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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe na Cartier

rabiscado pela Gaffe, em 28.04.14

Dizem que todos temos um preço. Não sei se é verdade.

Gosto de pessoas que se vendem depois de nos exibirem esforços agradáveis. Daquelas que nos fazem pisar chãos de madeira cuidada e sentar em cadeiras de época. Geralmente usam intermediários de fato irrepreensível e sorriso manso. Cumprimentam-nos inclinando a cabeça, apertam-nos a mão como quem toca um recém-nascido e indicam o lugar mais iluminado de modo a desfrutarmos todo o brilho do que queremos comprar. Depois tiram das vitrinas exemplos de faíscas e de glória que podemos reter nas mãos durante instantes. Falam-nos dos preços sempre com desdém e, dependendo do disposto a pagar, vão retirando ou acrescentando luz.

 

Compramos o que pudermos, por vezes ficamos com o empregado de borla, mas é sempre menor o prazer da compra do que o sentir a oferta.

 

Não compro muita coisa! Penso mesmo que apenas pago o afago das ofertas que me fazem.

 

Seria bom encontrar gente mais cara. 

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A Gaffe faz anos!

rabiscado pela Gaffe, em 27.04.14

A minha mãe olha-me e preenche-me de azul. O meu pai coloca-me a mão no ombro e fica com os olhos a brilhar com água. A minha irmã beija-me com sabor a fruta. O meu irmão aperta-me com um abraço forte como uma árvore gigante e a minha avó conta-me lendas idiotas com pronúncia estranha.

Fico com dor de garganta só por tentar esmagar as lágrimas.

Encolho os ombros e digo baixinho:

- Hoje faço anos! 

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A Gaffe e um Soneto

rabiscado pela Gaffe, em 27.04.14

Soneto do amor e da morte

quando eu morrer murmura esta canção
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão.

quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer,
e diz do nosso amor como se não

tivesse de acabar, sempre a doer,
sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão.

Vasco Graça Moura - Antologia dos sessenta anos.

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A Gaffe olímpica

rabiscado pela Gaffe, em 26.04.14

É certo e sabido que o desporto produz fotos excelentes que nos regalam os olhos e nos deixam a salivar.

É tudo tão bonito (em todos os sentidos e formatos) que se torna difícil escolher uma imagem que mereça destaque. Ficamos sideradas com tudo aquilo que vemos mergulhar, esbracejar, correr e saltar, pular e rodopiar no estádios, rampas ou piscinas. Um corrupio nunca visto tão juntinho de grandes e valentes rapagões.  

Um fotógrafo, se quiser ser mais original, não se pode limitar a captar as imagens que todos os outros coleguinhas facilmente apanharam já também. É apontar a objectiva para qualquer lado onde se agitam os atletas e rapidamente se faz uma brilhante fotografia de nos fazer levantar do sofá com as pernas tortas ou flectidas.

Exactamente por isto, escolhi uma de Rhys Howden. Não sei quem foi o responsável pela imagem, mas a verdade é que o pólo aquático fica muito mais interessante com este rapaz na equipa australiana. 

Apesar de não o favorecer muito e da presente e reduzida reprodução  não fazer justiça ao ar malandro do rosto atleta, a fotografia, mostrando-o no momento que antecede a entrada em competição, é um achado e consegue captar a expressão quase irónica de quem se sabe observado e gosta de se sentir olhado sem o reconhecer de forma aberta.

As texturas que o envolvem são incríveis e a luz faz delas um cenário próximo daqueles onde (fala o estereótipo) se moviam os gladiadores antes da entrada na arena para o confronto com os outros leões.  

Não é o repouso do guerreiro. É o momento exacto que antecede a luta e apesar de poder escapar facilmente do catálogo que reúne as fotos habituais neste tipo de evento, é sem sombra de dúvida uma fotografia olímpica de um semideus que espera medalhas.

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A Gaffe caminhante

rabiscado pela Gaffe, em 26.04.14

Há uma grande probabilidade dos presidentes dos Estados Unidos morrerem podres num rancho qualquer na Califórnia ou no Texas. Isto, claro, se ninguém se lembrar de os assassinar primeiro no meio da peça ou no centro da avenida.

