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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe ferruginosa

rabiscado pela Gaffe, em 31.10.13
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Rapazes, deixem-se tocar pelos dedos queimados do Outono, pela ferruginosa luz de todas as texturas que não se contradizem e que tombam na voz de Yves Montand nas tardes de folhas mortas nos bancos de jardins antigos.

Nenhuma rapariga esperta vos resiste quando nas vossas mãos existe uma paisagem ruiva a tremer de frio.  

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Gavetas:

A Gaffe cultural

rabiscado pela Gaffe, em 30.10.13

A Gaffe acredita que o problema está na pasta.

A cultura em Portugal sempre teve Ministros e Secretários de Estado com demasiado pouco para fazer no Ministério.

A Gaffe revisita-os, fazendo como nos sorteios da Santa Casa, retirando do bolso o nome de alguns (dos que se lembra) e logo sem qualquer ordem de chegada.

João de Deus Pinheiro – durante o seu mandato provou que o Ministério da Cultura não envelhece. João de Deus Pinheiro nunca mostrou um cabelo branco.

Santana Lopes – A Gaffe sempre ambicionou ser uma santanete cultural, mas infelizmente o patrono estava sempre de fita na cabeça e ar malandro, ocupado a balançar o mandato nas pistas de dança acrobática das santanetes das outras.

José Pinto Ribeiro – Companheiro, na altura, de Anabela Mota Ribeiro. Compreende-se a ausência.

Isabel Pires de Lima – Uma senhora. As senhoras BCBG não se incomodam com tralha pouco académica.  

Gabriela Canavilhas – Uma querida elegantérrima! De louvar a recuperação do piano esquecido no sótão do palácio e a transferência do instrumento para o gabinete da senhora ministra que podia, nas horas vagas e mortas, dedicar-se às sonatas. O Ministério da Cultura nunca deixou de dar concertos diários e contínuos durante o seu mandato.

Francisco José Viegas – Um talentoso. Deu o pontapé de partida (no lugar onde sugeriu que alguém levasse) a uma linguagem mais vernácula que tem o seu apogeu em José Sócrates (actualizado).

Manuel Maria Carrilho – Um charme maduro e filosófico pronto a esbardajar o glamour da esposa acusando-a de ter metido ciclones nas mamas (como diria a senhora deste bar), de ser burra (a Gaffe suspeita que é a única responsável por esta última delação) e de se enfrascar até ao coma alcoólico. Leva em cima com os ciclones cor-de-rosa da esposa que acompanhou o maestro Vitorino de Almeida e que, portanto, não é bêbeda.

O problema está, a Gaffe sublinha, na pasta. Não havendo nada para fazer, permite que os respectivos Ministros e Secretários de Estado se dediquem a actividades mais domésticas.

É evidente que seria aconselhável disfarçar e desandar com ar muito atarefado pelos corredores ministeriais com uma data de papéis presos nos dentes, a surripiar subsídios à Casa das Histórias ou a fazer como Assunção Cristas que, resolvidos todos os problemas dos seus colados ministérios, se debruça diligente sobre a limitação do número de bichinhos de estimação que Portugal pode ter no apartamento. Uma dedicação mais caseirinha, é certo, mas indubitavelmente mais higiénica.

A Gaffe acredita que a solução para a Secretaria de Estado da Cultura está em Jorge Barreto Xavier.Um allure, um je ne sais quoi,  sem dúvida inteligenteque, não tendo nada para fazer, discretamente faz que não existe.

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A Gaffe tauromáquica

rabiscado pela Gaffe, em 30.10.13

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O incidente tem já alguns anos, mas continua a assombrar a minha prima, Laura de seu nome, que não volta ao Douro sem primeiro se assegurar se o gado está preso.

Odeia as vacas que andam soltas, paradas a pastar, pachorrentas, melosas, vagarosas e fleumáticas. No entanto, a raiz desta aversão reside no marido das pobres indolentes.

