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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe pipoqueira

rabiscado pela Gaffe, em 12.09.13

Uma rapariga esperta tem uma posição claríssima em relação aos piropos.

É evidente que os chegados de manequins internacionais, daqueles que podem desfilar cobertos pelas colecções de Inverno que apenas os conseguimos ver de lingerie ou num Verão nudista, nos enchem as medidas e nos aproximam de prazeres impensáveis. As posições que em relação a eles temos são as evidentes e as mais lógicas. Passamos o resto da vida com o ego aos pulos no pico do Everest.
Uma maçada e um incómodo são as agressões verbais vindas daqueles que facilmente se podem considerar tralha, mas essas jamais se poderão incluir na colecção de piropos, brevíssimos elogios e passageiras brisas que esvoaçam quando passamos. São apenas ditos grotescos normalmente vindos de broncos com bigodes engordurados, jeans a amassar os sintomas desesperantes da idade e camisas ao xadrez suado e apertado, abertas no peito, onde se perde no meio dos pêlos um crucifixo de ouro. Todos usam a mesmíssima indumentária nas suas alminhas raquíticas, mesmo que a alma provenha de boas famílias.
Perante estes podemos reagir à estalada, com a biqueira do sapato ou com o tacão (dependendo da posição do agressor) ou atravessar impávidas e nobres a massa gordurosa do insulto.

Não são piropos, são crimes.

Mas todas as raparigas espertas sabem contornar, utilizar em proveito próprio ou fazer render as desgraças com que tropeça na rua.

Salta-me sempre à memória, sempre que o assunto salta à rua, o episódio arquitectónico que servirá para ilustrar a possibilidade que sempre nos surge de reciclar o lixo.   

Quando foi descoberto, no meio das silvas e do lixo, o caixilho de granito de uma janela romântica, a jovem e jovial matemática, casada em segundas núpcias com um nababo das confecções, decidiu que o queria, sem apelo ou remedeio, cravada na parede por cima da lareira.

A minha querida amiga R., arquitecta genial e mulher deslumbrante, solar, belíssima e sumptuosa, tinha refeito as ruínas com um desvelo e empenho inusuais. A lareira gigantesca fora redesenhada ao pormenor e transformada no centro da casa, o ponto de foco, o coração, o ninho e a partida. Nada deveria ou poderia ser acrescentado ou alterado, mas a jovem e jovial matemática desejava que o mamarracho ficasse colado à parede, sem sequer perceber que as duas peças, antes de se anularem mutuamente, se esgadanhavam de forma chocante.

Corremos. Eu arrastada por estar no lugar errado, na hora de ponta.

Já no campo de batalha soltam-se os corvos.

- És BOA! Passava-te toda a pano! MATULONA! Comia-te as pipocas, oh! BOAZONA! Perdia-me todo a mastigar-te!

Pérolas.

A R., sem o código do capacete branco, intimidador, interrompe amiúde o enervante monólogo acerca das incompatibilidades estéticas e da impossibilidade de encaixar uma esboroada e caquéctica ruína na limpidez do projectado.

- Gaja do caraças! BOA comómilho! Mostrava-te o paraíso! Fazia-te as pipocas! Trincava-tas todas!

Silêncio.

A R. roda o corpo subtilmente de forma a apanhar o foleiro D.Juan na rede dos olhos homicidas. Identifica-o. Um rapazito imberbe, enfezado, minúsculo, de cuequitas a furar as calças, lançador de dardos que se esconde atrás das risadinhas levianas dos outros camaradas.

A minha amiga ergue o olhar e encontro-lhe dentro o mais improvável dos constrangimentos, o mais paradoxal dos embaraços.

Que má leitura a minha!

- Não sejas idiota. Estou só incomodada por imaginar o que vai acontecer ao pobre tipo.

Depois, num gesto inconcebível, enfia as garras no decote imenso e descarada e rude compõe o soutien. Finalmente o tigre avança lento em direcção à presa.

- Tens dez minutos, rapazito, para me provares que cumpres o que dizes. Dez minutos de pipocas. Depois morres.

O petrificado imbecil encolhe, mirra, esfarela, definha e esmorece, abafa a bazófia que a morte já tem certa.

A R. espera dentro do silêncio que desabou como um bicho morto no meio da salada de cimento. Roda depois sem mais palavra e ondulante regressa ao ponto de partida.

Ronrona o tigre:

- Minha querida, se quiser o caco podre por cima da lareira vai ter de dar as suas pipocas, ali, ao minorca porta-voz da trolharada.

A lareira ficou de acordo com projecto inicial.

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