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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe viçosa

rabiscado pela Gaffe, em 30.09.13
(do florista Parker Fitzgerald)

Se um desconhecido lhe oferecer flores, não fique intrigada e não rejubile! Pode ser apenas o homem dos sorvetes e, como toda a rapariga esperta já se apercebeu, não abundam os impulsos, por muito floridos que sejam, que conseguem apagar a canícula retida nas axilas de alguns.  

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Gavetas:

A Gaffe no olhar

rabiscado pela Gaffe, em 29.09.13
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A Gaffe, quando os dias se arrastam pelas tardes do final do Verão e lhe provocam uma letargia pouco inteligente, diverte-se a divagar pelos cardumes das pequenas e irrisórias brisas e sopros, ventanias e nortadas que assolam as praias do Norte.
Estes devaneios descontraem-na, relaxam-na e não causam dano a qualquer banhista.

Se observarmos, por exemplo, uma parte ínfima dos olhares que passa pela areia sem deixar cicatriz, encontramos facilmente os mais frequentes e banais, normalmente esquecidos ou ignorados.

Dentro desta gama pouco importante, a Gaffe regista os três ou quatro mais peculiares e, apesar de tudo, com mais algum interesse do que os congéneres.

Existem os abrasadores que geralmente partem do sexo feminino, acompanhados por rebentar de alças de soutien e mordidelas no lábio inferior da dona. Não resultam com ninguém, a não ser com maníacos com impulsos sexuais desenfreados ou com matulões distraídos a cheirar a testosterona e a suor e com fio dental cravado nos dentes de trás. São também usados de modo recorrente (embora sem soutien) por trogloditas que mimam gnus na época do cio. Não provocam a mais pequena reacção BCBG, porque não se contrariam os instintos de uma criatura sofisticada, passageira de cruzeiro pelas ilhas, com canas de pescar no rio. 

Existem os olhares dos rapazinhos engraçados e patetas, que fazem surf, praticam bodyboard e se babam sempre que lhes sorri uma rapariga de bikini. Cavalgam as ondas da ilusão mais tonta, acreditando que são as pestanas que fazem tilintar o isco perfeito. Não trazem consequências, porque de adolescentes estúpidos já temos, nós, raparigas espertas, a lista preenchida (esta exclusão não é aplicada a morenos musculados, de olhos verdes, com mais de 1.80m e calções Dolce e Gabanna).

Tombam na areia, depois de esvoaçar como papagaios de papel, os olhares de rapazes vagamente parecidos com o Johnny Deep acompanhados por Barbies. Não resultam sempre que se mostram esquivos, tentando renegar de forma pouco convincente as suas origens e os seus mais clandestinos desejos. Geralmente trazem consequências penosas para a boneca e muito agradáveis para um ou outro Ken.

Há que referir, para completar o número indicado, os olhares desprevenidos. Os portadores só se dão conta que olharam para nós depois de lhes ter sido levada toda a possibilidade de escapar. Geralmente abrem os olhos espapaçados nas redes das nossas pescas e com guelras de quem espera o paraíso, mas que de lá vem com equimoses nas escamas.

Há, no entanto, dentro deste grupo, descartável e inútil, olhares que provocam exactamente aquilo em que todas estamos a pensar. São como que os X files dos olhares de praia: existem, não convém que tal se admita, duram pouco e é sempre destacado alguém, sem rede, para os dissecar. A Gaffe falará deles e de mais alguns outros quando o Inverno apagar as pegadas que todos deixam na areia que se esvai por entre os dedos do Verão a findar.

Se os olhos são espelhos da alma, há sempre alguns que necessitam de retocar as pestanas ou de corrigir o desgaste do nitrato de prata. 

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A Gaffe das botas

rabiscado pela Gaffe, em 28.09.13
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Quando o travo inconformado da aventura é picotado pela rigidez da contenção, todas os caminhos são promessas de viagens sem horários de chegada.

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A Gaffe num beijo

rabiscado pela Gaffe, em 28.09.13
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Há beijos fáceis de periodizar. São como livros. Nos primeiros parágrafos encontramos a época que os produziu e percebemos quase no imediato o pulsar do tempo em que tiveram as suas primeiras edições.

