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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe despede-se

rabiscado pela Gaffe, em 31.01.14

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Gavetas:

A Gaffe e um umbigo

rabiscado pela Gaffe, em 31.01.14

Há um blog de que gosto muitíssimo, A Alma Conservadora, embora suspeite que Laura Abreu Cravo jamais se passeará com agrado por estas avenidas. 

Uma escrita límpida, breve, transparente, que consegue o milagre de nos fazer crer que toca no essencial e o essencial é comum a todos nós. Leio-a com um prazer imenso e reconheço-lhe o uso da ironia, do sarcasmo e muitas vezes de um azedume subtil que é apenas pertença das criaturas inteligentes.

Um dos seus post refere (e descontextualizo) as fanfarras umbiguistas a propósito do ruído que eventualmente provocamos quando pensamos que temos coisas graves, pesadas e dignas de reparo para dizer (nunca temos) e propõe o silêncio ou o sussurro como alternativa.

Concordo, mais uma vez, com o que diz e mais uma vez lhe admiro a escrita concisa, lúcida e a raiar o aforismo.

 

Não posso deixar, no entanto, de apontar (pela metáfora e não só) o umbigo como um dos lugares mais atraentes do planeta.

É que há momentos em que fanfarras no umbigo são o melhor que nos espera, à noite, depois de termos passado o dia a ouvir uma data de bandas manhosas em coretos foleiros.  

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A Gaffe de Manuel Forjaz

rabiscado pela Gaffe, em 30.01.14

Vi ontem com alguma curiosidade o novo programa de José Alberto Carvalho, 28 minutos e 7 segundos, que tem como parceiro de aventura Manuel Forjaz.

Manuel Forjaz é um cinquentão absolutamente sedutor. Um homem elegante, repleto de charme, muitíssimo bonito, dono de um certo glamour vintage, uma capacidade de comunicação invejável capaz de cilindrar o jornalista que nitidamente o venera, óptimo gosto, culto, com dois filhos de desorientar uma freira, economista na UCP, pós graduado em Estudos Africanos no ISCTE, estudos em Social Entrepreneurship (INSEAD) e Liderança (Harvard Kennedy School of Government), Director na ANJE entre 1997 e 2004, Marketing, Head of Sales Unilever, 88-94, Director Geral da Bertrand, CEO da Medipress (Grupo Impresa), investigador no CEA, professor universitário de Mestrados no ISCTE, ISEG e dos Mestrados da Nova, fundador dos Pais Protectores, Ideólogo/inspirador do Pé de Fé – IES - e primeiro host do TEDxOporto, homo faber.

Um portento como se vê.

Para além de fisicamente arrasador é inteligente. Duas qualidades que, quando juntas, se tornam um perigo para qualquer rapariga desprevenida.

Como será evidente, não passeia por estas avenidas e não me verá a ser politicamente incorrecta, à sua semelhança.

Manuel Forjaz sofre de cancro do pulmão há cinco anos.

É exactamente esta característica secundária que motiva indirectamente o programa. Manuel Forjaz é um exemplo de sobrevivência, de coragem e de destemor (não são necessariamente a mesma coisa) e representa a mais gloriosa forma de se lidar com uma das mais tenebrosas doenças de que há memória.

 

No entanto não o consegui ouvir até ao fim nem vou fazer parte dos seus mais de 20.000 fãs no FB.

Reconheço-lhe o saudável desprezo e a arrogância eficaz com que lida com a doença e a vontade orgulhosa e quase heróica de sorver a vida com aquele marinheiro que se vê a afogar, atado e atirado a um mar que deixa de súbito de conhecer, mas ouvia-o como quem abre um livro de auto-ajuda e se cansa com a avalanche de frases feitas, de sonhados conceitos, ideais floreados, clichés, paisagens interiores retocadas e construídas pelo privilégio, motivações, justificações, razões e enlevos, conselhos e sugestões já gastos (e tantas vezes inúteis) de tanto se usarem em situações limite e passíveis de irreversibilidade.

