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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe de Isabel Jonet

rabiscado pela Gaffe, em 03.04.14

Não vou canonizar ou esquartejar Isabel Jonet e não vai sequer beliscar-me acusar o que digo de tontice de esquerda mais ou menos radical que reivindica os pobres e os eleva a estandarte e a bandeira. Não adianta. Sempre me mereceram muito pouca consideração as esquerdas e as direitas, sobretudo as portuguesas, e vinte anos de voluntariado, vinte anos de dedicação aos mais desfavorecidos, vinte anos ao serviço dos mais fracos, vinte anos de utilidade social, não confere auréola nem dá direito a virgindades marianas.  

Os mosquitos, as sanguessugas, os furões, fuinhas, as doninhas fedorentas e uma quantidade de outros bichos, apesar de tudo, compreendem o seu papel tão bem como o faz Jonet, e nenhum dá vontade de enfiar um saco de farinha, de massa ou de batatas, na boca ou nas ventosas, ou seja lá em que buraco for, como acontece com Jonet sempre que abre as mandíbulas.
De acordo com a senhora, gravemente convencida das suas opiniões que acabam por trazer para a luta contra a fome um entusiasmo tépido de uma tarde de Verão num jogo de criquete, os putos (em número que cresce diariamente de forma escandalosa) que desmaiam a meio da manhã por não terem comido uma côdea e cuja única refeição do dia é a da cantina da escola, 
não passam fome. Sofrem de carências alimentares.
Que imundície intelectual e moral!
Isabel Jonet fala como se tivesse borrado  as cuecas e tudo o que diz faz-nos sentir como se as tivéssemos cheirado. Lembra trapos pendurados numa linha a secar. Lembra sopa de feijões estragada. Lembra urros na escola de quadro negros e de giz a raspar. Tudo o que diz é tão mau que uma espécie de esplendor se insinua, saído de um poço de pregação pretensiosa e subindo até ao pináculo do balofo. É presunção. É arrogância. É disparate. É paleio de quem já não consegue ver nada com tantos sacos voluntários à frente.  
Isabel Jonet começa a parecer aquele tipo de pessoa que nos põe a adivinhar se vai fazer um sermão ou urinar na cama, cloroformizada pela pobreza ou, ainda melhor, fazendo da miséria o seu haxixe. Uma mulher intoxicada pela caridade.

 

Isabel Jonet leva os pobres para a latrina e fecha-os lá dentro.
Isabel Jonet parece ter vivido sempre para além dos seus meios morais.  
Isabel Jonet é uma burguesa com um cabelo mal tratado. Geralmente todas as burguesas, mesmo as de cabelo em condições, são criaturas que fingem muitas vezes o seu egoísmo sob a aparência de um idealismo que, ao longo do tempo, deixa de ter em conta a realidade.     
Isabel Jonet parece ter sofrido uma metamorfose kafkiana, transformando-se num Rambo da caridade: um senhora preconceituosa, inchada e arrogante que não chega a ser hipócrita, porque diz exactamente o que pensa e o que quer dizer, embora seja sempre qualquer coisa ruim, e que ocasionalmente tropeça com a verdade, recompondo-se de imediato e continuando como se nada tivesse acontecido.
Isabel Jonet é caridosa de uma maneira original o que faz muita gente pensar que é uma heroína, não passando de uma mecânica da bondadezinha. 
Isabel Jonet é como um prato de sopa, largo e raso. Pode conter uma pequena quantidade de quase qualquer coisa, mas a mais pequena dissonância derrama a sopa na aba de alguém.  
Isabel Jonet é muito capaz de pensar que o ar do campo é mais puro, porque os camponeses dormem de janela fechada.
Isabel Jonet recorda-me uma história dos meus tempos inúteis como trapos:
Um dos meus mais sábios professores foi um velhote que durante as aulas falava pelos cotovelos, mas que ninguém, absolutamente ninguém, entendia. Como nenhum de nós tinha coragem de o interromper, ficávamos todos a babar estupidez nas cadeiras. Um dia uma miúda atreveu-se a dizer que não tinha percebido nada daquilo que o homem estava a dizer. O génio olhou para ela e disse-lhe: 
- Quando era muito novo, não entendia Wittgenstein. Olhei para mim, no espelho, e disse-me: tens de ler mais, Joseph, tens de ler mais.
Depois continuou com o que estava a dizer, como se nada o tivesse interrompido.
Não sou, nem de longe nem de perto, o sábio desta história, mas, mesmo sendo néscia, apetece-me pedir a Jonet para ler, no mínimo, o seguinte:

Se me mandassem dispor por ordem de precedência a caridade, a justiça e a bondade, daria o primeiro lugar à bondade, o segundo à justiça e o terceiro à caridade. Porque a bondade, por si só, já dispensa a justiça e a caridade, porque a justiça justa já contém em si caridade suficiente. A caridade é o que resta quando não há bondade nem justiça.    

 

José Saramago O Caderno 2009

 

É evidente que Isabel Jonet vai, mais uma vez, lamentar ter ofendido alguém com as suas palavras, considerando que foi mal interpretada.  

