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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe no dentista

rabiscado pela Gaffe, em 27.03.14

Fui ao dentista. Nada de horripilante. Apenas rotina e uma atracção pelo sorriso do médico. Deram-me uma revista velha para a mão, que o senhor doutor estava ligeiramente atrasado.

 Abri e li: 
a Lili Caneças nasceu em 04/04/44, com 4 kg e, quem sabe, já com 4 anos, o que faz com que tenhamos de lhe retirar estes 4 aninhos à idade e concluir que a mulher não tem 444 anos mas apenas 440 o que já lhe permite umas escapaditas sem se desfazer em pó, como os vampiros mortos pelo espeto daquele senhor musculado (não me lembro do nome). Dizem que vai para Inglaterra, possivelmente para herdar o trono.
Ao lado, a Luciana Abreu é a princesa Yasmine e agradece à Nossa Senhora a reconciliação matrimonial. Mostra-se toda comovida, com lágrima no olho e vai a Fátima a pé falar com a oliveira onde a Senhora apareceu empoleirada. Parece que está habituada a travar palratório com árvores desde que encarnou a Floribela. 
Depois um menino moderninho com ar pelém e milhares de dentes branqueados deixa-se fotografar agarrado ao livro que publicou. Um policial baseado num assassínio de um cronista social. O moço aparece na fotografia atracado à Maya com sobrancelhas tipo antenas para justificar o nome e unhacas que fazem suspeitar que foi ela afinal quem matou o tal bisbilhoteiro.  
Leio que o Castelo Branco tem a Betty (um triunfo na arte de embalsamar) no hospital com uma pneumonia grave e que agora vive com uma coisa com ar de lesma pisada e que ambos se divertem imenso todas as manhãs a maquilharem-se ao espelho.


Mudei de revista.


Agarrei noutra que me pareceu mais interessante. Tinha um puto-maravilha na capa. O neto de um magnata português. Vamos lá ver em que é que o moço é genial para merecer aquelas honras.
Em nada.
É um rapazinho igual aos outros a dizer-nos que teve média de 15 e não entrou em Harvard, que usa um Rolex com calças de ganga e que tem um carro na garagem à espera que ele tire a carta de condução. Vê-se o rapaz fotografado de fato numa foto e mais desportivo noutra, com setinhas a chamar-nos a atenção para o jeans e para a falta de gravata. O menino diz duas ou três coisitas decoradas, mais ou menos inteligentes, que ouviu o avó dizer num jantarinho qualquer e declara que apesar de pertencer a uma das famílias mais ricas do país, anda de transportes públicos. Não convive com a pobreza, por isso não sabe como ela se comporta e que, devido à sua condição, convive apenas com gente do topo. Ficamos a saber o que é que o tipinho considera essencial e o que não deixa nunca de levar para a faculdade. É tudo. O puto-maravilha é isto e a revista faz disto a capa.

 

São revistas velhíssimas (eu sei, estou na sala de espera de um consultório), mas as recentes são idênticas, do tipo continuação do capítulo anterior.

 

Foi então que aquilo começo! Teve início na nunca, mas depressa invadiu todo o córtex cerebral, desceu pela cana do nariz, entrou-me na boca e de súbito ouço-me a cantarolar no vazio que se fez:

 

Eu quero ser tua! oh! oh! oh! oh! oh!

Eu quero ser tua! oh! oh! oh! oh! oh!

Eu quero ser tua! oh! oh! oh! oh! oh!

Eu quero ser tua! oh! oh! oh! oh! oh!

 

O meu receio era que aquilo se tornasse audível e que me fizesse entrar toda loira, aos pinchos, encaixada num vestido dois números abaixo do que uso e desatasse a esbardalhar o dentista com propostas todas pimponas, bamboleantes e curvilíneas.

Comecei a suar frio quando a recepcionista me avisou que o senhor doutor me iria consultar dentro de segundos.   

 

Suspirei. Depois cerrei os dentes e entrei no consultório. O senhor doutor vai ter de usar um berbequim.

 

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