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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe de meggings

rabiscado pela Gaffe, em 20.11.13

A Gaffe não entende como é que se deixou de usar ceroulas, uma peça de vestuário tão jeitosa.

Percebe contente que, no entanto, esta abandonada peça de interior aconchegado vai aflorando as suas avenidas, embora tenha alterado a sua habitual posição na hierarquia do vestuário.

As ceroulas são peças que entregaram valoroso contributo à solidificação do charme interior de várias gerações. O seu bisavô devia ter tido umas, embora suspeite que não lhe ficavam tão apelativas como aos rapagões da imagem, dada a pouca descendência. O seu avô, provavelmente tinha algumas e, pelas fotos que existem dele, o rapaz não era nada de se deitar fora. Foi pena o pai não se ter protegido dos rigores do Inverno com umas iguais (às dos valentões da foto, não às do seu bisavô), porque ainda agora é um homem muito atraente.

O mais próximo que esta rapariga esperta encontra desta velhinha peça de roupa são as as meias usadas pelos bailarinos do Bolshoi. A Gaffe refere o  Bolshoi, porque lhe parece adequado referir uma grande Companhia de Ballet para disfarçar as tontices que vai pensando. O Bolshoi sempre dá um cheirinho a coisa fina e respeitada. No entanto, não é, evidentemente, a mesma coisa. No caso dos bailarinos já se espera que entrem aos saltos e aos pinotes vestidos com uma adaptação aprimorada, e um bocadito afectada, das ceroulas.

Umas ceroulas devem ser másculas. Devem ser de algodão branco, canelado, grosso e macio, um bocado largotas em cima, com uma carcela abotoada (ou não, depende muito das circunstâncias) e com um punho nos tornozelos. Não devem é ser usadas no Verão. Não ficam bem com os calções em cima e chanatas no pés, pese embora o que hoje se nos atravessa nas ruas.

Contribuem também para a definição do macho. São coisas usadas de forma machista. Uma moçoila, se as traz vestidas, ou dança num rancho folclórico ou é mais velha que o Manuel de Oliveira. Um brutamontes com fio dental metido nos dentes de trás é deprimente e pode, em certos casos, causar ambíguas perplexidades a quem o apanha sem estar prevenido. Os boxers, se mal escolhidos, também como as ceroulas, não segurarem grande coisa, amarfanham-se nas pernas fazendo com que se acabe a suspeitar que o rapaz traz vestidos uns calções quinhentistas por baixo das calças do fatinho. As cuecas (as normalinhas - a Gaffe já viu de tudo) ainda são o que mais  assegura um bom andamento, mas é difícil encontrar as que favorecem a imagem a preços acessíveis, sem o Mickey estampado ou sem o nome do dono no elástico. Das outras peças destinadas a uso similar a Gaffe não quer falar, por se lembrar da sua santa avó.

Posto isto, chega-se à razão que a leva à eleição das ceroulas como tema.

Os rapazes que passam por ela todos os dias (os mais garbosos, é bom que se refira) andam de ceroulas!

As ceroulas ganharam o estatuto de peça exterior. Todos os atraentes matulões na casa dos vinte anos trocaram as calças por ceroulas. É vê-las às riscas, ao xadrez, de pie-de-poule e príncipe de Gales, lisas, às cores ou às ramagens, enfiadas nas pernocas dos meninos com casacos e camisas largalhonas a completar a indumentária.

Não é bonito de se ver. Perdem a dignidade e a respeitabilidade que tinham, terminando acanhadas nos tornozelos nus e sem nadinha que anuncie umas botifarras de respeito ou uns sapatos bicudos e com furinhos, que assumem assim usados proporções inesperadas.

A verdade é que esta rapariga sente uma certa nostalgia vendo as ceroulas de novo a passar, mas, ao mesmo tempo, alegra-se a pensar que se o seu avô fosse vivo podia perfeitamente fazer frente ao matulões que desfilam agora pela suas avenidas vestidos com a peça que outrora foi a alegria de uma alcova recatada.

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