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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe santificada

rabiscado pela Gaffe, em 31.03.14

A Mélinha, zelosa encarregada do bar e dos cafés que no início da manhã são distribuídos, pertence nas horas vagas ao grupo sinistro das senhoras que vigiam as urgências dos Hospitais, catando as mais escabrosas maleitas, os mais tenebrosos acidentes e as mais diabólicas ocorrências.
O facto de também morar praticamente em cima do Hospital, permite-lhe uma atenção peculiar e mais aguçada do que aquela que as suas congéneres não conseguem dispensar de forma contínua e mais atempada.
Entre benzeduras e suores frios, entre boca aberta e olhos arregalados, a Mélinha chega e entre a palidez e a vontade que a sufoca de despejar sobre todos o que sabe, vai servindo os cafés suspirados e trémulos.
Inevitavelmente alguém questiona os murmúrios da senhora que, sem se fazer rogar e entre uma oração escandalizada, expulsa o que os seus olhos viram abertos pelo choque e incredulidade na madrugada de ontem.
Ocorreu à urgência, de ambulância com as velas pandas, uma jovem mulher de cerca de trinta anos, com um objecto absolutamente imprevisível preso no sexo.
Nada que perturbasse a nossa valente mulher dos cafés. Tinha assistido, ’indera muossa, a situações idênticas. Lembrava-se do caso interessante em que uma garrafa de Coca-Cola se tinha recusado a ser desalojada de igual lugar, justificando assim o slogan Primeiro estranha-se, depois entranha-se.
O que realmente a arrepiava era um facto simples: o objecto estranho preso na moçoila, era nada mais do que uma Nossa Senhora de Fátima, de plástico, com cerca de vinte cm (e já sem coroa, como se imagina – embora custe).
A rapariga no meio do escuro, pela noite dentro, solitária e triste, decide alegrar as horas que nunca mais passam e tacteando cega em busca de maior conforto, teria confundido texturas, formas e sobretudo objectivos.
Pode ser também que, católica muito fervorosa, quisesse criar uma ligação mais íntima com a Santa, fazendo-a chegar à alma por caminhos mais ínvios e esperando depois que lhe batesse palmas.
Habituada a aparecer e a desaparecer em lugares esconsos, enfiada em grutas e empoleirada em árvores, espanta-me que a Santa tenha reagido mal, recusando ser desalojada.
As meninas que por aqui saltam, pincharam do bar, num abrir e fechar de olhos ou, mais apropriadamente, enquanto a Santa esfrega um olho e, num afã inusual, correram ansiosas para os gabinetes, quem sabe se resfolegando de alívio, descobrindo que as suas versões de santos metediços ainda se encontravam nos sítios do costume.
Resta orar para que o Papa ignore está magnífica oportunidade de negócio, porque, de contrário, teremos aberta, mais cedo ou mais tarde, a ermida roliça da trintona santificada e uma romaria imensa de fiéis de vela na mão a cantar Hossanas à moçoila benta.

 

A Mélinha, entretanto, já se recompôs. 

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A Gaffe assassina

rabiscado pela Gaffe, em 30.03.14

Tive o dia todo inteiro para mim. Fiz dele o que quis, depois de o estrangular com uma fita de veludo, vermelha, amarfanhada.

Gosto de dias mortos, que não esperam por ninguém, deitados no chão, nus, ao abandono, com uma tira vermelha no pescoço como se tivessem as gargantas lancetadas.

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A Gaffe no dentista

rabiscado pela Gaffe, em 27.03.14

Fui ao dentista. Nada de horripilante. Apenas rotina e uma atracção pelo sorriso do médico. Deram-me uma revista velha para a mão, que o senhor doutor estava ligeiramente atrasado.