Há beijos medievais, de torneio colorido, de cantiga de amigo ou de inventar de amor, de maldizer o escárnio. São beijos de armadura, lances de espada e escada de torre sem ameias. São quase amor cortês, quase que trazem presos na língua os lenços de donzelas coroadas e cascos de cavalos brasonados.

Há beijos renascença, descoberta. De cachos de uvas de ouro nos vestidos e janelas voltadas para Florença. Beijos cinzelados, erguidos numa praça em que a boca é catedral pagã onde o poder é humano e onde há poetas e pincéis ensandecidos a parir deslumbre. São beijos de murais e de reboco fresco. São beijos dos Infernos ou portas vaticanas.

Há beijos que se arrastam nos salões da carne. Beijos partitura para cravo. Brocados e decotes rebuscados. Beijos que brincam nos jardins simétricos dos lábios e usam laços para prender as pombas. São beijos com sinais no rosto e cabeleiras. Beijos com leques e rendas no púlpito dos anjos.

Há beijos dolorosos. Desejam a ardência do ficar dentro de nós e ter ao mesmo tempo a plenitude dos universos longínquos que se perdem na boca dos beijados. Ardem no peito, amenos ou horrendos, paisagens desgrenhadas ou abismos onde se tomba de alma toda inteira, irremissível pecado e salvação. São beijos luminárias.

Há beijos só em carne viva. Beijos que esquadrinham sem pudor. Observam e revelam. São quase descritivos, quase a vida toda dissecada. São beijos bisturi.

Há beijos trepidantes, quase exaustos. Cruzam paisagens. Recortam-se no espaço atravessados por velas de navios e tabaco. Farrapos de outros lados exauridos. São beijos desunidos.

Há beijos opiáceos, Oriente e luxo. Volúpia e decadência e exotismo onde os sentidos se amarfanham como as rodilhas brancas de um piano ou os voos coloridos, doloridos, de dandy que se esgota em absinto e morte.

Há beijos que se querem.

Outros não.

E há depois o teu.

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A Gaffe e o gémeo mau

rabiscado pela Gaffe, em 27.09.13

Confesso que cheguei a ele porque estava recortado, mas fiquei imediatamente rendida à lucidez, ao invejável poder de síntese e à subtil timidez que se adivinha na discrição e na reserva de uma clara inteligência imediatamente perceptível.

Um blog acabado de nascer, mas já tão crescido!

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Gavetas:

A Gaffe sem estrelas

rabiscado pela Gaffe, em 27.09.13
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Rapazes, se tiverem já ultrapassado os trinta, não ousem atravessar os nossos trilhos com ténis All Star Converse nos pés!

Um homem bem amadurecido não anda aos pulinhos no recreio de um adolescente e, sábio, reconhece que os nossos mais atraentes demónios podem não calçar Prada, mas nunca enfiam os cascos em terreno movediço, mesmo que para tal tenham de perder as botas.      

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Gavetas:

A Gaffe acautelada

rabiscado pela Gaffe, em 27.09.13
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É-nos dito que os homens preferem as loiras, mas uma rapariga esperta e arejada tem sempre presente que existem outras colorações no mercado.

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Gavetas:

A Gaffe aborrecida

rabiscado pela Gaffe, em 26.09.13

Prometo que é a última vez que faço nós de gravata.

Se tiver de enrolar o que quer que seja ao pescoço de um bom rapaz (a ordem pode ser invertida e o adjectivo pode passar para a frente) que sejam apenas os meus braços.  

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Gavetas:

A Gaffe canina

rabiscado pela Gaffe, em 26.09.13

A Gaffe já tem vizinhos! 

Um casal pouco mais velho do que ela, composto por uma ginecologista e um dentista (boca e dentes, próteses e implantes). Duas honradas especialidades que, se pensarmos bem, não surpreende vermos unidas pelo sagrado laço do matrimónio.

O senhor é rechonchudo, redondinho, baixinho, com uma calvície a despontar prometedora, olhinhos piscos e mãozinhas papudas. É fácil encontrar reproduções a correr esbardalhados nas manhãs dos quinze dias de praia, com os bracinhos a fazer de ventoinhas e a tentar chegar com as palmas das mãos aos joelhos (é mais fácil cumprir as metas da Troika do que chegar com eles às pontas dos pés). Simpático e palrador, já trocou com a Gaffe impressões sobre o tempo, quando se cruzaram no hall.

