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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe na "carreira" das nove

rabiscado pela Gaffe, em 21.10.13
(Norman Rockwell)
O problema surgiu porque a C. se levantou cedo demais e por só termos levado um carro (exactamente o dela) para nos tirar a ambas, em princípio ao mesmo tempo e à mesma hora, dos confins do mundo onde o demónio não passou ainda.

Perdi a boleia.

Quando acordei, no meio do degredo da aldeia nortenha, já a C. desarvorada tinha saído, deixando a pobre amiga sonolenta a lamentar-se.

Tinha portanto de apanhar um autocarro que me levasse ao lugar SMSado, onde estão à venda as louças que ela adora. Podia esperar, mas a C. é o Godot no feminino.

A viagem, segundo informação, duraria menos de meia hora e levar-me-ia sem custo até à vingativa, empedernida, implacável e madrugadora fugitiva.

Aquilo que me transportou não era um habitual autocarro urbano, moderno e colorido, com palhinhas fornecidas pela tripulação para podermos sorver as pestilentas doses de refrigerantes com que nos brindam em viagens longas. Era, pelo contrário, a chamada carreira. Um pesadelo de chapa carcomido e degradado, um monstro de janelas impossíveis de fechar, uma besta diabólica aos solavancos, a urrar e a cambalear pelos trilhos das cabras e por desfiladeiros tenebrosos, de dentes de fora e cortinas ao vento, de bancos roídos e vísceras expostas, oleosas e encardidas entranhas que repugnam.

Sentei-me e descobri que não me conseguia encaixar no banco sem apunhalar com os joelhos o passageiro da frente. Tento erguer o tronco, manter direita a coluna, abrir as pernas, introduzir-me no espaço exíguo que o destino me destila.

Tentei manter a calma.

Atrás de mim um homem fungava e tossia. Cheirava a coisa ressequida e a tabaco. Sentia-lhe o vento do tossir a escapar por entre a junção dos bancos. Desviei-me. Afastei e baixei a cabeça.

Olhei para o lado.

Dois adolescentes púberes, gordurosos, dois lugares depois, devoravam-se de forma destemida.

Olhei para o lado.

Uma mulher escarrava e dizia que morria. Tinha o cabelo sujo, porco, nauseabundo e um casaco quente que tresanda a suor e a fumeiro. Viu-me, e cuspiu para que eu visse, num lenço enxovalhado que escondeu depois no punho do casaco.

Olhei para o lado.

Sentou-se, no lugar unido ao meu, uma velha gorda, de preto e de sacola de plástico grávida de entulho. Retirou do porta-moedas papéis amarrotados, encostou-os ao nariz e disse que já não via. Enfiou-me o cotovelo nas costelas e esperou calmamente que eu reduzisse o espaço que ocupava, já resíduo. Cheirava a velho. A trapo. A cinza e a incenso.

Olhei para o lado.

Uma rapariga dava estalidos constantes, contínuos, incessantes, com a pastilha elástica e escancarando a boca, mastigando. Tinha dedos grossos, papudos, roxos, deformados, e unhas ratadas pintadas de azul a condizer com as manchas sobre as pálpebras. Pontapeava o banco que lhe estava em frente, batendo o ritmo que lhe ocupa o cérebro. Dava estalidos. Estalidos. Estalidos. Estalidos…

Olhei para o lado.

Um homem falava e insultava sem destino. Descobri que o pútrido cheiro que se espalhava e oprimia o ar que se não podia respirar, que pesava como um bicho que morreu há muito e se esqueceu na berma do caminho, lhe saia da boca. Era o hálito transformado em frase.

Olhei para o lado.

Olhei para o lado e roguei aos deuses que terminassem a tenebrosa cena de Fellini.

Não faço ideia se foi a minha magoada costela de ruiva em desespero ou o meu desgraçado, e esmagado ali, ser de privilégio, menina em redoma feita e programada, mas desembarquei branca e nauseada, absolutamente encolhida, comprimida e contraída e tombei agradecida nas sobrancelhas irónicas da C. que jamais entenderá como é terrível e difícil ser-se gente num sítio que até o demónio recusou pisar.

 

Nota - Conheço muitos batráquios, mas o SAPO é o único que levo para a cama! Obrigada, meu querido, pelo recorte.

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A Gaffe medrosa

rabiscado pela Gaffe, em 21.10.13

Estranho bicho, o Medo!

Estranhas as entranhas (que lhe são externas) onde decompõe a alma que agarrou.

Só uma vez agride, acidulando o exterior a si, corrompendo a luminosidade e devassando a lucidez. Depois espera que o exercício da corrupção na alma única e isolada em que injectou peçonha alastre e contamine as almas em redor.

Uma só vez o Medo actua. Numa só alma. Depois descansa. O que tritura o resto é o receio, apenas o receio, basta o receio, de sentir sobre aquela que é a nossa vida a reprodução daquilo que conspurcou a outra.

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