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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe e dois arquitectos

rabiscado pela Gaffe, em 22.01.14

José Joaquín Parra Bãnón, arquitecto e professor, é há demasiado tempo o único contributo para uma abordagem original da obra de Saramago. Estuda a arquitectura Saramaguiana, a que se vai construindo no interior das figuras e nos espaços físicos criados pelo escritor.

Mafra ou Blimunda, Ricardo Reis a contar os móveis contabilizando-se também nesse rol exíguo, pontes por onde os cegos se entrechocam, muros de nomes ou cavernas. Construções elaboradas por palavras que erguem uma insuspeita mas sólida e real arquitectura no interior da obra. Bãnón analisa palmo a palmo, traço a traço, os desenhos contidos em cada livro e vai revelando a surpresa do encontro da arquitectura com a literatura, dentro da literatura, demonstrando a perícia e a clareza com que Saramago edifica os espaços, exteriores ou interiores às suas personagens.

Bãnón é um homem pequeno que por instantes me faz lembrar o meu pediatra, engravatado e primorosamente penteado, sentado a uma mesa demasiado grande, numa sala demasiado aquecida onde entro atrasada e não tenho lugar. Fico de pé, atenta as inúmeras pistas que são dadas e que revelam de forma inquestionável Saramago como arquitecto.

Ao lado do Professor estão três figuras que não consigo identificar. Três homens distraídos. O mais próximo de mim, de costas voltadas para o lado esquerdo da plateia, de vez em quando mostra-me o perfil. É feio. Tem olhos pequenos agarrados a uns óculos com hastes coloridas, uma boca que parece uma lâmina e um anafado lombo a repuxar um casaco de couro que se estende pela cadeira. É nítido o aborrecimento com que vai planando e pairando sobre as palavras do mestre. Fascina-me a sua indiferença.

Olha displicente o público com uma desatenção que me contagia. Numa destas fugas do olhar, macambúzia e quase arrogante, parece ter encontrado um ponto na plateia que lhe agrada. Sorri, acena com discrição e mima depois uma atenção que nunca teve, voltando-se compenetrado para a mesa. Procura uma nova posição na cadeira, endireitando as costas e coloca em ordem as folhas de papel até ali inúteis. Parece-me contente. Creio que feliz, embora de felicidade ou da falta dela eu não entenda muito.

Vou à procura da origem desta alteração numa pausa entre Bãnón e a outra figura que desata a sumariar o que o arquitecto havia reparado. O sorriso do homem distraído tinha surgido da surpresa de ter visto uma matrona repolhuda encaixada na cadeira, de cabelo oxigenado, ripado, arames farpados, armados, e lábios manchados de bâton de cor que condizia com o lilás do vestido de fazenda.

A felicidade é então uma matrona rechonchuda, de lilás, com cabelo de arame farpado e capaz de provocar o fingimento de um homem distraído. É tão simples e é tão bom ver assim a felicidade vestida de lilás, fazenda feia, a cruzar o olhar, a entrelaçar os dedos do olhar, na desatenção de um homem que não se interessa por nenhuma arquitectura.

Bãnón recomeça a falar. Deixo o lilás na plateia como quem fecha a porta de uma casa onde se entrou por engano.

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