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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe aborrecida

rabiscado pela Gaffe, em 26.09.13

Prometo que é a última vez que faço nós de gravata.

Se tiver de enrolar o que quer que seja ao pescoço de um bom rapaz (a ordem pode ser invertida e o adjectivo pode passar para a frente) que sejam apenas os meus braços.  

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A Gaffe canina

rabiscado pela Gaffe, em 26.09.13

A Gaffe já tem vizinhos! 

Um casal pouco mais velho do que ela, composto por uma ginecologista e um dentista (boca e dentes, próteses e implantes). Duas honradas especialidades que, se pensarmos bem, não surpreende vermos unidas pelo sagrado laço do matrimónio.

O senhor é rechonchudo, redondinho, baixinho, com uma calvície a despontar prometedora, olhinhos piscos e mãozinhas papudas. É fácil encontrar reproduções a correr esbardalhados nas manhãs dos quinze dias de praia, com os bracinhos a fazer de ventoinhas e a tentar chegar com as palmas das mãos aos joelhos (é mais fácil cumprir as metas da Troika do que chegar com eles às pontas dos pés). Simpático e palrador, já trocou com a Gaffe impressões sobre o tempo, quando se cruzaram no hall.

A senhora é franzina, minúscula, esbranquiçada, com farripas, de permanente a desfazer-se, cor de palha molhada, na cabeça e olhos inquisidores. Olhou para a Gaffe como se ela fosse, inteirinha, um dos locais que costuma analisar. É antipática, seca e não fala do tempo (o que, como toda a gente sabe, dificulta imenso o estabelecer de relações cordiais).

A Gaffe não planeia convidar o casal para jantar, mas suspeita que vai ter a banda sonora dos vizinhos sentada à mesa.

Existe um cão. Uma máquina de latir, um ladrar que encarnou num pechisbeque, uma criatura ínfima, um croquete com quatro palitos espetados, uma esbugalhada almôndega com orelhas, um ácaro castanho que buzina.

Um pincher!

O bicho deve ter incorporado um poderoso detector de movimento. Qualquer gesto insinuado faz disparar o alarme estilhaçando o sossego, esfacelando os nervos e espetando agulhas nas mais macias horas do anoitecer.

Os apartamentos estão insonorizados, mas as varandas contíguas estão separadas apenas por placas de vidro fosco, a Gaffe ainda não tem mobília de sala de jantar (anda apaixonada por umas cadeiras maravilhosas da AROUNDtheTREE e a ganhar coragem para as encomendar sem ficar catatónica perante a conta apresentada pelos designers) e a sala despovoada é gigantesca. Os sons fazem eco! O ladrar da bactéria chega estereofónico.   

A Gaffe sempre pensou que é sempre bom ter um cão para nos amar sem condição, assim como é útil ter um gato para sermos desprezados, mas confessa admitir que um pincher psicopata não é a uma escolha passível de se enfiar num apartamento com uma ruiva nervosa e muito dada a ataques de fúria assassina a morar ao lado. Corre-se o risco de encontrar o bichinho com os dentes escacados e com um foguete pronto a ser disparado espetado num sítio muito próximo do local onde a dona trabalha.

Nestes domínios, e neste condomínio, o pecado mora sempre nos dois lados.

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