma  barba, o designer gráfico Stuttgart é o primeiro a admitir que realmente não o pode explicar em palavras.

- Para a maioria dos estilos de pêlos faciais, peguei nas fontes com base na forma da barba ou a pensar se uma determinada pessoa que usava esse tipo de barba teria favorecido uma determinada fonte – diz  Goldemann e continua -  mas é mais do que apenas ligar uma certa barba a uma determinada fonte. Não há nenhuma fórmula específica.

No entanto, todos os rapazes barbudos podem facilmente intuir o método por trás da loucura do Guia Beard. Um bigode liso, como o John Watson gostava de usar, fica emparelhado com a fonte Baskerville, por causa da conexão de Sherlock Holmes. A barba estilo Darwin é o reflexo da fonte sensível e elevada Hoefler Text (o que parece ser uma fonte que apaixonaria Darwin). A Old Dutch torna-se o bigode e a barba menos justos. Franklin Gothic usa um prim, bigode húngaro exigente. Flamboyant e Zapfino, obviamente chamativas, reflectem no encerar da Dali antes de fazer uma aparição onde quer que seja. Helvetica Neue é o avatar tipográfico de Frank Zappa. A barba da escolha de Rasputin, será a Garibaldi. Quanto ao lendário pornstache? Que outra fonte transmite com precisão a sua oleosidade, a sua confiança equivocada, sua sensualidade desprezível melhor do que Fago?

Parece evidente que Verdana é a ausência de pilosidade facial.

Há outros pares que não são necessariamente tão óbvios. Por exemplo, um Cavanhaque egípcio está emparelhado com Clarendon, uma combinação de fonte-barba que só faz sentido se pensarmos que Clarendon é um serif laje, ou seja, uma fonte estilo egípcio. Balbo e Bembo parecem fazer par em consequência apenas das suas semelhanças tipográficas agradáveis dos seus nomes e algumas combinações são difíceis de descobrir (a Futura emparelhando com ZZ Top é surpreendente, na melhor das hipóteses).

Para a maior parte, porém, o Guia Beard tenta não fazer colidir as vossas expectativas internas do tipo de barba aliada que usam e as fontes que vivem dentro dos computadores e que são da vossa preferência.

Podem, rapazes, a partir daqui, tatuar a palavra bigode no vosso lábio superior na fonte exacta que o reflecte.

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Gavetas:

A Gaffe caprichosa

rabiscado pela Gaffe, em 12.08.13

São 642 posts!

Um número que impressiona a Gaffe que nunca pensou ser capaz de juntar mais do que três ou quatro palavras.

É claro que os primeiros meses são desdentados, mas, mesmo assim, ter conseguido rabiscar mais do que seis centenas de apontamentos é surpreendente.

Depois de ter fechado a boca – uma rapariga tem de se preocupar com a imagem – a Gaffe pensa que chegou a altura de alterar o seu pequeno cantinho. Não vai suplicar aos senhores do Querido, mudei a casa porque sempre receou a qualidade do Ikea, teme que lhe surja o Cláudio Ramos a deitar as cartas - não adianta perguntar a causa da aliança que faço entre este querido e a sorte. É um pesadelo - e sabe que a colaboração da equipa SAPO não é extensiva aos caprichos de uma rapariga tonta.

Vai ter de arrancar o seu fantástico amigo, cúmplice de todas as horas, as montanhas de paciência de que vai necessitar para desatar o espartilho deste blog (e eu sei que ele sabe, porque já vi). Não é tarefa desmesurada, até porque me afeiçoei ao actual grafismo que, ele também, me ofereceu, mas é chegado o momento de alargar as avenidas.

Partindo deste objectivo, a Gaffe estende a sua indolência à dúvida existencial que se sintetiza na questão seguinte:

Qual o momento certo para mudarmos de visual ou, pelo menos, a base em que o visual está impresso?

Embora a pergunta não implique necessariamente CSS, é declaradamente um caso CSI.

É urgente uma investigação acerca das motivações que estão na base do desejo de uma radical ou de uma subtil mudança na forma como somos vistos.