 Abri e li: 
a Lili Caneças nasceu em 04/04/44, com 4 kg e, quem sabe, já com 4 anos, o que faz com que tenhamos de lhe retirar estes 4 aninhos à idade e concluir que a mulher não tem 444 anos mas apenas 440 o que já lhe permite umas escapaditas sem se desfazer em pó, como os vampiros mortos pelo espeto daquele senhor musculado (não me lembro do nome). Dizem que vai para Inglaterra, possivelmente para herdar o trono.
Ao lado, a Luciana Abreu é a princesa Yasmine e agradece à Nossa Senhora a reconciliação matrimonial. Mostra-se toda comovida, com lágrima no olho e vai a Fátima a pé falar com a oliveira onde a Senhora apareceu empoleirada. Parece que está habituada a travar palratório com árvores desde que encarnou a Floribela. 
Depois um menino moderninho com ar pelém e milhares de dentes branqueados deixa-se fotografar agarrado ao livro que publicou. Um policial baseado num assassínio de um cronista social. O moço aparece na fotografia atracado à Maya com sobrancelhas tipo antenas para justificar o nome e unhacas que fazem suspeitar que foi ela afinal quem matou o tal bisbilhoteiro.  
Leio que o Castelo Branco tem a Betty (um triunfo na arte de embalsamar) no hospital com uma pneumonia grave e que agora vive com uma coisa com ar de lesma pisada e que ambos se divertem imenso todas as manhãs a maquilharem-se ao espelho.


Mudei de revista.


Agarrei noutra que me pareceu mais interessante. Tinha um puto-maravilha na capa. O neto de um magnata português. Vamos lá ver em que é que o moço é genial para merecer aquelas honras.
Em nada.
É um rapazinho igual aos outros a dizer-nos que teve média de 15 e não entrou em Harvard, que usa um Rolex com calças de ganga e que tem um carro na garagem à espera que ele tire a carta de condução. Vê-se o rapaz fotografado de fato numa foto e mais desportivo noutra, com setinhas a chamar-nos a atenção para o jeans e para a falta de gravata. O menino diz duas ou três coisitas decoradas, mais ou menos inteligentes, que ouviu o avó dizer num jantarinho qualquer e declara que apesar de pertencer a uma das famílias mais ricas do país, anda de transportes públicos. Não convive com a pobreza, por isso não sabe como ela se comporta e que, devido à sua condição, convive apenas com gente do topo. Ficamos a saber o que é que o tipinho considera essencial e o que não deixa nunca de levar para a faculdade. É tudo. O puto-maravilha é isto e a revista faz disto a capa.

 

São revistas velhíssimas (eu sei, estou na sala de espera de um consultório), mas as recentes são idênticas, do tipo continuação do capítulo anterior.

 

Foi então que aquilo começo! Teve início na nunca, mas depressa invadiu todo o córtex cerebral, desceu pela cana do nariz, entrou-me na boca e de súbito ouço-me a cantarolar no vazio que se fez:

 

Eu quero ser tua! oh! oh! oh! oh! oh!

Eu quero ser tua! oh! oh! oh! oh! oh!

Eu quero ser tua! oh! oh! oh! oh! oh!

Eu quero ser tua! oh! oh! oh! oh! oh!

 

O meu receio era que aquilo se tornasse audível e que me fizesse entrar toda loira, aos pinchos, encaixada num vestido dois números abaixo do que uso e desatasse a esbardalhar o dentista com propostas todas pimponas, bamboleantes e curvilíneas.

Comecei a suar frio quando a recepcionista me avisou que o senhor doutor me iria consultar dentro de segundos.   

 

Suspirei. Depois cerrei os dentes e entrei no consultório. O senhor doutor vai ter de usar um berbequim.

 

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A Gaffe cozinheira

rabiscado pela Gaffe, em 26.03.14

A Gaffe anda muito ocupada.  

É péssimo indício. Significa que se anda a baldar em demasia.  
Tem imenso trabalho para acabar. Não lhe apetece. Arranja sempre maneira de fugir com o rabinho à seringa. Olha para a pilha (a Gaffe disse pilha, atenção!, nada de trocadilhos à Teresa Guilherme) de relatórios que tem para rever e analisar e de repente percebe que ainda não tomou café ou que ainda não deu uma voltinha pelos corredores para dar beijinhos aos amigos. Vê o que tem em cima da secretária e descobre que gostava de tentar fazer aquela receita que lhe deram.

