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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe de Scott Matthew

rabiscado pela Gaffe, em 25.11.13
(Scott Matthew)

A melhor forma de nos confrontarmos com a mediocridade é colocarmo-nos sob o foco da extrema qualidade. Só então percebemos a capacidade de embrutecimento, de paralisia, ineficácia e de amesquinhamento que a primeira possui e a sua extraordinária aptidão para se expandir pelas massas, criando uma espécie de submissão anestesiada que limita, endurece e contrai as vítimas. A consciência deste facto surge nítida quando somos confrontados com o talento e incessante trabalho.

O foco esteve ontem no Coliseu do Porto e chamava-se Rodrigo Leão.

É inútil reportar o assombro provocado pelas suas composições ou mesmo pelo estudo de luzes, impecável, que acompanha todos os concertos. O deslumbre atinge-nos imediatamente a partir dos primeiros acordes e das primeiras e discretas barras de luz e não deixa de aumentar sobretudo quando se reproduz a banda sonora de O Mordomo de Lee Daniels em que os dezassete músicos em cena conseguem aproximar as peças de clássicos absolutamente inesquecíveis.

O mesmo fascínio acontece quando Rodrigo Leão nos mostra os abismos dentro dos trechos (dos textos) que recria, aproximando as concertinas de Piazzolla ao travo subtil de um fado bem rasgado e dolorido, como é o caso de O Tango dos Malandros ou da quase desesperante Pásion na voz de Celina da Piedade.

Rodrigo Leão é sem qualquer sombra de dúvida um compositor universal e é imprescindível ouvir e pasmar como seu talento que possui a perspicácia de escolher as vozes mais perfeitas e que mais se misturam nos seus acordes.

Scott Matthew é um portento. Se a sedução tivesse voz soaria como este australiano. Uma voz de veludo e de espinhos. Uma voz com texturas inusuais, inesperadas, simultaneamente doces e agressivas. Interpretações magníficas como a de Terrible Dawn comprovam a simbiose perfeita que existe entre o compositor e o intérprete.

Há tempos, o SAPO propôs um desafio: o de revelarmos a quem faríamos a pergunta O menino dança? Creio que Scott Matthew consegue responder por mim da forma mais completa.

O concerto de Rodrigo Leão, ontem, no Coliseu do Porto, é sem qualquer hesitação o foco potentíssimo de luz que paralisa a pequenez absurda e mesquinha que parece crescer por todo o lado num jardim à beira mar plantado, num país sem mar ao fundo.     

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A Gaffe às Segundas

rabiscado pela Gaffe, em 25.11.13

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