Há no Douro um gigantesco boi maior que o mundo.  Plácido de nome, porque da fama de colérico ninguém o livra. Brutal no tamanho e corpulência, orgulho dos homens que lhe aparam o lustroso pêlo desenhando nele, com tesoura de grande perícia, formas geométricas que brilham ao sol. Como precaução, não vá irritar-se e marrar no incauto, usa no focinho, presa nas narinas, cavernas escuras e húmidas de causar pavor, uma argola em ferro que serve para o unir a um gordo cadeado que por sua vez, no extremo oposto, é preso a um esteio cravado na terra.  
É o cobridor. O Senhor dos genes.  
Ninguém se aproxime.

Quando a minha prima numa exuberante demonstração de entrosamento rural, nos guiou, a mim e à C., numa visita ao brutamontes, tinha garantida a nossa incondicional admiração. Aproximarmo-nos da cerca de madeira onde o mastodonte ruminava, era já uma desmesurada aventura e descomunal prova de coragem.

Mas a minha prima queria mais. Esmagar-nos com o seu arrojo, ousadia, audácia, atrevimento. Mostrar-nos o que vale uma heroína.  
Abriu a cerca. Entrou!  
Nada de errado. O monstro imóvel nem ergueu os cornos.  
E foi então que a ousadia cometeu o erro. De cabeleira farta a dar-a-dar e mãos na cinta oferecida ao bicho, ondula e desafia aos altos gritos.  
- E!! BRUTO!... EI!... OH!...OH! MULHRENGO FEIO! OH! … AQUI!... 
O boi ouviu. 
Observou. 
Bufou. 
EH!... SEU MONSTRO FEIOSO!... SEU PRÉDIO BABÃO! 
O boi ouviu. 
Bufou e decidiu.
Não que se tivesse transformado em disparada locomotiva enfurecida, mas o rumo do seu andar pachorrento empalideceu o mundo. A rapariga recuou ainda sem medo. No outro extremo a argola de ferro segura na estaca de pedra travaria a preguiçosa investida.  
O pânico explodiu quando percebemos que, no extremo redentor, a argola salvadora não tinha sido presa no esteio!  
O boi estava solto e caminhava em direcção à Laura.  
Gritamos. Esbracejamos. Saltamos e bradamos. A C. partiu uma das unhas ao tentar descalçar um dos sapatos para atirar ao monstro que atacava.  
O bicho parou com o focinho húmido babando a blusa imaculada da toureira. Não lhe tocou sequer tal era o espanto por ver uma bandarilheira desgarrada.  
Estacamos. A C. de sapato erguido, esguedelhada, perdida a compostura e a pose, e eu pálida e pronta a sacrificar a vida honrando as que, heroínas, salvam inocentes dos cornos dos demónios.  
Não foi preciso.  
O bicho, Plácido de nome e de feitio, ergueu a cabeçorra e susteve o desmaio da toureira.
Vieram os rapazes e afastaram o pobre monstro que nunca foi o mesmo frente às vacas, porque o perfume de uma rapariga corajosa não se apaga.

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A Gaffe e aquilo

rabiscado pela Gaffe, em 30.10.13

- És uma querida e chegas-me aquilo?

Espero sem mover um músculo. A informação será com toda a certeza complementada.

- Por favor, isso está mesmo em cima daquela coisa! Mesmo  tão perto!

Noto uma ligeira alteração na voz. Começa a irritar-se porque não lhe chego aquilo que está em cima daquela coisa mesmo aqui tão perto.

Tudo o que tenho e que obedece a estas coordenadas e que pode eventualmente ser incluído no espaço agora recortado pelo indicador da C. que volteia enervado, é um pisa-papéis ridículo de metal pesado.

Porque sou uma querida, levanto-me e entrego-lho, embora nas sombras sinistras dos desejos da minha alma bárbara lho tenha atirado directo a cabeça.

- Deuses! Que tu és como o governo! Queremos uma coisa, dá-nos outra.