É certo e sabido.
A morte de G. Ford (no seu rancho californiano, evidentemente) e as passeatas que por aqui faço com a minha avó, recordaram-me, não o famigerado e infeliz presidente que sofreu a desgraça de substituir o escabroso Nixon e padecer do fracasso vietnamita, mas (sofra-se a confusa miscelânea presidencial) Mrs. Nancy Reagan!


Uma mulher nunca é demasiado magra.


Esta máxima, elaborada pela cowgirl que casou com o homem que achava que as árvores eram causadoras de danos ambientais, pode ser considerada pretexto para os gigantescos passeios de início de Primavera com que, pela tarde de fim-de-semana, eu e a minha avó queimamos calorias.
Esguia, delicada, delgada e subtil, a minha avó jamais poderá amaldiçoar as suas inexistentes gorduras, flácidas rotundidades ou circular corpulência, mas a fogueira que insiste em atear nestes passeios tem como único objectivo o calor cúmplice, exclusivo, que se cria entre ambas.
Diz-mo enquanto encosto a cabeça ao seu braço, pendurado nele que me envolve.


Descubro que há diversos e distintos modos das pessoas que mais amo caminharem comigo.
Prendo o meu corpo à minha avó como serena trepadeira, mimada, terna e doce, com a certeza de que o muro é bem sólido e que posso deixar que as folhas se espraiem sem medo ou queixume.
A minha mãe, namoriscando, tomba presa no meu pulso, como uma breve e minúscula pulseira de oiro batida pelo sol.
O meu pai caminha comigo como se eu fosse um alfinete de gravata: dispensável, mas que se quer mostrar, porque se ama.
A minha irmã leva-me com ela, mas nunca vem comigo.
A minha prima pendura no meu braço o seu corrosivo humor, a sua indomável inquietude e a sua irresistível obstinação e rebeldia e transforma-se na mais aventurosa das cúmplices, na mais destemida aliada. 
O meu irmão é bem maior que eu. Caminha comigo e sei sempre onde piso. É como ter um mapa e uma bússola, sextante e astrolábio. Sabemos onde fica a estrela certa.


Mas só o meu avô sabia caminhar sorrindo devagar toda a jornada.  

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A Gaffe de estilete

rabiscado pela Gaffe, em 24.04.14

A Gaffe nunca se deu bem com geringonças, maquinetas e gadgets topo de gama.

Lembra-se que no dia em que a sua mãe lhe pediu para ligar a máquina de lavar roupa enquanto se cabeleireirava, aquele monstro se encheu de espuma e nunca mais acabava de centrifugar. E a Gaffe só tinha de carregar num botão!

 

Agora o que a põe doida são aqueles telemóveis que usam um estilete para fazer funcionar o que quer que seja.

São maricas e esbardalham-lhe os nervos. Não entende como é possível espetar o pauzinho naquelas letrinhas minúsculas do visor sem deixar cair um dos caracteres e em vez de pedido escrever outra brisa. Não entendo como é alguém se senta numa esplanadazita, saca do palito e desata a escarafunchar no aparelho sem parecer um mariconço-chic.

 

A Gaffe odeio telemóveis com estilete quase tanto como detesta aqueles apêndices que se colocam nos ouvidos para receber as chamadas. Fazem até com que um rapaz de boas famílias comece a gesticular, feito palonço, no vazio, a palrar de olhos no chão, sem prestar atenção aos semáforos. Apetece tanto atropelar esta gente das tecnologias de ponta de pauzinho!

Depois, o estilete não tem estilo nenhum. A Gaffe considera muito mais fixe embasbacar-se com a força doida com que os adolescentes teclam SMS, a olhar para ela com caras de parvos e dedos frenéticos, sem qualquer hesitação. Haverá muita gente a receber do outro lado mensagens que não entende e a responder da mesma forma, mas que aquilo é de G8, ninguém pode negar.

