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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe em Viseu a preto e branco

rabiscado pela Gaffe, em 17.11.13

A mulher entra no carro e obriga-me a ir ao lado. Previne os passageiros que vão entrar depois para não repararem nas sementes espalhadas nos lugares traseiros. Que são dos passarinhos que o filho colecciona.

Suspeito que são dela. Que come as sementinhas nos intervalos parcos em que deixa de falar dilatada pelo orgulho do seu Martim, rapazola espigado, com acne, cabelo encarapinhado e a pose arrogante dos adolescentes tímidos.

Mostra a fotografia e embevecida deixa-a parada nos dedinhos pequeninos, presa nas unhas agudas, aguçadas. Reparo na mancha vermelha na pele que lhe apanha o polegar e lhe ameaça o pulso. Parece um mapa de carne em que as estradas são traçadas por fios leitosos. Aquosamente me repugno.

Canso-me da mulher saltitando pelas palavras, debicando sílabas, esgravatando frases. Puxo o banco para trás para encaixar as pernas e tento olhar a cidade, não ouvir o matraquear constante das palavras que tropeçam. Parecem agora pequenas castanholas ou estalidos secos de ramos a partir quando calcamos bosques pelo Outono.

A casa é já ali. Procura um lugar para estacionar.

- Andamos mais uns metros e já lá estamos.

O meu amigo, atrás, deixou há muito de se esforçar por ouvir o que a mulher espirra e esguicha sem parar. Ignora-a de forma deselegante e vai petiscando palavritas breves com a C. que ao lado dele é cúmplice, manobrando para escapar à catatua.

- Olhem! O cigano deixou-me um lugar a jeito. É espantoso! Isto ao Domingo é de fugir. Só ciganada. Tenham cuidado com os telemóveis.

Em frente a mim a estátua de D.Duarte sustenta a indiferença em bronze e olha sem olhos.

- Atrás é o Grão-Vasco. – Explica a C., a procurar escapar por entre as pedras pequenas do caminho antigo.

- São as muralhas do antigo palácio dos bispos, do século XVI. Ao lado é a Catedral.

- Não se pode passar aqui de saltos altos. – Indigna-se a mulherzinha e volta a massacrar:

- Odeio os ciganos e os pretos. Não tenho culpa. É já desde pequena.

- E de gays? – Dispara a C. e atinge o pobre rapaz que ao meu lado tenta agora a todo o custo controlar o que suspeita ver abrir-se em ferida.

- Almoçamos n'O Cortiço. – Tento abafar.

- Desculpe? – Espanta-se a mulher, desperta e atenta à pergunta que a surpreende.

- Perguntei se odiava da mesma forma os mulatos. – Pânico nas hostes. Adivinho o perigo e desato a palrar sobre o empedrado do caminho.

- Ah! Esses não sei. Nem para eles olho. A verdade é que há poucos por aqui. Mas pergunta porquê?!

- Porque o meu amigo é gay. Será interessante saber se pensa que tenho de esconder o telemóvel.

Almoçamos n'Cortiço.

A mulher que debica sementes a comer lombo assado, finalmente atafulhada no silêncio do embaraço, consegue com que os meus amigos se entreguem à cigana tarefa de tentar elevar desmesuradamente a conta que ela há-de pagar com pedidos absurdos e inúteis que incluem feijocas com todos à maneira da criada do senhor abade e bacalhau apodrecido na adega.

Achei adequados os pratos que escolheram. Afinal tinhamos na frente uma feijoca que um senhor abade de aldeola deixa apodrecer na água santa onde foi demolhado o esquecido bacalhau de uma beata vendada e trauliteira.

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