Não é verdade. Quando se trata de uma coisa bem descrita e definida, acerto sempre e, como uma querida que sou, não esqueço sequer os ornamentos, atavios e adereços que possam constar presos àquilo

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Gavetas:

A Gaffe nas duas avenidas

rabiscado pela Gaffe, em 29.10.13

O meu apartamento está voltado para o mar.  
A porta do meu apartamento tem um olho de vidro através do qual eu encontro ou desencontro o mundo e permito ou impeço a entrada dos outros.  
Da varanda do meu apartamento voltado para o mar vejo, de vez em quando, uma mulher de calças de fato de treino e t-shirt azul-turquesa a passear um doberman. Quando o cão se afasta, a mulher chama-o. Não gosto do nome do cão e penso que o cão também não gosta do nome que tem.  
Às vezes desço, atravesso a Avenida e sento-me no banco de pedra do passeio público voltado para o mar.  
Um dia uma peixeira de Matosinhos sentou-se ao meu lado, no banco voltado para o mar. Ensinou-me a amanhar uma pescada. Não queria saber, mas mesmo assim ouvi atenta. É difícil amanhar uma pescada quando sabemos que não voltaremos a ver a peixeira de Matosinhos sentada ao nosso lado, que nos vemos a ver.  
Às vezes desço de manhã e vou comprar pão à padaria antiga, pintada de amarelo pálido a cheirar a trigo. O senhor da padaria conhece-me. Gosta de mim. Pergunta-me pelo meu pai e pela saúde da minha avó. Gosto do pão que ele fabrica e vende. Ao sair, na rua, desembrulho e mordo o pequenino pão que ele me oferece sempre, enquanto passo pelas mulheres que vendem fruta no mercado da Foz e que trabalham palavrões ceifados por sorrisos.  
Às vezes volto para o meu apartamento onde escondo os livros que não quero emprestar e onde, às vezes, não me sinto sozinha, privada dos outros.  
Longe do meu apartamento, há uma senhora que escreve romances em folhas A4, sem lhes deixar margens, sem lhes deixar cabeçalho ou rodapé, com uma letra negra, densa e inclinada, quase sem espaço entre palavras. As folhas ficam preenchidas por completo. Às vezes penso que não há margem nem para os erros. Os romances que a senhora escreve são os que escondo no meu apartamento, porque não os quero emprestar. São meus, quase privados.

Longe do meu apartamento, tenho um amigo de quem tenho saudades. É professor numa Universidade antiga e crítico literário. A ele chegam aqueles que escrevem em folhas A4 romances cerrados. Contribui para a transformação do ali escrito, até ali privado, em capas espalhadas pelas montras das livrarias que esperam que se lhes entregue o génio.  
Depois tenho um apartamento voltado para mim, onde me vejo a ser vista.  
Tem uma porta o meu apartamento voltado para mim, mas é através de mim que deixo ou impeço que os outros me vejam.  
Há uma senhora que escreve romances no apartamento voltado para mim, que me sorri sempre e me afasta o cabelo quando me sento a ouvir, na sala velha com cadeiras de mogno e uma árvore torcida e negra no quintal. Gosto de ficar com ela, só para mim. Tê-la em privado.  
Tenho também, neste apartamento, um amigo que lê romances cerrados no que deixo que me olhe, aqui, nos cafés da minha sala, onde a rua, a outra rua que não atravesso quando saio e desço para me sentar ao lado da peixeira de Matosinhos, vem alterada sem nexo ou finalidade funda.

Vejo-me a olhar e penso que é tudo tão privada em mim, como os cafés da minha sala ou os romances que eu comprei e que eu escondo, porque são meus e não gosto de emprestar livros a público nenhum.  


A mulher de calças de fato de treino e t-shirt azul-turquesa que passeia o cão no passeio público, olha para mim, de vez em quando. Depois é esbatida pelos outros. Vai desaparecer um dia. Vai deixar de passear o cão pela minha sala. O cão que sabe amanhar pescadas em Matosinhos, que lê romances em folhas cerrados, que os revê depois no anfiteatro e que tem um nome de que eu não gosto.  
Os meus apartamentos são só meus, mas estão erguidos na berma da Avenida.

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A Gaffe e um rapaz que escreve

rabiscado pela Gaffe, em 29.10.13

Ouvimos um piano, lemos dois livros, debicamos fotografias e percebemos que podemos ser felizes com algumas lágrimas, desde que as façamos correr nos carreiros da inteligência.

Fernando Dinis é a minha mais recente descoberta.

Gosto tanto de rapazes que fazem com que as  palavras sejam como contas de colares de lágrimas e pérolas!

