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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe sem correspondência

rabiscado pela Gaffe, em 23.02.14

O senhor Fernando José Fragoso Moreira, o fajoca para os amigos, tem sessenta e sete anos.

Viveu sempre numa aldeia do Peso da Régua.

Há um mês pegou numa mala a cheirar a plástico e a petróleo comprada numa loja chinesa, meteu dentro tudo o que podia e abalou para França, com tudo direitinho.

Vai limpar os corredores de um Hospital no turno da noite que de manhã faz uns biscates como electricista e de tarde vai podar as árvores de um jardim.

Tem saudade do filho, emigrado na Suiça há uma data de anos, que não lhe sabe escrever cartas bonitas.

Nenhum dos dois tem facebook.

 

Lembrei-me deles. Vá lá saber-se porquê.

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A Gaffe no Tibete

rabiscado pela Gaffe, em 23.02.14

Estou a ler afincadamente um livro sobre o Tibete (O Livro Tibetano da Vida e da Morte de Sogyal Rinpoche) e emperrei no capítulo que descreve de forma que considero clara e concisa a filosofia subjacente ao conceito de vida e morte.

Não vou sequer discorrer sobre o assunto, porque não tenho capacidade para espirrar o que quer que seja perante a magnificência do que ali é referido, mas há um pequeniníssimo pormenor que me deixou perplexa e que me atrevo a referir aqui.

Diz o volume, a certa altura, que entre o impacto do reconhecimento de um drama ou de uma tragédia, de uma alegria ou de uma felicidade extrema (entendamos drama e tragédia, alegria e felicidade de acordo com as nossas subjectividades) e as reacções que provocam, existe um instante em que a nulidade surge aliada a uma impotência com características universais e transversais. Ficamos absolutamente vazios nesse brevíssimo instante que poderá não durar não mais do que décimos de segundo.

Esta absoluta nulidade, esta nudez, não é nada mais do que a Libertação. O facto de durar um tempo ínfimo, permite a imediata invasão do raciocínio e da emoção correspondente ao facto ocorrido. 

Está na aprendizagem do prolongar deste vácuo o segredo dos mestres tibetanos. É neste espaço que procuram a existência e é neste intervalo oco que colocam a vida, isentando-a e expurgando-a. 

Tudo isto pode não passar de um apontamento insultuoso perante a esmagadora sabedoria dos mestres tibetanos, mas talvez não seja disparatado pensar que seriamos considerados um bando de autistas, ou dignos de internamento compulsivo ou com elevadíssimos défices cognitivos se, no Ocidente, desatássemos todos a aprender a flutuar nos intervalos da chuva.

 

No Ocidente não nos molharmos é circense. 

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