A urgência que sentimos de alterar o corte de cabelo e tornamo-nos um Fábio Coentrão em vez de Grace Kelly; mudar a cor do bâton, surgindo com lábios esverdeados como se tivéssemos sugado, furiosas, um calipto de corantes; desatar a imitar o Everest trocando as pindéricas sabrinas por uns vertiginosos Manolo Blahnik; aparecer de speedo um número abaixo do confortável e do aceitável, quando sempre usamos tenebrosas bermudas pelos tornozelos (mesmo sabendo que as regiões antes impedidas de bronzear dificultam a ousadia) ou simplesmente fazer brotar da nossa boca mimosa o cacto de um palavrão grosseiro, electrocutando a elegantérrima forma com que sempre nos exprimimos, é sintoma de esgotamento, de saturação do quotidiano, de vontade de seguir a estação que se renova, de tédio, de fastio, do que somos, de necessidade de nos termos, só para nós, de forma reanimada, mas é também o anseio de sermos vistos pelo Outro de uma maneira encantatória, de por ele sermos olhados com os olhos da surpresa e do reencontro, de o fazermos acreditar que existe mais em nós a descobrir e de nos fazermos acreditar exactamente nisso.

A qualquer momento surge esta urgência tranquila de sentirmos que temos dentro a inesgotável capacidade de mudarmos. Quando não temos instrumentos reluzentes para levar a cabo esta ambição, usamos uma cor diferente de bâton, desequilibramo-nos em cima de sapatos a que jamais nos habituaremos ou mandamos bardamerda o rapaz que sempre nos teve como ponto assente.

No caso da Gaffe, neste específico caso corriqueiro, o desejo de mudar este seu canto deserto de visitas, é apenas um capricho.

Não se deseja alterar o vazio quando não existe ninguém do outro lado da porta.

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A Gaffe e o hipster

rabiscado pela Gaffe, em 09.08.13

Um hipster é, normalmente, um jovem adolescente oriundo da década de 1990, associado principalmente com o non-mainstream e que acaba por se tornar para a Gaffe um interessantíssimo objecto de estudo, sobretudo sabendo que, para os elementos desta tribo, as peças que se vestem são tão importantes quanto as peças que se ouvem.

Como em todas as tribos urbanas, há variantes conhecidas, sendo as mais representativas a American Apparel, H & M, ASOS, Cobrasnake e os Urban Outfitters, mas a Gaffe acha demasiado fastidioso debruçar-se sobre miudezas e vai directa ao cerne da questão.

Vejamos:

Para estas amorosas criaturas a griffe é de evitar. Uma loja vintage é um must onde podem desbravar caminho bamboleando os seus corpos magros, quase escanzelados, dentro dos seus famosos e tão desejados Jeans skinny 2Wear, usados, quanto mais apertados melhor, por ambos os sexos (embora as meninas prefiram leggings, jeggings, treggings ou, em alternativa as usadas jeans Mãe).

Os óculos são quase imprescindíveis. Os hipsters amam óculos, sobretudo os bem-dispostos, como os grandes de armação de plástico, óculos de Buddy Holly, óculos de nerd, e - para os que os podem pagar - autênticos Ray Ban Wayfarers de todas as cores do arco-íris. Mesmo não sendo pitosgas, de todo, substituem as lentes graduados por vidros inofensivos. Coadjuvando estes acessórios, são boas escolhas as t-shirts irónicas, as camisas xadrez, as camisas de cowboy e qualquer coisa em gingham, xadrez, paisley ou com estampados florais vintage, salpicados por imagens de animais ou de florestas, personagens de programas de TV para crianças e grafismos trocistas.

As raparigas ficam fascinadas por vestidos de preferência vintage, florais ou com rendas, sendo o armário das santas avós um manancial de sonho, embora a hipster saiba costurar, adaptando a velharia empoeirada sem quebrar o encanto do antigamente das estrelas.

A colecção de sapatos inclui botas de cowboy, Converse, e uma reduzida gama de apontamentos que passam pelos Reeboks clássicos, os Doc Martens ou por um encontro vintage com um sapateiro de esquina. Não usam crocs, felizmente!

Para as meninas, os saltos não são de todo populares. As sandálias, os tênis, as botas e as botinas da santa avó são mais práticos e mostram o quão pouco esforço foi dispendido na escolha do calçado (mesmo que tenha ficado sem pele nos calcanhares só para encontrar o par perfeito).

