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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe e um desejo

rabiscado pela Gaffe, em 31.12.13

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Gavetas:

A Gaffe de memória calçada

rabiscado pela Gaffe, em 31.12.13

Hesitantes em relação ao que calçar na noite de festejos de Ano Novo, todas as raparigas espertas se podem socorrer, tal como o fez Sebastian Errazuriz, das memórias que os amantes lhes deixaram, calçando as experiências que tiveram sob a forma que a criatividade lhes fornece.

As peças, acompanhadas de brevíssimas histórias de relações partidas, apesar de divertidas, podem parecer ligeiramente absurdas e vagamente idiotas, mas aproveitam o que de mais interessante sobra destas caminhadas: a capacidade de olharmos com humor o que nos resta quando ao falarmos em pares nos referimos apenas aos sapatos.

A vantagem desta opção é que, se o quisermos, podemos ter uma colecção de sapatos que fazem a de Imelda Marcos parecer raquítica. E não adianta tentar arrasar a nossa falta de tino ou juizinho com as moralidades costumeiras. Por norma quem nos considera promíscuas tem assustadoramente menos e pior sexo do que nós.  

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A Gaffe foge do Douro

rabiscado pela Gaffe, em 28.12.13

Quero chegar ao Porto ainda manhã cedo.

Fico parada à espera no átrio gigantesco. É madrugada e esta luz ainda não tem sombra. Vem azular as coisas, recortar no espaço as silhuetas das árvores, dos anjos do lago, do corrimão de pedra. Apontar os caminhos abrindo os labirintos de sebes e de arbustos. Introduzir os dedos nas frestas dos ramos escuros dos pinheiros mansos e deixar lâminas nos degraus cinzentos que desci.

O frio chega em gotículas minúsculas. Pousa na pele e rebenta como bola de sabão. Espero quieta dentro da quietude e descubro que o peso assombroso da paz cheia de silêncio, oprime. A imobilidade de tudo o que é visto impregna a mais opressiva das serenidades, absorve o que somos e faz aluir a coragem que existe em enfrentar toda a luz que surja sem remorsos.

Espero sozinha no centro do maior sossego. No centro da mais aguda e dolorosa imutabilidade do tempo e a ausência de sons, a mais absurda inexistência de sons, aperta a minha espera, torna-a gotícula de frio na pele de bola sabão do meu sentir que preso fica nos fios do temor que cresce na manhã que chega lenta a azular o dia.

O carro rompe no carreiro. Fujo depressa. Quero chegar ao Porto, manhã cedo.

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A Gaffe e o olhar de quem ama

rabiscado pela Gaffe, em 26.12.13

Gosto de olhar os olhos de quem amo.
Amo pouca gente, por isso não olho muitos olhares, mas quando vejo a textura secreta de uma íris amada, vejo galáxias inteiras de novos Universos.
A minha irmã tem os olhos grandes e rasgados, com uma cor indistinta, entre le chien et le loup diriam os franceses. Olha de soslaio quando está alerta e nos seus olhos há sempre uma chispa de lume atento e fulminante. São olhos luminosos, esperto e manhosos. Olhos de felino que ensaia o ataque. São olhos de traição que a conseguem trair inevitavelmente.
O meu irmão tem o olhar quase negro de tão azul profundo. Às vezes tenho dificuldade em distinguir a doçura de todos os contornos dos seus olhos cheios de ternura. São olhos tímidos e muitas vezes baixos. São olhos tão pacíficos que nos podemos banhar nus, lá dentro, sem qualquer receio. São olhos que se fecham, porque receiam brilhar demais e ofuscar quem entra. São olhos de alguém que se apaixona.
Os olhos da minha avó são olhos tristes e arrastam um castanho tão cansado! São olhos que se perdem se nos distraímos. Exigem atenção. São olhos de perder e de encontrar. Nunca entendi aquele olhar que parte facilmente para outro lugar onde não cabemos, onde não somos recebidos nunca. Às vezes são cruéis de tão distantes. Às vezes há uma implacável distância dentro deles. A minha avó está inteira nos olhos que tem.
Os olhos do meu pai são de amêndoa. Amêndoa amarga. Gostam de ficar fechados a ouvir Brahams e detestam ser interrompidos. Olham bem de frente os inimigos, embora, às vezes, confundam as trincheiras. São olhos altivos e orgulhosos. São olhos mandões, rufiões e desordeiros. Olhos que pensam que me enganam. São olhos de iceberg já derretido, pronto a chocar com o Titanic dos nossos.