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A Gaffe e uma lição de economia

rabiscado pela Gaffe, em 28.10.13

Sazonalmente a minha santa avó reúne peças dispersas de roupa recolhida nos abandonos das netas e, com medonhos sacos cheios, procura a senhora Emília no mercado da Foz. Ajudo sempre a transportar os pesos. Num morno cúmplice de antigas amigas, coscuvilham as vidas despojadas nos tecidos e nos pespontos das peças que a mais tonta das futilidades transformou em órfãs.

A senhora Emília tem demasiadas netas. Demasiada gente para vestir só com o preço de flores e de legumes. Agradece e de braços cruzados sobre o peitilho do avental às riscas e, dos confins da banca, retira ovos e flores que a minha avó recebe como se de tal oferta dependesse toda a doçaria dos conventos e todos os altares da confraria.

Quando a minha avó não encontra a senhora Emília, deixa os sacos pousados no balcão e recomenda à vizinha, que os inveja, que os vigie até chegar a dona. Depois, entra na banca e tira os ovos.

Não gosto!

Esfacela-me os nervos ver a minha avó, na ausência da senhora, entrar por ali fora, procurar um saco e com o à-vontade que quase dói de genuíno, não desistir da troca, parca que ela seja.

- Irrita-me quando te vejo a fazer isso, avó! Como te atreves?!

A minha avó espanta-se. De sobrancelha em arco, reprovador desenho que breve se desfaz, explica:

 

- Minha querida, tu não conheces ainda a força dos laços que a vida aperta com o tempo. Somos apenas duas velhas tontas a trocar os cromos antes que a vida nos feche a caderneta.

 

Depois sorri. Um sorriso para marcar a página do livro.

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La Gaffe et l’amour fou

rabiscado pela Gaffe, em 27.10.13

É tão engraçado observar os esforços que se fazem para esconder uma paixão proibida.
Nestes gabinetes há um rapazinho loiro de gigantescos olhinhos azuis, magrinho e franzino, pedante e miudinho. O cargo que ocupa é proeminente e o menino assume-o de maneira pomposa e cheia de brio, aprumo e masculinidade. Inclusivamente aos fins-de-semana.
Entra então em cena a sempre activa e presente técnica de informática. Uma belíssima morena, de olhos de veludo e sorriso malandro. Recentemente destacada, faz as delícias dos homens que desataram, subitamente, a precisar com urgências suspeitas dos seus serviços mais competentes. 
A rapariga não se faz rogada e atende, com todo o carinho e de forma pontual e assídua, todas as necessidades masculinas, sobretudo as do namorado, colosso pouco dado a manobras informáticas, mas poderoso e atento segurança principal.
O menino de olhinho azul, franzino e frágil, apaixonou-se por ela de uma forma confrangedora.
É delicioso observar os seus movimentos atados, os seus olhares disfarçados, mas sempre presos ao corpo da moçoila, os seus mais pungentes esforços para disfarçar o inevitavelmente claro, as suas mais rebuscadas desculpas para a ter por perto ou para se cruzar com ela nas esquinas e nos cantos dos corredores e o abandono recente dos seus encargos mais importantes. 
O alvo desta dança mantém-se indiferente. Não vê. Não ouve. Não sente. Não faz a mais ínfima ideia do que despertou. Continua a sorrir e a passar airosa, sem sombra de pecado, arrastando, preso no cinto, o mísero olhar do pobre desgraçado.
- A R. está no seu gabinete? – Pergunta-me de olhos de safira, pela centésima vez no espaço de uma hora.
- Não! Nunca sabe dela, não é?! É tão resvaladiça aquela rapariga.
- Não sei. Nunca a procura!
Ah! Quando o amor se levanta a razão fica de joelhos.

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A Gaffe macabra

rabiscado pela Gaffe, em 27.10.13

Cruzou a perna e acendeu o cigarro. Uma Sharon Stone de pacotilha, com muito menos pernas e muito mais lingerie. 
- Podes confiar em mim! Eu sou um túmulo.
É sempre útil termos à nossa disposição um túmulo capaz. Nunca se sabe se algum dia nos veremos na necessidade de estrangular uma sensação ou assassinar um sentimento.
Mas a minha Sharon Stone é um túmulo sem tampa. Os cadáveres ficam a apodrecer à vista de toda a gente.

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A Gaffe rente ao chão

rabiscado pela Gaffe, em 25.10.13

São um casal jovem.

