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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe conversa com a avó

rabiscado pela Gaffe, em 03.12.13

- Sou declaradamente metrofóbica.

A discussão rondava o tema, mas a afirmação da C. confundiu as hostes.

- É um conceito abrangente. Consigo detestar os senhores do Metro e os homens com a boca a saber ao MEU creme hidratante. Sempre achei charmoso um engano despropositado na cor de um pormenor ou num desleixo inseguro na madeixa da gravata. Odeio os que olham para mim arrebitando sobrancelhas milimetricamente corrigidas, à espera que eu cumpra o meu dever e tenha um orgasmo imediato.

- Depois esses rapazes devem ser maçadores quando estão sentados.

Olhamos desconfiadas. Preocupamo-nos. A minha santa avó tinha-se perdido algures no bosque da conversa.

- Refiro-me ao orgasmo. Receio que comigo os rapazes o tenham de esperar sentados. Devem ser aborrecidos, ali, sentados à espera.

A minha avó é, simplificando, aquilo a que se pode chamar uma daltónica social, ou seja, não distingue um japonês de um chinês, um sueco de um alemão, um brasileiro de um australiano ou mesmo um nigeriano de um esquimó, desde que toda esta gente fale a mesma língua e tenha o cabelo lavado.

O único critério usado para a discriminação é, portanto, o estado das guedelhas. Ou se usa um champô ou se utiliza um champoo! Faz toda a diferença.

Esta absoluta e ditatorial condição leva-a a nutrir uma aversão visceral, que partilho, pela maioria das jovens universitárias que trajadas a rigor por ela passam, saltitando e rindo, disparando tolices e perdigotos dementes. Segundo a minha avó, e eu concordo, o preto da capa e do tailleur é de um perigo extremo, porque realça de forma clamorosa e assassina, o estado lastimável e lastimoso do cabelo das meninas e, em consequência, o deplorável profissionalismo dos respectivos cabeleireiros.

Nada mais importa.

Com as conversas tudo é similar. Não interessa nada o encadear lógico dos assuntos. O importante é que as frases tenham o cabelo lavado. 

- Um cabelo bem tratado e uns sapatos perfeitos deveriam ser exigidos a quem quer passaporte seguro para viajar pela vida em classe executiva.

- Avó! Isso é uma tolice. Uma cabeleira bonita e uns sapatos perfeitos muitas vezes são apenas sinónimo de esquinas decadentes ou pernas nuas no meio de uma estrada.

- Minha querida, é-me indiferente o que esses metrosexuais fazem nas horas de lazer, mas já que me dizes isso: onde é que os pequenos fazem essas coisas?! Afinal, não são assim tão maçadores! A tua amiga exagera imenso e o enervante é que depois foge irritada e toda esbaforida!

Conversar com a minha santa avó é como escalar o Everest. Nunca sabemos onde segurar o pé ou se no meio da aventura somos obrigados a jogar bridge sentados numa bola de neve com vertigens.

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