A minha mãe tem os olhos azuis claros.

Os olhos azuis claros.
Olhos azuis claros.

Azuis claros.         

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A Gaffe e um Natal escuro

rabiscado pela Gaffe, em 26.12.13

Dentro dos olhos fechados ardem luzes.

As luzes que as mulheres de luto teimam em pendurar na árvore, porque é Natal fora dos seus olhos.

É Natal nas árvores, nas balaustradas, nas coroas de azevinho que cresceu desenfreado e tem de ser cortado para que sem freio cresça uma outra vez e uma outra vez se enfeite em coroa com as luzes que as mulheres de luto teimam em suspender nos olhos abertos mesmo quando há sono.

Ficam sempre atentas às luzes dentro das pálpebras que fecham.

 

Deixai o escuro cerrar pelos olhos dentro, deixai a noite inteira e negra e negra e negra, porque é despudorada a luz cá fora e não sabeis adormecer com sono e não se apagam dentro as labaredas.

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Gavetas:

A Gaffe e o eterno desejo

rabiscado pela Gaffe, em 24.12.13

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Gavetas:

A Gaffe à espera do Natal

rabiscado pela Gaffe, em 23.12.13
(Norman Rockwell)

O quartel general é, este ano, em casa da minha avó onde chegamos ontem à noite.

O Natal já escacou o sentido estético da minha prima colocando nas portas deprimentes coroas de bolas de plástico vermelho e laçarotes escarlates que prendem azevinho falso.
A rapariga chegou ao início da manhã de ontem, no seu melhor estilo hollywoodesco, juntamente com a mãe que ganhou o privilégio de reconhecer apenas o Natal que bem entende e se recusa a olhar para os arranjos.
O restante exército depois, pela calada da tarde.

O meu querido irmão, o meu reforço principal, tarda a aparecer!
De Paris aqui há um penoso e tortuoso caminho a palmilhar, aviões comboios, autocarros, triciclos, carrinhos de choque, bicicletas, tartarugas, trotinetes, camiões, patins e sabem os deuses o que mais terá de ser apanhado para aqui chegar, sobretudo para quem se recusa a conduzir.
Encaixo a minha mais ingénua, cândida, amável e pacífica figura, mas sinto-me como se tivesse encarnado uma das mais psicóticas figuras de Almodóvar e começo a ficar com a alma assustadoramente parecida com o realizador.

E eles começam a chegar!
Toda a tarde de ontem se ouviu bater portas de carros e como um bando de pardais à solta se viu esvoaçar a mais diversificada comandita de exemplares que se vão reunindo para o debicar das iguarias do Natal no Douro.
E há de tudo!
Yuppies ressequidos e recessos, damas de copas com espada à cinta, dois adolescentes que resplandecem ruivos, boémios a tresandar a whisky e a tabaco, artistas plásticos de plástico e vinil, cantoras de ópera de barrocos palcos, velhos tão velhos que a velhice é velha, doentes de Molière e saudáveis que tossem mesmo as lágrimas, arrastados sotaques e pronúncias, meninas tontas a espirrar hormonas, lunáticos repletos de luar nos olhos, um Chihuahua  à beira de um ataque de nervos, soutiens de farpas, barbatanas de baleia, um homem que ri que ninguém conhece, uma dona Elvira e um calhambeque, um frade, um mendigo e dois magnatas e mais o que não digo porque já me perco!


E a minha prima a acordar as hostes com um estrondoso e rodopiado karaoke! Mariah Carey de pijama à solta esbaforido e uma jarra minúscula de cristal por microfone:

 ... And all I want for X-mas is...YOU!

