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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe no olhar

rabiscado pela Gaffe, em 29.09.13
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A Gaffe, quando os dias se arrastam pelas tardes do final do Verão e lhe provocam uma letargia pouco inteligente, diverte-se a divagar pelos cardumes das pequenas e irrisórias brisas e sopros, ventanias e nortadas que assolam as praias do Norte.
Estes devaneios descontraem-na, relaxam-na e não causam dano a qualquer banhista.

Se observarmos, por exemplo, uma parte ínfima dos olhares que passa pela areia sem deixar cicatriz, encontramos facilmente os mais frequentes e banais, normalmente esquecidos ou ignorados.

Dentro desta gama pouco importante, a Gaffe regista os três ou quatro mais peculiares e, apesar de tudo, com mais algum interesse do que os congéneres.

Existem os abrasadores que geralmente partem do sexo feminino, acompanhados por rebentar de alças de soutien e mordidelas no lábio inferior da dona. Não resultam com ninguém, a não ser com maníacos com impulsos sexuais desenfreados ou com matulões distraídos a cheirar a testosterona e a suor e com fio dental cravado nos dentes de trás. São também usados de modo recorrente (embora sem soutien) por trogloditas que mimam gnus na época do cio. Não provocam a mais pequena reacção BCBG, porque não se contrariam os instintos de uma criatura sofisticada, passageira de cruzeiro pelas ilhas, com canas de pescar no rio. 

Existem os olhares dos rapazinhos engraçados e patetas, que fazem surf, praticam bodyboard e se babam sempre que lhes sorri uma rapariga de bikini. Cavalgam as ondas da ilusão mais tonta, acreditando que são as pestanas que fazem tilintar o isco perfeito. Não trazem consequências, porque de adolescentes estúpidos já temos, nós, raparigas espertas, a lista preenchida (esta exclusão não é aplicada a morenos musculados, de olhos verdes, com mais de 1.80m e calções Dolce e Gabanna).

Tombam na areia, depois de esvoaçar como papagaios de papel, os olhares de rapazes vagamente parecidos com o Johnny Deep acompanhados por Barbies. Não resultam sempre que se mostram esquivos, tentando renegar de forma pouco convincente as suas origens e os seus mais clandestinos desejos. Geralmente trazem consequências penosas para a boneca e muito agradáveis para um ou outro Ken.

Há que referir, para completar o número indicado, os olhares desprevenidos. Os portadores só se dão conta que olharam para nós depois de lhes ter sido levada toda a possibilidade de escapar. Geralmente abrem os olhos espapaçados nas redes das nossas pescas e com guelras de quem espera o paraíso, mas que de lá vem com equimoses nas escamas.

Há, no entanto, dentro deste grupo, descartável e inútil, olhares que provocam exactamente aquilo em que todas estamos a pensar. São como que os X files dos olhares de praia: existem, não convém que tal se admita, duram pouco e é sempre destacado alguém, sem rede, para os dissecar. A Gaffe falará deles e de mais alguns outros quando o Inverno apagar as pegadas que todos deixam na areia que se esvai por entre os dedos do Verão a findar.

Se os olhos são espelhos da alma, há sempre alguns que necessitam de retocar as pestanas ou de corrigir o desgaste do nitrato de prata. 

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