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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe e o olhar de quem ama

rabiscado pela Gaffe, em 26.12.13

Gosto de olhar os olhos de quem amo.
Amo pouca gente, por isso não olho muitos olhares, mas quando vejo a textura secreta de uma íris amada, vejo galáxias inteiras de novos Universos.
A minha irmã tem os olhos grandes e rasgados, com uma cor indistinta, entre le chien et le loup diriam os franceses. Olha de soslaio quando está alerta e nos seus olhos há sempre uma chispa de lume atento e fulminante. São olhos luminosos, esperto e manhosos. Olhos de felino que ensaia o ataque. São olhos de traição que a conseguem trair inevitavelmente.
O meu irmão tem o olhar quase negro de tão azul profundo. Às vezes tenho dificuldade em distinguir a doçura de todos os contornos dos seus olhos cheios de ternura. São olhos tímidos e muitas vezes baixos. São olhos tão pacíficos que nos podemos banhar nus, lá dentro, sem qualquer receio. São olhos que se fecham, porque receiam brilhar demais e ofuscar quem entra. São olhos de alguém que se apaixona.
Os olhos da minha avó são olhos tristes e arrastam um castanho tão cansado! São olhos que se perdem se nos distraímos. Exigem atenção. São olhos de perder e de encontrar. Nunca entendi aquele olhar que parte facilmente para outro lugar onde não cabemos, onde não somos recebidos nunca. Às vezes são cruéis de tão distantes. Às vezes há uma implacável distância dentro deles. A minha avó está inteira nos olhos que tem.
Os olhos do meu pai são de amêndoa. Amêndoa amarga. Gostam de ficar fechados a ouvir Brahams e detestam ser interrompidos. Olham bem de frente os inimigos, embora, às vezes, confundam as trincheiras. São olhos altivos e orgulhosos. São olhos mandões, rufiões e desordeiros. Olhos que pensam que me enganam. São olhos de iceberg já derretido, pronto a chocar com o Titanic dos nossos.


A minha mãe tem os olhos azuis claros.

Os olhos azuis claros.
Olhos azuis claros.

Azuis claros.         

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A Gaffe e um Natal escuro

rabiscado pela Gaffe, em 26.12.13

Dentro dos olhos fechados ardem luzes.

As luzes que as mulheres de luto teimam em pendurar na árvore, porque é Natal fora dos seus olhos.

É Natal nas árvores, nas balaustradas, nas coroas de azevinho que cresceu desenfreado e tem de ser cortado para que sem freio cresça uma outra vez e uma outra vez se enfeite em coroa com as luzes que as mulheres de luto teimam em suspender nos olhos abertos mesmo quando há sono.

Ficam sempre atentas às luzes dentro das pálpebras que fecham.

 

Deixai o escuro cerrar pelos olhos dentro, deixai a noite inteira e negra e negra e negra, porque é despudorada a luz cá fora e não sabeis adormecer com sono e não se apagam dentro as labaredas.

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