É de carne assada e é uma delícia.
 Ora vamos lá experimentar:

 
1 - Vamos ao talho e pedimos 1/2 Kg de carne de porco e 1/2 Kg de carne de vaca; 
2 - Pedimos ao senhor do talho que passe tudo junto pelo picador, três ou quatro vezes; 
3 - Levamos aquela pasta com mau aspecto para casa; 
4 - Já no aconchego do nosso lar, misturamos a carne picada com meio frasco de maionese e juntamos mostarda qb; 
5 - Pegamos numa panelinha e fazemos um caldo de cebola, daqueles que se compram embalados. Basta misturar água e deixar ferver em lume brando, mexendo para não ficarmos com a cozinha a tresandar a Maggie; 
6 - Arranjamos uma terrina que suporte o forno e enfiamos a carne dentro (não dar importância ao facto daquilo parecer vomitado); 
7 - Regamos com o caldo de cebola; 
8 - Levamos ao forno e só o tiramos quando a coisa estiver consistente e tostadinha (a Gaffe está a falar da carne da receita); 
9 - Comemos às fatias acompanhadas por arroz branco e salada. 


Não é nada de especial, mas é bom e desencrava uma rapariga solteira e boa menina.

 

Agora a Gaffe vai ver se arranja outra porcaria qualquer para se distrair, que tem muito trabalho acumulado.

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A Gaffe batalhadora

rabiscado pela Gaffe, em 25.03.14

Há raparigas espertas que atingem a maturidade deslumbrante das mulheres seguras que nas mãos agarram o poder e o consideram seu, por mérito ou herança.

Mérito e herança. Esta dupla conjugação de perigo e quase paradoxal aliança de factores, permite-lhes sorrir e acalmar quando as ameaças ao trono dado ou conquistado (ou a conjugação de ambas as formas de o deter) se fazem sentir a assombrar o ceptro.

Com o poder nas mãos, da cor das unhas, entram dispostas a exigir, porque lhes é inerente e epidérmica a necessidade de exigência. Reclamam qualidade, a mais cuidada, a mais pensada, a mais minuciosa, aquela que é considerada direito inalienável e, em consequência, impossível de lhes ser negada.

São detentoras de um bestial magnetismo, de uma fragilidade enganadora e de movimentos pensados. A elegância absolutamente interior extravasa e espalha-se em todos os gestos. Trazem a poderosa vontade de triunfo que lhes faísca nos dedos e aquela consciência aguda das armas que usam para o alcançar.

Ao lado delas somos pequeninas, somos bagatelas, e no entanto sei, no silêncio sinistro do fundo da minha alma, que, das duas, a mais amada é sempre a mais pequena.

  

Descubro que nos campos de batalha que o amor provoca, não basta possuir as armas certas para garantir a vitória. Basta (tantas vezes!) que o guerreiro não encontre razões para combater.

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A Gaffe radical

rabiscado pela Gaffe, em 24.03.14

Após pesquisa, com carácter científico, como não podia deixar de ser, conclui que os blogs dedicados a rapazinhos nus ou quase nus, todos em excelente forma física, proliferam como moscas no Verão ou pulgões na praia. 
Aquilo é só clicar que nos aparecem biliões deles com fotos para todos os gostos e feitios.

Também os há com meninas (não sei como, mas neste contexto a palavra meninas não soa muito bem) que nos fazem desejar ser todas lésbicas, mas confesso que sou muito mais exigente em relação aos dos rapazes.  
A verdade é que se começa a ter uma certa dificuldade em eleger as melhores fotos. Isto porque os meninos e as meninas aparecem em poses que deixam muito a desejar ou arranjam cara de se me apanhares, levas-me para onde quiseres que eu deixo ou posições de eu sou bom como milho – ou boa, dependendo do cereal - e tu não vales um cêntimo  ao meu lado ou ainda, e estes são mais vulgares, ai que acordei e tenho o rabinho ao léu. Depois há os títulos que são do melhor: Vermelhas em carne-viva; Marinheiros escaldantesDuas estrelas e um sonhoOs bravos do "pilotão" ou ainda Para acordar no paraíso.
Confesso que ainda procurei uma imagem que me agradasse para a colocar aqui e dar um ar gaiato a esta depravação, mas depressa desisti.

 

Ninguém tem paciência para aquilo! Aquela gente não anda na rua. Nunca me passou pela frente um homem daqueles e nunca encontrei no metro uma rapariga com a barriga para dentro, maminhas e rabo para fora, agarrada ao varão, embora no metro já tenho visto de tudo.

