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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe e um mito

rabiscado pela Gaffe, em 07.01.14

Quando todos pensam a mesma coisa, é porque ninguém pensa grande coisa.

Esta espécie de aforismo salta-me aos olhos quando deparo com a massa contristada e unânime que desfila, e é transmitida em directo pelas televisões até à mais agoniante e trágica das exaustões, perante os restos mortais de um homem erguido como herói, mito ou divindade.

Todos os consensos, aqueles que são oriundos de maiorias esmagadoras que tendem para uma eventualmente perigosa unanimidade, comportam-se como multidões que raramente (assusta-me dizer nunca) conseguem manter a racionalidade exigida a um comportamento consciente e isento da perturbação do instinto. A massa resultante deste amolgar do pensamento crítico e desta compressão dos elementos díspares que aniquila a diversidade ou a diferença de opinião, expulsa invariavelmente, e muitas vezes com violência, todo o pensamento que não lhe obedece e que é observado como ofensa à segurança do comum e construído como unificador.

A opinião que Mário Soares ousou exprimir acerca de Eusébio ou as declarações de Conceição Esteves acerca da possível trasladação dos restos mortais do futebolista para o Panteão Nacional, foram justificação para a total e mais inflamada rejeição infectada por insultos. Velho gagá, estúpido, loira, burra, frígida, são alguns mimos com que foram brindadas as duas personagens que (apesar de desadequada e mesquinha a primeira e pateta e parola a segunda) se limitaram a colocar os pés na terra – lamacenta, mas mesmo assim palpável - , mantendo mesmo um estranho equilíbrio entre uma espécie de euforia da tragédia e o mais banal dos pensamentos práticos.

É-me indiferente ter ou não ter Eusébio no Panteão, ao lado de Amália (receio apenas que se decida encaixar no meio a irmã Lúcia), mas não deixo de reconhecer a genialidade deste incomparável jogador. Não consigo colocar em causa a forma como foi chorada a sua morte, embora lamente que não tivessem sido chorados da mesma forma, por exemplo, Saramago, Ramos Rosa, Óscar Lopes, Urbano Tavares Rodrigues, Alcino Soutinho, Nadir Afonso ou Albino Aroso. Mortos tão geniais e génios tão globais como o presente.   

Não é isso que está em causa.

Ouço com muitíssima atenção um querido amigo que me fala de Eusébio como a mais recente defesa de uma das múltiplas variantes do pensamento de Roland Barthes e o que me apercebo, no caso de Eusébio, é da exemplar construção de um mito que, como todos os mitos, heróis ou heróis mitológicos, resulta da frustração que se encontra na ausência de Resposta, da falha (Barthes, diz o meu querido sábio, chama-lhe manque) de um elemento agregador que possibilite a coesão de um povo, da urgência, tantas vezes inconsciente, de local de partilha, um lugar-comum que possibilite a resposta unânime do colectivo ao desconhecido, ao inseguro, à treva e à sensação de incompletude vivida no presente.   

Eusébio é, assim, a matéria-prima que enforma o mito encarado, barthianamente, como contraponto a uma falha, a uma ausência colectiva de respostas e a sua transformação em herói divino (Ricardo Araújo Pereira - comovido, é certo - refere-se a Eusébio como divindade e já existe uma velhinha que afirma ter largado as muletas, voltando miraculosamente a andar sem apoio, quando caminhava para depositar flores aos pés da estátua do futebolista) é quase imediata porque contém as qualidades essenciais aos heróis mitológicos: é consensual, é grupal, pode ser mesmo societal, é comum, é agregador, unificador, é passível de se tornar símbolo, sobretudo inconsciente, de um povo que teme a sua visível desconstrução e que tem urgência de se edificar do nada, é identificador, é simples, é reconhecido como o mais básico ideal de honestidade pura com rastos de uma ingenuidade primeva, é a projecção estável de uma comunidade em desequilíbrio, é a Resposta clara a uma falha sentida trágica e sem solução pela colectividade, sendo portanto capaz de se erguer como projecção mitificada de um povo.

Quando todos pensam a mesma coisa, é porque ninguém pensa grande coisa ou porque a coisa pensada foi tornada divindade e como todos os deuses, a coisa assim pensada é moldada com o barro dos que a pensam.

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A Gaffe de Nick Wooster

rabiscado pela Gaffe, em 07.01.14
Nick Wooster
Nick Wooster, de 53 anos, é o que mais próximo está de um bem conseguido opinion maker relacionado com os trapos que se vestem.

Director criativo das grifes Neiman Marcus e Bergdorf Goodman, Wooster é  um dos homens mais fotografados por Scott Schuman, do  Sartorialist, um respeitado e invejado fashion blog dos Estados Unidos.

O amadurecido rapagão ilustra perfeitamente a ideia de que homens acima dos 40 podem ser tão atraentes como os mais tenros e ternos meninos de coro que tentam encontrar um rasto de seguidores criando imagens repletas de extravagância bacoca, inevitavelmente muito pouco inteligente.

Embora a Gaffe reconheça que Wooster não é um dos seus rapazes favoritos, não resiste a espreitar o aquário onde se move este tubarão, porque toda a rapariga esperta sabe que são os espaços que um homem habita aqueles que fornecem as mais importantes informações que se tentam manter em sossegado segredo.

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