Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe dolorosa

rabiscado pela Gaffe, em 13.02.14

Já não me lembro quem disse que a evolução de um país se mede pelo modo como esse país trata das suas crianças e dos seus velhos, mas sei que tinha um sábio professor que afirmava que havia um método bem mais simples de diagnosticar tal estado evolutivo: olhar para os dentes dos seus habitantes. 


É difícil imaginar o choque que é assistir ao retrocesso do meu país. O estado lamentável em que se encontra a população que vai a pouco e pouco regredindo. Num curtíssimo espaço de tempo o povo que conheço empobreceu de forma assombrosa e essa pobreza gerou uma espécie de violência que vai surgindo nas mais pequenas coisas.

 

Apanhei há uns tempos dois miúdos que tinham apanhado dois bichos minúsculos (penso que dois ratitos, mas nem sequer quis verificar) e enquanto um os segurava, o outro esmagava-lhes a cabeça com uma pedra. Riam-se muito. Apeteceu-me desfazê-los à estalada. Conheci uma velha senhora que guardava o pão na gaveta da mesa-de-cabeceira durante uma semana. Não o deitava fora porque tinha medo de não ter dinheiro para comprar mais. Não o comia, porque tinha medo de quando tivesse fome não ter nada para morder. Soube de outra que sofreu danos relativamente graves no estômago porque partia as ampolas que lhe tinham sido prescritas e deixava os pedacinhos de vidro no copo. Há ainda um homem que espancou o filho de cinco anos. No dia seguinte a professora quis transportá-lo ao hospital, mas parece que é proibido. Teve de chamar uma ambulância. Não foi acompanhado por ninguém. A criança tinha duas costelas partidas e hematomas por todo o lado. Foi batido porque não conseguiu ler a palavra bonito (já conseguia ler palavras que começam por a). Ficou internado por ordem do tribunal, mas o pai tem direito a visitar a vítima que chora compulsivamente quando o vê porque tem saudades. Soube que há um edifício ainda em construção, mas embargado por falta de licenciamento, onde duas adolescentes se prostituem a troco de pechisbeques. Uma delas é portadora de trissomia 21. 


Soube de tanta miséria, tanta e de tal forma em expansão, que desato a chorar se continuo a escrever mais e já nem sei se por raiva ou se por esse tão falado lamento português. 


O meu país tem os dentes podres.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe numa história de amor

rabiscado pela Gaffe, em 13.02.14

Não há histórias de Amor se não forem magoadas. O Amor Feliz não tem narrativa. A Felicidade é analfabeta.

Sei de uma história de Amor coberta pelas sombras. Não a sei contar, porque devo ser feliz ou porque há vendavais ensandecidos que emudecem na história de Amor que eu não sei contar ou porque há covis onde as palavras estremecem, se acanham e definham diante daquilo que é suposto nomearem.

A história de Amor que eu não sei contar não tem começo. É como um rochedo. Nunca lhe conhecemos o início. O nosso limite está na paisagem que dele se avista e isso basta.

A história de Amor que eu conheço tem um rapaz lá dentro. Um rapaz de silêncios e penumbras que passava pelas portas quase sem abrir e que se reproduzia nas janelas, afastando pesados cortinados de veludo, para debruçar os olhos leves, indiferentes, sobre os montes pesados aos soluços. Era um rapaz breve. Passava pelas vidas tenuemente e não deixava rasto dos seus passos nas tábuas dos soalhos e das almas. Tinha saudades, diziam, da lonjura, de cidades que brilham no escuro e de jóias pintadas por flamengos. Tinha cansaço nos gestos, tédio nos olhos, enfado no sentir. Tinha promessas fatigadas de manhãs que nunca despertavam, juras afogadas no lago onde passava para dar comida aos peixes. Tinha gerânios e jarros para cuidar, na boca a textura de todos os jardins e tinha uma pérola presa por um fio, um anel de ferro e uma mulher, cega de Amor, aos pés.

Quando o rapaz morreu, ninguém ouviu falar da Morte. Fez-se o Silêncio.

O corpo veio de longe e foi fechado.

Depois cresceram árvores na mulher. Árvores que deixam o vento passar por entre os ramos de modo a que se ouça a voz do morto.

 

É uma história que eu não sei contar.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)


foto do autor








Copyrighted.com Registered & Protected 
JIFR-J5MR-Y1XR-YACD