Ele, com uma barriga imponente e empinada de alemão grande, robusto e ruivo, de cabeça erguida e desdenhosa, com mãos moles a abanar ao longo do corpo que se move compassado e marcial.

Ela, sempre atrás, miudinha, franzina de passinho saltitante e ladino, de cabelito curtinho, vai debicando as montras ou fica enternecida ao ver o pincher da senhora gorda e oxigenada que se esquece do bicho e quase o esgana quando levanta o braço num arranjo distraído do cabelo e lhe puxa a trela segura no pulso.

Nunca os vi lado a lado. Nunca os vi a trocar uma palavra.

Passa bamboleando o gordo alemão com a mulher pela trela todas as tardes por mim.

Perco-me a segui-los com os olhos até os ver desaparecer sempre na mesma loja de bugigangas. Observo-os, porque preciso de sentir a avidez com que me repugna a visão dos dois.

Ela, presa pela trela, sorriu-me ontem à tarde. Abanou a cabecinha como se tivesse pousada nela a cabeleira da Fawcett e sorriu-me. Assustadiça, a olhar de esguelha para o mastodonte que marchava mole à sua frente.

Levantei a mão e de punho fechado espetei o dedo médio, como se me apetecesse enfiar-lho dentro daquele peito para, com ele ali cravado, a levantar do chão.

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A Gaffe ao encontro do tempo perdido

rabiscado pela Gaffe, em 24.10.13
(Panos Emporio - Verão 2014)

Num rapidíssimo vislumbre do que se avizinha no próximo Verão, a Gaffe percebe que irá encontrar a sombra de um tempo já perdido num Caminho de Swann que se descobre algures e que não sendo, de todo, um trompe l’oeil a deixa confusa e prisioneira de uma imprevisível memória de mar.

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A Gaffe na parada

rabiscado pela Gaffe, em 24.10.13
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Segundo Barbara Bush, War is not nice.

É difícil ajustar esta brilhante oração a guerreiros que passam desarmados pelos campos minados dos nossos mais armados sonhos militares.

Todos os uniformes trazem dentro uma promessa de conflito.

Encontro-os sobrecarregados de erotismo, saturados, envoltos numa espessa camada de fascínio autoritário que quase sempre nos impele à obediência, mesmo quando obedecer se torna apenas um método enviesado de submeter o outro à nossa vontade, um eufemismo para Poder, um subtil reduto da governação.

No entanto, nem todos conseguem a sujeição dos que com eles se cruzam e quando o tentam fazer, descobrimos que numa longínqua existência de que não há memória certa, porque não convém, muitos foram os guerreiros que soçobraram, escravizados, apenas porque no momento certo não traziam capacete.

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A Gaffe e uma carta aberta a um pássaro

rabiscado pela Gaffe, em 22.10.13

Ontem choveu nos vidros duplos da janela. Uma chuva sem gargantas. 
Ontem a minha avó abraçou-me. Encostou-me a cabeça ao ombro dela. Senti-lhe os dedos frios no cabelo e um alfinete em forma de pássaro a magoar-me a cara. 
Ontem choveu e a minha avó abraçou-me. Ou talvez não tenha sido ontem ou talvez nem sequer tenha chovido, mas o pássaro de olhos de pérola a voar-lhe sobre a clavícula continua na minha cara a magoar-me, a mim, que sou o pássaro de olhos sem pérolas preso por um alfinete aos tecidos dos casacos. 
Na minha cara e na clavícula dela. Eu e o pássaro, presos pela chuva sem garganta e um alfinete que não vejo, a reter as migrações das aves. 
Em mim, onde não chove nunca uma voz presa. 


Et je suis comme un oiseau mort quand toi tu dors. 

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A Gaffe aristocrata

rabiscado pela Gaffe, em 22.10.13
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Este Inverno, rapazes, usem e abusem da mistura e sobreposição de padrões discretos. A subtileza do conjunto e os jogos de rapports com traços semelhantes cor das chuvas, aproximam-nos da textura dos muros, das paredes e das pedras de solares antigos e perdidos.

Neste Inverno, rapazes, não se esquecem de nos contar histórias de fantasmas.  