A senhora é franzina, minúscula, esbranquiçada, com farripas, de permanente a desfazer-se, cor de palha molhada, na cabeça e olhos inquisidores. Olhou para a Gaffe como se ela fosse, inteirinha, um dos locais que costuma analisar. É antipática, seca e não fala do tempo (o que, como toda a gente sabe, dificulta imenso o estabelecer de relações cordiais).

A Gaffe não planeia convidar o casal para jantar, mas suspeita que vai ter a banda sonora dos vizinhos sentada à mesa.

Existe um cão. Uma máquina de latir, um ladrar que encarnou num pechisbeque, uma criatura ínfima, um croquete com quatro palitos espetados, uma esbugalhada almôndega com orelhas, um ácaro castanho que buzina.

Um pincher!

O bicho deve ter incorporado um poderoso detector de movimento. Qualquer gesto insinuado faz disparar o alarme estilhaçando o sossego, esfacelando os nervos e espetando agulhas nas mais macias horas do anoitecer.

Os apartamentos estão insonorizados, mas as varandas contíguas estão separadas apenas por placas de vidro fosco, a Gaffe ainda não tem mobília de sala de jantar (anda apaixonada por umas cadeiras maravilhosas da AROUNDtheTREE e a ganhar coragem para as encomendar sem ficar catatónica perante a conta apresentada pelos designers) e a sala despovoada é gigantesca. Os sons fazem eco! O ladrar da bactéria chega estereofónico.   

A Gaffe sempre pensou que é sempre bom ter um cão para nos amar sem condição, assim como é útil ter um gato para sermos desprezados, mas confessa admitir que um pincher psicopata não é a uma escolha passível de se enfiar num apartamento com uma ruiva nervosa e muito dada a ataques de fúria assassina a morar ao lado. Corre-se o risco de encontrar o bichinho com os dentes escacados e com um foguete pronto a ser disparado espetado num sítio muito próximo do local onde a dona trabalha.

Nestes domínios, e neste condomínio, o pecado mora sempre nos dois lados.

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Gavetas:

A Gaffe musical

rabiscado pela Gaffe, em 25.09.13

Dizem que cada um de nós deveria ter associada uma banda sonora uniforme e coesa que reproduzisse, em cada dia que passa, o modo como projectados a alma nas ruas.

A Gaffe não concorda inteiramente. Para cada hora uma canção colhida ao acaso do tempo a passar, porque todas as horas cantam de modo diferente.

Musiquemos, por exemplo, o dia de ontem:

 

07:00 h. - A Gaffe acorda ao som de Nina SimoneFelling good – arrasando no duche;

08:00 h. - Shigeru UmebayashiSorekara - vago sabor oriental que entrega a doçura e a calma a um dia que se anuncia trepidante;

09:00 h. - Charlie ChaplinSmile - para sair de casa a acreditar na manhã aberta;

10:00 h. - Kristin Asbjørnsen - Slow Day – como se houvesse tempo para tudo;

11:00 h. - Sctott MatthewEvery Traveled Road – calcorreando todas aos caminhos;

12:00 h. - A Single Man - Daydreams  -  porque é tempo de olhar devagar os sonhos que passam;

13:00 h. - Neil Hannon - Cathy – porque almoçar com a C. é sempre uma palavra que não sei dizer;

14:00 h. - Aretha Franklin - Drinking Again – há sempre uma saudade que a flutuar num copo;

15:00 h. - Skye - Not Broken – porque existem asas pela tarde;

16:00 h. - Jay Jay Johanson - Far Away – porque há distâncias nos lugares que nunca temos;

17:00 h. - Billy Paul - Me & Mrs Jones – a Gaffe substitui, leve e brevemente, o Mrs pelo Mr.;

18:00 h. - Art Mengo & Ute Lemper -  Parler d'amour – Porque mesmo o cedo é sempre tarde para dele falar;

19:00 h. - Terry Callier - What Color Is Love – porque todas as cores são possíveis;

20:00 h. - Melinda Doolittle - How Can You Mend A Broken Heart – A Gaffe também não sabe;

21:00 h. - Lizz Wright - Soon As I Get Home – porque uma casa espera sempre;

22:00 h. - Radka Toneff - Nature Boy - porque navegar é preciso;

23:00 h. - Goldmund - An Invisible Light – no centro de todas as visíveis;

24:00 h. - Jana Hunter - Sleep  – e a Gaffe  adormece - Tord Gustavsen Ensemble - Lay Your Sleeping Head My Love.