Depois, quem se interessa, nesta era de ponta fina, em compreender o parceiro? Nenhuma SMS espera ser elevada a mensagem de Mercúrio. Aquilo é um vê-se-te-avias que o rei vai nu e tem o estilete mais que activo.

 

A Gaffe gosta dos fixos.

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Gavetas:

A Gaffe na sessão literária

rabiscado pela Gaffe, em 23.04.14

No Dia Mundial do Livro nada mais apropriado (e vergonhoso) do que recordar a sessão literária a que decidimos assistir, eu e o meu irmão, num anoitecer invernoso de há uns anos.

 

O meu irmão é tímido e usa calças apertadas. A junção destes dois factores provoca embaraços divertidos.  
Quando chegamos a mesa já estava ocupada pelo, na altura, jovem autor, de testa larga e nariz bonito; por um senhor com a raiz do cabelo pintada de branco (desnecessariamente, porque a restante cabeleira preta asa de corvo era já um primor); por uma senhora loira e rechonchuda, de pernas e dentes cruzados e por um cavalheiro minúsculo perdido atrás do arranjo de flores amarelas com verdes secos pelo meio. Dele, vislumbrava apenas um breve arrepio de cabelo tosco encimado por duas folhinhas do floral arranjo.  
Não foi o meu irmão ter provocado um cataclismo ao arrastar a cadeira no soalho flutuante, arrancando das entranhas do público uma indignação assassina que me levou, para cortar o gelo, a cumprimentar os presentes com o meu sorriso n.º 5, com sabor a Chanel, nem o facto de parecermos duas mimosas bailarinas em plié ao tentar colocar os tutus nas cadeiras, que me provocou uma insustentável vontade de desatar a rir. Acontece que, na descida rumo ao assento, ousei abrir o livro que no átrio tinha comprado e bati num verso:  Eu sou eu sempre, mas sou também a Dona Adelaide 
O poema continuava, relativamente extenso, e sabia que cedo ou tarde a senhora loira, de dentes em cruz, nos brindaria com a leitura solfejada e tonificada do que agora lia.  
Eu sou eu sempre, mas também sou a Dona Adelaide
O que corria nas minhas veias e me acelerava o coração, era a vontade daninha de mostrar o verso ao meu irmão e, mimando o surpreso inocente, exclamar: 
- Não fazia ideia que o José Luís Peixoto também era nossa tia! 
Mas o rapaz apunhalava-me já com o cotovelo e receava represálias mais sinistras se ousasse dar tal passo. 
Contive-me. Aproveitaria o momento em que a loiraça anafada o recitasse.  
Percebia que as pernas do meu irmão demasiado abertas não permitiam a concentração exigida ao lugar e pelo autor. Creio que pensava a todo o instante que seria decepado pelas cuecas em provação e asfixia.  
As miúdas, nas cadeiras da frente, saltitavam trauliteiras com guizos nas delas, góticas cuecas em transes mais negros, sempre que o autor procurava o Eu que lhe traz os Outros. Sentia partir o fio que unia a minha solene compostura à minha vontade de as crucificar.  
Ouço o meu irmão, aflito, a preocupar-se: 
- Está quieta! Ignora as miúdas e ouve o senhor!  
Ouvia o senhor, embora o senhor lutasse cansado com perguntas tolas e me deixasse solta a pairar na sala.  
Apanho um saco de plástico repleto de livros (o jovem autor autografará todos de uma vez). 
Apanho a mulher, na fila da frente, a recitar baixinho.  
Apanho um cartaz a anunciar a hora do conto.  
Apanho com os saltos e os guinchos das moças e sei que não posso aguentar por mais tempo os pinchinhos e guinchos das duas mulheres.  
Procuro acomodar-me. Faço descer o meu corpo o mais que posso e, quando a minha cabeça fica ao nível daquele das moçoilas, descubro todo o impulso dos grunhidos.  
Dali, e naquele ângulo, as raparigas conseguiam ver que o autor sempre que esbracejava e lutava com as surreais perguntas a soar na sala, abria as pernas e deslizava. Abria as pernas e deixava adivinhar o que a Dona Adelaide não teria nunca a não ser pelo casamento.  
Mas seria o vislumbrar do âmago do poema o que despertava fanicos nas donzelas?  
Perguntei-lhes. Nada mais fácil!  