Perante a coragem, sentido crítico, clareza, brilhantismo e ausência total de qualquer indício de desespero, depressão, abatimento (incluindo o físico) e de outros tantos sintomas que chegam apensos à doença e dela se tornam também características, senti-lhe, como criatura maldosa que sou, um laivo, uma réstia, um traço esbatido de exibicionismo que me pareceu ligeiramente ofensivo.

A glória física que Forjaz exibe não é comum, assim como não é comum o privilégio que consiste na possibilidade de se recorrer a médicos de topo (uma das ferramentas indicadas por Forjaz que coadjuvam, na linha da frente, a luta contra o cancro) cuja primeira consulta custa 600€. A manutenção da lucidez e da fria inteligência, a pujança aparente, a permanência da beleza física, a elegância cuidada, a sofisticação conservada, a dignidade preservada, a postura serena e impávida perante a maior adversidade, a consciência nítida da finitude e a exigência de nobreza neste assumir da inevitabilidade e da morte, não são comuns à esmagadora maioria de doentes oncológicos.

A brutal decadência física e o medo, o mais asfixiante e castrador dos medos, tomam tantas vezes o lugar de tudo e fazem desistir porque transformam a vida toda, todos os minutos e todos os segundos, em despedidas.

Forjaz dominou o medo e, por privilégio concedido pelos deuses, evitou a decadência. Usa as ferramentas que vai aconselhando, mas esquece-se que são poucos aqueles a quem o cancro deixa mãos para as segurar.    

Não tenho a veleidade de supor que o testemunho de Forjaz é contraproducente (não creio que seja), mas não consigo deixar de pensar que talvez não atinja os objectivos que, tenho a certeza, são bem intencionados nesta desempoeirada exposição. 

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A Gaffe leonina

rabiscado pela Gaffe, em 29.01.14

Esta é apenas a imagem que considero mais sugestiva para recomendar um livro extraordinário.

A Confissão da Leoa de Mia Couto está assente numa história real - as sucessivas mortes de pessoas provocadas por ataques de leões numa remota região do norte de Moçambique – mas rapidamente se transforma na paisagem severa e extrema onde não há polícia, não há governo, e mesmo Deus só há às vezes e onde se percebe que a brutalidade, a guerra, a fome e a superstição, nos ferem de modo igualmente fatal.

Através de dois narradores, Kulumani e Gustavo Baleiro, o caçador contratado para matar os assassinos, acabamos como Mariamar, a fabulosa figura feminina do romance, a reconhecer que foi a vida que a desumanizou. Tanto a trataram como um bicho que você se pensou um animal.

É uma obra de frustração e terror omnipresente que ultrapassa de imediato os limites da narrativa medonha da caçada, fazendo trespassar toda a história pelo Medo mais subterrâneo, mais insidioso, mais desleal e doloso, comum à Humanidade. Não se circunscreve ao pavor que surge da hipótese de novo ataque dos felinos, mas alastra sanguinariamente, invadindo a alma de cada figura construída no romance e retalhando a sua capacidade de resposta.

O sangue na boca dos felinos acaba por ser o mesmo que tinge as mãos dos homens.

Uma obra magnífica!

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A Gaffe fotográfica

rabiscado pela Gaffe, em 28.01.14

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As boas fotografias são como um vício. É fácil a adição, quando o prazer que nos dá sermos apanhados é igual ao que se vai repetindo sempre que disparamos o obturador.

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A Gaffe kitsch

rabiscado pela Gaffe, em 27.01.14

PhotobucketAndamos todos a precisar de uma corzita, não é?!

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Gavetas:

A Gaffe optimista

rabiscado pela Gaffe, em 25.01.14

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Gavetas:

A Gaffe e os tesouros

rabiscado pela Gaffe, em 25.01.14

O meu pequeno rapazinho tem dois tesouros.

O primeiro é uma caixa bonita de botas de montar, forrada e encadernada pelas mãos do bisavô, com papel colorido, onde guarda todas as histórias que lhe contava e desenhava, ao cair da noite e ao levantar do sono, o querido senhor que lhe oferecera a preciosidade.

