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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe e um soco social

rabiscado pela Gaffe, em 14.10.13

A Gaffe fica a saber que José Luís Peixoto foi assaltado e socado na Guiné-Bissau.

A notícia não esclarece se a agressão constituiu ou não uma simbólica manifestação contra o Acordo Ortográfico e desconhecemos se o agressor era um leitor desagradado, embora esta última hipótese seja inverosímil, tendo em conta que, se tal fosse o caso, José Luís Peixoto passaria o tempo todo a ser espancado, mesmo fora dos PALOP. Não sabemos sequer se o soco no nariz do escritor provocou a indignação das suas fãs, agora já entradotas (a juventude, mesmo a metalizada e por muito que José Luís Peixoto o acredite, não se prende ou segura com piercings e argolas) ou se apenas deixou o Secretário de Estado da Cultura, em Portugal, ainda mais estranho do que nas fotografias.

Não temos um jornalismo cultural à altura.

No entanto, esta violência provavelmente cometida por um delinquente – a crítica literária na Guiné-Bissau não tem a sofisticação e o glamour da portuguesa em que os espancamentos se fazem muitas vezes nas revistas cor-de-rosa – acaba por revelar as condições quer sociais, quer económicas, vividas na Guiné-Bissau.

A Sociologia devia debruçar-se sobre este incidente.

Considerar que o aspecto de José Luís Peixoto é um apelo ao roubo, trazendo dividendos ao meliante, é revelador do baixíssimo, do miserável, nível de vida do País do assaltante.

Os delinquentes portugueses, valha-nos isso, apenas assaltam as pessoas antes destas se tornarem sem-abrigo, mas ainda não chegaram ao ponto de assaltar José Luís Peixoto.  

O percalço não contribui apenas para denunciar a situação social e económica da Guiné-Bissau. Patenteia também a maleita que atinge os escritores portugueses no activo (os inactivos, compreende-se, não possuem um guarda-roupa muito variado) e ainda sem a auréola do sagrado: vestem-se mal.

Não é justo comparar, mesmo no domínio dos guarda-fatos, qualquer um dos novos autores portugueses, por exemplo, com Eça (Paris faz milagres!) ou com David Mourão-Ferreira (o dinheiro também!), mas não é descabido pensar-se que, neste momento, não basta a um homem de letras ser genial, tem também a obrigatoriedade de se desprender da matéria e do vil consumo para ter uma notinha de rodapé na LER.

Passemos revista a alguns dos mais jovens:

Gonçalo M. Tavares – Sem dúvida um dos maiores, mais estonteantes e absorventes escritores portugueses. Escaparia o seu ar tweed de distraído professor de Oxford se não fosse o desconfortável, embora delicado, bafo a naftalina que se desprende das suas bombazinas.

valter hugo mãe – Enfiado por natureza num preto puído e coçado que lhe  aperta, de modo que se adivinha doloroso, não só a capacidade de olhar o enredo sem desgraçar as personagens com tanta frequência e tanta inevitabilidade, como também lhe esmaga outras miudezas mais palpáveis.

João Tordo – Um jovem em NY de quem não sei quase nada.

José Luís Peixoto – Um autor desprendido, preso por piercings ao universo dos Moonspell.

 

Considerar, numa apreciação pouco literária, que um assalto a qualquer um destes talentos é rentável, é só possível em lugares do planeta onde o nível de vida está desmesuradamente degradado.

Em última e inteligentíssima análise, José Luís Peixoto foi assaltado e socado pela mais abjecta injustiça social.

Espera-se a todo o momento que o educadíssimo Rui Machete peça desculpa à Guiné-Bissau por ter sido revelado a murro o pequeno contratempo social desse país.

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