Saímos a meio da sessão. O meu irmão já com as cuecas no sítio do costume, pálido, a cambalear com uma colecção de insultos na maleta e eu sem poder ouvir a senhora loira a revelar ao público a duplicidade da minha tia: 
Eu sou eu sempre, mas também sou a Dona Adelaide

 

Devia existir uma criatura completamente disponível, paga, subsidiada, apoiada, subvencionada, com bolsa da Gulbenkian e portes incluídos, para me esbofetear quando me torno estranha e desato a destruir coisas mais sérias.  

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A Gaffe sem asas

rabiscado pela Gaffe, em 23.04.14

Quando era criança, há pouco tempo atrás, tinha a certeza que a inteligência encarnava nos corpos que escolhia à toa, transformando-os numa espécie de anjos com asas dentro. Não acreditava que os que tocavam a genialidade, ainda que de forma imponderável e etérea, tivessem corpo físico sujeito às exigências mais violentas da carne. Eram insuspeitos, impolutos, intocáveis, isentos de terra e de lama, envoltos em poeira de conto medieval com a consistência do ferro de armadura e até o fascínio vertiginoso pelo abismo que se abre de súbito quando um corpo nu e desejado se torna bracelete, anel, colar no nosso corpo, não despertava neles.  
Assexuava-os, divinizando-os.  
Não lhes negava o corpo, mas via asas dentro, longe de mim, que era um terreno bicho, verme, insecto a mirar estrelas.

 
Agora espio a minha irmã.  
Tem o cabelo cortado por um cabeleireiro das estrelas, curto, quase em demasia. Reflecte a luz, como se fossem penas duma ave ao sol as madeixas pequenas sobrepostas. Os olhos pardos, descobertos, poços de lâminas abertas finalmente. A boca desenhada a prumo, obediente às regras do perfeito. O corpo esguio, flexível, modulado, alto demais - saiu ao pai! -  dizem os homens curtos, habituados a resumos dentro.  
Está atenta ao que lê, de sobrancelhas erguidas, escarninhas. Os dedos longos nas páginas são corta-papel e o baloiço do pé faz compassar o tempo.  
Detém todo o poder que lhe foi dado como se houvesse memória de batalhas naquilo que decide e a inteligência à flor da pele veste-a melhor do que Dior faria. Fica-lhe bem, como um perfume fiel há tanto tempo que deixa de se fazer sentir a quem o usa. 


Olho a minha irmã como o bicho terreno que segue o rasto dos cometas, mas sei que a mulher que espreito do chão da minha lura, é ténue como eu e não tem asas.  


Longe, há pouco tempo ainda, era criança. Agora sou igual a toda a gente.

Ilustração - David Downton

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A Gaffe no McDonald's

rabiscado pela Gaffe, em 22.04.14

Estou em crer que conhecemos os amigos no berço e na infância. Se mantivermos alguns dos vários que se perdem na adolescência, somos gente com sorte. Daí também a importância que é dada aos primeiros anos de vida.

A partir de certa altura, deixamos de transformar em amigos os que passam por nós e que ficam connosco por tempo determinado. Celebramos uma espécie de contrato a termo certo com os que encontramos no caminho.

Ao meu lado tenho um número considerável de pessoas que trabalham comigo. A maioria é escandalosamente inteligente e chega de vários quadrantes do saber. Como é lógico, gosto de alguns e os outros não me dizem grande coisa, para além daquilo que me interessa e que contribui para complementar o que faço. Acompanho-os, discuto com eles banalidades, tontices sem qualquer utilidade, como é apanágio dos amigos, e às vezes fico bem-disposta, outras vezes não. Penso que me iriam fazer falta se desaparecessem de repente e tenho a certeza que não deixam de ser boas gentes. Mas não sou amiga deles. Trabalho com eles e é inevitável que nasçam alguns laços de proximidade, nada mais.