A Caixa dos bonecos.

O outro tesouro é Ludovica, a cadela Teckel, esperta e fanfarrona, que evita conflitos dois centímetros mais altos do que ela (o que significa fugir a ladrar à esmagadora maioria dos problemas que surgem). Os dois, cadela e menino, são cúmplices há muito e a Ludovica não escapa, de olhos pesados de preguiça e orelhas tombadas pelo tédio, aos longos debates sobre a vida toda, em que o seu pequeno amigo é moderador e principal vedeta.

No início das noites cansadas demais, havia jogo pela certa.

Uma das propostas a que assisti era simplicíssima. Pintar em papel perdido pequenos segredos.

- Hoje, meu rapazinho, vais desenhar a pessoa que sentes que mais te protege e guarda. Uma fada ou um anjo, por exemplo. Para eu guardar também na minha Caixa de Bonecos.

E o meu avó esperou esgotado pelo dia, ver o dia inteiro salvo no papel riscado.

O pequeno, de responsável lápis, traça concentrado quem mais o protege:

Ludovica!

Vi o senhor inclinar-se, preocupado. Vi-o Levantar de olhos inquietos.

O rapazito diz-lhe então porquê:

- Porque quando nos vemos muito aflitos, a Ludovica corre mais do que eu para te ir chamar.

 

O meu avó guardou até ao fim este tesouro na carteira.

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Gavetas:

A Gaffe quando chove em Paris

rabiscado pela Gaffe, em 24.01.14

A saudade que tenho da chuva em Paris!

Nenhuma outra água me lavou o corpo como a de Paris.

Paris dentro da chuva, solta nas ruas, presa nos telhados, procura a minha alma para se abrigar e vai encontrar a minha avenida coberta de mar agarrado às pedras de um Porto inseguro com sabor a vento.

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Gavetas:

A Gaffe e dois arquitectos

rabiscado pela Gaffe, em 22.01.14

José Joaquín Parra Bãnón, arquitecto e professor, é há demasiado tempo o único contributo para uma abordagem original da obra de Saramago. Estuda a arquitectura Saramaguiana, a que se vai construindo no interior das figuras e nos espaços físicos criados pelo escritor.

Mafra ou Blimunda, Ricardo Reis a contar os móveis contabilizando-se também nesse rol exíguo, pontes por onde os cegos se entrechocam, muros de nomes ou cavernas. Construções elaboradas por palavras que erguem uma insuspeita mas sólida e real arquitectura no interior da obra. Bãnón analisa palmo a palmo, traço a traço, os desenhos contidos em cada livro e vai revelando a surpresa do encontro da arquitectura com a literatura, dentro da literatura, demonstrando a perícia e a clareza com que Saramago edifica os espaços, exteriores ou interiores às suas personagens.

Bãnón é um homem pequeno que por instantes me faz lembrar o meu pediatra, engravatado e primorosamente penteado, sentado a uma mesa demasiado grande, numa sala demasiado aquecida onde entro atrasada e não tenho lugar. Fico de pé, atenta as inúmeras pistas que são dadas e que revelam de forma inquestionável Saramago como arquitecto.

Ao lado do Professor estão três figuras que não consigo identificar. Três homens distraídos. O mais próximo de mim, de costas voltadas para o lado esquerdo da plateia, de vez em quando mostra-me o perfil. É feio. Tem olhos pequenos agarrados a uns óculos com hastes coloridas, uma boca que parece uma lâmina e um anafado lombo a repuxar um casaco de couro que se estende pela cadeira. É nítido o aborrecimento com que vai planando e pairando sobre as palavras do mestre. Fascina-me a sua indiferença.

Olha displicente o público com uma desatenção que me contagia. Numa destas fugas do olhar, macambúzia e quase arrogante, parece ter encontrado um ponto na plateia que lhe agrada. Sorri, acena com discrição e mima depois uma atenção que nunca teve, voltando-se compenetrado para a mesa. Procura uma nova posição na cadeira, endireitando as costas e coloca em ordem as folhas de papel até ali inúteis. Parece-me contente. Creio que feliz, embora de felicidade ou da falta dela eu não entenda muito.

