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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe nas campanhas

rabiscado pela Gaffe, em 06.11.13

Propor Bárbara Guimarães, se se ficar provado o crime público de Carrilho e depois de desmontado o circo, para rosto de uma campanha publicitária agressiva contra a violência doméstica, não é de todo uma sugestão descabida. Seria muito mais eficaz e impactante (esta palavra é medonha!) do que qualquer panfleto enfiado na caixa do correio do ultraje com um slogan estafado ou do que um cartaz colado nas paredes da mais aviltante das trevas femininas. Seria apenas necessária a coragem de uma mulher humilhada.


Propor Margarida Rebelo Pinto para uma impensável e criminosa campanha inversa, também não seria de espantar. Sabemos que a rapariga aceitaria de imediato a cegueira do holofote, desde que o cartaz ficasse repleto de laços e fitinhas e que a fotografassem com muita responsabilidade civil e sem interromper o trabalho parlamentar. Seria apenas necessário ofuscar-lhe o neurónio com o barulho das luzes.       

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Gavetas:

A Gaffe pouco criativa

rabiscado pela Gaffe, em 06.11.13

A Gaffe tem de admitir que a sua maior necessidade na vida é ter alguém que a obrigue a fazer aquilo que está dentro das suas possibilidades.

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A Gaffe e o último tango

rabiscado pela Gaffe, em 06.11.13
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Quando se abrirem os currais do tango, espera pelo ganir da concertina. Não deixes de prender os olhos no brilho desta sombra. Se o fizeres e se fechares o olhar, apunhalo-te e mancharás de sangue o teu peitilho branco.

Fica-te bem o smoking deste tango!

Homem agora preso a mim, a começar.

Crava-me os dedos nos rins e aperta a palma da minha mão estendida. A tua boca a roçar a minha. O teu arfar enclausurado nos meus lábios. Escaldam os meus lábios. A minha perna abrasa por entre as tuas, abertas, a suportar doridas o inclinar do tronco que o teu curva. Podes lamber a gota de suor que desce no meu queixo e esperar a agonia do sussurro que perto de ti, no pavilhão da orelha, no pavilhão da casa, vou espetando no corpo dos violinos.

 

Este tango tem a história de um homem e de uma espera. Amou a amante morta num tempo que é já morto, marcado nas paredes com navalhas e no espaço que durava o amor, não respirou. Dançou sozinho um tango desgraçado.

 

Afasta a tua perna. Empurra os flancos contra a minha carne de modo a que eu te sinta. Rodopia seguro pelas garras que cravo nos teus ombros até sentires a dor que vem de mim, como o gemer do tango, a arder, por entre as tábuas.

 

Queria ser amado, o homem desse tango. Amado como amou num tempo morto em que sem respirar amou amando a amante que morreu e que não vinha dançar nas concertinas das paredes.

 

Faz-me gemer erguendo-me nos braços. Faz-me rodar presa na boca. Escolhe uma palavra que traga o escarlate do obsceno e prende-ma nos olhos e sorri de dor quando esmagar o peito contra o teu nas voltas que tu sabes controlar.

 

Quando beijou outra mulher tinha passado o tempo. O homem desse tango que não danço.

 

Não morras já. Há mais suor em mim para te encharcar os braços e tenho mais saliva a arder e dentes para cerrar. Abre a boca, respira compassado. Há mais para dançar dentro de mim.

 

Quando beijou outra mulher, o homem que não dança, quis que ela fosse o amor que tinha à espera. Marcou-lhe o mesmo tempo. O tempo em que ela tinha de gravar um tempo nas paredes com navalhas impolutas como as dele. O mesmo tempo em que ele amou a morta até beijar aquele novo tango. Se ela dançasse da mesma forma o mesmo tango mudo! Se ela na espera erguesse esse silêncio entre o latir dos tacões nas tábuas do soalho e o chiar das cordas do violino!

 

Aperta-me. Faz-me doer. Esmaga-me no espaço em que o contrabaixo morde a minha saia e a minha perna que serpenteia a tua. Não morras já. Espera só que eu vire a minha cabeça para dentro do teu corpo. Há mais na tua mão colada à minha palma e nos meus rins vergados pelo teu braço.

 

A outra não o amou como ele queria e no tempo que ele tinha para lhe dar de espera, tangos diferentes cortaram-lhe o espaço e dentro desses tangos ela dançou com outros.

 

O prazo terminou. O tempo acaba. Podes morrer agora neste tango.

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