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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe e o hipster

rabiscado pela Gaffe, em 09.08.13

Um hipster é, normalmente, um jovem adolescente oriundo da década de 1990, associado principalmente com o non-mainstream e que acaba por se tornar para a Gaffe um interessantíssimo objecto de estudo, sobretudo sabendo que, para os elementos desta tribo, as peças que se vestem são tão importantes quanto as peças que se ouvem.

Como em todas as tribos urbanas, há variantes conhecidas, sendo as mais representativas a American Apparel, H & M, ASOS, Cobrasnake e os Urban Outfitters, mas a Gaffe acha demasiado fastidioso debruçar-se sobre miudezas e vai directa ao cerne da questão.

Vejamos:

Para estas amorosas criaturas a griffe é de evitar. Uma loja vintage é um must onde podem desbravar caminho bamboleando os seus corpos magros, quase escanzelados, dentro dos seus famosos e tão desejados Jeans skinny 2Wear, usados, quanto mais apertados melhor, por ambos os sexos (embora as meninas prefiram leggings, jeggings, treggings ou, em alternativa as usadas jeans Mãe).

Os óculos são quase imprescindíveis. Os hipsters amam óculos, sobretudo os bem-dispostos, como os grandes de armação de plástico, óculos de Buddy Holly, óculos de nerd, e - para os que os podem pagar - autênticos Ray Ban Wayfarers de todas as cores do arco-íris. Mesmo não sendo pitosgas, de todo, substituem as lentes graduados por vidros inofensivos. Coadjuvando estes acessórios, são boas escolhas as t-shirts irónicas, as camisas xadrez, as camisas de cowboy e qualquer coisa em gingham, xadrez, paisley ou com estampados florais vintage, salpicados por imagens de animais ou de florestas, personagens de programas de TV para crianças e grafismos trocistas.

As raparigas ficam fascinadas por vestidos de preferência vintage, florais ou com rendas, sendo o armário das santas avós um manancial de sonho, embora a hipster saiba costurar, adaptando a velharia empoeirada sem quebrar o encanto do antigamente das estrelas.

A colecção de sapatos inclui botas de cowboy, Converse, e uma reduzida gama de apontamentos que passam pelos Reeboks clássicos, os Doc Martens ou por um encontro vintage com um sapateiro de esquina. Não usam crocs, felizmente!

Para as meninas, os saltos não são de todo populares. As sandálias, os tênis, as botas e as botinas da santa avó são mais práticos e mostram o quão pouco esforço foi dispendido na escolha do calçado (mesmo que tenha ficado sem pele nos calcanhares só para encontrar o par perfeito).

 Existe uma vasta gama de acessórios, incluindo grandes bandoletes de flores, esmaltes neon, alfinetes, cintos brilhantes, colares de pássaros, estampados e leggings coloridas. A hipster não se pode lamentar da falta de tralha que pode associar ao seu allure e não se esquece de um pequeno toque carpinteiro patente nas pequenas cicatrizes, supostamente adquiridas ao trabalhar madeira e dos sacos de correio (nunca uma mochila!), de preferência Freitag, onde pode guardar à vontade o seu MacBook, iPhone, e discos de vinil (nunca CD) da sua actual banda favorita.

Tudo muito irónico, quase zombeteiro, quase sarcástico. Não esquecer que o uso de peças que não se ajustam ou condizem é claramente hipster e que o ar de eu não posso ser incomodado é relevante, embora leve algum tempo a apurar, porque, com uma auto-estima elevada e não recusando um belíssimo spa, uma cuidada manicure, ou um completo kit de maquilhagem, o hipster o que mais quer é ser abordado e reconhecido, embora aceite publicamente que estes mimos são apenas uma submissão confrangedora aos ideias de beleza vigentes.

Penteados desengonçados são um achado. O bed look, o cabelo despenteado, longo e que resiste a todas as tentativas para ficar liso, sem produtos químicos, é oiro sobre azul (que pode tingir de forma óbvia a cabeleira hipster).

O importante é uma mistura de sobriedade, respeito pelo que chega do passado e um desejo de demonstrar que as coisas novas não definem ninguém. Naturalmente, é preciso lutar contra a inconsistência desta directriz perante o amor novinho em folha reflectido no maravilhosamente actual produto da Apple.

O hipster está interessado em exibir abertamente seu amor por qualquer coisa indie, expondo-se à literatura existencialista, à angústia existencial, à busca de propósito e de valor interno, perguntando o significado de tudo ou à filosofia niilista e a uma consciência cultural superior considerando que tem um dedo apontado para o que há de podre no centro de tudo. Entretanto, os dedos restantes sentam-se numa esplanada tomando mocha lattes enquanto navegam no Mac ou no iPad várias horas por dia, porque estão ligados globalmente, graças à Internet, à procura sobretudo de áreas como arte, arte gráfica, matemática e ciências, música ou moda que, embora não sejam escolhas essenciais, são provavelmente uma saída natural para a sua criatividade.

Procuram Jack Kerouac, Alan Ginsburg, e Norman Mailer (ou qualquer outro autor que tenha produzido livros com um número imenso de páginas), adoram shows de Ann Liv Young, amam Wes Anderson, Hal Hartley e os filmes de Jim Jarmusch, música Indie ou nu-rave, techno minimalista, rap independente, nerdcore, garage rock, rock clássico (Beatles geralmente), e punk rock.

Apesar de maioritariamente vegetariano (se come carne, afirma que a escolha é apenas uma transcendência cínica das tentativas fúteis vegetarianas de salvar o mundo e que o seu senso de ironia já considerou este movimento obsoleto), o hipster adora fazer refeições gourmet logo após ter passado horas a actualizar o Blogspot, o Wordpress ou Tumblr publicando as imagens captadas com a sua câmera Holga.

Não conduz um carro caro, aliás, nem sequer possui um carro. É um desperdício de gás e dinheiro e o problema do estacionamento desgasta o cérebro. Anda de bicicleta de pneus skinny, genuína sela de couro Brooks e sem freio dianteiro e mesmo não possuindo uma, certifica-se que arregaça a perna direita da calça para parecer que acabou de cruzar a cidade sem aumentar a sua pegada de carbono.
É claro, a ironia de ser um early adopter é que, uma vez que a tendência que adoptaram e que consideraram inovadora, se torna mainstream, é ter de passar para algo mais obscuro e desconhecido. Esse é o problema de se ser um espírito tão independente: há que manter o movimento.

Depois da canseira que foi reunir alguns dados sobre esta curiosa tribo urbana, a Gaffe vai procurar um amigo com mais de trinta anos, um ar de lenhador robusto, vestido com um Harry tweed sólido e possante, para desanuviar o ambiente.

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