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A Gaffe inglesa

rabiscado pela Gaffe, em 25.09.13

São estes criativos marotos que baralham imenso o senhor Professor!

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Gavetas:

A Gaffe de Manuela Moura Guedes

rabiscado pela Gaffe, em 24.09.13

Não tenho paciência para assistir durante muito tempo a concurso onde  se esbardenha  gente que não faz ideia de quem fala na obra de Nietzsche ou de quem não sabe que Lewis Carroll estaria hoje envolvido no processo Casa Pia, mas confesso que fui espreitar o regresso de Manuela Moura Guedes.

Moura Guedes sempre foi uma das minhas mulheres favoritas e uma jornalista capaz de enfrentar toiros bravos com emotividade, coragem e sem qualquer medo de se enfurecer quando era gritante o escândalo que se procurava camuflar. Reflectia nesses instantes de desgoverno e de irritação impetuosa aquilo que o espectador sentia impotente aos pulos na poltrona.

Não tem de Judite de Sousa a pose de diva intocável e omnipotente nem os olhos de carneirinho divino e cândido, o que lhe dá primazia nas minhas preferências, e, apesar de nem sempre ter aplaudido as suas escolhas editorais, merece-me o respeito a que todo o profissional empenhado e competente tem direito.

Durante os breves instantes em que assisti ao concurso que agora apresenta, Manuela Moura Guedes pareceu-me eficaz, simpática, elegante, correcta, balançando entre o papel de mazinha da fita, capaz de provocar hesitação no sábio mais renitente e convencido e a cúmplice benevolente dos que tremiam perante uma constrangedora ignorância posta a nu.

Não causa qualquer dano, não belisca qualquer dignidade, mesmo a mais hipócrita, e não provoca aquela mesquinha satisfação, apanágio dos medíocres que, pela calada das esquinas mais esconsas, sentem quando o rival parece já vencido e que se esquecem que não é conveniente bater em alguém que tombou momentaneamente, porque, para além de outras razões mais evidentes, o tombado se pode levantar e ser maior do que o agressor.

Manuela Moura Guedes está perfeita. Sem exageros tontos de cómicos de bairro, sem exuberantes descargas de vedeta parva, sem a alarve gargalhada dos mais rechonchudos rapazes de barbicha telegénica, sem a descompostura histriónica das noites a dançar e sem a tresloucada e doentia presença de quem obriga o pobre concorrente a comer sapos.

Foi um prazer revê-la. 

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A Gaffe قبلي

rabiscado pela Gaffe, em 24.09.13

 

The look of Love is like Siroc, the Mediterranean wind that comes from the Sahara and reaches hurricane speeds in the sea of my eyes.

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A Gaffe gelada

rabiscado pela Gaffe, em 23.09.13
Nigel Cabourn
A Gaffe quer o rapaz do Ártico!

Blusões por cima de camisolas grossas, capuz, gorro, luvas, botifarras, calças de fazenda com padrão discreto (o cinza riscado a azul é o favorito) trench-coatcache-col macio.

Blindado. Couraçado. Chaimitizado. Nem que nos pés lhe cresçam as lagartas.

O excesso de calor vicia todas as defesas que uma rapariga esperta usa para escapar aos braços do rapaz que pertence ao Verão.

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Gavetas:

A Gaffe e as mil e uma noites

rabiscado pela Gaffe, em 23.09.13

Dito kadum

Há criaturas que deviam ser açaimadas! 
Acabo de passar cerca duas horas com um jovem Apolo, moreno e poderosamente atraente, a papaguear e a encharcar todo o meu espaço com os mirabolantes episódios da sua vida inteira, enquanto eu tentava adivinhar qual seria o melhor método de lhe enfiar as próprias cuecas na boca para depois lhe amordaçar o resto do corpinho, mas no mais profundo dos silêncios. 
Quando Sherazade é só um corpo, todas as palavras se vão perder na história.

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