 Existe uma vasta gama de acessórios, incluindo grandes bandoletes de flores, esmaltes neon, alfinetes, cintos brilhantes, colares de pássaros, estampados e leggings coloridas. A hipster não se pode lamentar da falta de tralha que pode associar ao seu allure e não se esquece de um pequeno toque carpinteiro patente nas pequenas cicatrizes, supostamente adquiridas ao trabalhar madeira e dos sacos de correio (nunca uma mochila!), de preferência Freitag, onde pode guardar à vontade o seu MacBook, iPhone, e discos de vinil (nunca CD) da sua actual banda favorita.

Tudo muito irónico, quase zombeteiro, quase sarcástico. Não esquecer que o uso de peças que não se ajustam ou condizem é claramente hipster e que o ar de eu não posso ser incomodado é relevante, embora leve algum tempo a apurar, porque, com uma auto-estima elevada e não recusando um belíssimo spa, uma cuidada manicure, ou um completo kit de maquilhagem, o hipster o que mais quer é ser abordado e reconhecido, embora aceite publicamente que estes mimos são apenas uma submissão confrangedora aos ideias de beleza vigentes.

Penteados desengonçados são um achado. O bed look, o cabelo despenteado, longo e que resiste a todas as tentativas para ficar liso, sem produtos químicos, é oiro sobre azul (que pode tingir de forma óbvia a cabeleira hipster).

O importante é uma mistura de sobriedade, respeito pelo que chega do passado e um desejo de demonstrar que as coisas novas não definem ninguém. Naturalmente, é preciso lutar contra a inconsistência desta directriz perante o amor novinho em folha reflectido no maravilhosamente actual produto da Apple.

O hipster está interessado em exibir abertamente seu amor por qualquer coisa indie, expondo-se à literatura existencialista, à angústia existencial, à busca de propósito e de valor interno, perguntando o significado de tudo ou à filosofia niilista e a uma consciência cultural superior considerando que tem um dedo apontado para o que há de podre no centro de tudo. Entretanto, os dedos restantes sentam-se numa esplanada tomando mocha lattes enquanto navegam no Mac ou no iPad várias horas por dia, porque estão ligados globalmente, graças à Internet, à procura sobretudo de áreas como arte, arte gráfica, matemática e ciências, música ou moda que, embora não sejam escolhas essenciais, são provavelmente uma saída natural para a sua criatividade.

Procuram Jack Kerouac, Alan Ginsburg, e Norman Mailer (ou qualquer outro autor que tenha produzido livros com um número imenso de páginas), adoram shows de Ann Liv Young, amam Wes Anderson, Hal Hartley e os filmes de Jim Jarmusch, música Indie ou nu-rave, techno minimalista, rap independente, nerdcore, garage rock, rock clássico (Beatles geralmente), e punk rock.

Apesar de maioritariamente vegetariano (se come carne, afirma que a escolha é apenas uma transcendência cínica das tentativas fúteis vegetarianas de salvar o mundo e que o seu senso de ironia já considerou este movimento obsoleto), o hipster adora fazer refeições gourmet logo após ter passado horas a actualizar o Blogspot, o Wordpress ou Tumblr publicando as imagens captadas com a sua câmera Holga.

Não conduz um carro caro, aliás, nem sequer possui um carro. É um desperdício de gás e dinheiro e o problema do estacionamento desgasta o cérebro. Anda de bicicleta de pneus skinny, genuína sela de couro Brooks e sem freio dianteiro e mesmo não possuindo uma, certifica-se que arregaça a perna direita da calça para parecer que acabou de cruzar a cidade sem aumentar a sua pegada de carbono.
É claro, a ironia de ser um early adopter é que, uma vez que a tendência que adoptaram e que consideraram inovadora, se torna mainstream, é ter de passar para algo mais obscuro e desconhecido. Esse é o problema de se ser um espírito tão independente: há que manter o movimento.

Depois da canseira que foi reunir alguns dados sobre esta curiosa tribo urbana, a Gaffe vai procurar um amigo com mais de trinta anos, um ar de lenhador robusto, vestido com um Harry tweed sólido e possante, para desanuviar o ambiente.

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A Gaffe de TGV

rabiscado pela Gaffe, em 07.08.13

B. Marley

Quando a C. cedeu ao meu ataque de orgulho nacional e concordou em ir comigo, de comboio, às Terras do Douro, socalcos fora, vinhas dentro, eu devia ter desconfiado, porque:

1As decisões tomadas de forma imediata e consideradas inabaláveis pela C., não devem ser tidas como certas. Devemos sempre elaborar um plano B.

