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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe e a matança

rabiscado pela Gaffe, em 10.11.13

À entrada do Inverno, ocorre no Douro um dos mais tenebrosos rituais de sangue e morte ainda vivido como tradição ancestral.
A matança do porco.
Fomos, há cerca de dois anos e durante a temporada em que se limpam os fumeiros e em que o frio começa a rondar arreganhando os dentes, passar alguns dias à casa erguida longe daquilo a que usualmente nos é quotidiano.  

Um grupo largo de gente risonha e fugaz, fútil e pateta.
Pensávamos todas que era importante lançar perfumes e sedas, brilhantes e cores, risos e saltinhos, chistes e trocadilhos, pulseiras e truques, colares e coloridas desgarradas de luzinhas, sobre as sombras invasoras que de repente tolhem todos os movimentos quebradiços de meninas de redoma.
Passamos os dias a correr inúteis por todo o lado.
Baratas tontas e perfumadas, pobres loucas, tresloucadas baratas sem destino, sorte ou plano.
Numa tarde, fomos electrocutadas pelos gritos absolutamente dilacerantes de um animal que parecia ferido ou que de desespero agonizava.
Na extensa eira, mais que afastada da casa, tinham os homens agarrado o porco.

O animal estava preso a um banco, estreito e longo, de pinho por tratar, por cordas fortes que lhe amarravam as patas unindo as dianteiras às traseiras numa curva dolorosa e humilhante.
Os rapazes, em mangas de camisa, tinham os olhos sangrentos e na boca a espuma da excitação furiosa.
Falavam alto, bradavam, tentando ser ouvidos por cima dos grunhidos do bicho a debater-se.
Tinham colocado no chão um alguidar de barro para onde verteria o sangue que iria jorrar do porco moribundo.
Suavam, os homens, e cascavam gargalhadas enquanto o bicho urrava e guinchava de uma forma arrepiante.
Os gritos do animal transformaram-se em lâminas, em espigões, em espetos, em ferros em brasa cravados nos pequenos cérebros das visitas tontas e petrificadas.
Houve debandada.
Fiquei eu sozinha.
Assisti de longe à morte do porco.

Não consegui parar de olhar o lanho aberto no pescoço do animal ainda a grunhir e os jactos de sangue bombeado para o alguidar, no chão.
Os homens chispavam e bradavam e insultavam a morte.
As mulheres esperavam o alguidar encher para o trocar por outro vazio. Coziam o sangue e serviam-no, já frio, sólido, esburacado, aos homens que o trincavam, mostrando os dentes que ficavam roxos e granulados e que, com palha seca amarrada em archote, incendiada, queimavam a pele do animal já morto, antes de o esventrar.
Não sei que o que me levou a ficar de alma pasma a ver ao longe a carnificina.
Quando tudo acabou, horas mais tarde, fui encontrar-me sentada e escondida pelas sombras, a olhar a palma das mãos onde tinha abertas pequenas luas crescentes de sangue nos sítios onde, de mãos cerradas, tinha cravado as unhas.
Os rituais de sangue e de morte continuam.
Os fumeiros começam a ser limpos e o frio a descer e a rondar.
Há de novo meias-luas de sangue na palma das mãos incautas e inocentes.
Ali, a vida e a morte cerram os dentes de alguidar nos olhos.

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