É desolador.

O mais próximo que estive dum modelo daqueles foi na semana de moda em Paris, quando um matulão, com um ar de italiano que quase me fez tinir o cérebro, se abeirou de mim todo sorridente para me perguntar se sabia onde se podiam comprar maçãs. Eu saber, até sabia, mas aquilo era fruta a mais para os meus dentes. Engasguei-me toda e encolhi os ombros como quem não faz ideia do que o bonitão queria. Tão idiota que eu fui! Se não me tivesse apanhado de surpresa, com dois sacos de plástico cheios de pacotes de arroz, massa, farinha e uma garrafa de azeite, dizia-lhe facilmente onde estava a fruta.  
Voltando ao assunto, que tristezas não nos pagam o gás. Da minha investigação resulta um facto: estes mocetões e estas mocetonas estão ali, de rabo ao léu e cara de carneiro que vai ser imolado e já está bêbado para não sentir, só para nos humilhar. Não pode ser outra coisa. Então aqueles frascos existem e nós temos apenas as amostras, ainda por cima sem aquelas tampinhas?! Então aquela gente anda por aí e nós só temos direito a um algodão sem graça nenhuma e que nem sequer é egípcio, (exótico, vá)?! 
Mas acima de tudo: então eles e elas estão ali, lindos de morrer e sãos como pêros, e nós passamos olheirentas, com a borbulha a cintilar e o pêlo encravado, sem hipótese nenhuma de nos sentirmos sensuais mesmo de peluche enfiado no decote ou tacões agulha cravados nos paralelos?! 
Que se danem todos. Decidi não fazer posts com fotos de gente que só de cuecas é humilhante para o populacho.

Nestas coisas sou uma rapariga de esquerda radical: ou come tudo ou ficamos por aqui.

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A Gaffe de pau

rabiscado pela Gaffe, em 22.03.14

Sou informada pela minha boa amiga duriense, que estão proibidas há uma data de tempo as colheres de pau na culinária portuguesa.

Não sabia!

Como parola que sou seria de esperar não conceber a confecção dos rojões sem este instrumento e sentir um escândalo, e uma ofensa à tradicional culinária, a europeia limitação. Diz quem sabe, no velho Douro vinhateiro onde nasci, que a madeira funciona como condimento. É imprescindível, como o louro ou como a pimenta. No entanto, já mexi o estrugido com uma esferográfica e com uma régua e o arroz acabou por ter a mesmo consistência que o tão falado arroz caseiro da minha avó paterna: papel higiénico molhado e com o mesmo sabor.
É-me indiferente usar, ou não, a colher de pau. Não faço questão. Raramente cozinho e jamais imitarei Cavaco Silva enfiando-a onde toda a gente já adivinhou. Tanto se me dá, como se me deu, usar uma de pau ou uma de plástico ou de silicone, mas tenho de lamentar o facto de saber que uma colher tão básica e banal tem de aguentar mais um abuso das directrizes europeias ou de emigrar para onde uma colher é respeitada tal como é, sem discriminação de género ou material, podendo enfiar o cabo em qualquer tacho disponível.

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A Gaffe relaxada

rabiscado pela Gaffe, em 20.03.14

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A Gaffe pendurada

rabiscado pela Gaffe, em 19.03.14

A minha infância (não longínqua, convenhamos) foi povoada pelo sonho de ter uma casa na árvore.

Árvore havia, mas a minha santa avó jamais permitiria que uma menina desatasse a trepar a coisas grandes ou se acomodasse onde não se conseguisse instalar o ar condicionado.

Ficou-me a nostalgia, a tristeza de hoje já não me ser possível cravar no tronco os calços dos Louboutin e o receio de desatar aos gritos com vertigens.

Mas, a criança que me arranha o coração de vez em quando, ainda sonha com a proibida casa da árvore e qualquer uma destas serviria!

   

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A Gaffe nos canos

rabiscado pela Gaffe, em 17.03.14

Quando já ocupamos o autoclismo, a banca da cozinha e o armário dos detergentes com os livros que já não encontram lugar em mais lado nenhum e já não conseguimos segurar nem mais um com os dentes, não há nada como recorrer à canalização.