O Natal é também esta espera que faz tilintar todos os sininhos que de súbito se descobre haver no coração e em cada um deles perceber que existe no Natal que chega a magnífica hipótese de voltarmos a nascer e a certeza límpida e impoluta de que podemos em cada renascer encontrar por todo o lado aqueles pedacinhos frágeis de Felicidade que se unem e que se chamam Vida.

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Gavetas:

A Gaffe e o Pai Natal

rabiscado pela Gaffe, em 22.12.13

Dior - Vogue, Dezembro de 1954

Que o Pai Natal esteja sempre vosso dispor.

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Gavetas:

A Gaffe no Inverno

rabiscado pela Gaffe, em 21.12.13
(Christel Marrot)

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Gavetas:

A Gaffe evidente

rabiscado pela Gaffe, em 21.12.13

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Gavetas:

A Gaffe retém

rabiscado pela Gaffe, em 20.12.13

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Gavetas:

A Gaffe alterada

rabiscado pela Gaffe, em 20.12.13

Quando de encontro a nós chega o instante que nos altera a vida, por uma vez que seja, por um espaço apenas ou por capricho ou teima, lugar do amor ido ou recém-chegado, não podemos crer que a alma que agora vive em nós, é outra, nova, entregue pelo instante que a alterou. A alma é a mesma, a fluir no tempo já marcado ou ido, e os instantes nela são gravados como inevitável coisa.

Nós é que a pensamos.  

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A Gaffe e um Natal publicitário

rabiscado pela Gaffe, em 19.12.13
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Lembro-me de ter visto, era eu muito, muito pequenina, um anúncio publicitário que fez definitivamente do Volvo o meu carro favorito.

A imagem mostrava o poderoso animal, cinza metalizado, extraordinariamente bem iluminado, com as cinco portas abertas. Aproximavam-se dele dezenas de bebés, apenas de fralda, a gatinhar. Invadiam-no em poucos segundos. Volante, bancos, mala, capot, o interior e o exterior do portento ficavam completamente povoados de bebés que brincavam, riam, exploravam, tocavam e dormiam sem qualquer constrangimento ou receio enquanto o slogan se fazia ler:

Como o primeiro colo.

Esta irrepreensível imagem publicitária, aliada a um slogan inteligentíssimo, funcionou quase de imediato, atingindo o objectivo de modo certeiro. O Volvo é ainda o carro que quero que me dê colo.

Creio que a publicidade é uma das mais exigentes, difíceis e complexas formas de comunicação. Implica, entre centenas de outras qualidades, estudo, conhecimento, inteligência, criatividade, poder de síntese muitas vezes aliado a uma polissemia cuidadosa, capacidade de captar e operar no inconsciente do público sem o violentar e de criar ou recriar imaginários que terão como finalidade o almejado despertar do desejo de consumo ou mesmo apelar a causas mais dignificantes.     

Quando cumpre todas estas condições, é digna de figurar na nossa memória, ainda que na mais superficial. Quando não o faz, normalmente dispara sobre o próprio pé. 

O Natal é sem dúvida uma das épocas a que as marcas dedicam grande e criativa atenção. Algumas produzem imagens interessantíssimas, originais, inteligentes e dignas de menção.

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Gavetas:

A Gaffe a contar

rabiscado pela Gaffe, em 18.12.13

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Gavetas:

A Gaffe com árvores de Natal

rabiscado pela Gaffe, em 18.12.13
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Por muito desconcertante que seja, a Gaffe ainda não decidiu decorar a sua árvore de Natal!

Passa saltitando por uma multidão de inspirações, de ideias, de sugestões, de recomendações, de fotografias, de opiniões e de luzinhas a catrapiscar de ternurazinha muito natalícia, mas continua a oscilar de hesitação, suspeitando que vai acabar por escolher o maravilhoso pinheirinho tradicional repleto de luz, fitas de cetim verde e vermelho, bolas vidro colorido e uma estrela no cimo a liderar os sonhos.

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