2 –Os únicos contactos que a C. deseja ter com a Natureza, é sentir nas costas o vison da mãe, aquele que arrasta um pedacinho no chão (perto da mãe, a filha é minúscula).

3 - Foi altamente suspeito o telefonema da minha querida amiga, na véspera do passeio, a perguntar se podia substituir a viagem pela leitura do Vale Abrãao ou pelo aluguer do filme com o mesmo nome.

- Daquele senhor que toda a gente acha lento, mas que eu não acho nada, porque lentos são ... os velhos...os trapos ... os trapos velhos. - A rapariga nunca se entendeu muito bem com os ditos populares.

Fui inabalável. O Douro é deslumbrante. O comboio é fabuloso. Os turistas noruegueses também.

É claro que nos distraímos por alguns momentos, especadas a olhar os socalcos dos gigantes loiros. É claro que segui um deles para lhe acender o cigarro. Detesto ver gente a olhar para mim com olhos suplicantes. Vi logo que o rapaz não tinha lume. É claro que voltei depressa para o meu lugar, juntinho da minha companheira de viagem. Comigo o sim é sim e o não é não. O resto é do Demónio (S.Mateus - Versículo 43)*. O norueguês era o Satanás.

A C. estava mergulhada na janela, a espreitar a paragem.

- Onde é que já estamos? – Pergunto eu ligeiramente frustrado com a experiência nórdica.

- Olha a maçada! Acho que andamos às voltas! Estamos outra vez em Urinóis.

É por isto que não quero ouvir falar em TGV. Continuo a achar piada aos comboios que param em todas as estações, apeadeiros e... urinóis.

*Não faço ideia se S.Mateus disse isto, mas achei que era a cara dele.

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A Gaffe compra um cão

rabiscado pela Gaffe, em 06.08.13

(Marc Jacobs & Neville)

Rapazes, se não tiverem o simpático bull terrier Neville como companheiro de trela, nem considerem haver a mínima possibilidade de serem confundidos com Marc Jacobs, evitem, nos recônditos da terra onde se palmilham as pedras da calçada portuguesa, a ousadia experimental de umas calças lassas de algodão breve e leve, estampadas com ramagens quase tropicais.

As calças escapam à mordedura de Neville, mas jamais se manterão ilesas quando abocanhadas pelos olhos dos machos gentios que, apesar de latir como danados, acabam também por ferrar e estraçalhar os ramalhetes menos comuns. 

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A Gaffe revoltada

rabiscado pela Gaffe, em 06.08.13

Sou uma criatura metafórica. Faço rodar as frases na mó de linguísticos moinhos e nunca consegui a cristalina pureza das tiradas simples.

Sou textualmente retorcida, palavrosamente complicada e no Éden seria, não serpente, demasiado óbvia, excessivamente ali, mas uma lagartixa com a mania que é um dragão, com laivos de barroco inúteis, a pairar, asas abertas e boca a palrar fogo, por cantos e recantos já confusos, esconsos labirintos confundidos.

Um ramalhete de parras, nunca a solitária que pudicamente cobriu as naturezas cruas dos Primeiros.

O maior erro de um parágrafo é não saber desalojar palavras.

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A Gaffe invisível

rabiscado pela Gaffe, em 05.08.13

Tenho uma amiga a quem foi oferecido um inacreditável anel de noivado composto por uma aliança de platina, larga, lisa e por bolear, onde os sete diamantes, com um número de quilates que me arrepiam só de pensar que tenho de os somar, estão incrustados no interior.

De acordo com o apaixonado, os olhos não conseguem ver o que de mais importante tem a vida.

Embora reconheça o sofisticado romantismo, confesso que não poder cegar as adversárias com o brilho ofuscante dos nossos melhores amigos, é uma desvantagem que toda a rapariga esperta deve considerar, mas admite que um rapaz que escolhe a direcção de Lia di Gregorio para se ajoelhar aos nosso pés oferecendo-nos aquele sedutor invisível para os outros, mas que sabemos nosso e palpável, acaba por nos entregar também a mais incontornável prova de que é um romântico ligeiramente pateta, mas um daqueles que nos faz merecer a condenação à morte se o perdermos.     

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