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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe e uma lição de economia

rabiscado pela Gaffe, em 28.10.13

Sazonalmente a minha santa avó reúne peças dispersas de roupa recolhida nos abandonos das netas e, com medonhos sacos cheios, procura a senhora Emília no mercado da Foz. Ajudo sempre a transportar os pesos. Num morno cúmplice de antigas amigas, coscuvilham as vidas despojadas nos tecidos e nos pespontos das peças que a mais tonta das futilidades transformou em órfãs.

A senhora Emília tem demasiadas netas. Demasiada gente para vestir só com o preço de flores e de legumes. Agradece e de braços cruzados sobre o peitilho do avental às riscas e, dos confins da banca, retira ovos e flores que a minha avó recebe como se de tal oferta dependesse toda a doçaria dos conventos e todos os altares da confraria.

Quando a minha avó não encontra a senhora Emília, deixa os sacos pousados no balcão e recomenda à vizinha, que os inveja, que os vigie até chegar a dona. Depois, entra na banca e tira os ovos.

Não gosto!

Esfacela-me os nervos ver a minha avó, na ausência da senhora, entrar por ali fora, procurar um saco e com o à-vontade que quase dói de genuíno, não desistir da troca, parca que ela seja.

- Irrita-me quando te vejo a fazer isso, avó! Como te atreves?!

A minha avó espanta-se. De sobrancelha em arco, reprovador desenho que breve se desfaz, explica:

 

- Minha querida, tu não conheces ainda a força dos laços que a vida aperta com o tempo. Somos apenas duas velhas tontas a trocar os cromos antes que a vida nos feche a caderneta.

 

Depois sorri. Um sorriso para marcar a página do livro.

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