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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe nas duas avenidas

rabiscado pela Gaffe, em 29.10.13

O meu apartamento está voltado para o mar.  
A porta do meu apartamento tem um olho de vidro através do qual eu encontro ou desencontro o mundo e permito ou impeço a entrada dos outros.  
Da varanda do meu apartamento voltado para o mar vejo, de vez em quando, uma mulher de calças de fato de treino e t-shirt azul-turquesa a passear um doberman. Quando o cão se afasta, a mulher chama-o. Não gosto do nome do cão e penso que o cão também não gosta do nome que tem.  
Às vezes desço, atravesso a Avenida e sento-me no banco de pedra do passeio público voltado para o mar.  
Um dia uma peixeira de Matosinhos sentou-se ao meu lado, no banco voltado para o mar. Ensinou-me a amanhar uma pescada. Não queria saber, mas mesmo assim ouvi atenta. É difícil amanhar uma pescada quando sabemos que não voltaremos a ver a peixeira de Matosinhos sentada ao nosso lado, que nos vemos a ver.  
Às vezes desço de manhã e vou comprar pão à padaria antiga, pintada de amarelo pálido a cheirar a trigo. O senhor da padaria conhece-me. Gosta de mim. Pergunta-me pelo meu pai e pela saúde da minha avó. Gosto do pão que ele fabrica e vende. Ao sair, na rua, desembrulho e mordo o pequenino pão que ele me oferece sempre, enquanto passo pelas mulheres que vendem fruta no mercado da Foz e que trabalham palavrões ceifados por sorrisos.  
Às vezes volto para o meu apartamento onde escondo os livros que não quero emprestar e onde, às vezes, não me sinto sozinha, privada dos outros.  
Longe do meu apartamento, há uma senhora que escreve romances em folhas A4, sem lhes deixar margens, sem lhes deixar cabeçalho ou rodapé, com uma letra negra, densa e inclinada, quase sem espaço entre palavras. As folhas ficam preenchidas por completo. Às vezes penso que não há margem nem para os erros. Os romances que a senhora escreve são os que escondo no meu apartamento, porque não os quero emprestar. São meus, quase privados.

Longe do meu apartamento, tenho um amigo de quem tenho saudades. É professor numa Universidade antiga e crítico literário. A ele chegam aqueles que escrevem em folhas A4 romances cerrados. Contribui para a transformação do ali escrito, até ali privado, em capas espalhadas pelas montras das livrarias que esperam que se lhes entregue o génio.  
Depois tenho um apartamento voltado para mim, onde me vejo a ser vista.  
Tem uma porta o meu apartamento voltado para mim, mas é através de mim que deixo ou impeço que os outros me vejam.  
Há uma senhora que escreve romances no apartamento voltado para mim, que me sorri sempre e me afasta o cabelo quando me sento a ouvir, na sala velha com cadeiras de mogno e uma árvore torcida e negra no quintal. Gosto de ficar com ela, só para mim. Tê-la em privado.  
Tenho também, neste apartamento, um amigo que lê romances cerrados no que deixo que me olhe, aqui, nos cafés da minha sala, onde a rua, a outra rua que não atravesso quando saio e desço para me sentar ao lado da peixeira de Matosinhos, vem alterada sem nexo ou finalidade funda.

Vejo-me a olhar e penso que é tudo tão privada em mim, como os cafés da minha sala ou os romances que eu comprei e que eu escondo, porque são meus e não gosto de emprestar livros a público nenhum.  


A mulher de calças de fato de treino e t-shirt azul-turquesa que passeia o cão no passeio público, olha para mim, de vez em quando. Depois é esbatida pelos outros. Vai desaparecer um dia. Vai deixar de passear o cão pela minha sala. O cão que sabe amanhar pescadas em Matosinhos, que lê romances em folhas cerrados, que os revê depois no anfiteatro e que tem um nome de que eu não gosto.  
Os meus apartamentos são só meus, mas estão erguidos na berma da Avenida.

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A Gaffe e um rapaz que escreve

rabiscado pela Gaffe, em 29.10.13

Ouvimos um piano, lemos dois livros, debicamos fotografias e percebemos que podemos ser felizes com algumas lágrimas, desde que as façamos correr nos carreiros da inteligência.

Fernando Dinis é a minha mais recente descoberta.

Gosto tanto de rapazes que fazem com que as  palavras sejam como contas de colares de lágrimas e pérolas!

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