A partir de certa altura, o círculo de gente nova que nos rodeia não interfere com aquele que foi traçado na infância e se tornou um núcleo duro, capaz de resistir e fazer frente a qualquer catástrofe que nos aconteça. No entanto, este grupo é também responsável pelo fechar de hipóteses que nos surgem de incluir numa intimidade mais profunda aqueles que vão surgindo e vão provando, mal ou bem, que são capazes de grandes feitos (geralmente feitos pequenos) para conseguirem o estatuto que entregamos aos que estão cá dentro desde sempre. Os antigos funcionam como anti-corpos e atacam os que ameaçam, mesmo não ameaçando coisinha nenhuma, a estabilidade e o poder que a amizade exerce sobre nós. São naturalmente egoístas, ciumentos e muitas vezes manipuladores, mas são o que nos resta de extraordinário e talvez os únicos que nos provam que são capazes de arrojo e de feitos medonhos e perigosos só para ficar por perto ou só para conservar os pedaços enormes de nós que foram guardando sem qualquer esforço. Arranjam-nos sérios problemas com a mania que entendem o nosso funcionamento emocional; calam-se e reprimem a vontade de estourar, quando falar é ofensivo e chegam mesmo a procurar-nos para nos levar com eles aos confins da terra. Só porque sim.

Este porque sim é, ao mesmo tempo, a desculpa mais idiota do planeta e a mais incrível metamorfose da necessidade de estar presente, mesmo em silêncio (porque transportar-nos aos confins da terra exige mais concentração do que se pensa).

Talvez seja por isso que os que trabalham comigo não são meus amigos. Nunca repartimos um McDonald's – Big MacMenu ao som da Callas, nunca desataram comigo às gargalhadas sem razão nenhuma, nunca se sentaram no meu gabinete a olhar caladinhos a porcaria do bonsai que me ofereceram e que não sei tratar, nunca espancaram ninguém por minha causa, nunca correram mundos só porque me queriam ensinar a chorar sem medo ou a rir sem rede, nunca bebemos juntos vinhos proibidos e secretos desviados das adegas de cadeados e aloquetes mais seguros, nunca os vi sinceramente tristes só porque espirrei e nunca os avisei que tinha um blog e que este, exactamente este, é o meu milésimo post. 

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A Gaffe não sabe ler

rabiscado pela Gaffe, em 22.04.14

O petiz já sabe ler.

Reconhece as letras, sabe uni-las, constrói sílabas, ergue frases e chega aos fins dos parágrafos estafado, mas feliz.

Esta felicidade estende-se aos adultos que, para além de considerarem ter encontrado na família um prodígio inesperado, ficam libertos da maçadoria que se vinha tornando ler ou inventar histórias todas as noites à beira sono e ao canto da exaustão, quando o miúdo reivindicava o direito de ouvir a construção da fantasia pelas vozes que lhe desvendavam, que lhe decifravam, os signos e os mistérios contidos num livro.

No início, repetir as mesmas histórias era uma bênção que nos parecia maldição até batermos contra a vontade infantil de ouvir Sherazades improvisadas e inábeis.

Éramos três. O livro, a criança e a pobre criatura cansada que noite após noite servia de intermediária entre a fantasia e a avidez de sonho do ouvinte.

- Hoje é a tua vez. Ontem contei duas seguidas!

Agora que já sabe ler, é um alívio! É autónomo. Já permite que os deixemos, a ele e ao livro, entregues um ao outro.

 

Agora que já sabe ler, odeia ler.

 

Reconhece as letras, sabe uni-las, constrói sílabas, ergue frases e chega aos fins dos parágrafos estafado e perdido por completo no labirinto que foi descobrindo, mas onde ainda não encontrou saída. A frase vai-se erguendo sem sentido. lida, mas não entendida, como se cada palavra conquistada se perdesse no tempo que leva a conquista e que impede que a união das parcelas não tenha resultado.

