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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe foge do Douro

rabiscado pela Gaffe, em 28.12.13

Quero chegar ao Porto ainda manhã cedo.

Fico parada à espera no átrio gigantesco. É madrugada e esta luz ainda não tem sombra. Vem azular as coisas, recortar no espaço as silhuetas das árvores, dos anjos do lago, do corrimão de pedra. Apontar os caminhos abrindo os labirintos de sebes e de arbustos. Introduzir os dedos nas frestas dos ramos escuros dos pinheiros mansos e deixar lâminas nos degraus cinzentos que desci.

O frio chega em gotículas minúsculas. Pousa na pele e rebenta como bola de sabão. Espero quieta dentro da quietude e descubro que o peso assombroso da paz cheia de silêncio, oprime. A imobilidade de tudo o que é visto impregna a mais opressiva das serenidades, absorve o que somos e faz aluir a coragem que existe em enfrentar toda a luz que surja sem remorsos.

Espero sozinha no centro do maior sossego. No centro da mais aguda e dolorosa imutabilidade do tempo e a ausência de sons, a mais absurda inexistência de sons, aperta a minha espera, torna-a gotícula de frio na pele de bola sabão do meu sentir que preso fica nos fios do temor que cresce na manhã que chega lenta a azular o dia.

O carro rompe no carreiro. Fujo depressa. Quero chegar ao Porto, manhã cedo.

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