Vou à procura da origem desta alteração numa pausa entre Bãnón e a outra figura que desata a sumariar o que o arquitecto havia reparado. O sorriso do homem distraído tinha surgido da surpresa de ter visto uma matrona repolhuda encaixada na cadeira, de cabelo oxigenado, ripado, arames farpados, armados, e lábios manchados de bâton de cor que condizia com o lilás do vestido de fazenda.

A felicidade é então uma matrona rechonchuda, de lilás, com cabelo de arame farpado e capaz de provocar o fingimento de um homem distraído. É tão simples e é tão bom ver assim a felicidade vestida de lilás, fazenda feia, a cruzar o olhar, a entrelaçar os dedos do olhar, na desatenção de um homem que não se interessa por nenhuma arquitectura.

Bãnón recomeça a falar. Deixo o lilás na plateia como quem fecha a porta de uma casa onde se entrou por engano.

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A Gaffe relembra

rabiscado pela Gaffe, em 21.01.14

Dressing well is a form of good manners.

Tom Ford

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A Gaffe com uma estrela

rabiscado pela Gaffe, em 21.01.14

O rapagão aproximou-se tímido. Trazia um blusão com as cores de Portugal, gorro enfiado na cabeça e um martelo pendurada à cinta.
Tememos o pior.
A minha irmã ergueu a sobrancelha (modo subtil de mostrar receio) e o meu irmão desviou o olhar (modo descarado de revelar fastio).
- A menina é a Maria João Bastos, não é?! – Sorriu o moçoilo todo corado, de mãos enroladas na vergonha, procurando captar o olhar da rapariga.
A minha irmã voltou a cabeça de repente. Olhos esgazeados, salivando gozo.
- Sou, mas viajo incógnita.  – Cochichou maldosa.
Cravou-lhe um autógrafo no braço com a esferográfica (brava esferográfica!) do rapaz do bar.
- Quem é a Maria João Bastos?!  Bisbilhota, depois daquele orgasmo gráfico, o meu irmão, afastado irreversivelmente do Star System planetário.

- Acredita que não importa. A única coisa que tens de saber é que se a confundem comigo, a mulher é deslumbrante!
Volta-se para o rio e enche-o de cristais de gargalhadas.


A vida é tão mais simples na província!

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A Gaffe directa ao coração

rabiscado pela Gaffe, em 18.01.14

Ontem recebi um email com um link para uma música que alguém pensou que talvez eu gostasse de ouvir. Fiz o download da melodia e cumpri todos os passos necessários para não desconfigurar nada (comigo até os dedos ficam entalados no teclado). Não a ouvi de imediato. Andei várias horas sem sequer tocar no aparelhinho. À noite, tranquei a porta do quarto, sentei-me na cama e ouvi finalmente a música fantástica que me tinham dado. Ouvi e voltei a ouvir até à exaustão.

Ainda não consegui apagar da cara este sorriso idiota! Tudo porque alguém que não conheço pensou em mim, sem mais nem menos! Assim, só por pensar. Alguém que não conheço procurou, para mim, uma melodia e teclou o endereço onde eu a podia resgatar. Alguém que não conheço e para mim e só e pronto.

 

Não sou muito boa a agradecer estas coisas, porque nunca me acontecem, mas se soubesse configurar este post (e fosse uma menina bem educada), escrevia com letras que não se conhecem, muito pequeninas, mas mesmo muito pequeninas, a palavra obrigada, porque gostava muito de lhe agradecer baixinho. 

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Gavetas:

A Gaffe britânica

rabiscado pela Gaffe, em 17.01.14

Tact is the ability to tell someone to go to hell in such a way that they look forward to the trip.

  Winston Churchill 

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A Gaffe sentada

rabiscado pela Gaffe, em 17.01.14

Pelo meio das cidades mais brutais há sempre uma minúscula e imprevista réstia de esperança que aguarda teimosa que os autocarros parem e que alguém a veja. Normalmente está sentada no banco onde descansa o coração.    

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