Ao parar de ouvir o contador de histórias, porque se tornou capaz de as procurar e decifrar sozinho, ao ser entregue sem apoio ao livro, deu início a uma luta que perde noite após noite, à beira do sono já despovoado. 

Cultivar o prazer de ler numa criança é continuar a ler-lhe, mesmo quando sabemos que ela já vai tocando as frases com tranquilidade. É permanecer três, mesmo pensando que dois já bastavam.
Creio que descobrimos isso apenas quando o miúdo nos avisa que saltamos uma frase, quando nos aponta, com o dedo a passear nas palavras certas, lendo a frase, palavra por palavra, o erro que cometemos descrevendo em tons de azul o vestido da princesa, quando é lilás para condizer com os olhos do seu príncipe e nos retira, paternalmente, o livro da mão.

Creio que descobrimos isso apenas quando ouvimos, numa noite qualquer à beira cansaço, a criança declarar com convicção que não lemos como deve ser, desatando-nos o livro que abrimos cautelosos e soltando, como deve ser, a história até adormecermos os três.

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A Gaffe suspensa

rabiscado pela Gaffe, em 19.04.14

Não sei se os gregos actuais são da mesma cepa que Péricles, Platão ou Aristóteles. Não sei se descendem em linha directa dos sábios que ajudaram a moldar o pensamento ocidental. Provavelmente não.

O certo, é que passaram de clássicos professores da Europa a insurrectos do euro, embora tivessem mostrado, por instantes, que a velha política ainda faz tremer as fúrias da economia.

Para além dos tumultos sociais e das praias turísticas que quase resumem o país, há uma Grécia equilibrada, serena e tradicional, literalmente assente na pedra. Refiro-me à região de Tessália, no centro do país, onde se erguem os mosteiros ortodoxos sobre pináculos rochosos, pináculos de arenitos.

São Meteora, ou seja, Suspensos no Ar ou ainda Colunas do Céu.

É facílimo recolher informação sobre este Património da Humanidade. Abstenho-me portanto de a fornecer. Difícil é escolher o mosteiro mais deslumbrante.

 

Escolhi a Grécia, mas podia ter seleccionado qualquer outro país europeu e referir uma outra obra qualquer sua pertença.

 

A Europa tecnocrata não se compadece com estas idiossincrasias. O amassar, o amolgar, o uniformizar de forma radical em nome de um suposto ideal unificador, já cilindrado por razões mal explicadas e demasiado suspeitas para se tornarem susceptíveis de clarificação e entendimento dos povos, não poupa ou não acha oportuno salvaguardar o respeito devido e exigido a cada uma das entidades culturais que, para o bem e para o mal, consideraram possível o Ideal Europeu.

Não sou demagoga, embora o que digo possa ser confundido facilmente com a mais primária das demagogias. Acredito piamente que nenhum ideal unificador, nenhum sonho de uma Europa unida, convergente, pacífica, reformadora e solidária, é viável ou sequer sonhável, se as entidades, as personalidades culturais de cada elemento do hipotético conjunto não forem tidas em conta, e apenas contarem, obrigados a prestar contas quando os mercados se irritam.   

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A Gaffe pirosa

rabiscado pela Gaffe, em 18.04.14

Não aceito menos do que aquilo a que tenho direito e tenho direito a tudo aquilo que é considerado por muito boa gente piroso, ultrapassado, possidónio, rosa bebé, azul clarinho e pintalgado de melaço.

 