Convém no entanto escolher os que supomos menos atractivos aos olhos do senhor Domingos, useiro e vezeiro nas fugas literárias, que normalmente é chamado para reparar o pingo.

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A Gaffe de crista

rabiscado pela Gaffe, em 15.03.14

É impressionante a quantidade de cristas que desfilam entregando um allure militar, ainda que vago, às avenidas do nosso descontentamento.

A originalidade não é uma das características mais notáveis nesta espécie que se reproduz nas cadeiras dos barbeiros das esquinas, mas é sempre agradável quando deparamos com um exemplar que decide mostrar a toda a gente que passa que só traz na cabeça o único amor que provavelmente tem na vida.

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A Gaffe arquitectónica

rabiscado pela Gaffe, em 14.03.14

E se a vossa casa tivesse sido planeada não por um arquitecto, mas por um artista plástico?

A Archist decidiu imaginar o encontro entre a arquitectura e a arte. O resultado é por vezes bizarro, mas consegue envolver as duas áreas provando que por laços nunca dantes navegados reconhecemos sempre os traços dos génios.

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A Gaffe na GNR

rabiscado pela Gaffe, em 11.03.14
Acontece que 150 elementos da banda da Guarda Nacional Republicana (GNR), a cavalo que nos é dado ver sem mostrar os dentes, desfilam seguidinhos, certinhos, todos limpinhos e muito aprumados, no Terreiro no Paço a abarrotar de gente, desgentada e oca de alegria enevoada, dando alma a Panteão, a nova e belíssima colecção que Nuno Gama oferece à 42ª edição da Moda Lisboa. Depois dos cavalos, desfilam mais elementos da banda, apeados, transformados em cenário, e fazendo ecoar um cheirinho a Lisboa e a hino nacional.

Os deuses podem ser belicosamente generosos com os pacíficos. Ao alcance do nosso olhar escrutinador, os soldadinhos passam, ladeando o glamour de uma colecção perfeita.
Roi-te de inveja, Evita! Agora é a vez da Gaffe sentir que marcham para ela.

 

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De acordo com Nuno Gama convencer a GNR a participar no desfile foi o mais fácil possível. Bastou um email elogioso, mas, mesmo sem email, depois de mirarmos Nuno Gama percebemos que se torna impossível recusar-lhe seja o que for!

 Do outro lado da lua um cabo da GNR é suspenso por ter ousado mostrar a sua excelente forma física num bar qualquer, todo aos pulos de alegria feminina, mostrando quer os atributos que Deus lhe deu, quer os que a GNR usa como apetrechos do ofício.

O pobre do rapagão devia ter percebido que mais valia ter desfilado para Nuno Gama! Também era despido (a Gaffe deixou escapar alguns modelitos do criador, ocupada em desnudar um ou outro soldadinho), também usaria os símbolos da Nação (mesmo sem cavalgaduras) e também faria esbugalhar os olhos às meninas mais impressionáveis (cavalgaduras incluídas).

É certo que o cabo stripper não bamboleou o fio dental (um bocadito largo à frente) ao som do hino nacional, mas temos de admitir que foi mais rápido vê-lo despido do que imaginar os colegas do desfile só de cuecas.

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A Gaffe espinhosa

rabiscado pela Gaffe, em 10.03.14
Raparigas! Debaixo de todos os espinhos que um homem vos consegue mostrar, existe sempre a carinha de uma alma fofa à beira mimo, pronta a deixar que lhe toquemos o focinho ternurento.

O que é preciso é paciência, embora ajuda saber como lá chegar.

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A Gaffe a aplaudir

rabiscado pela Gaffe, em 10.03.14

Mantendo uma linha com influência mais ou menos clara da corrente steam, Valentim Quaresma mais uma vez deslumbra com a colecção apresentada na Moda Lisboa deste ano.

Não é a primeira vez que o criador nos oferece a possibilidade de emergirmos num universo quase fantasioso onde a utilização dos objectos, matérias, texturas e cores que escolhe para produzir os seus adereços, nos transporta para um imaginário onde se mistura um instinto de defesa guerreiro com a aparentemente desprotegida sofisticação que é consequência de um bom gosto irrepreensível.  

Quaresma continua a marcar o espaço onde se torna cada vez mais difícil a permanência da criatividade inteligente.    

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