Dir-se-ia que a indigência do povo e a tendência para estraçalhar quem lhe faz bem, leva demasiadas vezes a que declarações simples, claríssimas, honestas e concisas, que são a tradução mais fiel do que se pensa, como as de Jonet, sejam mal interpretadas.  
Não era então aquilo que se queria dizer. Nunca é bem aquilo que se disse. Há uma má leitura, uma péssima interpretação ou uma falta de capacidade de expressão evidente, mas não se queria dizer aquilo que se disse, mesmo quando o que se disse é de uma simplicidade e de uma limpidez confrangedoras.  
Isabel Jonet (eu ouvi há tempos) declarou que não há miséria em Portugal. O que prevalece são famílias com disfunção consumista que querem continuar a comer bifes todos os dias – compro sem regatear o bife metafórico.  
É permitido subentender que, para Jonet, a fome não é condição suficiente para que se declare a miséria ou que a fome não é uma das raízes da miséria e a sua garra mais potente. São os vícios consumistas descontrolados que foram alimentados pelas família, os responsáveis pelo desejo animalesco de carne diária.  
Fome? Convém que haja um cheirinho, para que se justifiquem os 20 milhões de euros de produtos alimentares que entram anualmente no Banco Alimentar.  
Mesmo colocando-se a hipótese aberrante, absurda, surreal, de Jonet, há mais de uma década, não ter necessidade de se deslocar à mercearia ou de empurrar os seus próprios carrinhos de hipermercado que lhe poderiam levar parte significativa do orçamento; mesmo que nos venha à nossa cabeça maldosa e indecente a possibilidade de Jonet pagar em géneros as mensalidades do colégio privadíssimo dos filhos que tem, sobram alguns milhões de euros de produtos que se tornam, no mínimo, difíceis de escoar e de justificar, sem a miséria que Jonet declara existir tanto como a corrupção em Portugal (em consonância com Cândida Almeida) ou então – se dermos a volta pelo passado recente - como as disciplinas académicas de Relvas (malgré a Lusófona). 
Isabel Jonet não pode ser desculpada com uma deficiente capacidade de expressão. Se tem tendência para dizer disparates caseirinhos, de chá entre amigas, enquanto representa uma Organização com o estatuto do Banco Alimentar, deve procurar um voluntário no meio dos milhares que o apoiam, que a substitua nas lides palratórias e que seja capaz da dignidade e da destreza oral ou capacidade discursiva ou oratória que são exigidas. Não podem ser admitidas declarações com sabor a chá das cinco, mesmo sabendo-se que o chá ajuda a digestão.  
No entanto, Jonet não está sozinha quando se trata de largar qualquer imbecilidade pela boca fora. Estes desavergonhados dislates são mais frequentes do que se pode imaginar. Há exemplos mais ou menos recentes. Pertencem, à toa e desordenadamente, à senhora que presidia a uma associação de protecção de crianças portadoras de HIV (que só não espetava garfos nos olhos dos putos porque tinha medo de ser infectada, mas que fez levantar tout Lisbonne quando se ergueu a ponta do véu com que ela escondia as estaladas que dava aos piquenos), a Fernando Nobre (patético candidato à Presidência de uma Assembleia circense que o elege o humilhado de serviço), aos capitães de Abril (com desejos de revoltas anacrónicas), a Manuela Ferreira Leite (com Democracia a prazo), ao finado Cardeal Patriarca (que na frente de uma manifestação de fé de velinha na mão afirma que as manifestações não são de fiar), a Ulrich (que tem a certeza que aguento) ou a Cavaco Silva (10 mil euros de reforma que não chegam p’ás despesas). Como seria de esperar, também nestes casos ou foram mal interpretados, ou não era bem aquilo que queriam dizer.
O capital simbólico que se entrega (acredito que justificadamente em casos bem sinalizados) a indivíduos que com ele se embebedam, é, muitas vezes, exagerado e quando o demasiado se instala na entrega deste precioso capital, o sujeito que o acumula cilindra e ultrapassa os limites do pudor e da decência, danificando a exigida consciência de fugacidade, de insuficiência e de incompletude, consubstanciando-se como encarnação de valores e de princípios que se querem disseminados e aculturados. Acreditam-se exemplos inatacáveis e espelhos inquebráveis onde se reflecte o rosto da vida. Passam a aconselhar, desavergonhadamente a aconselhar, perdendo a noção de que um conselho não é mais do que uma confissão.
Convém reter que o capital simbólico que lhes é entregue, não os transforma. Revela-os.

 

Agora vou actualizar o facebook com uma foto do meu gabinete novo. Sou como os inúteis e preguiçosos desempregados que passam todo o tempo nas redes sociais em vez de se voluntariarem para enfiar nos armazéns dos fundos as toneladas de tolices de Jonet. 

 

Nota talvez a despropósito - Jamais deixarei de ser uma ecologista ferrenha, defensora incondicional de todas as espécies em vias extinção, mas nada me impede de detestar e de ter um pavor incontrolável ao morcego-ferradura. Também sei que uma andorinha nem faz, nem desfaz, a Primavera.

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A Gaffe tricotada

rabiscado pela Gaffe, em 03.04.14

De acordo com a minha santa avó, a Primavera é apenas o ensaio de uma nova peça, ainda com os tiques da encenação anterior.

No entanto, tendo em conta as inundações do palco e o frio dos bastidores, dir-se-ia que se justifica que o guarda-roupa tenha em linha de conta as agulhas de tricot e os novelos de lã rodar no cestinho perto da lareira.

 

Meninas! Previnam-se. Preparem-se para um Verão mais agasalhado e desfilem pelas areias do nosso descontentamento dentro de fatos de banho menos convencionais (mas também menos propensos a constipações) envoltas em roupões de praia dignos de St. Moritz.

 

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