Quero que me mimem como se eu fosse um ursinho de peluche; que me ofereçam idiotices que me fazem corar de vergonha em público, mas que me comovem em privado; que me esfarrapem a personalidade, tornando-me um monstro presunçoso, concordando com as mais idiotas das minhas ideias, mesmo criticando todas no aconchego do lar; que me tragam o pequeno-almoço à cama e se estatelem no meu colo a fazer de mesa; que me levem a comer ostras, mesmo sabendo que odeio ostras, que as ostras me metem tanto nojo como caracóis e caviar; que me paguem o croissant no de Flore, contando as moedinhas no WC para ver se chega; que me ofereçam vasos com uns cactos ranhosos, porque sabem que me esqueço de regar as plantas e de dar de comer aos pássaros; que me agarrem na mão no meio da avenida, mesmo sabendo que sou capaz de a decepar se perceber o deslize, porque não gosto de manifestações públicas de carinho; que aguentem com as palestras do meu irmão acerca das mais recentes investigações e descobertas na área que domina, mesmo reconhecendo que as palestras são de fazer inchar um bacalhau; que me ofereçam livros que já tenho e se desculpem depois dizendo que o que me oferecem é para guardar direitinho; que tentem arrumar o meu apartamento e a minha secretária, mesmo sabendo que me esfacelam os nervos só a imaginar a tentativa; que me ouçam a discorrer toda presunçosa sobre matérias que desconheço com uma atenção digna de santo, adivinhando eu que estão a pensar na receita de pastéis de carne gordurosos que eu adoro comer e que me digam de modo credível, mesmo sabendo que eu não acredito:

 

- Tudo em ti dá sentido à minha vida.

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Gavetas:

A Gaffe nos tempos de cólera

rabiscado pela Gaffe, em 17.04.14

Un hombre sólo tiene derecho a mirar a otro hacia abajo, cuando ha de ayudarle a levantarse.

Gabriel García Marquez

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A Gaffe à mesa literária

rabiscado pela Gaffe, em 17.04.14

Dinah Fried, enquanto estudante da Rhode Island School of Design, decidiu recriar um álbum de refeições mais memoráveis contidas na literatura. Fictitious Dishes: An Album of Literature’s Most Memorable Meals.

Das cinquenta obras escolhidas, retiro apenas uma pequena e deliciosa variedade de interpretações fotográficas de momentos culinários presentes na literatura clássica e contemporânea.

Apresentando fotografias de refeições famosas, desde o chá enlouquecido de Alice no País das Maravilhas à aguada refeição de Oliver Twist, Dinah Fried ajusta-se aos extractos dos livros que inspiraram as suas recriações e que vou manter sem tradução, porque acabam muito mais apetitosos.

Para além destas magníficas reproduções, o livro de Dinah Fried é acompanhado de factos interessantes e de anedotas divertidas sobre os autores, sobre os seus trabalhos e sobre as suas predilecções culinárias.

Um livro para despertar o apetite dos amantes da boa literatura e pratos deliciosos.

 

ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS - Lewis Carroll 

Have some wine,’ the March Hare said in an encouraging tone. Alice looked all round the table, but there was nothing on it but tea.

 

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A Gaffe esganiça

rabiscado pela Gaffe, em 17.04.14

Se a Gaffe avançar pelo quotidiano mais banal e repensar o modo como queremos que uma verdade, ou uma mentira que desejamos que passe por verdade, seja ouvida, verifica que depois de se arregalar os olhos, se esganiça.

É que esganiçamos! 
A Gaffe propõe que pensem nos momentos em que disseram a alguém no meio duma discussão, mesmo das pequeninas e com um travozito a mentira: 
Juro-te que é verdade. Mas é tudo verdade! 
Esganiçaram, podem ter esganiçado apenas um bocadinho, mas esganiçaram. A Gaffe aposta que disseram a frase a caminho do falsete ou então aproximaram-se do esganiço. Foi ou não foi? 
Este modo de dizer uma frase que pode ser dita na voz que deus nos deu, parece que fica mais credível se aflautarmos. Acontece apenas nestes casos. Como se a verdade, ou a mentira que queremos que passe por verdade, se tornasse de pedra e cal se tentássemos imitar o Nuno Guerreiro (esta linha de pensamento acaba por levar a Gaffe a pensar que o Nuno Guerreiro é uma verdadeira santa genuína quando desata a chiar. É de notar que esta é uma conclusão precipitada, consequência do mau discernimento e confusão mental que o homem provoca quando aparece desatado aos guinchos).

 

- Juro que é verdade! – Aflauta a Gaffe muito convencida. 

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Gavetas:

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