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A Gaffe na "carreira" das nove

rabiscado pela Gaffe, em 21.10.13
(Norman Rockwell)
O problema surgiu porque a C. se levantou cedo demais e por só termos levado um carro (exactamente o dela) para nos tirar a ambas, em princípio ao mesmo tempo e à mesma hora, dos confins do mundo onde o demónio não passou ainda.

Perdi a boleia.

Quando acordei, no meio do degredo da aldeia nortenha, já a C. desarvorada tinha saído, deixando a pobre amiga sonolenta a lamentar-se.

Tinha portanto de apanhar um autocarro que me levasse ao lugar SMSado, onde estão à venda as louças que ela adora. Podia esperar, mas a C. é o Godot no feminino.

A viagem, segundo informação, duraria menos de meia hora e levar-me-ia sem custo até à vingativa, empedernida, implacável e madrugadora fugitiva.

Aquilo que me transportou não era um habitual autocarro urbano, moderno e colorido, com palhinhas fornecidas pela tripulação para podermos sorver as pestilentas doses de refrigerantes com que nos brindam em viagens longas. Era, pelo contrário, a chamada carreira. Um pesadelo de chapa carcomido e degradado, um monstro de janelas impossíveis de fechar, uma besta diabólica aos solavancos, a urrar e a cambalear pelos trilhos das cabras e por desfiladeiros tenebrosos, de dentes de fora e cortinas ao vento, de bancos roídos e vísceras expostas, oleosas e encardidas entranhas que repugnam.

Sentei-me e descobri que não me conseguia encaixar no banco sem apunhalar com os joelhos o passageiro da frente. Tento erguer o tronco, manter direita a coluna, abrir as pernas, introduzir-me no espaço exíguo que o destino me destila.

Tentei manter a calma.

Atrás de mim um homem fungava e tossia. Cheirava a coisa ressequida e a tabaco. Sentia-lhe o vento do tossir a escapar por entre a junção dos bancos. Desviei-me. Afastei e baixei a cabeça.

Olhei para o lado.

Dois adolescentes púberes, gordurosos, dois lugares depois, devoravam-se de forma destemida.

Olhei para o lado.

Uma mulher escarrava e dizia que morria. Tinha o cabelo sujo, porco, nauseabundo e um casaco quente que tresanda a suor e a fumeiro. Viu-me, e cuspiu para que eu visse, num lenço enxovalhado que escondeu depois no punho do casaco.

Olhei para o lado.

Sentou-se, no lugar unido ao meu, uma velha gorda, de preto e de sacola de plástico grávida de entulho. Retirou do porta-moedas papéis amarrotados, encostou-os ao nariz e disse que já não via. Enfiou-me o cotovelo nas costelas e esperou calmamente que eu reduzisse o espaço que ocupava, já resíduo. Cheirava a velho. A trapo. A cinza e a incenso.

Olhei para o lado.

Uma rapariga dava estalidos constantes, contínuos, incessantes, com a pastilha elástica e escancarando a boca, mastigando. Tinha dedos grossos, papudos, roxos, deformados, e unhas ratadas pintadas de azul a condizer com as manchas sobre as pálpebras. Pontapeava o banco que lhe estava em frente, batendo o ritmo que lhe ocupa o cérebro. Dava estalidos. Estalidos. Estalidos. Estalidos…

Olhei para o lado.

Um homem falava e insultava sem destino. Descobri que o pútrido cheiro que se espalhava e oprimia o ar que se não podia respirar, que pesava como um bicho que morreu há muito e se esqueceu na berma do caminho, lhe saia da boca. Era o hálito transformado em frase.

Olhei para o lado.

Olhei para o lado e roguei aos deuses que terminassem a tenebrosa cena de Fellini.

Não faço ideia se foi a minha magoada costela de ruiva em desespero ou o meu desgraçado, e esmagado ali, ser de privilégio, menina em redoma feita e programada, mas desembarquei branca e nauseada, absolutamente encolhida, comprimida e contraída e tombei agradecida nas sobrancelhas irónicas da C. que jamais entenderá como é terrível e difícil ser-se gente num sítio que até o demónio recusou pisar.

 

Nota - Conheço muitos batráquios, mas o SAPO é o único que levo para a cama! Obrigada, meu querido, pelo recorte.

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